Glossário: Senso comum

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Common Sense

Última atualização: 23 de janeiro de 2013 – [Índice de Termos][Página Principal]

Senso comum também pode ser tratado como “conhecimento vulgar”, e refere-se à compreensão automática do mundo, originada a partir das influências sociais e o ambiente em que alguém vive.

No senso comum, estão as crenças e premissas tomadas como normais. No entanto, normalmente essas crenças e proposições, bem como os comportamentos aceitáveis a partir destas crenças e premissas, não surgem a partir do conhecimento científico ou de uma argumentação lógica, mas sim a partir do “aceite” delas como normais.

Em A Concepção Dialética da História, Antonio Gramsci queria “destruir o preconceito, muito difundido, de que a filosofia é algo muito difícil pelo fato de ser a atividade intelectual própria de uma determinada categoria de cientistas especializados ou de filósofos profissionais e sistemáticos”.

Foi quando ele decidiu propor que todos os homens fossem considerados como “filósofos. Veja abaixo:

É preciso, portanto, demonstrar preliminarmente que todos os homens são “filósofos”, definindo os limites e as características desta “filosofia espontânea”, peculiar a “todo o mundo”, isto é, da filosofia que está contida: 1) na própria linguagem, que é um conjunto de noções e de conceitos determinados e não, simplesmente, de palavras gramaticalmente vazias de conteúdo; 2) no senso comum e no bom senso; 3) na religião popular e, consequentemente, em todo o sistema de crenças, superstições, opiniões, modos de ver e de agir que se manifestam naquilo que geralmente se conhece por “folclore”.

Gramsci prossegue:

Após demonstrar que todos são filósofos, ainda que a seu modo, inconscientemente – já que, até mesmo na mais simples manifestação de uma atividade intelectual qualquer, na “linguagem”, está contida uma determinada concepção do mundo -, passa-se ao segundo momento, ao momento da crítica e da consciência, ou seja, ao seguinte problema: é preferível “pensar” sem disto ter consciência crítica, de uma maneira desagregada e ocasional, isto é, “participar” de uma concepção do mundo “imposta” mecanicamente pelo ambiente exterior, ou seja, por um dos muitos grupos sociais nos quais todos estão automaticamente envolvidos desde sua entrada no mundo consciente (e que pode ser a própria aldeia ou a província, pode se originar na paróquia e na “atividade intelectual” do vigário ou do velho patriarca, cuja “sabedoria” dita leis, na mulher que herdou a sabedoria das bruxas ou no pequeno intelectual avinagrado pela própria estupidez e pela impotência para a ação), ou é preferível elaborar a própria concepção do mundo de uma maneira consciente e crítica e, portanto, em ligação com este trabalho do próprio cérebro, escolher a própria esfera de atividade, participar ativamente na produção da história do mundo, ser o guia de si mesmo e não mais aceitar do exterior, passiva e servilmente, a marca da própria personalidade?

Em resumo: o cerne da estratégia gramsciana é a reforma do senso comum, através de uma série de ações intelectuais, as quais podem estar inclusive distantes das melhores práticas da dialética e da filosofia, desde que atendam a um objetivo.

Se compreendermos a importância de entender o que é senso comum, e como a sua modificação é tão importante para a esquerda, já damos um passo a frente na superação da tradicional incapacidade da direita em duelar contra a esquerda. Muitos direitistas ainda entram em debate achando que estão em um palco de Oxford, enquanto os esquerdistas estão lutando pela reforma do senso comum, sem dar a mínima para as boas práticas argumentativas.

Da mesma forma, em relação a tudo o que escrevo aqui, é importantíssimo entender como uma reforma do senso comum é também um dos gatilhos para meu paradigma.

Relembremos: no senso comum, está “cravada” a noção de que um cético é alguém definido pelo quanto questiona o paranormal, o sobrenatural ou qualquer afirmação da religião. Rótulos como “dono da razão” ou “representante da ciência” também são associados a estes grupos.

Esta noção criou no senso comum a seguinte concepção: “ceticismo é algo a ser usado contra as crenças relacionadas ao sobrenatural e à Deus”. Se acham que estou exagerando, façam um teste, que pode ser feito de uma maneira extremamente fácil:

  1. Comece uma discussão com alguém que não tem formação nem conhecimentos básicos em filosofia
  2. Diga “Eu sou cético” e, logo em seguida, pergunte: “No que você acha que eu acredito ou não?”
  3. A resposta tende a ser algo como: “Você não acredita em Deus, certo? Você é mais alguém que toma decisões pela razão. Estou certo?”

Caso o passo 3 ocorra mais ou menos conforme o previsto, identificamos algo que pode estar no senso comum.

Por fim, uma característica importante do senso comum: muitas das “regras” do senso comum não são escritas. Por exemplo, não está escrito que um gerente deve usar um determinado tipo de terno, mas ao mesmo tempo existem “regras” no senso comum organizacional que permitem a determinação tácita da qualidade de seu vestuário.

Ainda no que diz respeito ao ceticismo, podemos notar que existe uma regra tácita, criada pela noção, também tácita, de que “ceticismo é para questionamento do sobrenatural”, que nos induz a priorizar questionamentos em direção ao sobrenatural, mas quase nunca questionarmos ferrenhamente crenças que não estejam relacionadas ao sobrenatural.

Estas regras do senso comum a respeito do ceticismo são aquelas que eu desafio em meu blog, ao demonstrar que ceticismo é muito mais do que apenas “questionamento ao sobrenatural”, assim como demonstrar que muitos auto-alegados céticos estavam na verdade apelando à essa fragilidade das regras do senso comum em relação ao ceticismo para capitalizarem politicamente.

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