Um motivo para questionarmos as rotinas de auto-rotulagem e auto-venda prioritariamente

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Sei que estou devendo mais conteúdo sobre jogo de rótulos e rotinas, tanto esquerdistas quanto neo-ateístas (humanistas radicais), assim como técnicas de propaganda. Há muito trabalho pela frente, e vou aos poucos resolvendo as pendências.

Lembro também que certa vez eu argumentei que era prioritário refutarmos as rotinas de auto-rotulagem que tinham a ver com auto-venda, ou seja, aquelas nas quais alguém tentaria se impor ao público como detentor de uma virtude que o diferenciaria dos demais.

Por outro lado, nunca falei do racional por trás deste argumento. É o que farei agora.

Imagine que você é um gerente de portfólio de projetos que está em uma reunião do comitê de mudanças e precisa apresentar a justificativa para 25 projetos.

No curso da reunião, você é obrigado a apresentar os casos de negócio para cada um dos projetos, que são todos colocados sob escrutínio. Alguns dos projetos são aprovados, outros rejeitados, e a rejeição ocorre por vários motivos, como não atendimento às estratégias da organização, ou mesmo falta de compliance em relação aos padrões de segurança.

Imagine agora que, se ao invés de ter que apresentar os 25 projetos, você só tivesse que apresentar um “crachá”, que demonstra aos membros do comitê que todos os seus projetos são pré-aprovados, e portanto não precisam ser discutidos. Independente do mérito destes projetos, a sua credencial já garante a aprovação a priori.

Isso reduziria muito esforço, não? O benefício dado a você seria devastador, além de uma grande vantagem sobre os demais. Enquanto os outros estariam justificando seus projetos, um a um, você teria o benefício de ter todos os projetos pré-aprovados.

Pois bem, isso é exatamente o que ocorre no cenário do debate público, onde os humanistas executam as três rotinas padrão do cientificismo identificadas neste blog. Essas três rotinas (Dono da razão, Representante da ciência, e as 3 sub-rotinas da rotina padrão de Ceticismo com verbos não-especificados, Cético Universal, Auto-Cético e Cético verdadeiro, contra os falsos) servem como se fossem crachás, ou mesmo credenciais (para usar uma terminologia típica dos profissionais de Segurança da Informação), para que o debatedor tenha todas as suas idéias pré-aprovadas.

A partir do momento em que ele convencer a platéia de que é o merecedor dos três rótulos acima, não há mais sentido em debater, pois a patuléia irá perceber todos os argumentos dele como sendo a voz da ciência, da razão e já pré-validados pelo próprio argumentador (é para isto que servem os rótulos de ceticismo com verbos não especificados). Em outras palavras, o oponente dele, se não perceber isso, perdeu o debate sem ter a mínima noção disso. Ele não está mais disputando contra argumentos, mas contra um crachá que já garantiu a pré-aprovação de todos os argumentos do outro.

No mundo corporativo, obviamente todas as credenciais são validadas, em ambiente onde exista uma boa prática de Segurança da Informação, mas no mundo acadêmico isso quase nunca acontece. Não é raro vermos credenciais falsas sendo utilizadas por picaretas para obter benefícios.

Agora, tente pensar como o cidadão comum pensa. Ele não conhece filosofia, e nem entende de estratégia política. Não conhece as principais artimanhas do jogo político. Ele vive pensando no almoço do dia seguinte, portanto vai reagir ao que sentir, de forma instintiva, em termos de conteúdo vindo da outra parte. Ele se importa com aqueles que vão aumentar sua chance de sobrevivência.

Se ele é favorável aos direitos humanos, e se um debatedores convencê-lo que é detendor do rótulo “Direitos Humanos” (enquanto o oponente seria um inimigo), este cidadão comum não precisará dispender nenhum esforço intelectual para entender o que o “inimigo” dos direitos humanos tem a falar. Basta ele ouvir o que o “amigo” dos direitos humanos falar, e se opor ao “inimigo”. Em suma, quem não refutou a rotulagem já perdeu, embora em muitos casos não tenha a mínima noção de como isso ocorre.

Como já disse, o cidadão comum busca o auto-interesse, e portanto quer ouvir as opiniões de uma autoridade que fale em nome da ciência. Ele sabe que a ciência lhe deu novas cirurgias, assim como medicamentos que salvam sua vida. Lhe forneceu também novas tecnologias que ajudam a transformar sua vida para melhor, a um preço acessível. Alguém que o convença estar “do lado da ciência” será ouvido por ele. Para que ele precisa prestar atenção em alguém que é “inimigo da ciência”? Se você perder a contenda neste jogo de rótulos, provavelmente você será visto como um inimigo dele. (Se alguns conservadores religiosos quiserem criticar a “supremacia da ciência”, podem até capitalizar, mas somente se fizerem o ouvinte entrar em duplipensar, ou pensar por slogans, e isso geralmente não é duradouro)

O comitê, que no caso do gerenciamento de projetos é constituído de um painel de executivos, é constituído pela opinião pública se transferirmos a questão das credenciais para o debate público.

Fica claro que a parte mais fundamental das refutações na arena política é relacionada aos jogos de rótulos, que, caso vencidos por uma parte, já tornam o restante do trabalho da outra parte praticamente impossível.

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