Glossário: Fim do debate (tese)

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Última atualização: 21 de janeiro de 2013 – [Índice de Termos][Página Principal]

Fim do debate é uma tese inspirada tanto no gerenciamento de riscos de TI como na análise do debate ideológico/filosófico/político atual, e que dá uma justificação a paradigmas como ceticismo político e duelo cético.

A base é a seguinte:

  1. O animal humano possui várias armadilhas mentais, que não foram eliminadas pela seleção natural (ou seja, é como uma rede de computadores vulnerável, que não sofre melhoria contínua).
  2. Paralelamente, o animal humano vai consolidando conhecimento, dia após dia, de como aproveitar-se das “brechas” que são fornecidas por essas armadilhas mentais (em outras palavras, a rede continua vulnerável como sempre, mas os crackers possuem cada vez mais recursos para invadi-la).
  3. O ser humano divide-se (independente de sua moralidade ou amoralidade) entre mais ou menos espertos, na hora de se aproveitar as armadilhas mentais citadas no item 1, e usar o conhecimento cada vez mais vasto mencionado no item 2.
  4. Não podemos esquecer que o ser humano é uma máquina focada em auto-interesse e auto-preservação, e, portanto, quando existir oportunidades para ele se aproveitar (de acordo com o grau de moralidade de cada um, que em nível geral não evoluiu com o tempo) do outro, isso tende a ocorrer.
  5. O debate é uma das formas pelas quais fraudes intelectuais podem ser cometidas por um indivíduo da espécie humana sobre outro indivíduo da espécie humana.
  6. Isto nos leva a uma esperada queda da qualidade do debate, pois se o ser humano cada vez mais quer obter benefício, e encontra cada vez mais truques para obter este benefício, o discurso utilizado no debate torna-se um espaço propício para o uso destes truques.
  7. Grande parte do material ideológico/filosófico/político produzido hoje em dia tem claramente uma qualidade baixíssima, chegando ao nível do absurdo, especialmente quando comparamos com o material produzido, respectivamente, há 100 anos, 200 anos, ou mesmo no tempo de Aristóteles – hoje em dia, por exemplo, muitos ideólogos e filósofos que obtem acesso à mídia seriam expostos ao público como sofistas nos tempos socráticos.
  8. Aquele que sai de uma faculdade de filosofia e está treinado apenas para o debate aristotélico, mesmo que tenha bons argumentos, não tem mais nenhuma chance, pois não é exagerado afirmar, dadas as constatações anteriores, que aquilo que conhecíamos por debate não mais existe. O que existe são apenas manobras com rotulagens, técnicas de propaganda e um sem número de rotinas, mais ou menos fraudulentas.
  9. Mas isso não significa que o debate está extinto, mas sim que está, em grande parte do cenário intelectual, em estado de hibernação. Como o debate não é um organismo (que, se morrer, não revive mais), pode ser retomado no futuro, mas ainda não temos sequer expectativas de que isso pode ocorrer em uma era próxima. Aliás, a tendência é piorar.
  10. Por isso, o despreparo de muitos para um cenário em que não há mais debates garante a destruição imediata de qualquer argumento racional que venha de alguém não preparado para se livrar do amontoado de fraudes intelectuais que se originar de seus oponentes.
  11. Muitos, que ainda não se aperceberam de que uma larga parte dos “intelectuais” usa mais truques, erística e estratagemas do que propriamente argumentação sólida, pensam que estão participando de um debate, quando na verdade o oponente já preparou o terreno com suas rotinas e ardis para inviabilizar o debate.
  12. A constatação desse cenário é o primeiro passo para, ao menos em pequena escala, alguém poder ter a esperança de reviver a prática do debate, que, como já argumentado aqui, hoje está morto.

Todos os pontos acima constituem a tese do fim do debate, que não diz ser impossível existir um debate atualmente, mas sim que, cada vez em mais contextos e cenários, e em ambientes e grupos cada vez maiores, não temos mais a prática da dialética tradicional, mas uma erística cada vez mais robusta em termos de truques e estratagemas.

A mente humana, em termos biológicos, aparentemente é a mesma de sempre, em termos de reflexos inconscientes ao discurso produzido por erísticos e propagandistas diversos. Mas as técnicas são cada vez melhores e mais arrojadas.

Vejamos como funciona este modelo Supondo que a qualidade do debate sempre piora, não é difícil supor que futuramente surja um livro esquerdista, humanista ou neo-ateu não com 10 rotinas fraudulentas por capítulo, mas por página. Isso por que a base de conhecimento de truques aumenta a cada dia, e por isso os recursos dos fraudadores são cada vez mais volumosos, e, enquanto isso, o hardware humano é o mesmo.

O que isso tudo tem a ver com o ceticismo político e o duelo cético? Tudo, pois no passado ainda acreditávamos que o ser humano poderia “se auto-validar”, conforme prometiam usuários da rotina auto-cético. Enquanto isso, ninguém questionava a rotina. Mas a verdade é que o fim do debate pode ser explicado pelo fato de que esta “auto-validação” não funciona na verdade, e nem poderia funcionar mesmo, pois, segundo a tese do duelo cético, quem tem a motivação para achar os erros em uma argumentação não é seu proponente (que obtem os benefícios, caso a argumentação seja aceita), mas seu oponente.

O ceticismo político é o método que nos treina a priorizar o questionamento à toda e qualquer alegação política, ou seja, aquela que, se aceita, gera benefício para a pessoa e/ou grupo que a propaga.

A única forma de melhorarmos a qualidade do debate público é a criação de uma cultura de ceticismo político, com seus adeptos treinados para a prática do duelo cético.

Possível refutação: “Enquanto de fato surgem a cada dia mais truques e ardis, cada vez mais existe conscientização pública a respeito destes truques”. O problema é que a tese da espiral do delírio trata exatamente disso: hoje em dia, por causa de estratégias de hegemonia cultural, muitos grupos estão na espiral do delírio, ou seja, o espaço ocupado por um grupo que conseguiu a hegemonia. E se, de acordo com a tese do duelo cético, precisamos do controle de qualidade vindo a partir do lado adversário, este não ocorre, pois, de acordo com a espiral do delírio, este grupo está calado.

Outra possível refutação: “Na época do alinhamento da Igreja Católica com os monarcas, havia a hegemonia do pensamento católico. Por isso, não podemos suspeitar da tese da queda contínua do debate, tomando como premisssa que, na verdade, o debate sempre cai quando existe um grupo hegemônico?” Esta linha de pensamento é interessante, mas o problema é que na época da parceria entre a Igreja Católica e os monarcas, o conhecimento sobre engenharia social, engenharia comportamental, manipulação psicológica e psicologia social era muito mais simplório do que temos hoje.

Ao menos em relação a essas duas refutações, minha tese passa incólume.

Por isso, se a ação do grupo oponente em relação a uma idéia fraudulenta (e que gere benefícios ao seu propagador) não ocorrer, vá sonhando com um debate de fato…

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9 COMMENTS

  1. Olá Luciano, gostaria de sugerir uma seção com recomendações de livros, por assunto. Quando alguém lembra de uma citação ou comentário sobre uma obra, fica difícil achar o nome certo em meio aos posts. E também seria útil para quem quer ler algo e precisa de recomendações. Obrigado 🙂

  2. Texto muito pesado e complexo, eu tive que ler 2 vezes com calma para entender. Acho que precisa de mais textos para explicar melhor esse conceito, eu concordo com ele.

  3. OFF-TOPIC:

    “Se me pedissem para sintetizar a atuação essencial das esquerdas, no Brasil e mundo afora, eu o faria assim: são correntes de pensamento que se querem donas do progresso e que pretendem impor o seu pensamento ao arrepio da institucionalidade. Para elas, o arcabouço jurídico que garante direitos universais tem de ser rompido pelos grupos que se apresentam como a vanguarda das lutas sociais — elas próprias. Assim, repudiam essencialmente a sociedade de direito em benefício do que entendem ser o direito da sociedade, em nome da qual falam, ainda que não tenham representação para tanto. Como se querem as expressões naturais do povo, a pauta que defendem — o conteúdo propriamente — não tem grande importância; ela é móvel e pode mesmo ser contraditória ao longo do tempo. Isso é irrelevante. Vivem num mundo da legitimidade auto-outorgada. Vamos pensar essa concepção à luz de alguns acontecimentos recentes.”

    Parágrafo inicial do “texto da madrugada” de hoje do Reinaldo Azevedo. Magistral. E o mais interessante é que dá para decompô-lo e reescevê-lo à luz da linguagem corrente deste blog.

    Obtenção de autoridade moral, self-selling, jogo de rótulos, rotinas de controle de frame, julgameno pelo futuro, técnicas de propaganda… Enfim, tudo está presente nessa síntese excelente. Recomendo a leitura, se é que já não viu:

    http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/na-democracia-petista-seus-crimes-devem-ficar-sem-castigo-e-os-adversarios-nao-tem-nem-mesmo-direito-de-defesa/#comment-2481244

  4. Quanto ao seu texto em si:

    “Outra possível refutação: ‘Na época do alinhamento da Igreja Católica com os monarcas, havia a hegemonia do pensamento católico. Por isso, não podemos suspeitar da tese da queda contínua do debate, tomando como premisssa que, na verdade, o debate sempre cai quando existe um grupo hegemônico?’ Esta linha de pensamento é interessante, mas o problema é que na época da parceria entre a Igreja Católica e os monarcas, o conhecimento sobre engenharia social, engenharia comportamental, manipulação psicológica e psicologia social era muito mais simplório do que temos hoje.”

    Acrescente à sua refutação a essa possível objeção o fato de que a filosofia da época não estav contaminada pela paralaxe cognitiva. Após explicar no que ela consiste, é fácil demonstrar – como diz expressamente o Olavo numa palestra – que os filósofos da época medieval, católicos que eram, eram fiéis à essência da dialética aristotélica e repudiavam os estratagemas e os ardis intelectuais, eis que resvalavam no pecado.

    Ademais, sses filósofos se confessavam constantemente, o que siginifica que eles se submetiam a exames de consciência moral periodicamente. Como a confissão começa com uma autoavaliação e termina com a avaliação de um ente externo e inquisidor (o confessor), que tem como objetivo confrontar o confessando com seuas próprias falahas morais, não era possível a utilização da rotina “auto-cético” pelo filósofos medievais.

    O nível do debate não caía porque os debatedores não dissociavam o eixo de suas existências concretas do eixo do conteúdo de suas proposições, o que é a característica primordial da paralaxe cognitiva. Assim sendo, e estando acima de dúvidas o fato de que viviam concretamente num ambiente intelectual encharcado pela moralidade cristã e pela filosofia grega – especialmente a trinca de outro “Sócrates-Platão-Aristóteles” -, o debate filosófico era pautado pela essência da dialética aristotélica: debate-se com o outro com o mesmo nível de honestidade com que se debateria consigo mesmo.

    Tanto é assim que os debatedores, ao entrarem numa dada polêmica, já enunciavam quais “topoi” iriam utilizar (“topos” = “lugar-comum”, convenção argumentativa, blocos de fundamentos cujo conhecimento e entendimento era NECESSARIAMENTE compartilhado pelos debatedores).

  5. Luciano, viu que a Islândia quer banir a pornografia em seu território? Obviamente que é daquelas demandas em que querem usar conservadores como inocentes úteis de marxistas-humanistas-neoateístas para que eles defendam algo que interessa à causa religiosa política, mas que na prática nada tem de querer proteger as crianças da pornografia, mas sim ser balão de ensaios para a censura na internet. Como os governantes locais sabem que se fossem eles a defender isso seriam tachados do que são na verdade, por que não usar o moralismo dos conservadores contra eles próprios sem que notem?
    Obviamente que qualquer um é suficientemente esperto para usar proxy se isso ocorrer, o que poderia gerar perseguição dos marxistas culturais ao uso de tal recurso, só para deixar o caldo de cultura para um regime totalitário ainda mais no ponto.

      • Aliás, bloquear proxy nem é tão difícil assim, e aqui provavelmente ensino pai-nosso a vigário. Eu já trabalhei em uma empresa que bloqueava o acesso a determinados sites e também o acesso a proxies (não me lembro de algum que passasse por lá). E, claro, nada impediria que alguém em posto público de poder e que esteja mais “stasiado” (imagino que tenha percebido o jogo de palavras) com a tecnologia pudesse perseguir pessoas do povo por simplesmente usarem tal recurso.
        Sendo coisa de contexto marxista cultural, é aquele lance que inicia suave e com intenções aparentemente nobres (afinal, nenhum pai quer que seus filhos vejam pornografia) para usar esse desejo legítimo para no fim criar coisas absurdas, como a que ocorreu com um cara de Nova York que havia dado uma escala em Porto Rico portando certos filmes não muito apropriados a quem tenha menos de 18 anos:

        http://www.youtube.com/watch?v=WDrHfuLC4H8

        Em um futuro que pudéssemos imaginar um progresso da tal lei, poderíamos imaginar que pudessem censurar opiniões porque supostamente ninguém precisaria ouvi-las, entre outras. Sequer seria preciso prender as pessoas, pois claques (normalmente espontâneas, como já vemos hoje em dia, mas que poderiam ser de existência provocada, como aquelas que estão perseguindo Yoani Sánchez por aqui) infernizariam a vida da pessoa para que ela passasse a fingir concordar com o que discorda só para não encherem o saco ou a pessoa ter vários campos de sua vida prejudicados.
        No caso da Islândia, por ser uma ilha a coisa fica muito facilitada (conforme sabemos por outra ilha em latitudes mais próximas ao Trópico de Câncer) e mais facilitado ainda fica por ter apenas 300 mil habitantes, com a maioria deles tendo a mesma origem (logo, a maioria deles não tem ancestrais ou parentes vivos no exterior, salvo a Emiliana Torrini e mais um ou outro (e aqui é bem na base do “um” mesmo). Observe-se que por lá já acabaram com as casas de strip-tease. Isso que significa que por tabela devem ter deixado um monte de profissionais das mais antigas do mundo sem seu sustento, ainda que possam fazê-lo por vias discretas, que facilitam uma beleza o trabalho de máfias do Leste Europeu, como se pode ver pelo filme sueco Para Sempre Lilja, que com certeza reflete uma realidade que aqueles escandinavos recusam-se a constatar porque obrigariam a notar que há defeitos gravíssimos nas muitas décadas de sociais-democratas no poder.

    • Obrigado pela notícia, Cidadão.
      E aqui vai minha opinião herética: a historicamente-recente onda de « criminalização internacional da (assim-chamada) pedofilia » também é um projeto *politicamente-correto* que deslanchou graças ao apoio “larânjico” dos conservadores desavisados.

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