Rótulo: Conservador

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Última atualização: 31 de março de 2013 – [Índice de Termos][Página Principal]

Sei que este vai ser um dos posts mais polêmicos deste blog, mas a avaliação pela ótica da dinâmica social é muito crua as vezes, e nos diz coisas que não gostamos de ouvir. Mas se nos acostumarmos com as informações inconvenientes, enfim poderemos aprender uma coisa ou duas.

O papo aqui é reto: é difícil existir uma expressão mais negativa que a expressão “conservador”.

Sim, eu sei que muito provavelmente você já viu algum deles comentar, orgulhosamente, “O conservador preza a experiência passada como forma de pensar o presente, em contra-ponto ao revolucionário, que entende o presente com base num futuro hipotético”. Isso provavelmente tem a ver com Russel Kirk, mas para o povo comum não tem significado nenhum. O resultado sempre será desastroso. Pode-se até dizer que candidatos de direita que venceram eleições no passado conseguiram seu intento não por causa do rótulo conservador, mas apesar dele.

Vamos então à uma análise da dinâmica social por trás do frame conservador. Enfim, o que ele significa, e como ele é percebido.

Imagine que um cidadão comum acabou de dar uma topada, jogando futebol, e perdeu a unha do dedão. A dor é horrível. Entretanto, há um sujeito que tem morfina para ser utilizada e resolver a dor de imediato. Mas um diz: “Não, não traz o anestésico, conserva”. O cidadão pensará: “Que raio tem na cabeça esse sujeito ao querer que eu continue com essa maldita dor no dedão?”. Enfim, o sujeito que “conserva” já foi percebido negativamente.

Essa é a sensação causada pela expressão “conservador”, pois nosso mundo é um cenário muito mais de sofrimento do que bem-estar. No texto “Sobre a vaidade e o sofrimento da vida”, visto em “A Vontade de Viver: Escritos Selecionados de Arthur Schopenhauer”, o filósofo alemão nos diz que a natureza “é um cenário de seres atormentados e agonizantes, que apenas continuam a existir ao devorarem uns aos outros, no qual, portanto, cada besta voraz é a cova viva de milhares de outras, e sua auto-manutenção é uma cadeia de mortes dolorosas”.

A metáfora de Schopenhauer sobre a natureza queria nos dizer que o sofrimento é uma constante, permeado por alguns poucos instantes de prazer.

Diante deste mundo, como ele é, a expressão “conservador” sempre assume um aspecto negativo para toda e qualquer pessoa que não estude a filosofia conservadora.

Em suma, se você é conservador e convive com amigos que compartilhem de sua filosofia conservadora, eles enfim podem saber o “significado” por trás do rótulo conservador, e, é claro, não irão percebê-lo como negativo. Mas, para qualquer outro fora do grupo, o conservadorismo tem muito mais chances de ser percebido como negativo do que como positivo ou neutro.

Rótulos como anti-esquerdista, realista político, direitista ou absolutamente qualquer outro sempre serão opções melhores perante o público. E se algum esquerdista afirmar “Seu, seu conservador”, a resposta poderia ser: “Só se for conservador de direita, lutando contra um conservador de esquerda, como você”. Dicas aqui.

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6 COMMENTS

  1. Muito bom o seu texto, Luciano. As palavras “direita”, “conservador” e “neoliberal” no Brasil são associadas à ditadura, totalitarismo, uso indevido de verba pública, corrupção. Portanto, é uma questão semântica, é aquele caso onde a palavra ganha outro significado. Quando você diz “política de direita” no Brasil, você está semanticamente se referindo à algo ruim, cruel, injusto.

  2. Bem, deve ter ficado claro pelo menos para alguns ( os mais sagazes entre o pessoal “de direita” ) que quando a esquerda ou grande parte dela tomou para si o rótulo de “progressista” eles já não estavam mais afim de debate equilibrado com ninguém, visto que já na definição eles atiram o oponente pra escanteio ( qual o oposto de progressista? ). Todo o appeal de esquerda hoje é “nós somos o futuro, nós somos a modernidade, nós somos cool até o osso” enquanto os oponentes se agarram à religião como sua “imagem e representação”. Não é preciso dizer que é uma estratégia mais-que-suicida, pois você entrega ao adversário toda a juventude ( inclusive a sua ) como também perde o crescente números de ateus, agnósticos ou neutros, como eu gosto de me considerar neste aspecto. E o único ramo de direita “supercool” que resta aos jovenzinhos birrentos de classe média é o Austríaco-Libertarianismo, que eu particularmente detesto, por ser completamente focado na economia e desprezar todos os outros aspectos da cultura. Um inteligente marxista americano apelidou ( e com muita razão ) austríaco-libertários de “Fundamentalistas de Mercado”. Por falar nisso, dêem uma olhada no site de um dos fronts austríaco-libertários no Brasil atacando Marco Feliciano: http://pliber.org.br.
    Sem precisar dizer que o termo conservador implora a pergunta: conservar exatamente o quê, principalmente num país com uma história marcada por dor e pobreza como esse ? O monopólio midiático ? A divisão escandalosa de classes? O sincretismo religioso tosco que forma legiões e legiões de cabeças-de-vento sem moral? O Brasil é um território muito desfavorável para os inimigos das esquerdas.

  3. Luciano, outra sugestão de mapeamento: distinguir bem o que é revolução no prisma político e como fazer para que não a confundam com revoluções trazidas por descobertas científicas (como, por exemplo, a revolução trazida pela internet na comunicação entre pessoas, a revolução que os antibióticos trouxeram à medicina e por aí vai), uma vez que marxistas-humanistas-neoateístas costumam usar esse expediente de confundir dois significados de uma mesma palavra e dizer que os contrários à revolução política também seriam contrários à revolução científica.

  4. Ótimo texto! Na mente do povo leigo, conservador é alguém que pensa que temos que viver como 50 anos atrás. Alguém que não aceita mudanças, um atrasado.

  5. Em suma: “conservador”, no senso comum, é sinônimo de “retrógrado”, “atrasado”, “ultrapassado”, “superado”, “velho”, “anacrônico”.

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