Por que o ceticismo corporativo é um método fundamental em meus posts sobre ceticismo político?

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Algumas vezes fui questionado com algo do tipo: “Luciano, mas que mania é essa de ficar citando exemplos do mundo corporativo em seus posts?”. Aqui está o motivo.

A dinâmica social corporativa envolve observar todas as interações humanas no ambiente corporativo tentando olhar o que ocorre por trás das cortinas, isto é, o que está presente no hardware de cada ator, bem como o espaço ativo relacionado a cada um deles. No hardware incluo o instinto humano, o auto-interesse, o territorialismo, a manutenção da reputação, a empatia (que não é absoluta, e nem poderia), o inconsciente, o medo, a necessidade de cooperação, mas também a de competição, e, em ultima instância, os jogos políticos corporativos.

Deixe-me dar dois exemplos à partida.

No primeiro, imagine que alguém diga, em um debate no Orkut, que é “a favor do bem comum”, e você não dá muita atenção ao fato de que devia questioná-lo a respeito disso. Agora, imagine no ambiente corporativo que um outro profissional, competindo pela mesma função que você, diga “eu sou a favor dos ideais da organização”, de modo a convencer não só seus empregadores como todos os demais de que ele tem maior vantagem competitiva por estar mais alinhado com os ideais da empresa do que os outros, inclusive você. Será que você ficaria impassível diante desta afirmação do outro? Dificilmente, já que você automaticamente perceberá que sua sobrevivência no mundo corporativo pode ser impactada (em benefício de outro), e ao mesmo tempo você encontra espaço para questionar a alegação do outro.

Em outro exemplo, posso lembrar que automaticamente lançamos um olhar crítico quando um profissional começa a prometer maravilhas, sem dar ao mesmo tempo provas da viabilidade de suas propostas. Isso tende a ocorrer pois no “jogo das possibilidades” qualquer um pode falar o que quiser, e, ao mesmo tempo, impactar muitas pessoas, pois ao determinar um “cenário futuro” (mesmo que impossível), ele pode lançar uma luz negativa sobre um suposto time do qual você faz parte. Não que as organizações sejam contra as mudanças, muito pelo contrário, mas normalmente observamos com ceticismo as mudanças inviáveis, que só estão sendo lançadas para a capitalização política daquele que as professa. Entretanto, no mundo ideológico, não se lança o mesmo senso crítico em relação à proposta marxista, por exemplo. Eles podem prometer um mundo sem classes e raramente são questionados. (Embora, felizmente, isso tem mudado, e cada vez mais ceticismo tem sido lançado em relação a proposta de Marx).

Por que somos céticos com tanta habilidade no mundo corporativo, mas, ao mesmo tempo, não conseguimos ser céticos em relação às propostas lançadas no debate público? Uma das hipóteses é que, no mundo corporativo, conseguirmos “sentir” mais facilmente o impacto da interação de um oponente sobre nós, enquanto no debate público muitas vezes ignoramos este impacto. Outra hipótese pode ser o fato de que no mundo corporativo aquele que não questiona as alegações feitas por alguém que vai levar vantagem sobre ele é percebido como ingênuo (e este é um dos piores rótulos possíveis), mas no debate público o senso comum foi remodelado pela ideia de que ceticismo é algo “para questionar o sobrenatural ou o paranormal”.

Nós conseguimos perceber o que é o ceticismo por completo no ambiente corporativo, mas, na maior parte dos casos, temos uma limitação seríssima para entender como esse processo funciona no debate público.

Exatamente por isso eu trago exemplos, cada vez mais, de como funcionaria algo no mundo corporativo, para demonstrar como você reagiria se uma manobra política similar àquela utilizada por um humanista ou esquerdista em um debate fosse realizada contra você no mundo corporativo. Aos poucos, com isso, meu objetivo é fazer você “sentir” o que de fato está acontecendo com você e o seu grupo no debate público, mas, em muitos casos, é possível que você ainda não esteja percebendo este impacto. Ao elaborar um cenário similar no mundo corporativo (diante de uma proposta também similar), minha expectativa é que, aos poucos, eu consiga fazê-lo “sentir” o que ocorreria caso você deixasse passar esta interação maliciosa de um oponente no mundo corporativo.

Em mais um exemplo. No debate dos antigos céticos pirrônicos, estes diriam que a solução para o dogmatismo do mundo estaria em uma “perspectiva contemplativa em que alguém deixaria de apostar em uma hipótese, mas, ao contrário, passaria a adotar uma suspensão de crença”. Outros “céticos” a la Bertrand Russell diriam que, a partir disso, alguém poderia “assumir suas propostas a partir de um auto-questionamento, e então isso o tornaria a cada dia mais crítico”. Ah, que maravilha, por que não me disseram logo? Então no mundo corporativo, se tivermos um problemas com projetos, basta defendermos uma filosofia propondo que “dia a dia sejamos cada vez mais críticos em relação a nossas atuações em projetos”. Em outras palavras, ao invés de cobrarmos qualidade deles nos projetos, deixemos que eles se auto-validem pela “atitude contemplativa”. É claro que ao lançarmos essa proposta no mundo corporativo, vemos que ela não faz o menor sentido. Mas, em um debate acadêmico sobre ceticismo pirrônico, ainda há quem leve isso a sério. Ora, se isso funcionaria para um pirrônico, por que não serviria no ambiente corporativo? Bastaria acreditar que as pessoas praticam “suspensão de crença” ou “auto-validação” que tudo estaria resolvido, certo? Pena que a realidade nos mostra que a coisa é completamente diferente.

Aqui eu já citei três exemplos de coisas que encontrarmos em debates filosóficos que seriam motivo de piada no mundo corporativo. Isto por que, no mundo corporativo, vemos as coisas como elas são, ao invés de como gostaríamos que elas fossem, assim como vemos o ser humano como ele é, ao invés de como gostaríamos que ele fosse.

O modelo que chamo de ceticismo corporativo pode ser abstraído em uma “fórmula” muito fácil de ser guardada em sua mente. É a seguinte:

  • X = alegação apresentada em um debate público, sobre uma questão pública, e da qual você é oponente (logo, a alegação tende a lhe prejudicar, caso seja aceita)
  • Y = alegação apresentada em uma empresa, relacionada a assuntos da empresa, onde você é um profissional, e, ao mesmo tempo, esta alegação lhe prejudica
  • Se você observa X, em um debate, e não faz nada, mas observa Y, no contexto corporativo, e reage com criticismo, então temos uma incoerência
  • É importante que você avalie esta incoerência, pois impactos ocorrem tanto em X como Y
  • Sugestão: questione o senso comum que lhe faz ignorar questionamentos a X, mas ao mesmo tempo questionar exemplos de Y

Ao citar vários exemplos do mundo corporativo, tratando de questões relacionadas ao debate público, automaticamente eu aplico esta metodologia acima, com o objetivo de causar a seguinte reflexão: há algo de errado com o senso comum a respeito do ceticismo no debate público (tanto que conseguimos executar o ceticismo pleno no ambiente corporativo), e quanto mais vezes eu citar exemplos do mundo corporativo, mais induzo a essa reflexão.

Assim sendo, os exemplos do mundo corporativo tem um objetivo claro. Testar, hipoteticamente, como você reagiria, no ambiente corporativo, diante de uma alegação política.

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