Calígula e as alegações políticas

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MalcolmMcDowell_Caligula

No  filme Caligula, dirigido em 1979, logo no começo o personagem principal, interpretado por Malcolm McDowell diz: “Eu existo desde o alvorecer do mundo e existirei até que as últimas estrelas caiam do céu. Mesmo que eu tenha tomado a forma de Gaius Caligula, eu sou todos os homens, assim como não sou nenhum, e portanto  eu sou um Deus”.

Praticamente um pornozão (um tanto monótono, diga-se, de passagem) de quase três horas de duração, o filme originalmente dirigido por Tinto Brass, mas refeito pelo seu produtor Bob Guccione (dono da Penthouse), tem algumas passagens interessantíssimas com base em um roteiro de Gore Vidal. Na maioria delas, o filme mostra como Calígula mantia poder não só pela força, mas também por uma retórica despudorada, que lhe servia unicamente para a obtenção de autoridade moral.

Uma das sequências mais incômodas é aquela na qual Calígula resolve visitar seu soldado Proculus, no dia em que este faz sua cerimônia de casamento com a belíssima Livia. É quando Calígula convoca o casal para o quarto de núpcias, em plena festa de casamento, e resolve violentá-la na frente de seu marido.

Livia, ainda virgem, ouve as seguintes frases de Calígula: “Que sortuda… perder a virgindade para um descendente direto da Deusa!”. Após deflorá-la, Caligula besunta seu braço em um pote de banha, para em seguida enfiá-lo no ânus de Proculus.  Ao fim, ele deixa o casal em prantos, ambos humilhados um frente  ao outro, e pensa: “Já me diverti, agora é hora de ir embora”.

Eu não fiz nenhuma pesquisa para saber o quanto da história de Caligula é verdadeira, mas ela tem vários tons  que nos remetem a totalitários como Stalin, Castro, Pol Pot, Hitler e Mao.  O filme é mais uma obra mostrando onde o totalitarismo, como sempre regado a uma retórica de apelo à autoridade moral, geralmente termina.

Agora, relembremos a seguinte frase: “Que sortuda… perder a virgindade para um descendente direto da Deusa!”. Em suma, Calígula não pode nem sequer cogitar a hipótese dos outros  considerarem seu ato abjeto, pois ele é um legítimo descendente da deusa. Assim como Mao jamais toleraria que alguém criticasse toda e qualquer atrocidade que ele fizesse, pois ele se dizia um legítimo representante da classe proletária.

Politicamente, afirmar a existência ou inexistência de Deus  não é o maior dos problemas. Tanto um como outro são alegações. Mas caso alguém afirme que é “direto representante dos deuses” ou “que fala em nome da ciência” ou mesmo “que está a favor da classe proletária”, há uma alegação política que, como tal, gera benefícios para aquele que a propaga. Pode ser qualquer benefício: uma autoridade moral obtida, o “desligamento” do senso crítico da plateia, uma subserviência conquistada, ou ao menos um “espaço” ganho na mente do público.

Não significa que cada alegação política levará a conquista do poder, naturalmente. Alegações políticas ocorrem o tempo todo. Mas o poder, especialmente o poder totalitário, depende destas alegações políticas.

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13 COMMENTS

  1. No filme também tem uma referencia aos idiotas úteis, no caso o general que ajudou ele chegar no poder foi um dos primeiros a serem mortos.

  2. Bom,embora acredite que o esquerdismo ainda vai demorar muito para perder o espaço que conquistou ( na mídia,política e no meio acadêmico), porém os conservadores já estão começando a definir seu espaço, ainda é cedo para poder prever qualquer coisa,mas já estou começando a me surpreender com alguns deles . Mas o que é vocês acham da presidência de Marcos Feliciano , no play-ground favorito dos militantes esquerdistas http://noticias.gospelmais.com.br/pastor-marco-feliciano-presidente-comissao-direitos-humanos-50704.html,

    • Muito interessante…. PODE ser um comêço de mudanças para melhor…… Por exemplo, para disseminar a idéia de que os baderneiros e os bandidos SÃO “menos humanos” 😛 que o cidadão “de bem”.
      Seja como for, acho que o assunto merece um artigo só pra ele neste blog 🙂

    • Não dá para acusar o pastor de racista e de homofóbico. Quem procurar vídeos dele no YouTube notará que naquele em que ele fala sobre as maldições de Noé aos descendentes de Cão e Canaã, além de ter gente de pele escura tanto no púlpito quanto na plateia e entendendo na boa o que ele está falando (que é contexto bíblico), o próprio pastor fala sobre sua ancestralidade africana, visível no cabelo e no formato do nariz. Se podemos acusá-lo de algo, poderia ser de erro bíblico sobre a maldição (reforçado por isto aqui) ou má informação (como na parte de dizer que a maioria dos sul-africanos são brancos, ainda que ele tenha acertado ao falar que nem todo africano é negro, como comprovam os magrebinos):

      http://www.youtube.com/watch?v=q74IvG-KIDQ

      Em relação à acusação de homofóbico, há outro vídeo dele em que ele conversa de maneira bem diplomática com o deputado Jean Wyllys pedindo que seu minuto de discurso em uma comissão fosse respeitado por uma claque militante gay (com Marco reclamando do cerceamento que a turba gera e com o próprio Jean sofrendo para silenciar):

      http://www.youtube.com/watch?v=PH8_IhWoBDM

      Note-se no vídeo passado, descontando aí a óbvia carga militante evangélica que possui e só prestando atenção às cenas de Jean e Marco, que em momento algum o pastor foi mal-educado ou agiu com Jean de maneira diferente da qual agiria com alguém heterossexual. Porém, há um vídeo de Marco Feliciano que realmente deixa o presidente da comissão em situação constrangedora:

      http://www.youtube.com/watch?v=P__lzjvIhvg

      Tudo bem que aqui caímos naquele calcanhar de Aquiles histórico dos pentecostais e neopentecostais, calcanhar esse que não se manifesta nos protestantes tradicionais (cujas igrejas têm por tradição pendurar prestações de contas em suas portas, permitindo que o fiel saiba para onde vai o dízimo), mas ainda assim é coisa que conta contra o deputado em questão, fora o tal lance que cheira a venda de indulgências. Com certeza ninguém daria senha de cartão a alguém que venha aparentemente amigável.
      Ainda a favor de Marco, temos este vídeo em que ele fala da cristianofobia iraniana. Logo, podemos considerar que ele tenha motivos para estar na Comissão de Direitos Humanos, uma vez que cristão é tão Homo sapiens quanto religioso político de matiz marxista-humanista-neoateísta e as minorias que tais religiosos amam usar de massa de manobra. Obviamente que esses motivos não são divulgados pela mídia e muito menos seriam divulgados pelos religiosos políticos de matiz MHN, pois interessa apenas que a claque reaja a palavras-gatilho como “racista”, “homofóbico”:

      http://www.youtube.com/watch?v=uJ58olnlxm0

      Logo, o que podemos notar da claque internética que quer a destituição de Marco Feliciano é que eles não estão notando que o deputado do PSC apenas subiu à presidência da mesma por acertos partidários dos partidos nos quais a tal claque costumaria votar, bem como não notou que apenas e tão somente estão sendo inocentes úteis que protestam contra algo que da missa (ou do culto) não sabem a metade.

  3. Só um adendo, a militância gayzista quer de todo jeito desmoralizar o Marco Feliciano. No facebook mesmo, postaram uma frase desse senhor dizendo o seguinte:

    “Não tenho nenhum tipo de preconceito: na minha secretaria vou atender negros e gays como se fosse qualquer pessoa normal. ”

    Ok, alguém consegue ver alguma coisa demais nessa frase? Pois bem, tem gente que consegue.

    O dono do facebook que postou essa frase fez a seguinte declaração: “Como se fosse uma pessoa normal (aqui ele cita parte da frase). Quanto mais eu leio sobre esse senhor, mais sinto nojo.”

    E é claro, um monte de idiotas úteis seguem a manada, querendo a qualquer custo fazer parte do establishment.

    • Meu caro, com a notícia desta quinta, que era a posse na CCJ de João Paulo Cunha e José Genoino (mais Paulo Maluf, que se tornou aliado primeiro de Haddad), deu para ver a quem interessava ficar descendo a lenha no Feliciano: usaram os militantes gays de inocentes úteis para desviar o foco em relação à posse dessa comissão, que é bem mais importante que a de Direitos Humanos.

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