Objeção: Se um teísta é provavelmente honesto ao crer em Deus, um humanista não pode ser igualmente honesto ao crer na “ciência” ou na “razão”?

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Esta é uma das melhores objeções que já recebi no Facebook, e realmente é preciso dar um tratamento especial a ela.

O que o leitor quer dizer é o seguinte: Eu acuso humanistas de fraude intelectual quando eles alegam que creem na “ciência” ou na “razão”, mas não faço o mesmo em direção a um teísta que afirme que “acredita em Deus”. (Atenção: não confunda a alegação “eu acredito em Deus” com “Deus existe”, ou “eu não acredito em Deus” com “Deus não existe” – uma coisa é querer que os outros acreditem que você realmente acredita ou não em Deus, e outra coisa é querer que os outros acreditem que Deus existe ou não)

Estaria eu utilizando um peso e duas medidas? Não, e explicarei o porquê.

Antes de tudo reconheço que é possível que alguém diga acreditar em Deus, ou não acreditar em Deus, e esteja contando uma mentira. Especialmente em países com altas taxas de eleitores religiosos, é possível que um líder político se defina como crente em Deus, quando na verdade é um ateu. Suspeitas fortes recaem, por exemplo, sobre Obama, dentre vários outros líderes esquerdistas em países com alta taxa de religiosidade.

Mas ainda assim, em essência, a tendência é não chamarmos alguém de fraudulento apenas por que essa pessoa diz acreditar em Deus. Ou não acreditar em Deus.

Por outro lado, quando alguém diz que é um “discípulo da razão” ou “representante da ciência”, eu defendo o lançamento de um potente ceticismo de forma a fazer o alegador sentir o chão sumir por debaixo de seus pés caso este não prove que de fato é “da ciência” ou “da razão”.

Um dos motivos para isso está no fato de que alegações como “Deus existe” ou “Deus não existe” não são per se alegações políticas, isto é, não implicam em um ganho político para alguém caso esta alegação seja feita. Bem, ao menos em princípio…

Claro que alguém pode alegar que “acredita em Deus” apenas para conquistar uma garota crente em Deus, ou que “não acredita em Deus”, apenas para ter uma boa imagem com uma garota ateísta. Portanto, eu não estou dizendo que essas alegações não devam ser questionadas. Sempre que achar conveniente, você deve questionar qualquer alegação que queira.

Mesmo assim, alegações como “crença em Deus” ou “descrença em Deus” não fornecem, por si só, benefício político para quem as profere. Muitas vezes pode não fornecer benefício político algum.

Eu tratei, até agora, do critério do benefício político. Em resumo: alegações como “acredito em Deus” ou “não acredito em Deus” podem gerar benefício político para alguém, mas apenas em alguns casos, enquanto alegações como “represento a ciência” ou “sou o partidário da razão aqui” sempre geram benefício político para quem as profere.

Agora vamos ao segundo, e, a meu ver, mais importante critério.

Raramente vemos afirmações como “acredito em Deus” ou “não acredito em Deus” serem incongruentes com o comportamento daquele que as proferiu. Salvo raríssimas exceções, vemos um descrente em Deus usar paradigmas materialistas para explicar a realidade, assim como geralmente vemos um crente em Deus utilizar mais que os paradigmas materialistas para explicar a realidade. Note que aqui não estou fazendo juízo de valor entre essas opções, mas elas são exemplos de congruência do comportamento em relação a alegação.

Por outro lado, na quase totalidade das vezes (e na totalidade das vezes mesmo, no caso dos humanistas e demais cientificistas), quando alguém afirma que “só toma decisões baseadas no método científico”, basta investigarmos o comportamento dessa pessoa para ver que a alegação é falseada com extrema facilidade. Mais: quando alguém diz que “é da razão”, durante um debate, não demora para encontrarmos o uso de falácias, as quais são… uma fuga da discussão racional.

Em outras palavras, enquanto alegações como “eu acredito em Deus” ou “não acredito em Deus” são raramente falseadas quando avaliamos o comportamento de alguém em congruência em relação à alegação, alegações como “eu sigo o método científico para minhas decisões” ou “minha voz é a voz da razão” raramente passam incólumes pelo mesmo crivo.

Aliás, estudar a contradição entre as alegações bizarras e inválidas de humanistas, em comparação com as alegações deles ao afirmarem que são “da razão”, “da ciência” ou “do ceticismo” (em termos universais) se torna, a partir disso, uma extrema diversão.

Recapitulando: alegações como “acredito em Deus” ou “não acredito em Deus” raramente são políticas, enquanto alegações como “sou da razão” ou “represento a ciência” sempre são. E, ao mesmo tempo, no primeiro caso temos quase sempre a congruência entre comportamento e alegação, enquanto no segundo quase nunca temos a mesma congruência.

Isto me dá uma boa justificativa para chamarmos os humanistas, no uso de suas três rotinas centrais do cientificismo (“sou da razão”, “sou da ciência” ou “sou cético, em termos universais”) de fraudulentos, enquanto não faço o mesmo com alguém que alegue apenas “acreditar que Deus existe” ou “acreditar que Deus não existe”.

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14 COMMENTS

  1. Ainda que houvesse uma tentativa de alegação política dentro do teismo – “sou o representante de Deus”, “Deus fala através de mim”, “estou imbuído da sabedoria divina”, “Deus me fez moralmente perfeito” – o potencial destrutivo seria menor.

    Uma alegação política feita no ãmbito de uma religião só serve para se acumular poder naquele universo. Como a religiosidade tradicional é afeita a leis que governam a moral e o comportamento individual, não tendo a pretensão de governar o mundo nem a de se impor a outrem (só se adere a uma religião nela crendo, por livre e espontãnea vontade, e a saída é livre), o potencial de realizar estragos é muitio menor.

    Além disso, o teismo consiste, grosso modo, em crença no sobrenatural segundo algum modelo de descrição do extrafísico (os cristãos, o judaico, o hinduísta etc), ao passo que o ateismo é a negativa de crença de qualquer coisa que esteja fora da matéria. A segmentação no teismo é muito maior.

    Se todos os ateus recebessem o reforço numérico de todos os teistas menos od de um tipo, seriam maioria. Já se alguma religião específica recebesse o reforço numérico de todos os ateistas, dificilmente se tornaria majoritária em função tão-somente de tal fato. Isso porque o número absoluto de teístas é muito superior ao de ateístas, mas aqueles estão fragmentados enormemente, ao passo que todos os ateístas têm a descrença em Deus em comum.

    Não estou, absolutamente, dizendo que ateístas formam um grupo homogêneo (há os ateístas agnósticos, os gnósticos – considerando-se os sentidos originais dos termos -, os neoateus etc). Estou dizendo é que todos os ateus descrêem em Deus, qualquer que seja sua concepção; mas os teistas crêem em ao menos uma concepção de Deus, descrendo das demais.

    Há um texto seu, Luciano, lá do passado distante, demonstrando com mais objetividade que os riscos trazidos pela religião política são muito menores que os riscos trazidos pela religião tradicional.

  2. “Claro que alguém pode alegar que “acredita em Deus” apenas para conquistar uma garota crente em Deus” ou para conquistar os votos dos religiosos ingênuos como certas petistas que conhecemos… =/

  3. Ayan, o texto está muito bom, só que tenho uma objeção quanto ao ponto em que você afirma que alegar-se como o representante de Deus e da religião tradicional não traz lá esses benefícios políticos para quem afirma-se como tal.
    Numa sociedade com valores seculares mais difundidos no meio político e cultural a alegação de ”representante de ciência e da razão” certamente teria um efeito enorme, porém em uma na qual a religião tradicional ainda tem grande influência no ponto de vista cultural e no padrão moral normativo, observo(eu e mais vários, creio eu) que apresentar-se como ”representante divino”, ou colocar-se mesmo que temporariamente ao lado de líderes religiosos acaba tendo certa vantagem. Vide as situações em que padres e pastores indicam candidatos amigos, em que candidatos posam ao lado de líderes religiosos em tempo de campanha, em que há sacerdotes-candidatos, etc. A meu ver, numa sociedade mais cristianizada(na falta de termo melhor) como a brasileira, dependendo do indivíduo , do método e da postura, a relação com a religião tradicional tem suas vantagens políticas. O que você acha? hehe.

    • Eu concordo contigo. Por isso eu digo que em alguns casos, a alegação de ser um “crente em Deus” pode trazer o benefício político.

  4. Só uma pergunta: a pessoa proferir uma outra fala conhecida como: “Existem estudos científicos…” pra provar a própria tese seria uma outra forma de dizer: “Sou da ciência.” ?

    • Sim, mas não necessariamente isso é falso. É possível que alguém afirme que existem estudos científicos, e eles existam mesmo, e sejam conclusivos. Agora, quando alguém diz que “é representante da ciência”, dando a noção de que representa-a, aí é sempre falso.

      Abs,

      LH

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