Em relação ao sobrenatural, o que meu ceticismo político faz, e o que ele não faz

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O caríssimo leitor JMK fez alguns questionamentos fortes em relação ao suposto fato deste blog endossar indiretamente o humanismo, por causa não só de sua rejeição ao sobrenatural, como também pela simulação de falso entendimento deles em relação à pesquisa sobre o paranormal. Outros pontos da crítica de JMK incluem um suposto apoio a James Randi, que é um neo-ateu, e, portanto, um humanista radical. Outra crítica: este blog defenderia o materialismo, ignorando outras perspectivas não-materialistas.

É hora de eu me defender, respondendo a estas objeções.

Deixe-me começar pelo “apoio a James Randi”, que, na verdade, não ocorre. O que existe é uma inspiração pelo modelo de questionamento feito por ele. Claro que Randi é conhecido por sua parcialidade e desonestidade intelectual em seus procedimentos, fazendo com que seu desafio jamais seja superado. Ele também trabalha com um conceito de paranormalidade que muito provavelmente é um espantalho, como alertou JMK.

Mas não é nisso que me inspirei, e sim no método de desafio ao oponente alegador. Automaticamente, ele trabalha com identificação de uma alegação, oriunda do lado oponente, e converte isso em um desafio, ao final do qual haverá um vitorioso. O efeito desta iniciativa é poderosíssimo, pois instiga todos os participantes, e o efeito negativo para o perdedor é muito maior, assim como o efeito positivo para o vencedor.

Este é o conceito de James Randi assimilado por mim, no qual as crenças de meu oponente vão para a arena, assim como o senso comum já se acostumou a ver as crenças de religiosos, místicos, esotéricos e estudiosos do paranormal sendo lançadas na arena.

Esse é um dos meus desafios ao senso comum: se todas as crenças são passíveis de questionamento, estando relacionadas ao sobrenatural ou não, por que só as crenças do sobrenatural podem ser questionadas no modelo de desafio randiano? Será que James Randi tem uma patente, e portanto, ninguém mais pode desafiar seus oponentes a respeito de uma alegação a não ser ele e seus amigos? Será que o modelo de aceitar temporariamente uma crença sobre os fatos do mundo, para lançar pressão ao seu alegador, e enfim desafiá-lo a testar as consequências de sua crença, só pode ser usado por ele? O estímulo ao teste científico de alegações sobre fatos do mundo está registrado em cartório por James Randi? Claro que a resposta a todas estas questões é negativa. Modelos intelectuais não são “registrados”. A estratégia gramsciana, de reforma do senso comum, pode ser usada pela direita também, assim como o modelo de desenganação de James Randi, pode ser usado por um cético quanto ao humanismo.

O que eu quero dizer, ao citar Randi, é o seguinte: “Ei, você está vendo como o Randi é assertivo e desafiador quando ele se defronta com um alegador do paranormal? Ok, percebeu detalhadamente o comportamento? Viu o que é um desafio a um alegador? Então, o que sugiro é que um questionamento desse naipe seja feito em direção aos humanistas e esquerdistas em suas alegações sobre o mundo! Se isso não está sendo feito, então vocês estão perdendo tempo.”

Esta é a mensagem que quero passar, e por isso cito James Randi.

Aliás, já existem esquerdistas fazendo isso, como pode ser visto no caso de Salim Lanrani questionando a Yoani Sanchez. Ele é um marxista, e ela uma suposta oponente do regime cubano. O procedimento de Salim, colocando o seu oponente na parede com uma saraivada de questionamentos desafiadores, é muito próximo do modelo que defendo.

Creio que já deixei claro o motivo de minhas citações a James Randi. Enfim, a ideia é que os leitores da direita não se esqueçam do modelo de questionamento ideal, que é aquele que funciona para questões polêmicas.

Outro ponto da crítica de JMK seria quanto a minha “rejeição ao sobrenatural”, mas isso não acontece. Na verdade, eu não faço juízo de valor a respeito da possibilidade do sobrenatural, embora eu questione as evidências para a ressurreição de Cristo e o nascimento virginal. Isso não significa que eu defina que tais eventos não possam ocorrer.

É possível que meu aceite em relação ao darwinismo seja uma defesa do paradigma materialista, certo? Errado. Ela é uma teoria construída dentro do paradigma materialista, mas que não pode legislar a respeito do que ocorre em outros planos. Simplesmente, a teoria não diz nada a respeito.

Suponhamos, a título de argumento, que um cristão darwinista diga que a seleção natural contém as “regras do jogo natural”, em termos de mecanismo de sobrevivência (mas não da moral), estipuladas por Deus. Isto estaria coerente com a falibilidade humana. Uma explicação metafísica explicaria o motivo pelo qual Deus agiu para incluir o homem como uma das espécies, “quebrando as regras” da seleção natural, mas apenas em um caso. Ainda assim, a falibilidade humana seria coerente com a análise feita unicamente pela teoria darwinista. Nesse contexto, o darwinismo não legisla sobre qualquer explicação metafísica elaborada, desde que ela esteja consistente com a teoria de Darwin. Teorias, aliás, são modelos preditivos, e não leis, e portanto, não definem que “exceções” não possam ocorrer. No máximo, um darwinista poderia dizer que, se aceitarmos a interferência divina, ainda teríamos que reconhecer como “pendente de explicação” a forma pela qual isso ocorreu.

Quando alguém entende o darwinismo como a negação automática da existência de Deus, está jogando sob as categorias implementadas pelos humanistas, que querem capitalizar em cima da teoria, mesmo que eles a neguem por completo.

Como está claro, deixei bem claro que nada do que escrevo aqui é um endosso a práticas desonestas de James Randi, mas sim ao modelo de questionamento desafiador desenvolvido por ele. Assim como ão faço a estipulação do materialismo como o modelo a ser seguido, mas, de acordo com a teoria darwinista, tento fazer as análises sobre o comportamento humano mais assertivas quanto possível.

Em relação ao sobrenatural, aqueles que nele acreditam não tem com o que se preocupar, pois meu ceticismo político apenas ensina todos os leitores a utilizarem o mesmo método já utilizado contra os adeptos do paranormal e crentes no sobrenatural há muito tempo, só que agora contra todos os que fizerem uma alegação política.

Mas ao mesmo tempo, eu não defino o que deve ou não ser questionado, desde que o objeto de questionamento se encaixe nas alegações políticas. A partir daí, é você que define o que será colocado contra a parede.

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5 COMMENTS

  1. Não posso dizer que me sinto feliz por você ser ateu, Luciano. Mas devo dizer que admiro a postura do seu ateísmo. Uma postura lúcida, honesta e respeitosa. Um ateísmo do tipo “Eu, pessoalmente, não acredito em Deus. Mas pode ser que ele exista”. Quem dera, todos os ateus fossem assim!

    Não obstante, que Deus abençoe o seu trabalho.

    Abraços, brother. 😀

    P.S.: Fiz uma perguntinha sobre uma alegação comunista em debate na caixa de bate-papo do seu Facebook. Depois você dá uma olhadinha lá.

  2. Luciano, pela N-ésima vez:

    Eu não critico a tua rejeição ao “sobrenatural”, eu critico a tua rejeição ao assim-chamado *paranormal*.
    A Parapsicologia não estuda o “sobrenatural”. É certo que tem gente que ACHA (ou espera) que a Parapsicologia “prove” a reencarnação, ou a existência do “karma”, etc., mas isso é secundário e irrelevante.

    Depois das páginas que eu te indiquei, se você ainda insistir em dizer amém ao mantra “não existem evidências de telepatia, premonição, clarividência e telecinese”, fica evidenciada uma desonestidade intelectual da tua parte. E trocar “não existem evidências” por “Luciano Henrique *acha* que não existem evidências” não é muito melhor. 😉 Os pseudo-céticos negam o “paranormal”, porque eles têm PAVOR de que os “crentes” possam ter uma “taxa de razão” acima de zero-por-cento. Até prova em contrário, você também ainda compartilha com eles uma certa “teofobia” — ou será “diabolofobia”? 😀 Afinal de contas, nos teus tempos de católico, você escreveu no Formspring que o Diabo “não existe, é apenas uma metáfora”, o que certamente muito agradaria ao Eliphas Levi 😛

  3. O navegador Opera é pouco seletivo nas imagens que ele bloqueia, e assim, tive que dar um “liberou-geral” nas imagens do WordPress. O resultado é que só agora é que eu vejo a “candela in tenebris” que o LH escolheu para ilustrar este artigo… Saquei o duplo-sentido 😉 , e lá vai o veredicto:

    KKKKKKKKKKKKK 🙂

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