O “admirável” mundo novo dos debates

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Todo argumento é composto de premissas e uma conclusão. Para avaliarmos a validade dessas premissas, tanto quanto a validade da conclusão, ou mesmo do argumento como um todo, podemos utilizar os guias de falácias que existem na Internet. (Pode ser o guia de Stephen Downes, ou, fora da Internet, o livro Pensamento Crítico, de Walter Carnielli, assim como qualquer outro guia ou livro)

Aí muitos estudam estes livros, guias de lógica, o Trivium e… acreditam que podem debater na Internet ou em qualquer outro ambiente onde existem discussões políticas de larga escala. (Quando eu menciono discussão política de larga escala, falo de discussões que envolvam os assuntos do estado, da nação, e de grupos que influenciem estes assuntos, que geralmente afetam a vida de muitos, ao invés de discussões políticas corporativas, que podem envolver poucas pessoas sendo afetadas)

Já que o assunto do momento é a fúria gayzista de Jean Wyllys contra Marco Feliciano, vejamos um argumento gayzista que poderia ser apresentado:

Gays são discriminados hoje em dia, e sofrem violência, e esta violência deriva das críticas que eles sofrem pelo seu comportamento, logo estas críticas devem ser proibidas.

O problema é que o argumento tem uma premissa falsa (que a violência deriva das críticas que eles sofrem pelo seu comportamento), assim como não tem nenhuma premissa que leve à conclusão: a de que críticas que possam influenciar violência devam ser proibidas, pois, nesse caso, a responsabilidade é do agressor e não da influência recebida. Por este critério, se alguém assassinar alguém por ter visto um filme violento, temos a culpa desta pessoa, e não do filme.

O argumento em si, é muito ruim, mas ainda é um argumento. Se todas as discussões políticas fossem neste nível, o conhecimento do Trivium e do guia de falácias seria utilíssimo e em muitos casos suficiente para você estar preparado para debater. (Além, é claro, do conhecimento do assunto em questão)

Mas a verdade é completamente diferente. No ambiente dos debates públicos, humanistas e esquerdistas jamais entram em campo para argumentar. Ao contrário, eles estão preparados para inviabilizar a argumentação, mesmo que, no meio de tudo, ainda insiram um ou outro argumento aqui ou ali. Mas os truques de propagandajogos de rótulos e rotinas que eles utilizam constituem o cerne de todo o discurso deles.

Não é que eles estejam cometendo simples falácias, mas sim estruturando seu discurso para evitar até mesmo que os argumentos sejam relevantes. A parte essencial do discurso deles é focada em truques de propaganda, rotinas e jogo de rótulos. E, após estes terem funcionado, a mente da plateia já aceitará os argumentos deles, e ignorará os seus. Independente dos méritos de cada argumento, já que todo esse arsenal é feito não para argumentação, mas para evitar o debate. E enquanto isso você, com seus conhecimentos de lógica, acha que está debatendo, ele já sabe que ganhou o debate sem precisar sequer debater.

Tenho visto vários debatedores de direita entrando em debates com esquerdistas, e estes, mesmo com argumentações ridículas, conseguem ganhar a mente da plateia, pois o debatedor da direita nem se prestou a refutar os truques psicológicos e as rotinas de propaganda. Ao invés disso, ele focou somente nos argumentos centrais e, por causa disso, já é motivo de chacota perante a maior parte da plateia do debate.

Um erro imperdoável é confiar “no bom senso” da plateia do debate. Muitos acham que, lá no fundo, os participantes da plateia vão, enfim, pensar sob a lógica estrita e reconhecer o bom argumentador, independente da propaganda que estiver sendo feita pela outra parte. Vá sonhando! Para te despertar desta ilusão, recomendo o livro The Shallows: What the Internet is Doing to Our Brain, de Nicholas Carr, que demonstra que cada vez mais as pessoas estão se tornando incapazes de absorver informação complexa, por causa do excesso de informação na Internet.

Eis a tese: no passado, tínhamos paciência para ler, pois não era fácil encontrar conteúdo à disposição que nos interessasse. Em tempos medievais, era esperado que alguém lendo algo se preocupasse em absorver o conteúdo em detalhes. Quanto mais a informação foi se tornando disponível em quantidade, mais opções surgiam, e menos atenção era dada a cada conteúdo específico. Isso dificilmente se tornou assunto de discussão, até que, na era da Internet, com uma quantidade de informação absurda disponível, onde grande parte dos debates são feitos por meio de “memes” e vídeo blogs, temos uma geração incapaz de absorver conteúdo complexo. (Isto não significa que o conteúdo complexo esteja com os dias contados, apenas que ele se torna cada vez menos acessível à uma nova geração que pertence ao que defino como “plateia” dos debates, ou mesmo os participantes marginais, que não pertencem a um lado ou outro das questões, e vão reagindo instintivamente ao conteúdo absorvido, podendo tomar partido de forma ocasional)

Em outras palavras, hoje em dia, com o advento da Internet, o “debatedor dialético-aristotélico” se torna uma figura que fala com as paredes. Caso ele não se preocupe em refutar os truques e estratagemas do oponente, e comunicar isso ao público de maneira rápida e certeira, seja em blogs, vblogs ou memes, ou até mesmo frases rápidas e de impacto (que possam ser reproduzidas em formatos de memes também, de preferência), toda e qualquer argumentação correta não será ouvida.

Sinto dizer que uma boa parte da direita entra em debate, mesmo com muito mais lógica em mãos, mas incapaz de comunicar sua mensagem. E, enquanto isso, o oponente humanista/esquerdista já terá ganho a plateia com um sem número de truques psicológicos, encenações, jogos de propaganda e rotinas de auto-rotulagem. É neste momento que toda o conhecimento de lógica se torna estéril.

Atenção: eu não estou afirmando que você deve ser ilógico, mas sim que, se você não perceber uma outra camada de comunicação, onde a maior parte das informações é discutida (ou seja, nas áreas ao “redor” dos argumentos, onde estão ocorrendo os truques psicológicos, os jogos de rótulos e as diversas implementações de propaganda), toda a sua argumentação de nada servirá. Caso você ignore este cenário “paralelo” da comunicação, é até melhor que você desista de argumentar em público, e passe a gravar suas argumentações no IPad, ou mesmo escrevê-las no Word, e guardá-las para si próprio. Ou, no máximo, distribuir para os amigos que já concordam com suas idéias. O restante irá te ignorar. A verdade nua e crua é a de que você não argumenta mais para o público, mas para você próprio.

O que fazer para resolver isso? Primeiramente, tire toda a “lixeira” da frente, ou seja, desmascare todo e qualquer truque que seu oponente fizer. Caso aplicável, chame-o de desonesto, e faça também o jogo de rótulos, agora contra ele. Use todas as técnicas de propaganda que seu sistema moral permitir, mas para fazer a contra-propaganda, ou seja, desmascarar as desonestidades do oponente. Sempre que refutar uma mentira, procure usar frases de efeito, e demonstre ao público moralmente o quanto é indigna e abjeta a atitude do outro. Demonstre as consequências do aceite das idéias bizarras dele. Tudo isso, é claro, em uma linguagem simples, de forma que o conteúdo possa ser aproveitado em memes divulgados por aqueles ao seu lado. Isto deve constituir a maior parte de seu esforço em debates.

Feito isso, foque na análise dos argumentos, quando, enfim, os poucos que entenderem a complexidade dos argumentos, te ouvirão.

Este é o mundo como ele é na era da argumentação na Internet.

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11 COMMENTS

  1. Eu acho sim que informações complexas estão com os dias contados, visto a artificialidade com que tudo, absolutamente tudo, é tratado pela mídia convencional hoje ( você só consegue um pouco mais de complexidade e honestidade na internet ) e como populações inteiras ao redor do mundo foram treinadas desde a infância para serem visualmente estimuláveis ( por Hollywood principalmente ), e só visualmente. A leviandade com que qualquer tema é tratado hoje ( imediatamente reduzido ao mínimo denominador comum para a audiência, que é claro, espera um show de luzes, sons e imagens interessantíssimo, mesmo quando o assunto é a prisão de um maníaco-estuprador ) ultrapassa qualquer limite sonhado pelas gerações mais velhas. Basta ver os vlogueiros no youtube e seus comentários sobre “política”, dê uma olhada no tal de Cauê Moura, um dos “sucessos” brasileiros na rede. Artificial, bisonho, infantil; porém “cool”, o que é mais que suficiente pra jovens em geral. Eis o público cativo da esquerda progressista. E isso é no mundo inteiro, não pense que nos “países civilizados do norte” é diferente não. Dê uma olhada nisso: http://www.youtube.com/watch?v=E5n4uzUgLpA e, a mesma campanha, ainda mais “civilizada” http://www.youtube.com/watch?v=HtbE5CGoQdI&list=UU2Uhn0GOuErIBhOA3T79Mkg&index=6. A questão aqui, pra mim, não é nem de dialética rasteira versus lógica honesta, é a de um povo acostumado a pensar SOMENTE através de imagens, que tem ojeriza profunda a conceitos abstratos, e que além disso, é treinado a não só considerar seu julgamento-basado-em-show sábio, mas expressá-lo, com a “righteous indignation” de um mártir, na Câmara Federal assim como no boteco da esquina. A Era da Religião é a era em que as pessoas acreditam e veneram conceitos abstratos, a nossa Era da Imagem é quando o ódio às idéias e a idolatria à experiência mostra as garras.

  2. Falando em Feliciano, segue o apanhado mais recente:

    1) Tenho notado que parte da mídia já age como se ele tivesse sido ejetado da cadeira de presidente da CDH: eis que o presidente da Câmara, Henrique Alves, sofre uma pequena cirurgia e o texto de Camila Campanerut diz que cabe ao PSC escolher “quem irá substituir Feliciano”. Porém, não devemos esquecer que foi o PSC, eleito por seus pares para presidir a Comissão, que escolheu o deputado e pastor (afinal, são duas funções diferentes e não devemos usar “deputado-pastor”) para tocar os trabalhos. O mesmo faz Emerson Damasceno ao dizer que o parlamentar não é mais o presidente de fato da CDH. Aqui podemos considerar como uma adaptação daquela estratégia de se lutar por algo que nunca existiu como se ele sempre tivesse existido. No caso do texto do xará do Fittipaldi, não pude deixar de notar algo interessante na frase “Por outro lado, ela também desnudou um antes silencioso embate que existe no Congresso Nacional, entre uma bancada conservadora e parlamentares defensores dos Direitos civis.”, como se conservadores não pudessem defender direitos e como se de fato todos os chamados conservadores o fossem, quando por vezes podem ser fabianos ou outras modalidades de marxismo-humanismo-neoateísmo que repudiam o uso da baderna e preferem mais os bastidores;

    2) Tanto se fala em estado laico (ainda que marxistas-humanistas-neoateístas o ressignifiquem para “estado ateu”) e não deixa de ser interessante notar que eles parecem querer processar Feliciano por este ter dito que a CDH era dominada por Satanás. Como bem sabemos, a justiça dos homens recusa como atenuante ou agravante para algo que se conclame o domínio por uma força espiritual maligna. Porém, parece que querem usar o coisa-ruim ao menos como argumento para escavar uma acusação de crime de honra, sendo que o mesmo só é aplicável a pessoas definidas;

    3) Também segue Marcelo Carneiro da Cunha dizendo como devemos ser cristãos, sendo que o conceito de amor cristão é universal e não leva em conta os atos das pessoas (vide ladrão na cruz). Ele fala de Feliciano, mas note-se que inclui católicos na conta (ainda mais que estes começaram a apoiar o presidente da CDH) e dá umas salpicadas básicas de neoateísmo na receita;

    4) Por fim, Elio Gaspari dizendo o óbvio: que o Congresso não pode se submeter a grupos de pressão que invadem as comissões e fazem chacrinha. Se Marco Feliciano mandou deter quem o chamou de racista, o fez não só porque alguém o acusou de algo e precisará provar, mas também porque o Legislativo precisa de silêncio e paz nos trabalhos justamente para que todos sejam ouvidos (como não foi Fernando Capez ao falar dos contaminados por chumbo em Santo Amaro da Purificação). Outra obviedade: se Marco Feliciano está lá, o está por eleição de seus pares.

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