Mais do que a cara de pau de Nassif, vemos comprovada a tese de que a esquerda não está mais percebendo de onde surgem os golpes

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Antes de meus comentários, vejam uma série de 3 textos, sendo o primeiro de Rodrigo Constantino, o segundo a resposta de Luis Nassif, e por fim a tréplica de Constantino.

Texto “De volta do futuro”, de Rodrigo Constantino, publicado no Globo:

O ano é 2030. Cheguei aqui com minha DeLorean, na esperança de encontrar um país mais próspero e livre. Qual não foi minha surpresa quando dei logo de cara com uma enorme estátua de Lula!
Curioso, perguntei a um transeunte do que se tratava. Um tanto incrédulo com minha ignorância, o rapaz explicou que era a homenagem ao São Lula, ex-presidente e “pai dos pobres”. Havia uma estátua dessas em cada cidade grande do país. Afinal, tínhamos a obrigação de celebrar os 150 milhões de brasileiros incluídos no Bolsa Família.

Após o susto inicial, eu quis saber quem pagava por tanta esmola, e se isso não gerava uma nefasta dependência do Estado. O rapaz parece não ter compreendido minha pergunta. Disse que estava com pressa para entrar na fila do pão, e que seu cartão de racionamento ainda dava direito a uns bons cem gramas.

Em seguida, vi na televisão de uma loja um rosto conhecido, ainda que envelhecido. Era o ministro Guido Mantega! E pelo visto ele ainda era o ministro. Ele estava explicando o motivo pelo qual sua previsão de crescimento de 5% não se concretizou. A queda de 3% do PIB havia sido culpa da crise em Madagascar. Mas tudo iria melhorar no próximo ano.

Notei então o preço do aparelho de TV: 100 mil bolívares. Assustado, perguntei ao vendedor do que se tratava, explicando que eu era de fora. O homem disse que, em 2022, após a inflação chegar em 20% ao mês, o governo cortou três zeros da moeda. Pensei logo no bigodudo. Como isso não funcionou, o governo decidiu adotar o bolívar, moeda comum do Mercosul.

Descobri que os países “bolivarianos” chegaram a adotar o escambo, depois que suas respectivas moedas perderam quase todo o valor frente ao dólar. A moeda comum foi uma medida urgente, pois estava difícil efetuar as trocas. O criador de gado argentino precisava encontrar um produtor de soja brasileiro disposto a trocar o mesmo valor de gado por soja. Era um caos!

Levantei ainda alguns dados no jornal “Granma Brasil” (parece que o “controle democrático” da imprensa havia finalmente passado, e o governo se tornou o dono do único jornal no país). A inflação oficial era de “apenas” 30%, mas todos sabiam nas ruas que ela era ao menos o triplo disso. Um centenário Delfim Netto desqualificava os críticos do Banco Central como “ortodoxos fanáticos”.

Não havia mais miserável no Brasil, pois a linha de pobreza era calculada com base no mesmo valor nominal de
2010. Mas havia mendigos para todo lado. Um desses mendigos me pareceu familiar. Eu poderia jurar que era o Mr. X! Mas não poderia ser. Afinal, ele era um dos homens mais ricos do país, e tinha ótimo relacionamento com o governo. O BNDES era um grande parceiro seu.

Foi quando decidi ver que fim tinha levado o banco estatal. Soube que, após o décimo aumento de capital na Petrobras (que agora importava toda a gasolina vendida), e vários calotes dos “campeões nacionais”, o BNDES tinha se unido ao Banco do Brasil e à Caixa, esta falida nos escombros do Minha Casa Minha Vida, para formar o Banco do Povo. O símbolo era uma estrela vermelha.

O Tesouro já tinha injetado mais de US$ 2 trilhões no banco, para tampar os rombos criados na época da farra creditícia. Especialistas gregos foram chamados para prestar consultoria.

Com fome, procurei um restaurante. Todos eram muito parecidos, e tinham a mesma estrela vermelha na entrada. Soube então que era o resultado de um decreto do governo Mercadante em 2018. Em nome da igualdade, todos os restaurantes teriam que fornecer o mesmo cardápio pelo mesmo preço. Frango era item de luxo, e custava muito caro. Continuei faminto.

Veio em minha direção uma multidão de mulheres desesperadas protestando. Quis saber o que era aquilo, e me explicaram que, em 2014, quase todas as empregadas domésticas perderam seus empregos por causa de mudanças nas leis. Havia ficado proibitivo contratá-las. Desde então, elas vagam pelas ruas protestando e mendigando, sem oportunidades de emprego. “O inferno está cheio de boas intenções”, pensei.

Um rebuliço começou perto de mim, e uma tropa de choque surgiu do nada e arrastou um sujeito até a cadeia. Descobri que ele foi acusado de homofobia e enquadrado na Lei Jean Willys, pegando 10 anos de prisão por ter dito abertamente que preferia um filho heterossexual a um filho gay. A pena foi acrescida de 2 anos pelo uso do termo gay, em vez de “homoafetivo”.

Desesperado com tudo, eu ajustei minha máquina de volta para 2013, decidido a fazer o que estivesse ao meu limitado alcance para impedir um futuro tão maldito do meu país.

Resposta de Luis Nassif, entitulada “O Millenium e a caricatura do liberalismo”:

Por mais que tente, não consigo atinar com a lógica da partidarização da imprensa e os critérios de escolha de seus legionários.

Houve um longo período, nos anos 70 e 80, em que a inteligência era preponderantemente de esquerda. Seguiu-se o período pós-muro de Berlim e pós fim da União Soviética, o fim da era Geisel, com o fortalecimento do liberalismo e a preponderância do pensamento conservador ou liberal. A esquerda perdeu o discurso.

No Brasil, esse movimento abriu espaço para José Guilherme Merquior, Roberto Campos, os economistas da PUC-Rio, os liberais da FGV, como Paulo Guedes e Paulo Rabello de Castro. Numa fase posterior, ao grupo do Insper, a filósofos como Eduardo Gianetti da Fonseca.

De alguns anos para cá, o carro da direita degringolou. Substituiu-se o discurso conceitual pela caricatura do anti-comunismo, a inteligência pela beligerância mais tosca, cujo auge foi a escabrosa campanha de José Serra em 2010.

Por repetitivo e pouco inovador, o estilo desgastou a primeira geração neocons, incapazes de resgatar qualquer bandeira legitimadora do liberalismo. Hoje ocupam seu tempo terçando armas com os blogs e twitters de esquerda.

A cada dia, no entanto, o Instituto Millenium – onde se dá a articulação midiática ideológica – se supera. É inacreditável sua capacidade de selecionar o que de mais caricato existe na direita. Vai buscar nos guetos mais toscos personagens incapazes de qualquer refinamento intelectual.

Tempos atrás, foi um advogado que parecia ter pulado direto do navio do Almirante Pena Botto.

Agora, esse  burlesco economista Rodrigo Constantino, páginas amarelas de Veja e espaço nobre em O Globo. A quem pretendem cativar com esse primarismo? Provavelmente aos fundamentalistas do pastor Feliciano ou do pastor José Serra.

Julgam que apelando para esse padrão conseguirão formular qualquer alternativa liberal minimamente defensável aos princípios dos defensores do Estado forte?

É evidente que não. Há inúmeras teses legitimadoras do liberalismo: o empreendedorismo, a governança no mercado de capitais, a liberdade individual, a iniciativa, o combate às burocracias.

O Millenium conseguiu mediocrizar pensadores que se tornaram irremediavelmente prisioneiros da caricatura de si mesmos. Agora, nem é necessário ser pensador: basta ser a caricatura.

E, enfim, a tréplica de Constantino, no texto “A cara de pau de Nassif”:

Meu artigo de ontem no GLOBO realmente incomodou muita gente. E isso é ótimo sinal! Afinal, incomodou as pessoas que menos respeito merecem, pois são defensoras, por ideologia ou bolso, do que há de pior na política nacional: a ala podre do PT (talvez o certo seria falar em ala mais podre, pois desconheço ala decente ali).

Uma dessas pessoas foi Luis Nassif. Ele escreveu um comentárioonde sobram ofensas pessoais, mas faltam argumentos. Aliás, como de praxe na esquerda jurássica. Alguns acham que não vale a pena rebater gente como o Nassif, pois sua “opinião” seria diretamente atrelada ao interesse de quem paga sua conta. Pode ser. Mas acho que vale, sim, mostrar o modus operandi dessa turma. Afinal, a turma está no poder!

Nassif começa tentando manchar a imprensa pela escolha do meu nome como um dos tantos colunistas. Ele diz: “Por mais que tente, não consigo atinar com a lógica da partidarização da imprensa e os critérios de escolha de seus legionários”. Como se ele não tivesse partido, e como se ninguém soubesse qual é! E como se os critérios de escolha fossem únicos e partidários…

Resta Nassif explicar, então, porque no mesmo jornal O Globo escrevem liberais como Paulo Guedes e eu próprio, e socialistas declarados como Verissimo, fora tantos outros colunistas ou convidados com forte viés de esquerda. A acusação de “partidarismo”, como se vê, vem à tona apenas quando um dos lados se manifesta com firmeza, de forma direta: o lado liberal. Ser partidário do PT pode, segundo Nassif. Haja cara-de-pau!

Em seguida, Nassif parece sentir saudades de um tempo em que a inteligência estava com a esquerda. Sério? Quando foi isso? Ele diz: nos anos 70 e 80. Ou seja, quando muitos ainda defendiam o nefasto regime socialista, aquele que ceifou a vida de 100 milhões de inocentes, e espalhou muita miséria e escravidão pelo planeta. Se isso é inteligência, eu nem quero saber o que é burrice! Talvez pensar que não há gente inteligente no público para detectar as próprias burrices, não é mesmo?

Depois, Nassif tenta me desqualificar como ícone do liberalismo, citando nomes como os de Roberto Campos, Paulo Guedes e Eduardo Giannetti da Fonseca. Ora bolas, são todos admirados e respeitados por mim, mas não por eles, os petralhas! Roberto Campos era chamado de “Bob Fields” pela canalha, e era alvo de ataques virulentos, os mesmos que fazem direcionados a mim agora (aliás, não parem, pois vejo a gritaria da corja como combustível para minha batalha por mais liberdade).

À frente, Nassif acusa os liberais de anticomunistas caricatos, e de beligerantes, citando Serra como exemplo. Oh God! Entenderam? Beligerantes não são os petistas que Nassif puxa o saco. Imagina! Sabem aqueles discursos verborrágicos e raivosos do Lula, que tenta segregar o povo, dividir para conquistar? Nada beligerante. Agressivos são os liberais! E de uma vez por todas, Nassif e demais petralhas, parem de incluir José Serra no rol dos liberais! Ele não é, nunca foi, e pelo visto jamais será um de nós. Ele é um esquerdista de alma e corpo. Pergunte a ele!

Em momento de auge da cara-de-pau, ainda tentando me desqualificar como porta-voz do liberalismo, Nassif diz: “Há inúmeras teses legitimadoras do liberalismo: o empreendedorismo, a governança no mercado de capitais, a liberdade individual, a iniciativa, o combate às burocracias”. Sério mesmo? E Nassif não sabe que essas são bandeiras que eudefendo, contra justamente os petistas que ele defende? A quem você quer enganar? Esse discurso “legítimo” do liberalismo, segundo você mesmo, é execrado pelos seus “patrões”. Menos, Nassif…

Por fim, teve gente acusando o artigo de “homofóbico”, por causa do parágrafo sobre a hipotética (ou seria profética?) Lei Jean Wyllys, que prenderia alguém por externar sua preferência por um filho heterossexual. Os que pensam assim ignoram que passaram recibo, que concordam que é “homofobia” simplesmente preferir um filho hetero. Viram só como estou no caminho certo em minha distopia?

Se depender dessa gente, amanhã será crime você não ser indiferente quanto à escolha sexual de seu filho. Não é mais preciso odiar, desrespeitar, agredir um gay para ser homofóbico. Para ser “homofóbico”, você precisa apenas pensar e dizer que não é indiferente ao fato de o filho ser macho ou gay. Quando vemos isso, conseguimos expressar até mesmo um pinguinho de simpatia pelo pastor Feliciano, não é mesmo? Olha o que gente como o Nassif consegue fazer comigo!!!

MEUS COMENTÁRIOS

O que ocorre aqui?

Simplesmente aquilo que eu havia previsto em meu texto, Esquerdista, tenha medo, tenha muito medo da nova pluralidade anti-esquerdista.

Vejam o que ocorreu com Nassif. Ele viu um texto de alguém apoiando o direito de liberdade de expressão de Marco Feliciano, identificou que era da direita, e automaticamente associou seu oponente à religião.

Entretanto, hoje em dia o ataque à esquerda não é exclusividade da direita religiosa. Pelo contrário, é premissa de todos aqueles que desconfiem de estados inchados. E esta pessoa pode até ser um ateu, como Rodrigo Constantino.

Aliás, Constantino chega a beirar o extremismo neo-ateu em determinados momentos. Ele e Feliciano são oponentes. No entanto, ambos discordam do totalitarismo de esquerda.

Ao não perceber que agora existe uma pluraridade no discurso anti-esquerda (o que é ótimo, em termos de dialética negativa), Nassif não consegue sequer atingir Constantino e ainda sai queimado.

Sinal de que este caminho é o melhor a seguir na luta contra a esquerda.

O abandono do purismo quanto às filosofias da direita, junto com uma unidade na rejeição às de esquerda, é o caminho para deixar os esquerdistas tontíssimos.

É como se eles, no meio de uma luta, tivessem areia lançada sobre seus olhos. Passam a dar socos no vento.

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9 COMMENTS

  1. O problema das militâncias atuais é estereotipar qualquer oponente ideológico seu como um fundamentalista religioso, criando no imaginário popular um inimigo cristão. É bom ver pessoas ateístas como Rodrigo Constantino denunciando essas fraudes intelectuais que permeiam a atual sociedade brasileira e o perigo do já antevisto totalitarismo de esquerda que ronda nossa nação. Acredito que muitos pensadores cristãos poderiam adotar as estratégias de Gramsci e Alinsky, não tomando partido religioso, na verdade, até se travestindo de ateus (ateus políticos, hehehehehe!!!) e detonar as bases das ideologias esquerdistas. Pensadores como Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo e outros tantos são rotulados como religiosos pelos neo-ateus, numa clara tentativa de desapreciar seus argumentos perante à atual juventude universitária bombardeada pelos ensinamentos esquerdistas.

    • Augusto, é isso aí: aprender com Alisnky e Gramsci já é metade do caminho. A esquerda usa essas rotulagens por que elas funcionam. O resultado está aí.

      Abs,

      LH

    • Olavo é tido como medieval por eles, vá até o facebook dele. Vários esquerdistas, humanistas, neo-ateus, ou simples “papagaios” vivem acusando-o de extremista, sofista e tudo mais.

    • Interessante a estratégia de se fazer de ateu, mas teria que ver se ao adotá-la já não se estaria de certa forma entrando na estratégia esquerdista — a do credo q os religiosos são menos capazes e etc –, não tenho base pra saber deste ponto, porém é inegável que quando pessoas como Olavo e Reinaldo se advogam religiosos, eles acabam por dar um suporte a muitos religiosos — principalmente jovens — que veem suas crenças bombardeadas e desmerecidas, além de quebrarem o rótulo que os religiosos são menos inteligentes, é impossível acreditar nisso quando se ouve um Olavo por exemplo, veja bem, estou tratando unicamente do lado da digamos “direita”, é claro que as pessoas com tendência à esquerda ficaram bravas e desmerecerão um Olavo, porém o rótulo que os religiosos são menos inteligentes consegue mais que vantagens no debate, ao meu ver, ele incute nos religiosos de certa forma a crença de que realmente são menos inteligentes!(existe uma pesquisa sobre isso, mas não me lembro se vi aqui ou no MSM). No mais, acredito que se o Olavo ou Reinaldo nao fossem católicos eles seriam taxados de qualquer outra coisa, até porq nas univeridades — pelo – na minha — , não é q os professores taxam eles de religiosos e sim q simplismente são nomes q não podem ser citados e quando o são — por um aluno — os prof tratam logo de ridicularizar, com uma certa incopetência é vdd haha. Apenas levantei alguns pontos, porém esta tática ao meu ver pode ser de grande utilidade.

      Acho que essa estratégia de se fazer de ateu tem q ser pensada, no meu caso acredito q vou adotá-la, pois embora ela tenha desvantagens ela tbm tem vantagens e no meu contexto atual ela só terá vantagens…

  2. É engraçado como um “jornalista conceituado” como o Constantino demostra tantos desconhecimentos conceituais e conjunturais. Primeiro conceituando de forma tristemente equivocada o que ele acha que é um “regime socialista”. Segundo, e pior, é a pobreza nas analises de conjuntura, como cair naquele senso comum de que toda politica social do PT (as quais tenho minhas criticas) são meramente populistas. Ou quando demostra um enorme desconhecimento do que seria o marco regulatório das telecomunicações no Brasil. Ou ainda quando usa a expressao “paises bolivarianos” de forma insinuada, pejorativa, o que revela que ele nao tem ideia dos avanços sociais que acontecem em alguns paises realmente de esquerda na America Latina. Esse é um retrato da rica politica brasileira, um governo longe de contemplar os anseios sociais e uma oposição ignorante e totalmente equipada de má fé.

    • Paulo,

      Não adianta citar “Isto é errado”, mas sim apontar os erros. Senão fica a crítica não especifica, que é só um desabafo.

      Por exemplo veja quando você escreve “Ou quando demostra um enorme desconhecimento do que seria o marco regulatório das telecomunicações no Brasil”.

      Você deveria escrever “Ou quando demostra um enorme desconhecimento do que seria o marco regulatório das telecomunicações no Brasil, pois ele disse X, mas na verdade é Y”.

      Assim fica difícil levar um contra-ataque a sério, não acha?

      Atenção: neste blog defende-se o CETICISMO POLÍTICO, então exigimos evidências, argumentativas e/ou empíricas.

      Abs,

      LH

  3. Luciano, este é um momento em que sabemos que há combate à vertente gramsciana do marxismo, mas não sabemos se é religião versus marxismo ou o marxismo-humanismo-neoateísmo que pode ser usado como inocente útil no combate ao próprio marxismo. Lembra um pouco aquilo que aconteceu quando o Collor pediu que as pessoas que o apoiassem fossem à rua de verde e amarelo e o que vimos foi uma multidão de preto.
    O Femen conclamou que no dia 4 de abril as muçulmanas femenzassem, até em um contexto de apoio à tunisiana que foi ameaçada de morte por ter feito o que as ucranianas costumam fazer, mas uma muçulmana resolveu fazer o oposto e apareceu de hijab.

    Mais ainda, a líder do “Femen às avessas”, Sofia Ahmed, considerou o grupo do Leste Europeu como análogo às Cruzadas e ao Taliban e etnocêntrico (aqui podendo inclusive lembrar do racismo e preconceito de origem que Marx e Engels possuíam e que pode ser visto nos escritos que os marxistas fazem questão de que o povo não conheça). Em relação à analogia com Cruzadas e Taliban, podemos pensar algo parecido em uma perspectiva judaico-cristã da coisa, uma vez que a tal “marcha para dentro das instituições” de certa forma pode ser considerada como uma forma de dizer que as pessoas devem se comportar assim ou assado.
    Porém, uma preocupação que devemos ter é a de dizerem que o Femen é uma espécie de imperialismo do Ocidente sobre o mundo islâmico. Não esqueçamos de que no próprio Ocidente há repúdio amplo ao Femen (vide os franceses descobrindo ex-prostitutas de luxo no movimento ou mesmo botando-as para correr e as passeatas do Femen Brasil sendo vistas como aquelas manifestações de mendigo esquizofrênico, isso para não falar que no Leste Europeu as manifestantes são tratadas de forma bem mais dura que as enérgicas atitudes francesas ou os brasileiros respeitando apenas e tão somente a liberdade de expressão delas, e nada mais). Por que digo isso? Porque um ocidental poderia ser visto como colonizador por um islâmico por causa de um Femen da vida, ainda que o tal “Femen às avessas” esteja sendo feito por mulheres muçulmanas no Ocidente (aqui, sempre tendo de pensar no potencial de espalhar isso para o mundo islâmico em geral).

    O movimento, que tem página no Face, acaba também trazendo uma coisa importante que pode ser aplicada também pelos ocidentais. Além de essas muçulmanas estarem rejeitando ostensivamente o Femen, um de seus slogans é o seguinte: Oooops, I forgot to be oppressed, too busy being awesome!” (“Ops, esqueci de ser oprimida. Estou muito ocupada sendo incrível”). Logo, como se nota, elas estão dando de ombros para quem supostamente estaria agindo do jeito que está agindo do jeito que age dizendo que é para o bem delas. Não é muito diferente dos japoneses que vieram para cá no começo, tiveram a eles associados estereótipos extremamente negativos, mas esqueceram de ser oprimidos e resolveram ser incríveis (coisa essa que também foi repetida por judeus, coreanos e chineses no Brasil). Eles simplesmente resolveram agir como pessoas normais e fizeram a sua.
    Isso, na prática, é dar aquela risada mais gostosa na cara desse pessoal. É mais ou menos parecido com aquele vídeo do YouTube em que o pessoal da FFLCH deu de ombros para os estudantes profissionais e integrantes do Sintusp e foram para a aula:

    http://www.youtube.com/watch?v=p7VSkHcV4jQ

    O mais interessante da coisa é que começou como uma reação a uma femenzice (uma integrante em pose de reza muçulmana, usando uma barba postiça, um turbante verde e o torso nu com os ditos “Viva topless jihad”). Como se pode observar, o feitiço virou contra as feiticeiras e as muçulmanas resolveram simplesmente ser muçulmanas. Porém, em vez de agir de uma forma violenta, que acabaria por validar a ação do Femen, resolveram agir na maior das pazes e humor. Veja o quanto de imagens de muçulmanas coradas e saudáveis fazendo piada com o suposto status de oprimidas.
    Por enquanto, é movimento de Facebook, o que não nos faz perguntar de onde veio o dinheiro. Pode de fato ser algo espontâneo, mas nunca devemos descartar que possa ter havido uma mente por trás com interesse (vide movimento hippie sendo filhote direto dos marxistas culturais que estavam nas universidades e que só agora sabemos não ser algo exatamente espontâneo). Porém, o mais importante de tudo é falar o seguinte: “eu não aceito que me vejam como oprimido nem preciso que me libertem”. Imagine se virmos algo em massa na parte estritamente ocidental, envolvendo:

    1) Pessoas de ancestralidade africana não aceitando os ditames do movimento negro e dizendo “eu esqueci de ser oprimido porque estava muito ocupado sendo incrível”;

    2) Gays rejeitando serem ovelhas de uma militância que os pastoreia para, por exemplo, odiar Marco Feliciano e por extensão os evangélicos sem sequer prestar atenção sobre se eles de fato estão matando homossexuais e sobre quem é que de fato está matando homossexuais quando vemos as estatísticas do Grupo Gay da Bahia;

    3) Mulheres em geral mandando as feministas às favas e recusando-se a se ver como oprimidas por escolherem o que escolhem;

    4) Índios recusando tutela de ONGs que querem deixá-los em um permanente neolítico;

    5) Obesos parando de aceitar ideologização de sua adiposidade e emagrecendo não apenas como forma de ganhar saúde, mas também como atitude política para mostrar que dão de ombros a quem diz que beleza é algo socialmente construído.

    Como pode observar, dá para imaginar uma série de quadros que permitiriam que se usasse o que o Muslim Women Against Femen pode desencadear se sua mecânica for seguida por outros. O principal é desnudar o rei e não me surpreenderia se, enquanto inocente útil, o Femen comece a ser descartado após esse episódio (assim como as Marchas das Vadias estão minguando).

    • Mesmo que se descubra que são líderes muçulmanos usando suas confrades de inocentes úteis, ainda assim não perde a validade a dinâmica da ação que está sendo mostrada, pois mostra ao mundo que ditos oprimidos não querem que terceiros pensem por eles, bem como mostra que esses ditos oprimidos querem viver e vencer por seus próprios méritos (e se houver uma pequena ajuda, que seja a de amigos de verdade, em vez de militantes interesseiros ou estado querendo usá-los para meter mais a faca no povo como um todo), ter exatamente os mesmos direitos (e deveres) de um homem branco, heterossexual e cristão (em vez de cotas ou leis específicas), exprimir suas opiniões com a certeza de que não haverá um enxame de robozinhos distorcendo de má fé as coisas (o que é diferente da contestação educada), poder conviver ou não com as pessoas (em vez de ser obrigado a conviver com quem não se quer só porque se você recusar o convívio seria um preconceituoso, sendo que pode-se recusar o convívio com uma pessoa dos ditos grupos oprimidos porque ela seria chata, interesseira, desregulada da cabeça, entre outras coisas), poder gostar ou ser gostado pelas pessoas (em vez de ser obrigado a gostar delas ou outros serem obrigados a gostar de você) etc.
      O que esse movimento está mostrando é o seguinte: para que marxistas-humanistas-neoateístas consigam a projeção que conseguem, é fundamental que os alvos de sua pregação creiam estarem sendo oprimidos, coisa que se por vezes conseguem semeando mentiras deslavadas sobre os ditos oprimidos, como as mostradas neste documentário sobre o que feministas fizeram com garotas suecas:

      http://www.youtube.com/watch?v=yn3cHsHnUPM

      Se o dito oprimido vira-se para aquele que diz que um terceiro é opressor e está o tempo todo tramando contra ele e diz algo como “fala com minha mão”, o encantamento cai por terra e o MHN (ou mesmo um movimento MHN inteiro) passa a pregar para o vento. Tudo bem que o movimento das muçulmanas age também na base do oprimido-opressor (acusam o Femen de imperialismo ocidental), mas ainda assim estamos vendo o tal lance de “não aceito que me vejam como oprimido nem aceito que chamem um terceiro de opressor. Aliás, eu te vejo como opressor, apesar de você dizer que quer meu bem”. É algo que vai além do simples “(insira aqui alguém ou algo) não me representa” e passa a ser “não quero que (alguém ou algo) me represente nem autorizo que (alguém ou algo) diga que me representa”. E, como pode observar, até agora foi na maior das pazes (até porque esse pessoal sacou que uma resposta violenta pode ser usada pelos MHNs para capitalização contra a sociedade inteira. Logo, com tal postura, o MHN fica parecendo aqueles maluquinhos de rua que dizem ter pego uma top model ontem: você até respeita a pessoa e ouve o que ela tem a dizer, mas apenas o faz por educação e não vai acreditar no que ela diz.
      E, como já disse antes, não me surpreenderia se exatamente a mesma dinâmica fosse usada para outras coisas. O tal do “esqueci de ser oprimido porque estava ocupado sendo incrível” é simplesmente fantástico por ser o equivalente ao “diga não às drogas, mas seja educado, diga ‘não, obrigado'” (Rita Lee).

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