Reconstruções: Como a reconstrução sobre James Randi e o neo-ateísmo ajudou a criar o paradigma deste blog

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O método da reconstrução com base em reutilização de códigos, que utilizo (inspirado em uma visão reconstruída da reconstrução de John Dewey), é aquele no qual conseguimos absorver todo conteúdo útil a nossa volta para o que quisermos, desde que logicamente justificados, e enfim conseguir aprender tanto com amigos quanto inimigos.

Foi provavelmente este paradigma que gerou a criação de meu sistema de pensamento, resultando em meus testes nas redes sociais, entre 2005 e 2009, e a criação deste blog em 2009.

Com o tempo, notei que inconscientemente eu tinha aprendido com alguém a quem considerava inimigo político (e, pelo seu humanismo, ele ainda é, ao menos nesse quesito): James Randi. Entretanto, reconstruí o modelo dele de ação, utilizado para o ceticismo combativo quanto aos paranormais, e o apliquei a alguns grupos:

  1. Entre 2004 e 2007, os céticos de Sagan.
  2. A partir de 2009, os neo-ateus.
  3. A partir de 2010, todos os esquerdiststas.
  4. E, enfim, a partir de 2011, todos os humanistas.

A lógica é muito simples. Chamemos este método de Aplicação_do_Ceticismo_Randiano, com o “código” principal abaixo:

  • No universo de eventos, há algo como uma alegação de uma outra parte, que normalmente traduz-se como uma crença.
  • Se é uma alegação, e fala sobre fatos do mundo, ela é testável.
  • Se for testável, ela pode ser validada ou invalidada.
  • Se for invalidada, ela pode ser ridicularizável, ou não.
  • Se for ridicularizável, é importante ridicularizar o proponente da crença, para neutralizar seu efeito.
  • Em análise paralela, a alegação pode ter consequências adversas em seus descrentes ou não.
  • Se tiver, é importante apontar para o público a consequência adversa da aceitação desta alegação, para mostrar que este grupo é perigoso.
  • Em todo o processo controle o frame, jogue o jogo de rótulos e aplique as técnicas de propaganda necessárias para isso.

Todo o “código” que traduz o método (e por código entenda como o conjunto de instruções, no caso, o parágrafo acima, como se fosse no universo da programação de computador) foi testado no curso das atuações de James Randi.

Uma versão “refatorada” deste método surgiu com o neo-ateísmo, onde todo o código de Randi foi priorizado para a religião tradicional, e novas instruções foram adicionadas.

Tudo aquilo feito anteriormente foi mantido pelos autores neo-ateus, mas podemos mapear algumas instruções adicionais. Enfim, o método Aplicação_do_Neo-ateísmo contém tudo que o método Aplicação_do_Ceticismo_Randiano contém, mais as instruções:

  • No caso da ridicularização de alegações, caso as alegações não sejam ridicularizáveis, desconstrua-as, para torná-las ridicularizáveis.
  • No caso das consequências adversas apontadas, caso não existam consequências adversas identificadas, utilize o historicismo, desconstruindo os eventos históricos, para atribuir todas as culpas do passado à crença oponente.  
  • Em adição, leve os processos de controle de frame, jogo de rótulos e técnicas de propaganda às últimas consequências, sempre, conforme acima, utilizando a desconstrução. 
  • Crie e exponha teoricamente como o mundo será muito melhor sem os proponentes de todo o conjunto de alegações sob ataque.

Se juntarmos o método de James Randi, com as quatro instruções acima, temos o neo-ateísmo. Em resumo, o que o neo-ateísmo propõe é uma expansão do ceticismo de combate de James Randi, mas com componentes adicionais para a militância e noções de “salvação” do mundo em seus praticantes. O foco dos neo-ateus é a religião tradicional, enquanto o foco de James Randi era os médiuns, os espíritas, defensores da homeopatia e daí por diante.

Tanto o ceticismo de James Randi como o discurso neo-ateu são métodos, e, como tal, podem ser “reconstruídos”, ou na linguagem da programação, “refatorados”.

O método de James Randi aceita um conjunto de valores para a variável ALEGAÇÃO. Ela será tratada pelo método se, e somente se, for relacionada ao sobrenatural, ao paranormal, às experiências com UFO’s e demais nessa linha. Ou mesmo alegações de milagres religiosos, que são enquadradas como alegações sobrenaturais. No universo da programação chamaríamos ALEGAÇÃO de uma “string”, que pode receber vários valores, como:

  • ALEGAÇÃO[1]: presença de UFO’s
  • ALEGAÇÃO[2]: comunicação com espíritos
  • ALEGAÇÃO[3]: telepatia
  • E daí por diante.

O método dos neo-ateus aceita os mesmo valores para a variável ALEGAÇÃO, mas adiciona um aspecto de priorização, colocando as religiões tradicionais na frente. Algo como:

  • ALEGAÇÃO[1]: validade das escrituras
  • ALEGAÇÃO[2]: transubstanciação do corpo de Cristo (na hóstia)
  • ALEGAÇÃO[3]: Jesus levantou-se dos mortos.
  • E daí por diante

Obviamente, as demais alegações espirituais estão no “range” de alegações, mas elas foram colocadas lá para o final, pois no método Aplicação_do_Neo-Ateísmo, a priorização é para as religiões tradicionais, por causa do poder político destas. Ao estudarmos o material dos neo-ateus, vemos que o objetivo deles é retirar o poder político dos religiosos tradicionais, e, ao mesmo tempo, aumentar o poder político da religião política.

Foi quando eu tive a epifania, há alguns anos: “esperem, se estes métodos funcionam, então eles podem ser claramente adaptados para outros tipos de crenças”.

Mas se existem as adaptações, quais seriam elas?

Todo o “código” de James Randi pode ser aproveitado. Claro que Randi utilizava desafios em palco, mas as alegações dos cientificistas e humanistas podem ser testadas de outra maneira, como, por exemplo, os efeitos que geram no mundo. (Exemplo: o estabelecimento de uma ditadura do proletariado. A criação de uma ditadura do proletariado para salvação é uma afirmação sobre o mundo, e o estabelecimento delas é um evento gerado no mundo, que permite o teste da alegação. Várias implantações marxistas já ocorreram.)

No caso do neo-ateísmo, foi preciso cortar as duas instruções iniciais (retorne um pouco para rever as instruções para o neo-ateísmo), pois elas conspirariam contra a moral dos conservadores de direita, que seriam os principais beneficiários do método que criei. Usar desconstrucionismo e historicismo para mentir sobre o oponente simplesmente não vai dar certo para a direita, embora funcione maravilhosamente bem para os humanistas e esquerdistas.

As instruções em azul, no entanto, são aproveitadas caso sejam “reconstruídas”. Reveja como elas são, no método Aplicação_do_Neo-Ateísmo:

  • Em adição, leve os processos de controle de frame, jogo de rótulos e técnicas de propaganda às últimas consequências, sempre, conforme acima, utilizando a descontrução.
  • Crie e exponha teoricamente como o mundo será muito melhor sem os proponentes de todo o conjunto de alegações sob ataque.

Como falei, essas duas  instruções podem ser aproveitadas caso sejam “reconstruídas”. Veja como elas são, no meu método:

  • Em adição, leve os processos de controle de frame, jogo de rótulos e técnicas de propaganda às últimas consequências, sempre, mas com o objetivo de focar no desmascaramento das mentiras do oponente. Incluindo os desconstrucionismos e historicismos que ele tenha praticado.
  • Exponha as consequências históricas e presentes de todo o conjunto de alegações sob ataque.

Note que eu não tenho uma proposta de “salvação” do mundo, como os neo-ateus possuem, portanto eu tenho uma alegação a menos a ser provada. Isto é um diferencial, pois esta alegação dos neo-ateus é colocada no moedor de carne que é o meu método.

E quais são as alegações priorizadas em meu método? Simplesmente as alegações políticas da outra parte. A partir do método Ceticismo_Político, temos o Ceticismo_Neo-Iluminista, sendo este uma aplicação do ceticismo político às alegações da religião política, ou de qualquer religião tradicional, desde que estas sejam utilizadas para a imposição de poder de um grupo sobre outro, em questões públicas. (Atenção, cada método, tem sua aplicação. Assim, Ceticismo_Randiano tem Aplicação_do_Ceticismo_Randiano, e Ceticismo_Político tem Aplicação_do_Ceticismo_Político, e por aí vai)

Assim, vejam as principais alegações no “range” das alegações investigadas:

  • ALEGAÇÃO[1]: crença no homem
  • ALEGAÇÃO[2]: salvação do homem pela ciência
  • ALEGAÇÃO[3]: representação da ciência, isto é, as palavras do alegador são as palavras “da ciência”
  • ALEGAÇÃO[4]: sem a religião, não teremos mais gregarismo
  • E daí por diante

Aqui foram apenas alguns exemplos, e o conjunto das alegações da religião política é vasto.

E, então, diante de cada uma destas alegações, qual é o método do Ceticismo_Neo-Iluminista e sua respectiva aplicação? Conforme eu disse antes, ele é um “código” refatorado a partir de todo o código de James Randi, com uma coisinha ou outra dos neo-ateus, só que no range de alegações, há uma priorização para as alegações da religião política.

Eis o método Aplicação_do_Ceticismo_Neo-Iluminista, baseado nos métodos Aplicação_do_Ceticismo_Randiano, e utilizando uma coisinha ou outra do método Aplicação_do_Neo-Ateísmo:

  • No universo de eventos, há algo como uma alegação de uma outra parte, que normalmente traduz-se como uma crença.
  • Se é uma alegação, e fala sobre fatos do mundo, ela é testável.
  • Se for testável, ela pode ser validada ou invalidada.
  • Se for invalidada, ela pode ser ridicularizável, ou não.
  • Se for ridicularizável, é importante ridicularizar o proponente da crença, para neutralizar seu efeito.
  • Em análise paralela, a alegação pode ter consequências adversas em seus descrentes ou não.
  • Se tiver, é importante apontar para o público a consequência adversa da aceitação desta alegação, para mostrar que este grupo é perigoso.
  • Em todo o processo controle o frame, jogue o jogo de rótulos e aplique as técnicas de propaganda necessárias para isso. Leve estes processos às últimas consequências, sempre, mas com o objetivo de focar no desmascaramento das mentiras do oponente, incluindo os desconstrucionismos e historicismos que ele tenha praticado.
  • Exponha as consequências históricas e presentes de todo o conjunto de alegações sob ataque.

Em resumo, o método Aplicação_do_Ceticismo_Neo-Iluminista, é resultante do aprendizado dos métodos de dois grupos adeptos da religião política, os randianos e os neo-ateus, utilizando em sua totalidade o conteúdo visto no primeiro método, e somente uma coisa ou outra do segundo método.

Isto significa, na prática, aprender com o adversário e utilizar, na medida do possível, os métodos dele. (Note que pela extrema imoralidade do historicismo e do desconstrucionismo, visto no método dos neo-ateus, eu retirei-os do meu método, e adicionei algo para compensar)

O “código” que eu criei é perfeitamente utilizável para qualquer adepto da direita, em qualquer momento em que um esquerdista abrir a boca. Também é perfeitamente utilizável para qualquer humanista que proferir uma alegação.

Claro que existem métodos adicionais, para tornar a aplicação de tudo mais robusta. Mas isto é assunto para outros posts.

O que eu quis, neste primeiro post a falar sobre reconstruções na prática, é mostrar como o método de John Dewey para tornar todo conteúdo político, filosófico ou ideológico algo a ser utilizado na prática para resolver problemas do dia-a-dia, pode ser extremamente útil.

É o momento em que os humanistas e esquerdistas finalmente são colocados na parede, como ocorreria com um médium diante de James Randi.

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7 COMMENTS

  1. Bem legal o texto, e esclarece muita coisa, só que eu discordo de sua reconstrução. Você não teria reconstruído o neo-ateísmo, que teria reconstruído o método de Randi? O que eu quero dizer eh que você colocou no texto que reconstruiu o método de James Randi, e depois o método dos neo-ateus, mas o método do James Randi já está todo no metodo dos neo-ateus. Porisso, você reconstrói o neo-ateísmo, e não o ceticismo de James Randi.
    Posso ter entendido algo errado, mas essa é a observação que eu faço.

    • Tecnicamente, você está correto. Entretanto, há um componente de teste da alegação, mais detalhado, que é parte do meu paradigma, por isso seria injusto se eu citasse a fonte original de Randi.

      Abs,

      LH

  2. Agora eu entendi o que você quer dizer com aprender com os métodos do inimigo, usá-los contra ele e não se tornar igual. Texto fantástico! Pelo visto, é uma série. Quando teremos os outros textos?

    • É bem essa a idéia. Aprender com o inimigo não é o mesmo que ser igual a ele, pois podemos reconstruir os métodos úteis, de acordo com os nossos padrões morais.

      Abs,

      LH

  3. E Vovô Gramsci? Você acha que os conceitos, o ideário e, especialmente, a estratégia de Gramsci seriam refatoráveis para reutilização pela direita? Mesmo considerando quão abjetas são algumas ideias de Gramsci, e a amoralidade essencialmente inerente a quase tudo o que ele escreveu?

    Imagine “Escritos políticos”, “Concepção dialética da história”, “Literatura e vida nacional”, “Maquiavel, a política e o Estado moderno” e “Os intelectuais e a organização da cultura”… com sinal invertido. Armas de destruição em massa.

    • Thiago,

      Claro que tudo poderia ser refatorado.

      Mas na refatoração, você elimina aquilo que é problemático. Por exemplo, se Gramsci diz para mentir contra os oponentes, podemos substituir em nosso método por “impor verdade na rotulagem”.

      Nesse caso, se substitui a mentira do oponente por um DESMASCARAMENTO das mentiras do oponente.

      O método central de Gramsci, no entanto, deve ser aplicado a risca.

      Ele é:

      1. Conquiste intelectuais ao seu lado
      2. Conquiste espaço nas escolas e academias
      3. “Crave” no senso comum suas idéias
      4. Crie grupos na sociedade civil para pressionar o estado, após os 3 itens anteriores
      5. Lute para jogar o oponente na espiral do silêncio
      6. Em todo processo, use uma “Dialética Negativa” contra as crenças do oponente

      Não vejo qual o problema moral em refatorar Gramsci.

      Abs,

      LH

  4. Eu sei que nao tem nada haver o assunto, mais o que voce me diz do fato do James Randi criticar tanto a homeopatia? Alias ele e o Richard Dawkins. Seria porque a homeopatia funciona?

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