Doutrinas banhadas em sangue

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(rascunho da primeira seção do primeiro capítulo do livro “Um novo ceticismo (ou o retorno às origens céticas?)”, em fase final de revisão e adição de notas de rodapé)

No final dos anos 60 e início dos 70, a esquerda norte-americana protestava contra a guerra do Vietnã. Para estes, o suporte norte-americano aos vietnamitas do Sul contra os comunistas do Norte era uma ofensa à liberdade. À medida em que os cadáveres de soldados ianques eram empacotados e trazidos de volta à sua terra natal, os protestos nas universidades aumentavam progressivamente em intensidade. O movimento hippie estava envolto na bandeira da “Paz e do Amor”, refestelado em sua postura em prol de um mundo mais seguro e justo.

Quando a pressão para a retirada das tropas americanas se tornou insustentável, Nixon anunciou a suspensão das ações militares. O Acordo de Paz de Paris, assinado em 27 de janeiro de 1973, encerrou oficialmente o envolvimento dos Estados Unidos no conflito. O anúncio de Nixon sobre o fim das ações militares já tinha sido feito em 15 de janeiro do mesmo ano. Um acordo de paz, atendendo aos interesses da esquerda, aparecia no horizonte como o raiar de momentos de alívio. As pombas brancas da paz finalmente poderiam sobrevoar os céus de Washington e a esperança retornaria. Ou não…

Mona Charen, em Useful Idiots, nos conta que a expectativa dos hippies estava mais para miragem do que para esperança justificada:

Houve uma sequência à Guerra do Vietnã. Por três anos e oito meses, iniciados em Abril de 1975, quando o movimento comunista Khmer Vermelho derrotou as forças de Lon Nol, a pequena nação do Cambodja foi lançada ao inferno. Os americanos, desta vez, não estavam lá para vigiar. Eles viraram as costas para o Sudeste da Ásia e apreciavam seus primeiros anos de “paz”. Mas para aqueles deixados para trás, para os antigos aliados dos norte-americanos, não existiu paz.

Em uma época em que eu pesquisava sobre os genocídios pavimentados pelas ideologias humanistas e esquerdistas, o livro de Charen foi o que me motivou a pesquisar mais sobre o fenômeno do genocídio causado pelo Khmer Vermelho, que matou entre 1,5 e 2 milhões de pessoas no Cambodja. Considerando que o país tinha cerca de 7 milhões de habitantes, temos aqui provavelmente o maior genocídio proporcional da história das atrocidades humanas. Cerca de um terço da população cambodjana foi morta sob o domínio do Khmer Vermelho, sendo metade destas mortes causadas por fome e doenças. A outra metade foi executada em campos de extermínio.

O livro Children of Cambodja’s Killing Fields: Memoirs by Survivors, editado por Dith Pran (cuja história foi contada no filme Os Gritos do Silêncio, dirigido em 1984 por Roland Joffe) traz vários relatos apavorantes, a começar pelo do próprio Pran:

Eventualmente, o Khmer Vermelho cercou Phnom Penh, e em 17 de abril de 1975, após cinco anos de guerra civil, tomou o controle, hasteando sua bandeira nas ruas. Até Janeiro de 1979 eles forçaram todos os cambodjanos a viver em campos de trabalho forçado e trabalharem de quatorze a dezoito horas por dia. Eles nos alimentaram com uma porção diária de arroz, separaram famílias, destruíram todas as instituições e a cultura do Cambodja e sistematicamente torturaram e mataram pessoas inocentes por todo o país.

Particularmente, não gosto muito do filme de Joffe. É uma obra arrastada e até enfadonha, tendo como um de seus méritos a estreia de John Malkovich (mesmo que em um papel menor) e uma trilha sonora brilhante de Mike Oldfield – especialmente o tema Evacuation, que serve como pano de fundo para a cena da entrada dos soldados do Khmer Vermelho em Phnom Penh. Ainda assim, com seus defeitos estilísticos, que deixam o filme “datado” demais (algo que não aconteceu com obras como Apocalypse Now, dirigido por Francis Ford Coppola em 1979), há especialmente uma cena marcante: aquela na qual Pran cai em uma vala cheia de corpos, digna de um filme de horror.

Por sua vez, os vários relatos trazidos na compilação de Pran, se fossem filmados, com certeza impressionariam muita gente.

No relato de Yuokimny Chan, sabemos que os esquerdistas marxistas, assim que chegaram ao poder, queriam eliminar todo raciocínio que pudesse questioná-lo. Isso sempre é uma verdade em qualquer regime de esquerda, mas assumiu um grau extremo no Cambodja:

Se alguém era suspeito de ter uma boa escolaridade ou de ser um intelectual, este poderia ser capturado no meio da noite, morto à bala ou tendo sua garganta cortada. Nenhum de nós podia questionar ou chorar. Nós estávamos fracos e doentes. Não tínhamos armas. E se deixássemos os soldados nervosos, eles podiam nos matar.

No relato da jovem Sopheap K. Hang (apenas uma criança na época do regime cambodjano), temos uma horripilante amostra do que acontecia com as pessoas mais intelectualizadas sobre a lógica totalitária do Khmer Vermelho. Ela narra um evento que jamais conseguiria esquecer: um sujeito foi assassinato por um dos líderes da ditadura comunista apenas pelo fato de ser um homem educado, isto é, alguém que sabia ler. Sopheap viu tudo por uma fresta de uma cabana:

Ele foi pego lendo uma carta de sua pobre mãe. O som das balas me causou calafrios. Minha mãe me abraçou com força quando o segundo tiro foi disparado. Eu tentei fechar meus olhos e meus ouvidos ao mesmo tempo para tentar não ouvir os tiros.

As histórias do livro são sempre apavorantes, e não raro nos questionamos: “como isso pode ocorrer ontem?” Sim, pois 1975, em termos históricos, é quase como falar em termos de semana passada.

O relato de Susie Hem é um daqueles que nos dá um alívio, ao contar os momentos finais do horror cambodjano, na perspectiva de alguém que escapou do inferno:

Em 1979, os vietnamitas vieram ao Cambodja. Ficamos livres da ditadura e da crueldade de Pol Pot. Nós vivemos em Sisophon por um ano e tentamos escapar para a Tailândia, mas meu pai foi capturado pelos vietnamitas e acabou na prisão. Minha mãe o tirou de lá, e juntos eles começaram um pequeno negócio. Continuamos tocando o negócio por dois anos antes de tentarmos escapar de novo. Finalmente chegamos à Tailândia em 1982. Uma vez que estávamos na Tailândia, tivemos a chance de vir para os Estados Unidos.

Este tipo de “final feliz” nos lembra o final de Os Gritos do Silêncio.

No filme, acompanhamos desde o início as movimentações para a tomada do poder pelo Khmer Vermelho. Dith Pran era um fotógrafo cambodjano que trabalhava para Sydney Schanberg, jornalista norte-americano de esquerda que também acreditava na “maldade” dos Estados Unidos ao proteger os vietnamitas do Sul da sede de sangue comunista. Outro detalhe inonicamente cruel: Schanberg era um daqueles que adoravam a ideologia de Pol Pot, o líder do Khmer Vermelho. Em 1975, Schanberg escreveria um artigo entitulado “Indochina sem os americanos: para a maioria, uma vida melhor” .

A faceta esquerdista radical de Schanberg não é abordada em detalhes no filme de Joffe. O personagem (interpretado por Sam Waterston) consegue fugir do país após a invasão de Phnom Penh, retornando aos Estados Unidos, enquanto Pran não tem a mesma sorte. Capturado pelos soldados de Pol Pot, Pran come o pão que o diabo amassou nos campos da morte cambodjanos. Em 1976, Schanberg ganha o prêmio Pulitzer por sua cobertura feita dos conflitos cambodjanos. Somente em 1979, Pran consegue fugir para a Tailândia e se reencontra com seu amigo Schanberg.

É com a cena do reencontro de Pran e Schanberg que o filme de Joffe se conclui, e é onde ocorre o momento mais irônico de toda a fita. O reencontro de Pran com Schanberg acontece ao som de “Imagine”, de John Lennon. Não sei se o diretor Joffé usou a música como forma de ironia. Se fez, foi genial, enquanto muitos não perceberam sua genialidade. Mas se a usou seriamente, como emblema “anti-Guerra”, podemos classificar o uso dessa canção como a pior escolha de trilha de fundo da história do cinema.

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Todas as atrocidades de Pol Pot e seus soldados foram viabilizadas por uma ação tática eficientíssima, além de uma estratégia encorpada, mas dificilmente teriam o mesmo “sucesso” se não tivessem tido como pano de fundo um sistema de crenças que é exatamente igual às ideologias pregadas por Lennon em sua música. Tanto a música de Lennon, como os discursos de Pol Pot, buscavam aquilo que defino como autoridade moral injustificada, o escudo perfeito para governos totalitários, sempre em nome do “mundo ideal, sem injustiças”.  Tecnicamente, Imagine  tem a mesma função de qualquer discurso de Pol Pot.

A dissimulação de Lennon era tanta que ele escolheu passar uma mensagem totalmente criminosa sob uma melodia piegas e provavelmente por isso escolheu tocá-la usando um pianinho dramático de fundo. Isso talvez faça com que pessoas aparentemente normais achem a música “bela”. Se ela for bela, o “Mein Kampf”, de Hitler, também o é. (E não estou dizendo que o “Mein Kampf” é válido ou “belo”)

Vamos às letras de Imagine:

Imagine que não exista nenhum paraíso,
É fácil se você tentar.
Nenhum inferno abaixo de nós,
Sobre nós apenas o firmamento.
Imagine todas as pessoas
Vivendo pelo hoje…
Imagine que não exista nenhum país,
Não é difícil de fazer.
Nada porque matar ou porque morrer,
Nenhuma religião também.
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz…
Imagine nenhuma propriedade,
Eu me pergunto se você consegue.
Nenhuma necessidade de ganância ou fome,
Uma fraternidade de homens.
Imagine todas as pessoas
Compartilhando o mundo todo.
Você talvez diga que sou um sonhador,
Mas eu não o único.
Eu espero que algum dia você junte-se a nós,
E o mundo viverá como um único

Enfim, vejamos a proposta de Lennon na música. A princípio, ele não acredita em um paraíso divino. Nem eu. Mas ele acredita em um paraíso em Terra, que só ocorrerá, é claro, se aceitarmos os paradigmas defendidos por ele. O curioso é que quando a música foi lançada o mundo todo já sabia da picaretagem marxista, mas mesmo assim ele promete “nenhuma propriedade também”, assumindo o pior da doutrina vermelha.

Já que quando ele sugere uma “fraternidade de homens… compartilhando o mundo todo”, e conclui a utopia dizendo que “o mundo viverá como um único”, podemos aproximá-lo mais da propaganda dos adeptos do governo global. Basicamente, Lennon busca aquilo que Bertrand Russell, Josef Stalin, Auguste Comte, Karl Marx, Adolf Hitler e Pol Pot sempre buscaram. Algo como: “Acredite em nossas utopias, acredite no homem, nós remodelaremos o mundo, e tiraremos os oponentes de nossa frente nesse ideal. Junte-se a nós”.

Mas e a viabilidade da proposta? Para que pensar em viabilidade se o mais importante é obter o poder com o discurso hipnótico? Se o futuro proposto é uma ilusão, os frutos colhidos após a utilização são bastante concretos, como se vê nos relatos dos horrores cambodjanos.

Normalmente noto que é especialmente crítico explicarmos para a audiência os motivos para temer aqueles que “querem salvar o mundo”. Imediamente, surge o seguinte questionamento: “Como você pode não ter vontade de salvar o mundo?” Se a coisa não for explicada nos mínimos detalhes, a tendência é que saiamos como os vilões da história.

Mas voltemos à compilação de histórias cambodjanas. Leia o que Teeda Butt Mam, que tinha apenas 15 anos em 1975, nos conta:

O Khmer Vermelho foi muito esperto e brutal. Suas táticas eram efetivas pois muitos de nós se recusaram a acreditar em suas intenções maliciosas. Seu objetivo era nos libertar. Eles arriscaram suas próprias vidas e abandonaram sua famílias por “justiça” e “igualdade”. Como poderiam estes vermes terem saído de nossa própria pele?

Teeda prossegue:

O Khmer Vermelho disse que estava criando uma nação utópica onde todos seriam iguais. Eles reiniciaram nossa nação reassentando todos e levando nossa situação à estaca zero. A nação inteira foi lançada na pobreza de forma igualitária. Mas enquanto toda a população morria de inanição, fome e abandono, o Khmer Vermelho criava uma nova classe de poderosos. Seus soldados e os membros do Partido Comunista podiam escolher qualquer homem ou mulher para se casarem. Além de mantimentos à vontade, eles adoravam ouro, jóias, perfumes, relógios importados, medicina ocidental, carros, motocicletas, seda e outros produtos importados.

Seria então a utopia uma questão não de crença, mas de utilidade? Neste caso, fazer as pessoas lideradas acreditarem na utopia serviria apenas como um motivador para a luta, mesmo que a crença em si seja uma ilusão. Isso modifica toda a questão. Ao debatermos com um esquerdista, podemos investigar se ele está entre aqueles cientes de que a utopia é uma ilusão programada para motivar adeptos, ou é um crente de fato.

Essa distinção é vital pois, caso acreditemos que todos os humanistas e esquerdistas são “delirantes”, podemos “relaxar” em termos mentais, nos desmotivando a questioná-los e investigá-los, mas será que todos são de fato pessoas vivendo de “ilusões”? Ao que parece, os líderes do Khmer Vermelho não eram nem um pouco “iludidos”, mesmo que tenham usado seus militantes como massa de manobra.

É como o caso de um garoto que carregue várias bombas em seu corpo. Ele pode ser um inocente que sequer tenha a noção de que existem bombas em seu corpo (apenas acreditou em um terrorista que as colocou lá, achando que era qualquer outra coisa), ou ter a plena noção de que são bombas. Se em ambos os casos ele não tiver o detonador em mãos, o perigo é o mesmo nas duas situações.

Para estes “inocentes”, mas perigosos pelas crenças que alimentam em potenciais genocidas, foi criado o termo idiota útil. Eu utilizo outra terminologia, onde divido um humanista/esquerdista em beneficiário ou funcional. Tratarei disto em mais detalhes no capítulo 2.

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Agora, imagine a situação de um pai de família, que viaja com a mulher e os filhos para as montanhas. Toda a família se estabelece, durante o período de férias, em um chalé. Só que em um determinado dia, o rádio noticia que há um enorme urso assassino rondando a região. A esposa pede para que todos fiquem trancados em casa, até que o local esteja seguro. Só que o urso aparece no local. O marido, por sua vez, tem uma ideologia de “abraço ao predador”, que defende que todos os animais predadores, incluindo leões, cobras, lobos e ursos, sejam abraçados. Isso se deve a uma crença na “empatia universal”. Por essa “empatia”, o instinto predador será eliminado por iniciativas como o abraço. A iniciativa dele é já abrir a porta do chalé e ir abraçar o urso. A esposa o impede. Ele insiste. Ela então lhe dá uma paulada na cabeça, deixando-o desacordado. Com isso, o urso vai embora e seus filhos são protegidos do predador.

Isso suscita algumas questões: Estará a mulher errada por não crer na empatia absoluta? Como ela pode ser tão cruel a ponto de “ser contra” tal empatia?

O fato é que não vejo essa mulher da parábola do amigão do urso como alguém “contra” a tal empatia. Acho que ela até adoraria que existisse a “empatia absoluta” surgida com atos como abraço, o que poderia significar o fim de toda a violência do mundo. Só que ela observa os fatos e percebe que abrir a porta para um urso assassino é algo perigosíssimo para a sua família. O urso em questão seria um beneficiário, que se beneficiaria da ingenuidade do homem da casa.

Da mesma forma, não sou contra o “bem do mundo”, nem contra “um mundo melhor”. Como diria Pondé, eu também me emociono com a minha bondade. Acho que todos se emocionariam com suas próprias bondades. Ora, se somos todos bons, por que se importar com a maldade humana?

Um dos motivos para suspeitarmos do discurso de “criação de um mundo justo” ou da “salvação da humanidade” não surge por não querermos que isso ocorra, mas sim pela inevitável geração de poder (incluindo a autoridade moral) dado a grupos que promovem essas idéias, mas somente a partir de uma ação não voluntária. Ora, se eles realmente querem “o bem do mundo” por que não doam 70% de seus bens para a “justiça social”?

Não temos nada contra o fato de alguém acreditar no abraço ao urso como forma de garantir a não violência. Isso desde que a possível vítima do urso seja somente o crente, não os outros. Da mesma forma é aceitável que alguém acredite na “salvação do mundo”, mas somente se isso não fazer com que nós paguemos impostos excessivos por causa de sua crença, ou mesmo que tenhamos que nos submeter a regimes totalitários por causa da mesma crença.

A “crença no homem”, uma das colunas centrais da religião política, transforma seres humanos adultos em massas de manobra, crianças em corpos de adultos, prontas para se abrirem para o primeiro estranho que lhes ofereça uma bala na saída da escola. No caso, são os beneficiários que prometem “salvar o mundo” ou “criar a justiça social”, crenças que percebo como muito sinceras por parte de muitos esquerdistas funcionais, tão sinceras como a crença no sujeito que queria abrir a porta do chalé para abraçar o urso.

Mas, da mesma forma que a esposa da parábola, não temos medo da “salvação universal em Terra” e nem do “bem social”, mas sim medo do poder que é dado às pessoas mais espertas e estrategistas (os beneficiários) por causa dessas crenças. Ela não tinha medo de uma “empatia absoluta” causada por “abraços e afagos”, mas sim medo de um urso assassino trucidar sua família inteira somente por uma ingenuidade de seu marido.

Um dos humanistas mais radicais da história recente, Sam Harris, pelo menos nos diz algo que é fundamental em termos de conscientização:

Uma crença é uma alavanca que, uma vez acionada, move quase tudo o mais na vida de uma pessoa […] Suas crenças definem sua visão do mundo; elas ditam o seu comportamento; são elas que determinam as suas respostas emocionais para com os outros seres humanos.

Afirmações como “haverá um fim da história”, “o ser humano pode superar suas contingências” ou mesmo “devemos ter um governo global” tal como qualquer outra afirmação semelhante merecem a seguinte observação, também lúcida, de Harris:

Tudo isso são meras palavras – até que você passe a acreditar nelas. Uma vez que você acredita, elas se tornam parte da própria estrutura da sua mente, definindo seus desejos, medos, expectativas e comportamentos subsequentes.

É assim que o humanismo deve ser encarado, como uma crença, que se torna parte da estrutura da mente de seu adepto, definindo expectativas e comportamentos que se seguem. Ao encararmos as crenças humanas desta forma, podemos claramente notar que não há motivos para tratarmos com luva de pelica as crenças humanistas e esquerdistas, pois estas são tanto falsas como habilitadoras da criação de verdadeiros moedores de carne humana, resultados facilmente identificados na história dos genocídios, especialmente aqueles surgidos após a Revolução Francesa. Não por coincidência, era o surgimento da religião política.

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Mas se hoje em dia somos mentalmente treinados a questionar ceticamente um leitor de borras de café ou mesmo alguém que afirme a comunicação com UFOs, esquecemos de questionar as crenças humanistas e esquerdistas.

Isto criou um cenário grotesco e cada vez mais insano, pois crentes em doutrinas perigosíssimas conseguem vender suas idéias sem muito trabalho, obtendo os resultados da aceitação destas idéias. Entretanto, se não há evidências para a comunicação com os espíritos, há evidências em contrário para os projetos de reformulação do ser humano pela ação política. Sendo assim, por que essas crenças, tão pouco justificadas racionalmente e muito mais perigosas, não são questionadas em público com a assertividade digna de um investigador do paranormal?

Foi de propósito que resolvi dedicar os três primeiros capítulos deste livro para, dentre outras coisas, resolver este enigma. Se o ceticismo faz algum sentido, é para o questionamento à crenças não-justificadas, assim como o questionamento à autoridade moral injustificada. É muito fácil comprovar argumentativamente o ceticismo que não serve a estes objetivos como vazio de significado. Meu objetivo inicial é apresentar um caso para demonstrar que o ceticismo precisa voltar a fazer sentido, e, mais do que isso, precisa voltar a ser útil.

Cada vez mais, a ciência consegue nos prover tecnologia de morte para a consecução de extermínios em larga escala. Uma crise de dimensões inter-continentais pode ativar novos genocídios, e enquanto isso hoje em dia temos um tabu que nos impede de criticarmos as mais perigosas crenças do mundo moderno. Acadêmicos encaram com extrema naturalidade o fato de questionarmos aquela nossa tia que tem medo de mau olhado, mas se aterrorizam quando questionamos utopias. O resultado é que o senso comum questiona aquilo que é injustificado e não-perigoso, e ignora aquilo que é mais injustificado ainda e extremamente perigoso.

A mensagem fundamental com a qual inicio meu caso a favor do ceticismo é a de que ele precisa de fato voltar a fazer sentido. Se você se acostumou a ver o ceticismo como algo para questionar alegações de pesquisadores paranormais e alegadores do sobrenatural, terá uma visão ampliada do que este termo significa, e enfim verá que ele não é feito apenas para lhe proteger de um leitor do horóscopo, mas também daqueles que querem tirar sua liberdade, usurpar seu dinheiro e, em última instância, tirar-lhe a vida. Em outras palavras, isso significa reconhecer que faltou questionamento aos ideólogos que defendiam Pol Pot. Em uma análise mais cruel ainda, podemos reconhecer que quase todos os grandes genocídios de nossa era tem sido causados por ausência de ceticismo daqueles que não concordavam com estas aberrações.

Se o ceticismo é o método que deveria livrar-nos de autoridades morais injustificadas, como as de Pol Pot, por que foi tão fácil para eles conseguirem obter o poder totalitário a ponto de liquidar um terço da população de um país? Será que pessoas que duvidavam do marxismo não questionaram esta crença o suficiente? Por que foi tão fácil para o Khmer Vermelho convencer tantos a se juntarem a eles?

Diz-se, com razão, que é difícil questionar alegações metafísicas. Porém, as alegações de John Lennon e Pol Pot não são alegações metafísicas. Ambas são afirmações sobre o mundo, perfeitamente testáveis, e jamais foram validadas. E, ainda assim, sempre foram e continuando sendo um meio para a obtenção de poder totalitário. Uma equação crua e incômoda nos mostra que, se de um lado tinhamos Pol Pot e seu exército dependendo de que poucos questionassem suas idéias delirantes, do outro tinhamos seus oponentes que não os questionaram em quantidade suficiente, ou com a energia necessária. Não é um exagero dizer que a falta de ceticismo é co-responsável por uma enorme gama de atrocidades.

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Esta é a primeira conscientização a fazer sobre o ceticismo. Ele não é apenas algo que serve para você fazer troça daquele sujeito que carrega seu pé de coelho no bolso traseiro. O ceticismo também pode servir para você proteger sua liberdade, sua propriedade e até sua própria vida, diante de pessoas que usarão crenças para tirá-las de você.

É o momento de falar a sério sobre ceticismo.

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32 COMMENTS

  1. Esta é a diferença entre você e outros autores de direita que lemos por aí, enquanto a maioria deles quer impor suas crenças, você usa o ceticismo contra a esquerda e o humanismo, esmiuçando as crenças deles. Isso te coloca em posição de ataque, enquanto o resto da direita fica se defendendo dos ataques deles. Termine logo essa revisão, pois não vejo a hora de adquirir o livro. Vai fazer estrago!

    • A idéia sempre foi essa. Eu posso escolher dentre vários paradigmas, ceticamente, enquanto rejeito um deles por ser o pior, no caso, o esquerdismo. No mais, grato pelas palavras.

  2. Já que é um rascunho, tem um ponto a ajustar no seu texto. é a falta de menção ao ator Haing S. Ngor, que intepretou o personagem Dith Pran no filme Killing Fields. Não vi Ngor mencionado em momento algum.

    Esse vídeo mostra cenas de Ngor como Dith Pran, principalmente a partir da metade do vídeo.

    https://www.youtube.com/watch?v=l6-he8b-s6o

    Atenção para uma cena aos 1:46 onde uma menina é doutrinada pelos marxistas para riscar em uma lousa a figura dos pais. Seguiram a estratégia de Lukacs e Gramsci direitinho, odiando a figura da família.

    Ngor ganhou o Oscar de melhor ator em 1984 como melhor ator coadjuvante.

    http://youtu.be/p9FgzH4xizU

    O livro não poderia ter tido melhor introdução.

    • Valeu pela dica, concordo contigo. Não ter mencionado Haing S. Ngor foi imperdoável. Corrigirei.

      Abs,

      LH

      P.S. – Atenção aos leitores. Aos 2:46, do primeiro vídeo que o M.M.H.E. postou, ocorre a cena em que Dith Pran cai em uma vala de corpos. Cena esta de que falei em meu texto.

  3. A esquerda é uma desgraça, enquanto deixam o país na miséria, possuem dinheiro para gastar com pompas militares. Mais um vídeo sobre o Khmer Vermelho

  4. Mais outro documentário brutal sobre o Khmer Vermelho no Cambodja.

    http://youtu.be/SIYLD5iAJOE

    A diferença é que ao contrário da Rússia e da China, os crimes cambodjanos foram mais recentes, portanto há muito material filmado. Fica difícil para a esquerda jogar isso tudo para debaixo do tapete.

  5. “Dentre as afirmações do marxismo, algumas são inverificáveis; outras, puderam ser confrontadas com a experiência e foram pela experiência refutadas. Mas no marxismo, tanto as proposições inverificáveis, quanto as que foram refutadas pela experiência, funcionam como um sistema religioso. As críticas racionais e a contestação do marxismo pelos fatos, têm sido completamente inúteis em face da eficiência que o sistema tira de seu caráter religioso”

    – Heraldo Barbuy emMarxismo e Religião

    Você está usando essa fonte em seu livro luciano?

    • Olá Pecador, não estou usando não, mas gostei da idéia.

      A citação é matadora e com certeza vai para o terceiro livro na trilogia, quando falarei especificamente da esquerda 😉

      No livro 1, falo mais do ceticismo, e apenas faço a introdução a respeito de crenças que proliferaram genocídios e não foram questionadas devidamente.

      Valeu pela dica.

      Abs,

      LH

  6. Amigo, vou deixar uns links e espero que te sirva.

    BRUCE BUENO DE MESQUITA E ALASTAIR SMITH: “KHADAFI CAIU PORQUE FOI BOM DEMAIS”
    OS AUTORES DO LIVRO “O MANUAL DO DITADOR”, SOBRE COMO TIRANOS SE PERPETUAM, DIZEM QUE O LÍDER LÍBIO FOI DERRUBADO VIOLENTAMENTE PORQUE DEU EDUCAÇÃO E SAÚDE A SEU POVO
    http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com.br/2012/08/bruce-bueno-de-mesquita-e-alastair.html
    .
    Abraço a Todos
    Osvaldo Aires

    • Osvaldo, comprei este livro há uns 2 meses, mas ainda não li.

      Valeu pela dica, e vou priorizar a leitura. Me será útil para os estudos subsequentes.

      Abraços,

      LH

  7. Aproveitando que estamos falando sobre asiáticos, postarei um comentário que acabei de ver sobre a Coréia do Norte:

    “A questão é que desde a guerra das Coreias, os EUA quer obrigar a
    Coreia do Norte a seguir seu sistema politico-socio-econômico, como os
    norte-coreanos já escolheram o seu próprio caminho (Socialismo Junche),
    os EUA e seus parceiros europeus provocam, caluniam e demonizam o quanto
    podem para descredibilizar o regime norte-coreano, além é claro das
    duras sanções econômicas nesse país.

    Os EUA e seus vassalos sul-coreanos nunca quiseram a paz com a Coreia do Norte, pois o que está em jogo são ideologias.
    95% das noticias vinculadas na grande mídia são tendenciosas e mentirosas em relação a Norte-Coreia.

    Retratando sempre os norte-coreanos como “insanos e ignorantes” e é claro os EUA como mocinho.

    A
    população mundial enquanto se mata de trabalhar e se sujeita a vários
    tipos de explorações, não tem ideia de que na Coreia do Norte moradia,
    saúde e educação são totalmente gratuitos à população. Ninguém paga
    aluguel e hipotecas pq moradia é considerada um direito.
    Porque não deixam os norte-coreanos em paz para seguirem o seu caminho???
    Claro a Coreia do Norte não possui um Banco Central vinculado ao BIS, ESSE É SEU MAIOR “PECADO”

    Os
    norte-coreanos dizem que nunca seguirão os EUA, e como eles não querem
    virar um novo Iraque, Afeganistão eles se armam até os dentes.
    Isso
    é auto-defesa, vcs acham que os norte-coreanos seriam loucos o
    suficiente para entrar em guerra com o mundo todo??? Pq fariam isso??,
    isso é pura propaganda dessa mídia ocidental porca, manipulando a
    opinião pública.

    OS EUA NUNCA QUISERAM A PAZ COM A COREIA DO NORTE, simples assim…”

    Percebam a mentalidade antiocidental. Depois me xingam quando eu digo que esse pessoal tem o que pediu para ter. A doutrinação produz efeitos inimagináveis até você testemunhá-los.

  8. LH, faço aqui o mesmo alerta que já fiz em um post aí do passado: você tem que se aprofundar na terminologia utilizada e explicar a conotação que você dá a “humanismo”. O termo é majoritariamente utilizado em acepção positiva, elogiosa, inclusive por autores de direita e/ou conservadores.

    Se isso não ficar explicado muito do seu conteúdo ficará confuso para quem não está acostumado ao uso que você faz da palavra.

      • Ela não deve ter liberado a visualização para quem não é “amigo”; é uma colega de 2º grau que fez “Ciências Sociais” no IFICS, da UFRJ. É uma pessoa afável, sabe? Minha indignação se deveu, também, às minhas supresa e choque ao ler o conteúdo. Assim que tiver acesso ao FB (estou no trabalho), vou transcrever a postagem, indicar quantas pessoas “curtiram” e, de repente, colar os “melhores” comentários.

        Fascismo pouco é bobagem! Vocês verão.

      • Eis a postagem:

        Uma vez, durante uma conversa no trabalho, uma colega disse que não queria ter filho. Diante dessa declaração, um colega respondeu “por favor, não faça isso. O mundo precisa de pessoas legais e críticas. Precisamos ter muitos filhos e educá-los da melhor maneira possível”. Quando leio alguns comentários por aqui, essa frase me vem à cabeça e tenho vontade de falar: reacionários, homofóbicos, conservadores, preconceituosos, racistas, machistas, por favor, não tenham filhos. Nenhuma criança merece ser criada por pessoas como vocês. Não usei a palavra “educada” por motivos óbvios.
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  9. Luciano, esse capítulo está bem legal. Em relação ao futuro livro, peço-lhe para que antes do lançamento o encaminhe para uma boa revisão de texto, pois vi alguns erros ortográficos que não comprometem a qualidade do conteúdo ou sua compreensão, mas que apenas lapidariam mais a obra e evitariam o fornecimento daqueles penduricalhos textuais nos quais marxistas-humanistas-neoateístas tanto amam se apoiar quando tentam contestar uma ideia para a qual não conseguem argumentação racional (claro que nada os impede de usar um Marcos Bagno básico, mas aí entramos em outros quinhentos).

    • Olá Cidadão, essa revisão do texto ainda vai ocorrer e é a revisão final, após eu concluir as notas. De acordo com meu cronograma, ocorre em Junho e Julho.

      Abs,

      LH

  10. Uma palavra define os comunistas: terroristas.
    Que atrocidades fez esse Khmer Vermelho!
    Vou ler mais sobre o que ser Ceticismo.
    Me tire uma duvida, todos os céticos não acreditam na existência de Deus? Para se cético tem que deixar religião, qualquer uma que seja?

    • Vânia, o ceticismo não implica na descrença em Deus, esse é um dos erros relativos ao senso comum que tratarei no livro.

      Um crente em Deus pode ser cético em relação aos discursos de um ateu, e um ateu pode ser cético em relação aos discursos de um teísta. Eu, como ateu, sou cético também em relação dos discursos dos humanistas, e há muitos ateus entre eles.

      O maior truque dos humanistas foi convencerem o público de que o ceticismo se limitar a questionar Deus e o sobrenatural, quando na verdade é uma ferramenta para o questionamento de toda e qualquer alegação.

      Falo disto aqui: http://lucianoayan.com/2013/03/01/ceticismo-politico-razao-e-deus/

      O que defendo é que se use contra os humanistas e demais esquerdistas o MESMO ceticismo que eles aplicaram contra a religião revelada.

      Eles não estão preparados para reagir a isso. 😉

      Abs,

      LH

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