A credulidade conveniente do “ceticismo político” de Bertrand Russell

0
109

large

Em Ensaios Céticos Bertrand Russell nos traz uma proposta de ceticismo político que serve mais como uma ofensa à inteligência do que uma proposta séria. Ela faz parte do ensaio entitulado A Necessidade do Ceticismo Político, e foi uma oração presidencial feita a União dos Alunos da Escola de Economia e Ciência Política de Londres, em 10 de outubro de 1923.

Nesta palestra, Russell afirmava que a política não nos tem dado os frutos esperados, pois os políticos (no caso, os políticos profissionais, isto é, aqueles que se candidatam ao Executivo e ao Legislativo) buscam atender aos anseios da massa, e não ao que seria “certo” na opinião dos peritos. Por isso, em sua análise, as propostas implementadas não servem para “corrigir” a sociedade, e, ao invés disso, tendem a atender principalmente uma agenda política.

Até aí, temos uma avaliação mais ou menos interessante. O problema é que, como em quase tudo que Russell escreve, ele mistura constatações lúcidas com complementos ridículos. Em linhas gerais, o discurso dele é como o daquele que afirma que “Nenhum gerente de projeto está apto a assumir a função”, mas em seguida diz que “Devemos preencher as vagas de gestão com nossos gerentes de projetos”. Mas se nenhum dos gerentes de projetos está apto, como ele quer preencher as vagas de gestão com esses gerentes de projetos? Ao que parece, o truque psicológico aqui é lançar uma constatação racional, para que a platéia o perceba como alguém lúcido e racional, para em seguida vender sua idéia bizarra. O efeito psicológico da primeira constatação é para persuadir a platéia de que estão diante de alguém racional, e, em seguida, toda e qualquer idéia absurda será vendida.

Acham que estou exagerando? Então vejam a constatação de partida:

A maioria dos técnicos não percebe que, se tivessem poder executivo, seus impulsos para a tirania se desenvolveriam e eles deixariam de ser os homens afáveis e desprendidos de hoje. São raros os que conseguem fugir ao efeito das circunstâncias sobre o caráter.

Agora vejam o que ele propõe em seguida:

Não obstante, parece imperativo, em nossa sociedade cada vez mais complexa, que os peritos adquiram mais influência do que tem no momento.

Ué, mas se ele disse, no parágrafo anterior, que os peritos, ao chegarem no poder, tendem a ter seus impulsos para a tirania mais aflorados, então como é que quer dar mais influência aos peritos?

Voltando aquilo que eu explorei no início. Russell diz que existem dois tipos de pessoas que tratam as questões públicas: um é o político profissional, e outro é o perito. Na tese dele, devemos cada vez mais duvidar dos políticos profissionais, e dar mais espaço aos peritos. Entretanto, ele entende com razão que, absorvidos pelas esferas do poder, o perito também se corrompe. Logo (e esta é a conclusão canhestra), devemos dar mais espaço aos peritos.

A coisa não faz muito sentido, mas geralmente é assim mesmo em toda a obra de Russell. Para termos uma idéia, no mesmo livro ele nos diz para seguirmos o modelo de uma vida pacífica como fazem os chineses, e que, se os seguirmos, construiremos uma sociedade pacífica. O problema é que Mao surgiu com seu genocídio na China, nos anos 50, e se tornou o líder mundial de banhos de sangue. Outra previsão de Russell é que o mundo no futuro estaria dividido entre Rússia e América. Bem, hoje em dia a América está fragilizada, e temos mais núcleos de poder como antes. Como diria o ditado popular, quem fala demais, dá bom dia a cavalo. Mesmo assim, ele se rotula como um representante de “céticos”.

Esta é a mesma lógica que constitui o “ceticismo político”, de Bertrand Russell, que na verdade é uma proposta que combina ceticismo seletivo com credulidade absurda.

Ele está certo ao notar que de fato os grupos políticos fazem apelos emocionais, apelando ao tribalismo inerente ao ser humano:

O apelo instintivo de todo movimento político triunfante é a inveja, rivalidade ou ódio, nunca à necessidade de cooperação. Isto é inerente aos nossos atuais métodos políticos e conforme aos hábitos pré-industriais. Somente um esforço deliberado pode modificar os hábitos mentais dos homens neste particular.

Até aí, é bem razoável quando ele observa esse componente presente na política. O problema é quando ele determina um “esforço deliberado para modificação”, sem dizer quem gerenciaria este esforço. Ora, se os políticos podem se associar a peritos (que se alinhem com o seu ponto de vista), então os próprios peritos seriam parte do jogo político. Em suma, o jogo político em um ambiente democrático envolve a todos, e não há como alguém deixar de participar dele. Não há evidências de que o tribalismo (componente aproveitado pelas campanhas políticas) seja eliminado por “projeto”.

Segue a proposta de Russell para o “ceticismo político”:

É possível o ceticismo político generalizado: psicologicamente, significa focalizar nossa hostilidade nos políticos, ao invés de nações ou classes sociais.

A proposta é tola e infantil, pois, mesmo que coloquemos os políticos profissionais em descrédito, ainda teremos que escolher um deles, e este é o jogo democrático. Mesmo que depositemos toda nossa desconfiança em relação aos políticos profissionais como um todo, isso ainda não nos livrará da sina de termos que escolher um deles. A técnica de propaganda Dos males o menor se encarregou de resolver este problema. Portanto, o lançamento de ceticismo generalizado quanto aos políticos não significa absolutamente nada, pois o ser humano ainda será restrito pela necessidade de escolha.

Abaixo está a proposta russelliana de dar “poder aos peritos”. Praticamente um argumento trash:

Um paliativo óbvio dos males da democracia na sua forma atual seria dar muito maior publicidade e iniciativa aos funcionários públicos. Eles deveriam ter o direito e, de vez em quando, o dever de redigir projetos de lei com o seu próprio nome e ventilar publicamente os argumentos em seu favor.

Epa, epa… Problemas muito sérios aqui.

Esquece-se Russell de que os funcionários públicos são parte de uma máquina, e atendem a um chefe, e geralmente este é… um político profissional. Ou seja, não importa a qualificação do presidente da Petrobrás, ele ainda estará submetido às vontades da Dilma. Assim como não importa se Paul Krugman ganhou o Prêmio Nobel, ele ainda estará alinhado com a agenda da esquerda. Krugman, aliás, parece que nem é funcionário público, mas ainda assim estaria qualificado entre os “experts” de Russell.

Ora, se é assim, a presença de peritos na política é apenas um elemento de marketing, pois, sempre que necessário, os políticos profissionais recorrem aos peritos, mas a presença deles não é feita para “eliminar a política partidária”, mas, ao contrário, para implementá-la com mais robustez. Isto não significa que todas as ações políticas sejam “irracionais”, pois os políticos profissionais recorrem ao que os experts sempre tem a dizer, mas, ao mesmo tempo, a política partidária também é feita com o apoio destes experts.

A política é um mal do qual nossa sociedade ocidental não pode fugir, especialmente se quiser viver em um ambiente democrático. Se optarmos pelo totalitarismo, então podemos ter uma diminuição dos jogos políticos, pois não será necessária a competição entre propostas. Mas, ao optarmos pela democracia, temos que racionalmente conviver com a noção de que os jogos políticos são parte inerente da política, e esta é uma contingência que não pode ser mudada.

O estudo da política ocidental, por qualquer perspectiva mais realista, nos mostra que devemos ser céticos em relação às propostas de peritos que se alinham a partidos no poder, ou àqueles que ambicionem chegar lá. Este acordo mútuo para seleção dos “peritos que falem pelo todo” é não só uma ilusão, como também um argumento grotescamente ingênuo e falacioso.

Em uma visão praticamente oposta a de Russell, o meu ceticismo político (de acordo com a perspectiva do duelo cético), que o supera e o refuta em praticamente tudo, defende que, ao encontrarmos  peritos falando sobre questões públicas, devemos observar a agenda dele, e, se ele estiver obtendo benefício, e ao mesmo tempo nos prejudicando, é prioritário questioná-lo, juntamente com o questionamento aos políticos profissionais com os quais ele está alinhado.

Ao invés de Russell, que divide os seres humanos na política entre políticos profissionais e peritos, opto por uma perspectiva que é muito mais coerente com qualquer análise que façamos da política ocidental: políticos profissionais e peritos não são “classes” antagônicas, mas sim atores que podem se juntar em torno de qualquer questão política, e, então, serem questionados em conjunto.

Em outra palavras, supondo que X é a posição de alguém da esquerda, e Y a posição de alguém da direita, caso um engenheiro, um funcionário público e um político profissional se alinhem com uma posição relacionada a X, e esta for inválida, é imperativo que alguém adepto de uma posição relacionada a Y questione-o, independente deste ser um funcionário público, profissional liberal ou mesmo político profissional.

Assim, caso alguém defenda uma proposta política, não é o fato desta pessoa ser um “perito”, que isso a livrará de um incisivo questionamento. Pelo contrário, o fato de alguém ser um perito aumenta a autoridade moral embutida em sua participação política, e, exatamente por isso, devemos ser ainda mais exigentes no que diz respeito ao questionamento cético em direção a ele. Isto é, o fato de alguém ser perito, ou até mesmo ter um Prêmio Nobel, não deve significar absolutamente nada em favor de alguém no que diz respeito a elaboração de uma proposta política, que deve ser questionada independentemente da qualificação desta pessoa. Uma noção a não ser esquecida jamais: qualificação técnica não implica em imparcialidade.

Vamos a uma hipótese (que é apenas uma hipótese, mas nos ajuda a começar uma investigação): Bertrand Russell é um humanista, de perfil positivista, e sabe que estes grupos fizeram historicamente melhor uso de “experts” para esconder suas agendas políticas. Como exemplo, temos os cientistas, psicólogos, sociólogos e outros, cooptados pela agenda da esquerda, para aparecer em público dizendo-se a favor das idéias dos políticos associados ao humanismo e esquerdismo em geral. Ora, não seria então a proposta de Russell a tentativa de fazer-nos dar mais atenção aos “experts” em um momento histórico no qual o humanismo e o esquerdismo se qualificaram melhor para usar estes experts a seu favor? A estratégia gramsciana de doutrinação acadêmica, surgida na época em que o livro de Russell foi escrito, pode ser muito útil aos grupos políticos que ele apoia, pois, se as academias produzem “experts” de esquerda em escala industrial, então ouvir cada vez mais os “experts” pode ser útil para a agenda de Russell.

Enfim, o ceticismo político de Russell neste caso apenas serviria para maquiar interesses que possam surgir a partir de grupos que façam melhor uso de peritos para suas implementações políticas. Logo, a proposta de Russell é uma proposta não só política, como também flagrantemente inválida. Ela não serve para resolver os “problemas da política”, mas para amplificá-los. Um motivo adicional para colocarmos ele sob o crivo cético.

O ceticismo político, conforme aqui defendido, estabelece a priorização do questionamento às alegações políticas, e obviamente não iria deixar passar batido essa sonora falha de raciocínio (além de um possível acobertamento de agenda) presente no “ceticismo político” de Russell.

Anúncios

Deixe uma resposta