Onde estão os pessimistas de fato? Ou melhor… será que de fato eles existem filosoficamente?

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Imaginem o seguinte diálogo em um comitê executivo para definir o orçamento da área de Segurança da Informação.

GERENTE REALISTA: Tivemos um aumento no orçamento da Segurança de TI, e resultante disso, tivemos uma redução de perdas da magnitude de R$ 7 milhões. Podemos demonstrar que para cada real investido em segurança da informação, tivemos um retorno de 325%, o que é melhor que qualquer investimento na bolsa.

GERENTE IDEALISTA: Eu não gosto de avaliar por estes parâmetros.

GERENTE REALISTA: Por qual parâmetro você quer avaliar?

GERENTE IDEALISTA: Todos estes mecanismos de prevenção de fraudes custam dinheiro, mas não fazem nada em levar-nos a um mundo melhor, onde a empatia resultará na eliminação de danos que uns fazem a outros.

GERENTE REALISTA: O que temos são os dados em mãos. Quanto mais investimos em Segurança da Informação, mais reduzimos as perdas da organização. O que você propõe?

GERENTE IDEALISTA: A questão não é de proposta, mas de uma onto-perspectiva da alteridade humana, pois se a empatia é um componente presente até nos bonobos, como demonstra Frans de Wall, então se aumentarmos o componente de empatia, aos poucos todos se verão uns nos outros, e portanto, não será preciso investir em Segurança da Informação.

GERENTE REALISTA: Perfeito! Podemos investir em outras coisas, mas que dados sustentam isso?

GERENTE IDEALISTA: Os dados estão em Rousseau, quando ele disse que “o homem é bom, mas a sociedade o corrompe”. Sendo que o homem é bom, e a sociedade o corrompe, se corrigirmos a sociedade, teremos a ultra-empatia…

GERENTE REALISTA: Isso não faz o menor sentido…

GERENTE IDEALISTA: É que você é um pessismista. Um “trágico”, na linha dos leitores de Nietzsche e Schopenhauer. Como diria Steven Pinker, você tem visão trágica, enquanto eu tenho a visão utópica.

GERENTE REALISTA: Vamos falar em datas e resultados. Quando podemos reduzir o investimento em Segurança da Informação, e, mesmo com essa redução, não ter como contra-partida as perdas relacionadas a brechas de Segurança da Informação?

GERENTE GERAL: Não, melhor deixar pra lá. Gerente Idealista, saia da sala…

Este diálogo serve para exemplificar o motivo pelo qual rótulos como “trágico” e “pessimista” para filósofos realistas é mais uma arma de marketing do que algo atendendo a observação dos fatos.

No caso do exemplo acima, onde vemos postura pessimista e trágica na postura do Gerente Realista?

Vejamos o significado de pessimismo, segundo o Dicionário Michaelis:

Significado de Pessimista: adj. e s.m. e s.f. Que ou quem acredita que tudo vai mal. Filosofia. Discípulo ou adepto das filosofias pessimistas.

Fica claro que o rótulo de pessimismo é sempre dado pelos oponentes daquele que está avaliando as coisas como elas são. Ingenuamente, alguns filósofos realistas acabam caindo na armadilha e até mesmo se auto-rotulam como “trágicos”, como fez Luiz Felipe Pondé em seu “Contra um mundo melhor”.

Mas a coisa é completamente diferente.

Aquilo que costumamos chamar de pessimismo filosófico é na verdade realismo filosófico, pois, assim como no caso do Gerente Realista do diálogo hipotético deste post, procura-se observar o ser humano como ele é (e o mundo como ele é), e somente depois disso elaborar propostas para que estas sejam feitas de acordo com essas contingências.

No caso corporativo, o Gerente Realista é extremamente otimista em relação ao melhor aproveitamento dos recursos da organização, mas somente após entender as contingências relacionadas a ela. Ao comemorar o resultado financeiro do investimento em Segurança da Informação, ele não está “acreditando que tudo vai mal”, mas entendendo que ambicionar um mundo de ultra-empatia é uma ilusão, que só lhe serviria como um Prozac Mental. Ao invés disso, ele propõe jogarmos fora as ilusões idealistas e ilusórias, propostas pelo Gerente Idealista, para, observando as coisas como elas são, propor resultados de fato.

Pela análise da dinâmica social, pode-se notar que o rótulo “pessimista” é feito por alguém que quer fugir da análise realista da situação, e então atribuir ao oponente a pecha de alguém que “só vê o lado ruim das coisas”. Com isso, ele retira o seu oponente da discussão. Por sorte, no mundo corporativo, esse truque não funciona. No mundo filosófico, tem funcionado para lançar no ostracismo a filosofia de Schopenhauer, ao mesmo tempo em que idealistas como Hegel e Kant são idolatrados. A venda de falsas ilusões funciona no mundo acadêmico de maneira diametralmente oposta em relação ao que ocorre no mundo corporativo.

Mas precisamos fugir dos truques acadêmicos, e o ceticismo político criado por mim serve a esse intento também. Os realistas, ao fugirem das utopias e propostas irrealizáveis, sempre estiveram a favor de mudanças para o nosso mundo, como o advento do capitalismo, que impulsionou o estado da arte em nossa tecnologia atual. Apenas quando vemos as coisas como elas realmente são, podemos de fato gerar resultados.

Mais ainda: o próprio rótulo idealista não é o mais adequado para o oponente dos realistas, pois alguns ideais podem ser realizáveis, como o do Gerente Realista: realizar a melhor equação possível de custo X benefício para a área de Segurança de TI. Portanto, idealismos existem em ambos os lados da contenda.

Minha sugestão é mudar a rotulagem definitivamente, e qualificarmo-nos como realistas, em oposição aos utopistas. Já quanto ao rótulo “Idealista”, esta passaria a ser uma condição sob disputa, e todos os ideais, independente dos lados, passariam a ser discutidos.

No caso da reunião corporativa, o Gerente Realista, em seu ideal de olhar as coisas como elas são para prever os investimentos em TI, foi muito mais racional que o Gerente Idealista (ou Utopista, de acordo com a nova rotulagem), em seu ideal de buscar um ser humano puramente imaginário.

O pessimismo filosófico não existe. É apenas um truque de “frame”. Existem ideais, mais ou menos realistas, assim como a postura de ver o mundo como ele é (dos realistas), ao invés de uma esperança injustificada de como alguém gostaria que ele fosse (dos utopistas).

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