Texto de uma feminista propõe uma desconstrução do modelo de família para resolver o problema da minoria… são ou não são figuras problemáticas?

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Fonte: Blogueiras Feministas

Texto de Carolina Pombo.

Recentemente assisti pela terceira vez o episódio 9 da 4° temporada da série americana The Good Wife – uma das minhas preferidas. Gosto especialmente desse episódio porque em 40 minutos traz alguns assuntos pesadíssimos, condensados e interligados e, mesmo assim, conseguimos acompanhar sem se deprimir. (Quando anunciamos um assunto pesado associado a “família”, geralmente, as pessoas pensam logo em drogas, morte e tal, mas não é o caso aqui).

Os assuntos abordados são pesadíssimos porque trazem uma gama de conteúdos complexos, muito difíceis de promoverem um consenso, como o casamento homossexual, o papel da mulher na família, a relação entre diferentes “gerações feministas”. Vou tentar contar a linha de raciocínio que me acompanhou ao assistir o episódio, um dia depois de ter recebido um folheto me convidando para marchar contra o novo projeto de lei do casamento homossexual na França, e de ter assistido o filme The place beyond the pines.

Por que o casamento gay é um assunto complexo? Para quem o defende, parece super simples explicar que todos os indivíduos devem ter acesso aos mesmos direitos, portanto aqueles que não são heterossexuais devem ter a oportunidade de construir uma família e tê-la reconhecida pelo Estado também. Mas, lendo um pouco sobre o assunto, e estando na França (onde o debate se complexificou nos últimos anos, revelando todos os tipos de posições: gays a favor do casamento, gays que são contra, gays que são a princípio contra, mas vêem a importância da lei neste momento, etc…), tive também a oportunidade de me confrontar com o radicalismo, e recebi um folheto super explicativo, da parte daqueles que não são gays e são contra a nova lei.

O folheto explica bem que a posição dos radicalmente contra é, na verdade, uma tentativa de proteger um modelo de família. Para eles, permitir que a união homossexual seja reconhecida como casamento é destruir o modelo ideal de família, que se baseia na complementaridade entre os sexos masculino e feminino – e portanto, na divisão sexual do trabalho e na reprodução natural.

Na concepção deles, reconhecer que existem famílias diferentes disso é incentivar a procriação assistida e a “barriga de aluguel” para todos – não apenas para aqueles casais heterossexuais que tem problemas de fertilidade – e isso levaria à mercantilização dos nascimentos. A provável proliferação dessa forma de filiação não-natural ameaça não só a ideia da complementaridade, mas também transformaria a relação entre as crianças – segundo o folheto, ela se tornaria mais desigual (porque filhos de casais homossexuais teriam que conviver com filhos de casais heterosexuais). E finalmente, o argumento se encerra defendendo a coesão familiar para se manter a coesão social e nacional.

No dia seguinte, fui ao cinema e por acaso assisti The place beyond the pines. (Se você ainda não assistiu ao filme, talvez prefira pular essa parte do texto, mas prometo ser o menos reveladora possível). Ao meu ver, a história é sobre filiação. O roubo a banco talvez tenha sido uma estratégia para aumentar a bilheteria (porque no trailer ele aparece como se fosse o foco do filme). Mas, as questões mais importantes estão relacionadas aos conflitos abertos e velados entre o pai biológico, o pai adotivo (que é negro e muito diferente da criança) e o filho.

Acontece que, apesar do menino nunca ter convivido de fato com o pai biológico, e de ter sido adotado pelo marido da mãe desde bebezinho, cresce com a “sombra” da ausência paterna. A falta está inscrita não em sua realidade familiar, mas na cultura que não admite a legitimidade de uma família não-natural tal qual a daquela que é ligada por co-sanguinidade (quiçá uma família inter-racial).

Talvez por isso, muitos pais adotivos, na vida real, prefiram não revelar a verdadeira origem dos filhos. Há uma aura invisível de expectativas negativas sobre o rapaz que cresce longe de seu pai biológico. Parece que a sociedade já espera que ele se dê mal e, muitas vezes, essa norma acaba produzindo sim o mal estar e uma carreira de vida bastante turbulenta. Como deve ser viver com esse estigma? Como deve ser lidar com a projeção de um destino tão nebuloso? O medo da ameaça à família natural gera a falta de reconhecimento integral da parentalidade não-natural (e aqui, não sou eu, mas é a cultura assentada sobre um modelo de complementaridade entre homem e mulher que afirma que filhos adotivos ou nascidos de reprodução assistida não são naturais).

Voltemos então a The Good Wife. Talvez você já conheça um pouco do enredo e saiba que a série se passa a partir do rompimento traumático do casamento de um político e Alicia, advogada que deixara de se dedicar à profissão por mais de quinze anos e se esforçara por construir um ambiente perfeito para os dois filhos do casal. Ela volta a trabalhar, envolve-se sexualmente e afetivamente com outra pessoa, passa a delegar os cuidados com os filhos à sogra e à nova escola, eles crescem, muita coisa muda, e ela continua com uma relação mal resolvida com o marido.

Nesse episódio específico, há o reecontro dela com sua mãe. Uma mulher ausente, que viaja muito, casa muito (já está no terceiro casamento), transa muito (tem amantes extra-conjugais) e pressiona a filha a fazer escolhas mais “livres” em prol de sua própria felicidade. A mãe chega para o Dia de Ação de Graças com dois elementos ilustrativos: o livro ‘Vagina – a new biography‘, para presentear Alicia e uma convocação para ir à Júri, porque o filho de seu marido que acabara de morrer alega que ela o traía e por isso não deveria receber parte da herança.

Alicia despreza o jeito egocêntrico da mãe, e esta despreza sua postura auto-sacrificial em prol da família. As duas entram em conflito, e logo depois, Alicia carrega o marido para o quarto e transa com ele, de portas destrancadas. Ele pergunta: “você está fazendo isso por causa de sua mãe?”, ela afirma que sim. Aparentemente, manter os laços com o marido que a traíra publicamente era uma forma de confrontar o “feminismo” da mãe. Feminismo não é a palavra usada por nenhum dos personagens, mas eu acredito que esse conflito geracional está relacionado ao que a mídia costuma representar como feminismo – o cerne está na liberdade sexual e na libertação da mulher do papel tradicional de esposa e mãe.

Esse reencontro entre mãe e filha se passa paralelamente a um caso pitoresco defendido pelo escritório de advocacia onde Alicia trabalha. Para resumir, o caso atrai um grande advogado americano, conhecido por levar batalhas judiciais à Corte Suprema, e por se envolver com o movimento social gay. O réu é um homossexual, que vive uma relação estável e ao mesmo tempo aberta com outro. Seu casamento é reconhecido por uma lei estadual, porém não tem validade em relação à legislação nacional e, por isso, não pode usufruir dos privilégios de sigilo garantidos em investigações de conversas íntimas.

Uma conversa por telefone com seu parceiro é usada para incriminá-lo, o que seria proibido pela legislação americana se seu parceiro fosse uma mulher (a chamada lei do DOMA – Defense Of Marriage Act). Acontece que o réu consegue um bom acordo com a justiça para não ir à prisão. Mas, o advogado militante está interessado em levar o caso para a Corte Suprema, e usá-lo para modificar a tal lei que protege o sigilo em relações heterossexuais mas não em relações homossexuais. Ele pressiona o réu a assentir na perda do caso e apelar à Corte. Acho que a seguinte fala do advogado é um prato cheio para o debate sobre a legitimação ou não do casamento gay:

Estou pedindo a vocês que forcem o tribunal a encarar sua própria hipocrisia. Queremos levar isso para a Suprema Corte. Vocês são dois pitorescos exemplos de homens gays de classe média alta, que não podem ser dispensados facilmente. Você são exatamente o que precisamos para trazer a justiça para nosso lado. Não é mais apenas sobre vocês. É sobre toda a comunidade gay. É sobre vocês dois fazerem um sacrifício, e então nós poderemos superar o DOMA (Lei de Defesa do Casamento).

Os argumentos que podemos encontrar dentro da própria “comunidade gay” contra o casamento dirigem-se principalmente à submissão da homossexualidade às instituições heteronormativas, das quais o casamento é o grande representante. Para serem reconhecidos, os sujeitos não-heterossexuais precisam incorporar uma identidade, precisam se reunir numa identidade social que seja palatável pelo Estado. Esta nem sempre vai representar igualitariamente as diferenças – na verdade, toda identidade acaba construindo-se em oposição a outras não-identidades, e pode produzir mais desigualdades entre o que costumamos olhar como um grupo homogêneo.

O casal pitoresco da série ilustra bem a identidade gay defendida e propagada pelas organizações não-governamentais e os movimentos institucionalizados que são mais facilmente “ouvidos” pelo Estado. Quanto mais próximos do que nossa cultura considera “modelo ideal” de família e, portanto, de organizações heteronormativas, mais facilmente reconhecidos.

Essa crítica também tem sido feita no meio do feminismo. O sujeito político que, antes, identificávamos facilmente na categoria “mulher”, hoje é questionado, é contextualizado. Não há apenas uma identidade feminina, há diferenças, desigualdades, que ficaram obscurecidas na agenda política nos áureos períodos do feminismo institucional – esse que influenciou uma representação midiática de que as conquistas feministas já foram alcançadas e que se traduzem em duas coisas básicas: a inserção profissional e a liberdade sexual. Só que, claramente, a realidade é muito mais diversa e mostra que muitas mulheres vivem diferentes constrangimentos produzidos também pelas novas pressões desse feminismo – vide a figura tão real da Alicia, uma mãe e esposa que não deseja se restringir ao ambiente doméstico mas que também não está disposta a abrir mão do que seja sua família para se “emancipar”.

Esse é um debate complexo, eu avisei.

Ao mesmo tempo em que queremos influenciar as agendas políticas e colocar o feminismo na ordem do dia, precisamos enfrentar as relações de poder que se estabelecem numa organização social e familiar heteronormativas, que invisibiliza ou culpabiliza os laços de filiação que não dependem de uma mulher-mãe-reprodutora e um homem-pai-procriador. Mesmo aquelas que são heterossexuais, casadas e mães biológicas, como eu, podem não desejar um modelo de família como esse, que aprisiona as pessoas em papéis tão limitados. Por isso, apesar de compreender que as identidades nem sempre nos ajudam, às vezes, até nos corrompem… defendo que o casamento seja transformado pela visibilidade dessas famílias “diferentes”, que desconstroem esse modelo conservador, e que tal reconhecimento promova um Estado mais representativo da sociedade.

Entendo que o Estado dificilmente conseguirá representar igualitariamente a todos. Entendo que essa representação produz novos constrangimentos e novos grupos identitários vão surgindo. Por isso, ao mesmo tempo, defendo uma desconstrução radical da identidade parental baseada na natureza, no que seja essa mitificação da relação biológica tão arraigada em nossa cultura.

Será que reconhecer famílias baseadas na união homossexual pode ser um passo decisivo nessa direção?

Meus comentários

O texto é interessante e inclui algumas análises até razoáveis no início. A autora, feminista, reconhece que há seríssimos problemas para a normatização não só dos modelos alternativos ao modelo tradicional de família, como também para a identidade parental baseada em outros fatores que não na natureza.

Então, ela quer desconstruir este modelo. Motivo? Por que ele incomoda à uma minoria de casais e filhos, que são relacionados a casamento gay e/ou casais com filhos adotados.

Ora, ao invés destes grupos minoritários aprenderem a ser uma minoria, ela quer mudar o comportamento da maioria.

Entretanto, ela finge não perceber que o comportamento da maioria foi selecionado evolutivamente por ser biologicamente preferencial para a nossa espécie.

Mas ao tirar o “valor” da identidade parental com base na natureza, ela quer que o ato de se gerar filhos perca todo o sentido.

Em resumo, os pais investem em seus filhos por que eles transferirão seus genes para a frente. A adoção de crianças passa a ser apenas um substituto para pais que não conseguiram ter ou não quiseram ter seus próprios filhos.

Ora, não há motivo para eliminarmos de nossa sociedade a identidade parental baseada na natureza, pois este componente é um sucesso em termos evolutivos, para a nossa espécie.

O maior problema é convencer os grupos minoritários a conviver com a diferença, e isto, nós sabemos, é terrivelmente difícil para qualquer grupo acometido pelo esquerdismo. Incapazes de ver o mundo girar conforme seus dogmas, tentam converter todo o mundo a pensar como eles.

A identidade parental baseada na natureza não é problema algum para todo e qualquer indivíduo inserido neste paradigma. Só é um problema para os grupos que estão fora deste paradigma, mas estes são uma minoria absoluta.

A maioria não precisa se adaptar à minoria, principalmente se o seu comportamento é extremamente benéfico em termos morais, sociais e evolutivos. É a minoria que tem que aprender a conviver com a maioria.

Mesmo que a análise inicial de Carolina Pombo seja interessante, a solicitação que ela faz ao final é ofensiva sob qualquer ótica, servindo mais como um indício de que esquerdismo é de fato uma patologia mental.

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4 COMMENTS

  1. Luciano, eu já propus uma discussão junto com esse grupo denominado blogueiras feministas e elas recusaram.
    Eu e um outro amigo meu contra 89 blogueiras e elas recusaram.
    São covardes e não tem capacidade …

    • Assistindo uma palestra do Padre Paulo Ricardo, ele disse que o marxismo cultural, ou o movimento revolucionário que acabar com a civilização ocidental atacando seus pilares: a filosofia grega, a moral judaico-cristã e o direito romano.
      Essa notícia e a impunidade que reina no nosso país são provas de que também o direito romano é também um dos alvos desse movimento.

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