Ceticismo político, razão e Deus

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Recentemente, um comentarista, Francisco, que se declarou “ateu libertário” (e diz não gostar de críticas ao humanismo, portanto podemos supo-lo como humanista), afirmou o seguinte, de forma resumida:

[Se dirigindo a um leitor cristão] crendo em algo (sobrenatural) logicamente falho e desamparado de corroboração empírica, revelas um desapego à razão quando conveniente, que pode transparecer em outros pontos cegos intelectuais teus. Talvez o anti-esquerdismo e anti-humanismo sejam alguns deles […]  Também repudio a esquerda, mas sou ateu convicto, como qualquer que preza a razão sempre é obrigado a ser. Acho que sou um libertário.

Como meu ceticismo político já ligou um sinal de alerta, respondi-lhe, antes do leitor mencionado por Francisco responder:

Pelo que notei, o leitor em questão usou um argumento anti-neo-ateísta, e não anti-ateísta. E como você prova que o crente possui “desapego à razão” por causa da opção por Deus? Aliás, como você diz que “preza a razão” mas não consegue provar sua maior racionalidade em comparação aos outros? A prova de sua “maior razão” surge a partir de quê? Auto-declaração? Lembrando também que eu sou ateu não-humanista… Também é estranho para um libertário, que deveria defender meritocracia, tentar ganhar debate por auto-declaração de “razão” ao invés de resultados comparativos/competitivos.

Francisco respondeu:

Não inverta o ônus da prova, Luciano. Eu não inventei deuses. A alegação da existência é que precisaria ser provada, mas não pode por falta de corroboração empírica, como eu disse claramente. Além disso, o conceito de deuses é logicamente inconsistente (não é falseável), portanto não pode sequer se manter até a fase de corroboração empírica. O conceito é vazio de significado – só coisas falseáveis têm significado. Isso é uma questão filosoficamente bem resolvida. Não há racionalidade qualquer na crença no sobrenatural, como expliquei agora. Repito, falta consistência lógica, principalmente, e corroboração empírica. Eis a minha “prova”.

Minha resposta:

Eu não inverti ônus de prova nenhum. Tanto alegação de existência ou de inexistência: ambas precisam ser provadas, pois há um alegador. Não existe um argumento em favor de “não se prova inexistência” (quer dizer que se um médico afirmar que não existem sintomas de uma certa doença, ele não precisa se responsabilizar?). Você acabou de falar que a alegação de Deus não pode ser provada ou desprovada empiricamente, e então pede uma prova empírica. Se assim for, você estaria sendo irracional ao pedir algo que não pode ser provado empiricamente, e ainda assim tomar uma decisão sem ter feito o teste empírico. Ou seja, a decisão mais racional de acordo com suas premissas é a do agnosticismo totalmente neutro em relação ao teísmo e ateísmo.

Por isso, sou um ateu agnóstico, ao invés de um “ateu convicto”, que sempre tem que lançar mão de truques semânticos para manter a auto-estima em debate, mas aí sempre pode surgir o constrangimento de aparecer um cético político pela frente. O texto linkado aqui é longo, mas pode te ajudar a não sofrer mais um papelão assim.

Você disse que “só coisas falseáveis tem significado”, mas isso também não está provado logicamente. Poderíamos dizer que qualquer coisa tem significado, desde que gere resultados para alguém. Neste caso, em relação aquilo para o qual não temos uma avaliação empírica, pode-se fazer uma escolha sem o uso da avaliação empírica, e obtermos um resultado ou não. Como se vê, não há um argumento para ignorar forçosamente coisas que não possuem avaliação empírica.

Ademais, você não consegue demonstrar que há mais “racionalidade” na sua descrença do que na crença em Deus.

Aliás, falta consistência lógica em teu argumento, ao dizer que as coisas só podem ter significado se tiverem comprovação empírica. Mas onde existe a comprovação empírica para a hipótese de um universo sem Deus? Na verdade, a avaliação empírica só pode nos levar ao agnosticismo, não ao ateísmo ou teismo…

Mas não foi essa a “prova” que eu pedi.

Eu pedi outras provas:

(1) A de que há mais racionalidade no ateísmo que no teísmo? E você fracassou neste teste.
(2) A de que há mais racionalidade em você do que no teísta… E isso seria importante, pois poderíamos cancelar contratações de teístas para funções de análise, por exemplo. Mas de um grande time de analistas, temos muitos teístas, como também ateístas, então a alegação de “maior racionalidade”, feita por um ateu, para obter o benefício desta alegação, é importantíssima em meu paradigma de meu ceticismo político.

Então, devemos rejeitar o ato de você tentar se vender para nós como “mais racional”, somente por causa de seu ateísmo (e eu sou ateu, e não me vendo por causa disso, pois sei que não posso provar), pois, se aceitarmos essa idéia, teremos um impacto social devastador, ao mesmo tempo em que a crença sua (ateu é “da razão” e teísta é “anti-razão”) é completamente carente de provas… empíricas.

Tente trabalhar melhor em suas buscas para provar sua “maior racionalidade”.

Para alguns que supõem que meus textos tem sido cada vez mais materialistas, creio que este diálogo deve ter deixado bem claro que a coisa é bem diferente do que essa impressão aponta.

Mesmo eu sendo ateu, darwinista, pragmático, niilista e instrumentalista, isso não muda o fato de que não há argumentos para alguém se declarar mais ou menos racional somente por que alguém acredita ou não em Deus. Se muitos são dependentes dessa auto-venda, eu não dou a mínima para ela. Aliás, se eu vejo alguém realizar esse tipo de auto-rotulagem, sem evidências para tal, sinto um prazer especial em demolir estas ilusões.

No debate, humanistas aprenderam a capitalizar politicamente dizendo-se mais “racionais” ou “da ciência” somente por que rejeitam a crença em Deus. Mas não há evidências de que apenas essa rejeição a Deus os tornará mais racionais.

Vamos a verdade nua e crua para alguns ateus: tanto teísmo, como ateísmo, são apostas que resultam em um certo grau de fé. São “chutes” que fazemos para selecionar, inconscientemente (na maior parte dos casos), uma posição em relação à um sentido para a vida, ou nossa origem. Após esta escolha, feita de forma mais emocional que racional, encontramos racionalizações ou não para justificar nossa crença ou descrença em Deus.

O mais racional é aquele que, mesmo tendo uma crença obtida a partir de meios irracionais, a tratará com argumentos mais racionais. Por exemplo, a descrença minha e de Dawkins em Deus é tão irracional quanto a crença de William Lane Craig n’ele. Ainda assim, eu acho que me daria bem em um debate com William Lane Craig, embora ele seja melhor em argumentação religiosa do que eu. Mas com certeza Craig vence Dawkins, pois os argumentos do primeiro são muito mais racionais do que os do segundo.

Enfim, razão e racionalidade não são medidos pela crença ou não em Deus, mas pelos argumentos e ações realizados por alguém, independente desta pessoa ter crença ou não em Deus.

Quando alguém afirma que é mais “racional” somente por que não acredita em Deus, temos uma alegação que deve ser colocada sob suspeita, assim como faríamos quando alguém alega ser mais “moral” do que alguém somente por crer em Deus.

O ceticismo político é aplicado sobre as alegações políticas, que são todas aquelas que, se aceitas, dão benefícios a uma parte sobre outra. Quanto mais injustificada uma alegação deste tipo é, mais ela deve ser questionada.

Quando alguém diz “não há um Deus” ou “há um Deus”, temos uma alegação tradicional, mas, quando alguém diz “eu sou mais racional por não crer em Deus” ou “sou mais moral por crer em Deus” temos alegações políticas.

O que eu fiz nos diálogos com Francisco foi, mesmo sendo ateu, usar o ceticismo político em direção a alguém que queria capitalizar politicamente de forma injustificada através da auto-rotulagem como “dono da razão” somente por descrer em Deus. Ele teria que mostrar muito mais do que isso para merecer o rótulo de “mais racional que os outros”.

Esta é a essência do ceticismo político.

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6 COMMENTS

  1. O ápice da demonstração de racionalidade foi explicar “logicamente inconsistente” como sendo sinônimo de “não é falseável”. Brilhante! O resto foi mais do mesmo…

    Quase dá pena de bater nesses aí, né não, LH? Quase!

    • Pois é, zcla.

      Até daria pena, não fosse a auto-confiança que o sujeito demonstra. Essa auto-confiança (que eles não vão perder, pois eles são doutrinados para se sentirem confiantes) alimenta o “instinto cético” do outro lado. rs.

      Abs,

      LH

      • Eu acho linda essa ingenuidade de que ele tem o argumento final sobre a existência de Deus e que todo o resto do mundo, pobres ignorantes, não conseguiram ainda chegar nessa epifania.

        Cara, é patético demais, dá pena. Mas tem que bater, né? E sem dó. Senão dá cria… 🙂

      • Até pq quando batemos, pode ser que algum deles aprenda uma coisa ou duas. Nietzsche já disse que a vergonha é a mãe do aprendizado.

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