Ingenuidade e esperteza em Horkheimer

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Um amigo me sugeriu a leitura de Eclipse da Razão, lançado por Max Horkheimer em 1955. Como não ligo em ler materiais de fontes oponentes, e não vejo problemas em instrumentalizar métodos úteis que lá existam, ótimo. (Este texto amplia uma idéia já trazida em Ingenuidade e esperteza em Chesterton)

A sugestão deste livro surgiu pelo fato de que a denúncia das rotinas centrais do cientificismo (“cético universal”, “dono da razão” e “representante da ciência”) já teria sido feita anteriormente por Horkheimer. Portanto, nada melhor que avaliar este empreendimento.

Ele começa o seu livro notando que a expressão “razão” tem um efeito sobre o homem comum, que muitas vezes não entende o que está sendo falado:

Quando se pede ao homem comum para explicar qual o significado do termo razão, a sua reação é quase sempre de hesitação e embaraço.

Horkheimer nos lembra que de fato o cidadão comum não percebe o que está sendo falado quando a expressão razão é lançada em direção a ele. Automaticamente, ele pensa em “melhores resultados”, através do uso mais eficiente da inteligência. Mas isso é apenas a razão subjetiva, quando na verdade os cientificistas sempre alegam a defesa da razão objetiva. Ou seja, a visão platonista da razão, aquela da qual falam a maioria dos filósofos. Platão por exemplo, provaria, através da República, que aquele que vive de acordo com as regras da razão objetiva, tem uma vida mais feliz e próspera.

Razão objetiva é, portanto, o padrão pelo qual todos devem ser julgados. E a razão objetiva pode surgir inclusive a partir de Deus (na concepção cristã), como na filosofia aristotélica, ou, como no caso dos cientificistas pós-Kant, na “razão científica”, ou seja, “a razão”.

Mesmo assim, o cidadão comum não entenderá absolutamente nada disso, até por que ele quase nunca lê filosofia, e então perceberá aquele que declara falar “em nome da razão” como alguém que melhorará sua chance de sobrevivência.  Em suma, o ideólogo cientificista comunica algo (a defesa da razão objetiva), e o cidadão comum entende outra coisa (a defesa da razão subjetiva), e a partir daí tende a ouvir o que este ideólogo tem a dizer.

Por parte do ideólogo cientificista, tudo se baseia em tentar transferir a mesma autoridade dada à religião no passado à “ciência”. Isto é o que Horkheimer identifica rapidamente:

Desde os tempos da Renascença, os homens tentaram idear uma doutrina tão ampla quanto a teologia e que valesse por si própria, em vez de aceitar de uma autoridade espiritual os seus valores e objetivos supremos. A filosofia se vangloriava de ser o instrumento de explicação e revelação do conteúdo da razão como reflexo da verdadeira natureza das coisas e do correto modelo de vida. Spinoza, por exemplo, pensava que a compreensão interna da essência da realidade, da estrutura harmoniosa do universo eterno, desperta necessariamente o amor por este universo. Para ele, a conduta ética é inteiramente determinada por tal penetração da natureza, assim como nossa devoção a uma pessoa pode ser determinada pela compreensão da sua grandeza ou do seu gênio. Os temores e as paixões mesquinhas, alheias ao grande amor do universo, que é o próprio logos, se esvairão, segundo Spinoza, uma vez que seja bastante profunda a nossa compreensão da realidade.

Bastante lúcida a intepretação feita por Horkheimer sobre Spinoza, o qual teve papel fundamental na transição da retirada da autoridade moral religiosa para um outro aspecto da realidade, no caso, o universo em si (que seria Deus, em sua visão panteísta). O objetivo era claro: retirar a autoridade moral das revelações, para dar autoridade moral a outro objeto.  Ao entender o universo como Deus, Spinoza tiraria dos estudos a respeito deste  mesmo universo a nossa orientação para o sentido da vida, para conseguir, através das ressignificações adequadas, nos ditar como deveríamos levar a vida, de acordo com essas novas normas.

O problema, para gente como Spinoza, é que na época tanto a religião como a ciência eram considerados ramos diferentes do saber, e portanto, aquilo que seria afirmado através da ciência, não iria substituir valores últimos determinados através da religião. É quando a transmutação do significado do humanismo em “detentores da razão” foi necessário:

Os filósofos do Iluminismo atacaram a religião em nome da razão; e afinal o que eles mataram não foi a Igreja, mas a metafísica e o próprio conceito de razão objetiva, a fonte de poder de todos os seus esforços. A razão como órgão destinado a perceber a verdadeira natureza da realidade e determinar os princípios que guiam a nossa vida começou a ser considerada obsoleta.

Ou seja, já estava claro que a “razão” havia sido instrumentalizada, e, então esvaziada. Sem querer, os ideólogos da “razão” estavam mais prejudicando a razão objetiva de fato, do que ajudando-a. Horkheimer complementa:

Quanto mais as idéias se tornam automáticas, instrumentalizadas, menos alguém vê nelas pensamentos com um significado próprio.

Ele nos lembra que neste período de relativismo, até as crianças passam a olhar para as idéias como se fossem propagandas:

A verdade e as idéias foram radicalmente funcionalizadas e a linguagem é considerada como um mero instrumento, seja para a estocagem e comunicação dos elementos intelectuais da produção, seja para orientação das massas.

A partir disso, para ele, a busca da verdade, sob controle social, passa a ser cerceada. Diante disso, conceitos como “justiça, igualdade, felicidade, tolerância” e outros perderam seu sentido intelectual. Tornaram-se meros rótulos a serem utilizados conforme conveniência.

Diz ele:

Quanto mais emasculado se torna o conceito de razão, mais facilmente se presta à manipulação ideológica e à propagação das mais clamorosas mentiras.

Quanto a isso, até agora posso dizer que Horkheimer está sendo de fato letal.

Aqui é que a coisa começa a desandar um pouco:

A filosofia positivista, que considera o instrumento “ciência” como o campeio automático do progresso, é tão falaciosa quanto outras glorificações da tecnologia. A tecnocracia econômica espera tudo da emancipação dos meios materiais de produção. Platão queria transformar os filósofos em governantes; os tecnocratas querem transformar os engenheiros em componentes do quadro de diretores da sociedade.

O problema é que ele poderia até estar certo quanto a Platão, mas não quanto aos novos cientificistas, especialmente Bertrand Russell, que havia escrito “Ensaios Céticos”, em 1928. Russell dizia exatamente o que Platão afirmava, só que com outras palavras.

Só que Russell, ao invés de Platão, não está errado. Ao invés disso, Russell mentia dizendo representar a ciência, pois em seu tempo ele já tinha pleno conhecimento da teoria de Darwin, que inviabilizaria todas as suas propostas. Ao ignorar a teoria de Darwin, e ao mesmo tempo afirmar representar a ciência, temos, claramente Russell como um mentiroso da pior espécie. A filosofia de Russell, portanto, não “considera a ciência como o campeio automático do progresso”, mas, ao contrário disso, simula a representação de ciência para a capitalização política, mesmo que seja anti-ciência mais até do que a leitura na borra do café. Como Horkheimer colocou a expressão ciência entre aspas, dou-lhe um desconto.

Ele segue:

A despeito de todas as suas diferenças, tanto Platão quanto os positivistas pensam que a maneira de salvar a humanidade é submetê-la às regras e métodos do raciocínio científico.

Novamente, talvez para Platão sim, mas não para os positivistas. Platão tinha o direito de se auto-afirmar como “enganado”, pois ainda não tínhamos Darwin, mas o mesmo não pode ser dito dos positivistas. Quem diz, depois de Darwin, que a ciência tem como função “salvar a humanidade”, com certeza é um mentiroso de marca maior.

Um pouco mais da ingenuidade de Horkheimer, que começou bem, mas realmente clica em e-mail de phishing achando que ele veio por engano:

O dogmatismo dos positivistas torna-se óbvio se examinarmos atentamente a legitimação suprema do seu princípio, embora eles possam considerar tal tentativa completamente sem sentido. Os positivistas alegam que os tomistas e outros filósofos não-positivistas usam meios irracionais, particularmente as intuições não controladas pela experimentação. Inversamente, proclamam que a sua própria compreensão dos fatos é científica, sustentando que a sua cognição da ciência é baseada na observação da ciência; isto é, proclamam que tratam a ciência do mesmo modo como a ciência trata os seus próprios objetos, através da observação experimentalmente verificável. Mas a questão crucial é a seguinte: Como é possível determinar o que pode ser exatamente chamado de ciência e verdade, se a própria determinação pressupõe os métodos de alcançar a verdade científica? O mesmo círculo vicioso se encontra em qualquer justificação do método científico através da observação da ciência: Como é justificado o próprio princípio de observação? Quando se requer uma justificação, quando se indaga por que a observação é a garantia adequada da verdade, os positivistas simplesmente apelam outra vez para a observação. Mas os seus olhos estão fechados. Em vez de interromper o funcionamento maquinal da pesquisa, os mecanismos de localização, verificação e classificação de fatos, etc., e refletir sobre o seu significado e relação com a verdade, os positivistas reiteram que a ciência procede através da observação e descrevem circunstancialmente como esta funciona.

Neste momento, Horkheimer os declara como culpados de uma petitio principii, mas poderia muito mais claramente declará-los como embusteiros e desonestos. Aliás, o próprio trecho acima já dá uma mostra de que os positivistas são mais desonestos que ingênuos. Entretanto, Horkheimer, que neste momento se torna o ingênuo da história, rotula os positivistas desta forma:

[…] os positivistas sempre se gabam da clareza e pureza lógica de suas afirmações. O impasse a que se é levado pela justificação suprema do princípio positivista da verificação empírica só se constitui um argumento contra os positivistas porque eles batizam todos os outros princípios filosóficos de dogmáticos e irracionais. Enquanto outros dogmáticos tentam justificar seus princípios baseando-os no que eles chamam de revelação, intuição ou evidência primária, os positivistas tentam evitar a falácia usando tais métodos ingenuamente e denunciando aqueles que os praticam deliberadamente.

Chega a me dar tristeza ver o quanto Horkheimer trata de maneira digna aquilo que não tem dignidade, mas nada é pior do que vê-lo tratar fraudadores espertos (mas amorais) da linguagem como se usassem estes “métodos ingenuamente”, mas a verdade é que os positivistas conseguiram, com seus truques, obter uma hegemonia nas academias, e, consequentemente, o poder.

Um pouco de constatação do óbvio abaixo:

Houve um tempo em que o Humanismo sonhou em unir a humanidade através de uma compreensão comum do seu destino. Pensou que poderia fazer surgir uma boa sociedade através da crítica teórica da prática contemporânea, que se encaminharia então para uma atividade política correta. Isso parece ter sido uma ilusão. Hoje as palavras se presumem projetos para a ação.

Aqui eu não sei do que ele está reclamando, pois o uso de palavras como projetos para a ação é uma característica inerente ao marxismo, defendido por ele. O próprio humanismo, como “esperança” para união da humanidade, também pode ser investigado e denunciado como um truque para convencer os outros a se unirem em torno de um grupo político, mas jamais uma esperança real de fato. Fingir que existe um pote de ouro no fim do arco íris não significa acreditar que este pote de fato está lá, se o objetivo for enganar incautos. Assim, humanismo pode ser sido ao mesmo tempo uma ilusão (para os funcionais), como uma eficientíssima ferramenta de poder (para os beneficiários).

Aqui está a agenda de Horkheimer:

O mandamento positivisa para que nos apeguemos aos fatos e ao senso comum, em vez de nos apegarmos a idéias utópicas, não é tão diferente da exigência de que sigamos a realidade tal como ela é interpretada pelas instituições religiosas, que no final de contas também são fatos.

Na verdade, Horkheimer está incomodado por que as utopias do marxismo foram rejeitadas pelo positivismo. Ele não deveria ficar tão incomodado, pois o positivismo apenas ensinou-lhes mais ferramentas para que estas sejam usadas na guerra política. Ao desnudar as utopias marxistas, os positivistas estavam vendendo uma outra utopia: a da “salvação pela ciência”. Só que tanto os marxistas quanto os humanistas positivistas executavam exatamente o mesmo truque: a promoção de uma utopia, vendida ao público como “científica” (aliás, o próprio Marx fez isso), que deveria superar as demais. Em termos técnicos, o humanismo positivista e o humanismo marxista são exatamente a mesma coisa, mas com âncoras diferentes.

Ao que parece, entre Horkheimer e os positivistas não há uma relação como a minha em relação a eles e os próprios marxistas. Em relação aos humanistas, positivistas e marxistas, eu os refuto em todas as suas alegações políticas, enquanto Horkheimer disputa espaço com eles no direito de vender a sua utopia. Horkheimer e os positivistas são como diferentes médiuns disputando clientes, enquanto eu seria um cético em relação aos médiuns.

Por isso, todas as acusações lançadas por Horkheimer contra o positivismo, podem ser reconstruídas em direção ao marxismo. Aqui é briga de cachorro grande.

Horkheimer conclui o livro com seu momento mais lúcido em toda a obra:

Se por evolução científica e progresso intelectual queremos significar a libertação do homem da crença supersticiosa em forças do mal, demônios e fadas, e no destino cego – em suma, a emancipação do medo então – a denúncia daquilo que atualmente se chama de razão é o maior serviço que a razão pode prestar.

Essa é a idéia!

Mesmo que Horkheimer tenha sido ingênuo em vários pontos, suas observações a respeito da instrumentalização desonesta da razão são utilíssimas. E nada melhor do que usar a razão para desmascarar aqueles que fraudam a realidade para fingir que “são donos da razão”. Mais ainda: nada melhor que usar o método científico para desmascarar aqueles que fingem falar em nome da ciência. E, é claro, não posso deixar de mencionar o ceticismo para desmascarar aqueles que dizem representar o “questionamento cético, em termos universais”, quando na verdade são crédulos de carteirinha.

Entre estes crédulos estão todos os humanistas, sejam eles humanistas tradicionais, positivistas, marxistas ou nazistas. Ao menos os funcionais, naturalmente.

Projetos de “salvação”, para capitalização política, fazendo uso de âncoras como “ceticismo”, “razão” e “ciência” (assim como outras âncoras, como “defesa dos pobres”, “defesa dos oprimidos” e “justiça social”, dentre muitos outros), devem ser colocados contra a parede sob incisivos questionamentos, nos quais é feito o uso de ciência, ceticismo e razão.

Essa é mais uma das essências do ceticismo político!

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3 COMMENTS

  1. É incrível como os esquerdistas conseguem ao mesmo tempo ter insights lúcidos e racionais mas em seguida tentam combiná-los com suas idéias delirantes, esse texto sobre o Horkheimer mostra que o coitado vivia em duplipensar e ainda assim fez boas críticas ao cientificismo.

    • Existe também o “Dialética do Iluminismo”, escrito a 4 mãos por Horkheimer e Adorno. Ainda mais radicais são as obras do Robert Kurz, autor do interessantíssimo “Manifesto CONTRA o Trabalho” 😛 E sim, infelizmente a paralaxe cognitiva meio-que neutraliza 🙁 essas bàsicamente-corretas *críticas ao mundo moderno*. Marcuse teimava numa suposta sinonímia entre “teoria crítica da sociedade” e marxismo, e Robert Kurz apostava suas fichas no comunismo “autêntico” O_o.

      • Aliás, uma análise do “Dialética do Iluminismo” (traduzido aqui bizarramente para Dialética do Esclarecimento) está a caminho.

        Analisar criticamente o material de esquerdistas e humanistas passa a ser uma diversão, o acompanhamento de um show de atrocidades.

        Hoje a noite entra um post sobre o “ceticismo político” de Bertrand Russell.

        Mais delírio pela frente.

        Abs,

        LH

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