O alvorecer dos novos agnósticos

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Quando Sam Harris lançou seu Atheist Manifesto em 2005, um ano após o lançamento de seu A Morte de Fé, ele queria sedimentar o que havia criado: o neo-ateísmo. Na verdade, até alguns dos próprios neo-ateus assumiram o rótulo, como Victor Stenger em The New Atheism: Taking a Stand for Science and Reason. O movimento se solidificou definitivamente em 2006, com o lançamento de Deus, um Delírio, de Richard Dawkins.

Por serem baseados em uma série de truques retóricos, todos extremamente desonestos, e uma propaganda de ódio de baixíssimo nível, os neo-ateus começaram a “queimar o filme” não só de ateus, como também de agnósticos. Não raro se apresentavam em público como “representantes de todos ateus e agnósticos”. Mas será que todos os ateus e agnósticos de fato gostariam de ficar associados a eles? Dificilmente.

Agnósticos são, em muitos casos, figuras carimbadas. Não raro destoam da maioria por seu estilo pouco habitual no trato das questões metafísicas. Um agnóstico tende a ter “prazer” de não tomar posições em questões que não permitem uma resposta certa, e ao mesmo tempo desafia aqueles dos dois lados da questão que alegam ter certeza.

Antes, revisemos um pouco a terminologia.

Opções como ateísmo ou teísmo não são mutuamente auto-excludentes em relação a agnosticismo ou gnosticismo. Um ateu pode ser agnóstico, assim como gnóstico, assim como um teísta também pode sê-lo. Pelo fato de que a crença em Deus geralmente é explicada, pelas escrituras, como algo que não deve ser questionado, a tendência é que existam menos teístas agnósticos do que ateus agnósticos. Isso leva a confusão de alguém achar que, ao tratar de questões ateístas, está tratando de questões agnósticas.

Se alguém diz “Eu não consigo saber se Deus existe, mas acredito nele”, temos um teísta agnóstico. Um ateu agnóstico diria algo similar: “Eu não consigo saber se Deus existe ou não, mas optei por não acreditar em sua existência”.

Na introdução do texto An Agnostic Manifesto, de Ron Rosenbaum, ele diz a frase que resume todo o agnosticismo: “Ao menos nós sabemos o que não sabemos”. Em gestão do conhecimento, ter ciência do quanto não sabemos (e também do que não podemos saber) é fundamental, pois priorizaremos tanto a busca do conhecimento que não temos, como também não focaremos no conhecimento que não é possível obter.

Rosenbaum, ao reviver o termo neo-agnosticismo (utilizado por Robert Anton Wilson), provavelmente o faz para responder ao neo-ateísmo, que está dando mal nome não só aos ateus, como também a agnósticos.

Rosenbaum diz:

Eu não iria tão longe dizendo que existe um “novo agnosticismo” prestes a surgir. Mas eu acho que é o momento para um novo agnosticismo, um que desafie os neo-ateus. Na verdade, os agnósticos vêem o ateísmo como um “teísmo” – tanto um credo com base em fé como as mais ortodoxas variações da religião.

Muitos ateus podem se incomodar, embora isso não ocorra comigo, pois eu sou um ateu agnóstico e reconheço isso. E é fato que tanto teísmo como ateísmo são apostas de fé, e, que portanto, não se deve apegar muito à elas no que diz respeito a tentar convencer os descrentes, tanto do teísmo como do ateísmo.

Tecnicamente, é claro que um ateu agnóstico que tende a não se apegar muito ao seu ateísmo pode se tornar revoltado com a religião e fazer campanha contra ela. Mas, nesse caso, ele está fazendo isso por causa de seu humanismo, geralmente radical, e não por causa do agnosticismo.

O agnosticismo deveria levar alguém à posição lógica de, em caso de questões para as quais não temos resposta, não ficarmos gastando um tempo excessivo tentando enfiar nossa resposta na goela dos outros.

Rosenbaum conta que foi chamado de “causador de problemas” por Terry Eagleston, que usava um discurso misticóide como aquele no filme “O Segredo”. Mas, da mesma maneira, ele é chamado de “causador de problemas” por ateus mais radicais, que não suportam ver suas certezas serem questionadas.

Uma citação de Thomas Huxley é muito convenientemente relembrada por Rosenbaum, e faço questão de adicioná-la aqui. Aqui, Huxley nos explica o princípio por trás do agnosticismo:

Este principio pode ser exposto de várias maneiras, mas todas elas se concentram em um único princípio: que é errado para um homem dizer que ele tem a certeza da verdade objetiva de qualquer proposição a menos que ele consiga produzir evidência que logicamente justifique sua certeza.

Usando este princípio, Rosenbaum desafia ateus mais empolgados questionando: “Por que existe algo ao invés de nada?”. Em geral, os neo-ateus respondem-lhe com fúria.

Ao colocar as certezas dos neo-ateus na parede, Rosenbaum chegou à conclusão de que o agnosticismo precisa se desvencilhar destes novos religiosos políticos.

Um novo agnosticismo, que é tão distante das vertentes mais fanáticas da religião, como do novo fanatismo ateísta (que, é claro, não representa todos os ateus) se torna mais do que urgente.

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24 COMMENTS

    • Souza,

      O que eu entendi do vídeo, o argumento ontológico apresenta uma coerência para a existência de Deus conforme formulada, mas não prova de fato sua existência.

      Ainda assim, é uma ótima exposição. Não conhecia o Plantinga, mas gostei da abordagem.

      Abs,

      LH

      • Luciano, ainda idéia do argumento não é provar a existência de Deus. Acontece, que se você acha apenas POSSÍVEL que Deus exista, então você tem que concordar que ele existe. Ou seja, não há meio termo [ agnosticismo ]. Ou é Ateísmo [ É IMPOSSÍVEL que Deus exista ] ou é Teísmo [ É possível que Deus Exista ]. Pois, pra esse argumento, basta a primeira premissa ser valida [ É possível que Deus exista ]. Se você concordar com a primeira, tudo segue-se logicamente.

      • Agora eu me confundi todo. Eu digo que é tão possível que Deus exista, quanto é possível que Deus não exista, então eu teria que concordar que ele existe e não existe?

      • Não, Luciano. O argumento ontóligico de Plantinga diz que se você acreditar que é ao MENOS possível que Deus exista, então você tem que aceitar que ele existe. Ou seja, não tem como ter meio termo [ agnosticismo ]

  1. Luciano, outro prato cheio para você: viu que a redação da Caros Amigos está em greve? Eles têm página no Face, bem como mais pode ser visto aqui. Olhe para as alegações dos jornalistas e compare com o tipo de pauta que eles abordam e a maneira como estão sendo tratados por quem quer o tipo de pauta que eles defendem.
    Acaba sendo uma daquelas coisas que acaba contando contra a confiabilidade de tal tipo de publicação. Fora isso, também é daquelas ocasiões em que se pode usar o marxismo-humanismo-neoateísmo para combater o próprio marxismo-humanismo-neoateísmo usando marxistas-humanistas-neoateístas como inocentes úteis no combate ao marxismo-humanismo-neoateísmo, e aqui inocentes úteis que sequer sabem que seus atos na prática combaterão a religião política na qual creem.

    • Só para dar uma ideia de como seria o uso de um marxista-humanista-neoateísta como inocente útil no combate ao marxismo-humanismo-neoateísmo, imagine aquela cena de Jurassic Park em que um tiranossauro com cérebro do tamanho de uma ervilha sem saber salva os humanos de serem mortos por velociraptores tão inteligentes quanto chimpanzés:

      http://www.youtube.com/watch?v=OJ9jTOxv7gw

      O tiranossauro não sabe que está combatendo a causa da ressurreição dos dinossauros, que a ele interessaria, pois está querendo acabar com outros dinossauros. O efeito colateral é o que acaba interessando aos humanos e sendo o mais importante da coisa.

      • E aqui, mais um texto sobre a greve na Caros Amigos escrito por alguém de espectro marxista-humanista-neoateísta, mas que pode ser inocenteutilizado contra o próprio marxismo-humanismo-neoateísmo. Luciano, taí o tiranossauro salvando os humanos dos velociraptores sem notar que ao brigar com os dinossauros menores, na prática combate uma causa que muito interessa a ele e àqueles contra os quais briga, perdendo o apoio daqueles a quem salvou involuntariamente.

    • Ainda falando da greve da Caros Amigos, o que fez o diretor da publicação? Exatamente o mesmo que fariam outros empresários mais inescrupulosos e demitiu-os alegando quebra de confiança. O engraçado é que a publicação em questão quebrou a confiança muito antes ao precarizar os funcionários, pagar-lhes pouco para o muito trabalho que faziam e outras coisas, como se uma publicação não fosse feita por seres humanos que precisam pagar suas contas.
      Fosse uma publicação de outro cunho que não marxista-humanista-neoateísta, a coisa acabaria ficando menos constrangedora do que em uma que vira e mexe mostra pessoas em carvoarias trabalhando sub-humanamente, entre outras situações de trabalho que são tão denunciáveis quanto a precarização dos funcionários que escrevem para a tal revista. Obviamente temos de lembrar que Globo, Abril, Estadão e outros que são criticados diuturnamente por tal tipo de publicação costumam ser bons pagadores, preocupam-se com o funcionário se este fica doente, depositam as obrigações legais e por aí vai.

      Luciano, a bola está pingando na área e uma postagem sobre isso é mais do que válida, pois é uma daquelas ocasiões em que um MHN mostra-se tão ruim ou pior patrão que os “malvados” em quem desce a lenha.

  2. Lembra que um dia você disse que ia escrever um artigo sobre
    a aplicação do jogo de rótulos na distinção entre ateísmo “forte” e ateísmo “fraco” ?
    Pois é, promessa é dúvida 😛

    E sim, os agnósticos vão dominar o mundo 😀

    • Antes tarde do que nunca: só agora é que eu bizoiei o tal “manifesto”, e aproveito para espinafrar o oitavo parágrafo do dito-cujo: o autor pisou na bola ao solicitar uma “explicação” para o conteúdo/proposta de um *axioma* (o Deus acima do espaço e do tempo), e de maneira insolente colocou o pensamento de São Thomás de Aquino no nível das crenças supersticiosas (provavelmente, o autor nem conhece a etimologia da palavra “superstição”) >_<

    • Em termos táticos, o cara usa todos os recursos de propaganda que tem à disposição. Faz provocação, diz que “estamos vencendo” (para animar a tropa), empacota os inimigos e polariza a discussão.

      Muito bom. (Em termos táticos, claro)

      Os conservadores agora precisam aprender a revidar.

      Abs,

      LH

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