Um darwinismo de esquerda? Eis que temos o desespero de Peter Singer

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Após obras como Monkeys on our Backs, de Richard Tokumei (da qual falei aqui), e Darwinian Conservatism, de Larry Arnhart, qualquer esquerdista deveria ter mais vergonha de sua crença do que se tivesse a mãe na zona. Mesmo assim, eles ainda conseguem manter idéias utópicas e delirantes que busquem rejeitar tudo o que a ciência tem a nos dizer sobre a espécie humana.

Os livros citados, na verdade, nada mais fizeram do que colocar de forma resumida e coerente tudo o que aprendemos com a teoria de Darwin. Portanto, a lição já havia sido ensinada aos esquerdistas há muito mais tempo. Mas ainda assim, o poder do ser humano em conviver com suas dissonâncias cognitivas, como nos lembrou Leon Festinger, e viver em duplipensar, como nos explicou George Orwell, é praticamente ilimitado.

Só isso pode explicar o empreendimento de Peter Singer em criar um “darwinismo esquerdista”, digno de vergonha alheia. Isso ocorreu no livro A Darwinian Left: Politics, Evolution and Cooperation, lançado em 1999 pela editora New Haven. São apenas 64 páginas. (Como se observa, o livro saiu antes das obras de Tokumei e Arnhart, mas ainda assim depois do advento da psicologia evolutiva desmascarar o socialismo)

Claro que Arnhart não poderia perder a oportunidade de espicaçar a ilusão de Singer, e disse, ao National Review: “A confusão de Singer em justificar uma esquerda darwinista na verdade nos ajuda a ver a justificação para uma direita darwinista”.

Peter Berkowitz, do The New Republic, disse que o empreendimento de Singer até nos ajuda a lembrar os perigos das visões utopicas e aspirações injustificáveis para a natureza humana, mas as próprias tentativas de refazer os sonhos da perfectibilidade humana sob uma nova roupagem são “incoerentes”.

Primeiramente, vamos à única parte lúcida do livro, onde Peter Singer diz o que uma “nova esquerda darwinista” não deveria fazer:

(1) Negar a existência de uma natureza humana, nem insistir que a natureza humana é inerentemente boa, nem que é infinitamente maleável, (2) Esperar encerrar todos os conflitos e lutas entre os seres humanos, (3) Assumir que todas as desigualdades são devidas a discriminação, preconceito, opressão ou condição social. Algumas são, mas isto não pode ser assumido em todos os casos.

Em resumo, a “nova esquerda darwinista” deveria aprender com o que a direita tem explicado há séculos. Isso não tem preço!

Agora, vejamos o que a nova esquerda darwinista deveria fazer, segundo Singer, com meus comentários abaixo de cada item.

  • Aceitar que existe algo como uma natureza humana, e buscar descobrir cada vez mais a respeito dela, de forma que as propostas políticas sejam baseadas na melhor evidência possível de como os seres humanos são

Mais uma vez, isso significa adotar um princípio que a direita política vem praticando há muito tempo, isto é, entender como o ser humano realmente é (ao invés de pensar como ele deveria ser), antes de elaborar as propostas políticas. Note que existem políticos e ideólogos da direita que fogem da realidade também, mas esta não é a “base” do pensamento da direita. A base do pensamento direita se encontra em autores como Friedrich Hayek, Ludwig Von Mises e especialmente Russel Kirk. Então, junto com o que a psicologia evolutiva, a sociobiologia e a dinâmica social (incluindo a psicologia social) tem  a nos dizer, reler um pouquinho do que os principais autores da direita escreveram ajudaria um pouco a ver que essa proposta de Singer é na verdade uma proposta da direita.

  • Rejeitar qualquer inferência de que aquilo que é “natural” é o mesmo que “certo”

Sim, isso seria praticar a falácia genética, que praticamente toda a direita rejeita. Aliás, erradamente, muitos filósofos da direita rejeitam Darwin (o que, aliás, tem diminuído e vai ser uma tendência, depois dos argumentos e achados cada vez mais fortes de que a teoria da evolução sustenta o pensamento de direita), pois acham que o darwinismo levaria à falácia genética. Em síntese, isso que Singer quer ensinar aos “novos esquerdistas”, a direita já rejeita há tempos, mesmo que alguns rejeitem a falácia genética pelos motivos errados. (Motivo errado: achar que aplicar a teoria da evolução na análise político-ideológica é o mesmo que defender as ideias de Herbert Spencer, relativas ao darwinismo social, e as de Francis Galton, relativas à eugenia, o que é um absurdo completo, já que tanto a noção de Spencer como de Galton são erros quanto a teoria de Darwin, como também o são as implementações da falácia genética)

  • Esperar que, sob diferentes sistemas sociais e econômicos, muitas pessoas irão agir competitivamente para aumentar seu próprio status, ganhar uma posição de poder, e/ou priorizar os seus interesses e de sua família

Isso é exatamente o que a direita defende. Ela acredita que algumas pessoas são mais ambiciosas que outras, e o mundo tem lugar para todas estas pessoas. O pensamento da direita não obriga todos a serem gananciosos, mas dá a liberdade para quem quiser sê-lo. Aliás, estes geralmente conquistam mais e ajudam a sociedade.

  • Esperar que, independentemente do sistema social e econômico nos quais eles vivem, muitos irão responder positivamente a oportunidades genuínas de adentrar em formas mutuamente benéficas de cooperação

Novamente, isso é previsto pela direita em todo e qualquer empreendimento filantrópico defendido pelos direitistas. Quer dizer, uma oportunidade genuína de adentrar em formas mutuamente benéficas de cooperação é uma diretiva da direita, em oposição ao que a esquerda defende. Lembremos que a esquerda defende que, ao invés da cooperação explorada através de oportunidades genuínas de ação voluntária, deve-se optar pela coerção do estado. Ou seja, um desestímulo a toda e qualquer cooperação obtida através de oportunidades genuínas de ação voluntária.

  • Promover estruturas que beneficiam a cooperação ao invés da competição, nos esforçando para canalizar a competição em fins sociais desejáveis

Nada melhor que a esquerda obter consultoria com a direita. Como exemplo, um estudo feito por Arthur Brooks, no livro Who Really Cares? (e citado por Ann Coulter), mostrou que na ação voluntária, quem é da direita contribui muito mais do que aqueles da esquerda. Ei, esquerdistas, corram atrás do prejuízo…

  • Reconhecer que a forma com a qual nós exploramos animais não-humanos é um legado do passado pré-darwinista que exagerou o abismo entre os humanos e os outros animais, e daí trabalhar e direção a um padrão moral para animais não-humanos, e uma visão menos antropocêntrica de nosso domínio sobre a natureza

Isso aqui foi uma invenção de última hora apenas para ele colocar sua agenda vegan em foco, mas simplesmente não faz o menor sentido e não tem absolutamente nada a ver com direita ou esquerda. Aliás, não existe nenhum achado do darwinismo que nos leve a deixar de comer carne. Não dá nem para criticar profundamente essa tentativa de Singer de impor o seu pieguismo mongolóide em um livro que deveria discutir Darwin e política.

  • Lutar pelos valores tradicionais da esquerda, ficando do lado dos oprimidos, fracos e pobres, mas pensar de forma muito cuidadosa a respeito de como as mudanças sociais e econômicas de fato irão beneficiá-los

Este poderia ser um ponto da “esquerda”, mas até o discurso de dizer que se luta pelos “fracos e oprimidos” não passa de uma rotina de auto-rotulagem. Além do mais, existem vários “fracos e oprimidos”. Por exemplo, o cidadão que paga imposto é oprimido, e, neste caso, é a direita que está do lado dele, ao invés da esquerda. Portanto, aqui não há um “ponto” esquerdista de Singer. Aliás, pensar em “mudança de forma cuidadosa” é uma prerrogativa da direita, pois os valores tradicionais da esquerda são focados em promessas populistas que jamais foram balanceadas em comparação com as consequências de sua implementação.

Em síntese, a “esquerda darwinista” proposta por Peter Singer simplesmente não existe. Todos os pontos de “mudança” para o esquerdismo, propostos por Singer, são na verdade posições da direita. Em outras palavras, quanto mais próximos ao darwinismo estamos, menos esquerdistas temos o direito moral de ser.

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4 COMMENTS

  1. Luciano, pode me passar por email o email do Olavo? Queria pedir orientação sobre bibliografia não esquerdista e ouvi dizer que ele costuma ajudar. Aproveitando, pode você também me passar autores e obras não esquerdistas em História, Filosofia, Sociologia, Psicologia, Literatura, Economia e o que mais achar conveniente?

    Desde já, muito grato.

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