As sete dimensões de uma crença e a priorização de questionamento para aplicação do ceticismo político

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Em termos de ceticismo político, uma crença pode ser também sinônimo de alegação, assim como alegação pode ser sinônimo de argumento.

Explicando melhor: claro que uma crença não verbalizada (ou não traduzida sequer em comportamento) não se tornará uma alegação, mas esta é irrelevante em termos de questionamento, pois uma crença que está na mente de alguém e não gera nenhum efeito no mundo exterior é como se não existisse na perspectiva de um observador externo.

As crenças de que trato aqui são visualizadas na forma de declarações ou comportamentos, e portanto não são mais somente conteúdos existentes apenas na mente de alguém.

Já um argumento em si não é uma alegação, mas quando um argumentador quer que o seu argumento seja percebido como válido, ele automaticamente possui uma alegação ditando “este argumento aqui apresentado é válido”.

Por isso, as crenças aqui tratadas são aquelas que traduzem-se em alegações, e são expressadas algumas vezes em forma de argumento. Assim, quando eu falar em “crença”, entendam como qualquer coisa que pode ser colocada sob questionamento na persepectiva de um observador externo ao usuário desta crença.

Agora é o momento em que apresentarei sete dimensões para toda e qualquer crença que o ser humano possa ter, e este é um “guia” lógico para facilitar-nos na priorização do questionamento de crenças.

A primeira dimensão, como não poderia deixar de ser, é a validade: uma crença é válida ou não. Claro que uma crença filosófica terá sua validade discutida em termos lógicos, enquanto uma crença cientifica poderá ser provada com um experimento, por exemplo. É claro que, se tivermos motivos para questionar a validade de uma crença, já podemos ligar um “sinal de alerta” pois há algo a ser feito em termos de questionamento cético.

A segunda dimensão é o impacto, que considero um dos fatores mais importantes. Aqui estamos analisando o impacto de uma crença sobre aqueles que nela não creem. Por exemplo, se alguém acredita que devemos inviabilizar a punição a criminosos com menos de 18 anos (como já ocorre no Brasil), isso automaticamente causará (ao menos potencialmente) impactos na vida daqueles que não acreditam nesta idéia. Agora, vamos a um exemplo de uma crença sem impacto para os descrentes: suponha que você acredita que um espírito lhe disse durante o sonho que você terá uma vida próspera. Se eu duvidar de um espírito visitando-lhe em seu sonho, ainda assim sua crença não causará impacto nenhum em mim. (Alguns afirmariam existir um “impacto indireto”, mas isso muitas vezes não é comprovado)

A terceira dimensão é a politicidade, que determina se uma crença é política ou não. Lembrando do conceito de alegação política (que vale também para uma crença, pois aqui estou avaliando apenas as crenças que se traduzem em comportamentos e/ou verbalizações), esta é aquela que, se aceita, irá gerar benefícios para um grupo/pessoa em detrimento de outro grupo/pessoa. Logo, priorize o questionamento a estas crenças.

A quarta dimensão é a moralidade, que determina o quanto uma crença é moral ou não. Se você tiver um bom argumento para demonstrar que uma determinada crença é imoral, então priorize o questionamento a essa crença. Um exemplo de crença imoral vem dos tempos de Hitler: “Achar que os judeus devem ser lançados em campos de concentração”. A crença “Não matarás”, por outro lado, é facilmente catalogada como uma crença moral.

A partir de agora, vamos focar em dimensões mais “auxiliares” em relação as anteriores, e são dimensões que ampliam o leque de como percebemos as crenças alheias.

A quinta dimensão é a fisicalidade. Aqui respondemos a seguinte pergunta: o quanto a crença de alguém se relaciona a um objeto que possa ser avaliado empiricamente ou não? Por exemplo, quando alguém diz que vendeu um carro”, podemos conferir esta venda através de um documento de venda, ou seja, um objeto físico. Mas quando alguém diz que em sua mente só existe “paz e amor”, não há nenhuma relação desta crença com o mundo físico. Aqui há dois aspectos de priorização: (1) pois quanto mais física, mais uma crença tem chances de ser também política, (2) quando uma crença está focada apenas no plano mental, ela se torna menos física, mas isso também é positivo para seu alegador, pois dificilmente ela poderá ser testada empiricamente. O uso de (1) e (2) tende a ser uma questão de talento, portanto, muito cuidado.

A temporalidade é a sexta dimensão, e nos diz o quanto uma crença está “posicionada” no passado, presente ou futuro. Por exemplo, quando alguém diz que “sua horta foi devastada por gafanhotos duas vezes na década passada”, esta crença se refere a um evento ocorrido no passado. Já quando alguém diz “há um assaltante roubando a bolsa daquela senhora”, esta é uma crença que se refere ao presente (embora se tornará parte do passado nos instantes seguintes). Por outra vez, afirmar que “em 10 anos um meteoro cairá em Los Angeles” significa uma crença posicionada no futuro.

Por fim, a sétima dimensão: do enfoque da crença. Ela fala da própria pessoa, ou de outra pessoa? Então é uma crença ad hominem. Mas se esta crença falar de possíveis fatos sobre o mundo que vão além das características das pessoas, temos um ad rem. No ad hominem, alguém diz “sou liberal”, mas no ad rem, alguém diz “A Alemanha é um país Europeu”.

Eis as sete dimensões das crenças, e aqui vão algumas regras para ajudá-lo na priorização do questionamento às crenças alheias no ceticismo político, revendo cada uma das dimensões:

  1. Validade: Uma crença inválida (ou potencialmente inválida) obviamente deve ser questionada. Claro que todas as crenças devem ser questionadas, para que perder tempo com aquelas crenças certamente válidas?
  2. Impacto: Supondo que uma crença tenha impacto em você, caso você seja um descrente, é óbvio que você deve priorizar o questionamento as crenças que tragam esse impacto.
  3. Politicidade: Se a crença de uma pessoa e/ou grupo oponente é política, então é sua obrigação questioná-la.
  4. Moralidade: Se a crença de seu oponente pode ser, de forma justificada, exposta como imoral para os que nela não creem, faça isso.
  5. Fisicalidade: Quanto menos uma crença for física, mais passível ela é de questionamento, mas, se você não questioná-la, mais ela é passível de obter resultado.
  6. Temporalidade: Cuidado em especial com as crenças projetadas para o futuro, pois o futuro pode às vezes ser incerto. É muito fácil para um mal profissional prometer maravilhas no futuro para não fazer nada no presente.
  7. Enfoque: Cuidado com ambas (ad hominem e ad rem), mas priorize mais a primeira.

Por isso quando vejo um tiozinho do sítio dizer que acredita na mula sem cabeça, eu não dou a mínima, pois essa crença, mesmo sendo claramente inválida, não traz nenhum impacto a mim, que sou um descrente quanto a mula sem cabeça, assim como não traz nenhuma vantagem política a ele sobre mim, e não é nem um pouco imoral. É uma crença ad rem, mas tanto sua fisicalidade como temporalidade podem até ser classificadas como irrelevantes.

Agora veja quando o professor marxista afirma que as contingências humanas podem ser superadas (Validade da crença: inválida), e afirma que ele próprio é um lutador por este futuro lindo (Enfoque: Ad hominem; Temporalidade: Futura), e por isso, a ditadura do proletariado é um imperativo moral para ele (Moralidade: absurdamente imoral; Impacto: absoluto para os descrentes, pois a ditadura impacta totalmente a vida dos que não acreditam nela; Politicidade: extremamente benéfica para o proponente da ditadura do proletariado, sobre os que não acreditam nesta ditadura). Em relação à Fisicalidade, a crença é física, portanto mais potencialmente perigosa.

Agora, comparemos a crença do tiozinho do sítio com a do professor marxista.

Ambas são inválidas, mas a crença do professor marxista impacta muito mais a vida do descrente nela do que a crença do tiozinho do sítio. Eu não sei a metáfora utilizada pelo tiozinho do sítio para falar da mula sem cabeça, portanto não sei se ela é física ou sobrenatural, assim como não sei se ela está no plano físico ou astral, mas podemos ter certeza que a crença do professor marxista é física. E isso é perigoso.

Com certeza a crença do tiozinho do sítio não é nem política e nem imoral, mas estas duas características são inerentes à crença do professor marxista. O tiozinho do sítio diz que a mula sem cabeça passou por lá a semana passada, então neste caso a crença pertence ao tempo passado, mas não faz muita diferença. Já a crença do professor marxista é lançada para o tempo futuro, e como ela é inválida, podemos suspeitar que ela está posicionada no futuro para dar autoridade moral a ele no presente.

Não há como o tiozinho do sítio capitalizar politicamente com a crença na mula sem cabeça, mas o professor marxista pode ganhar muita autoridade moral se convencer a patuleia de que ele é parte da luta pelo “futuro melhor”.

E daí por diante, podemos aplicar as regras que citei anteriormente para cada uma das dimensões de qualquer crença, e, através de um método, questionar: por que os céticos da Skeptical Inquirer estão tão focados em questionar paranormais que não afetam a ninguém, ao mesmo tempo em que nada fazem contra crenças muito menos válidas, como a de marxistas e humanistas, que em quase todos os critérios se posicionam, de acordo com o modelo de 7 dimensões de crença, como aquelas que devem ser questionadas prioritariamente?

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2 COMMENTS

    • Gostei muito do seu texto, e você demonstrou algo muito interessante ao comparar os dados de Arthur Brooks em relação ao que eles alegam.

      Há um ponto adicional: pessoas mais inteligentes tem mais chance de chegar a universidade, e, portanto, sofrer doutrinação de esquerda.

      No passado, 100% dos academicos eram católicos, pois era a crença vigente nas academias.

      Agora, o esquerdismo é o mito de nossa era.

      Portanto, se o estudo que fala dos esquerdistas “mais inteligentes” não considera a hegemonia corrente nas universidades, já não vale nada também.

      Belo trabalho.

      Abs,

      LH

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