Glossário: Controle de frame

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Reframing-for-resilience

Última atualização: 13 de abril de 2013 – [Índice de Termos][Página Principal]

Na PNL, usa-se o termo ressignificação para as ações feitas em direção a mudar o significado que as pessoas dão aos eventos do mundo.

Uma das metáforas mais importantes é a do “copo meio vazio” em oposição ao “copo meio cheio”. O copo é o mesmo, isto é, o evento a ser percebido no mundo. Mas uns podem percebê-lo como meio cheio, e outros como meio vazio.

Para aqueles que acreditam existir algo de “maligno” no uso da ressignificação, vejam um exemplo onde um sujeito acabou de sair de uma reunião em pânico, pois ganhou uma conta enorme que estava em crise. Ele achou que isso poderia ser o fim de sua carreira. Entretanto, um gerente sênior já chegou parabenizando-o: “Ei, sortudo, pegou a conta X? Agora sim você caminha rumo ao time dos seniores. É só reverter o quadro lá.”. E não é que deu certo?

Essa história corporativa nos mostra um exemplo trivial da ressignificação. Em outras palavras, os eventos do mundo não são mudados, mas a “moldura” (frame) que utilizamos para visualizar estes eventos pode mudar toda nossa experiência, bem como os nossos resultados perante essa experiência. Não há gestão de times eficiente que não faça um controle de frame no mínimo razoável (ao menos no aspecto intuitivo) em relação aos eventos do mundo.

Controle de frame significa usar a arte da ressignificação de uma maneira estratégica e pragmática para obter resultados desejados. Outros termos poderiam ser “controle de moldura” ou “controle de enquadramento”, mas, convenhamos, “controle de frame” soa muito melhor.

Um crítico quanto a este blog disse que controle de frame só pode se referir a gestos, e não à linguagem verbal (provavelmente ele pensou no universo dos PUA’s, mas a dinâmica social é muito mais que isso). Porém, essa concepção não existe para a PNL, e nem para as formas modernas de psicologia. Tanto a linguagem verbal como a não verbal são formas de comunicação. E a ressignificação pode ser feita a partir das duas formas de linguagem.

O que eu trato aqui é mais focado no controle de frame verbal, mas ele pode ser executado de forma não verbal também, como o ato de espanto (simulado ou não) de um esquerdista dizendo: “Mas como você pode ser de direita? Isso é uma violêêêêêêêêêêência!”. Dependendo da forma como ele expressa, temos tanto uma tentativa de controle de frame verbal como não verbal. Ao denunciar para a plateia que o esquerdista abandonou o argumento para fazer uma encenação, estamos, enfim, controlando de volta o frame.

Do exemplo corporativo, podemos ir para qualquer ambiente que quisermos, e no âmbito da guerra política, isso é mais presente ainda. Joseph O’Connor e John Seymour, autores da PLN, disseram que a política é a arte da ressignificação. Eu iria além: na política, o controle de frame está no coração de todas as iniciativas.

Vamos a um exemplo de como o controle de frame é uma arte na guerra política.

O ataque às torres gêmeas, no 11 de setembro, foi um evento que horrorizou a todos. Se há algo que pode mobilizar os americanos, é o 11 de setembro, assim como as indignações a ele. Como o controle de frame é uma ação estratégica de ressignificação, o evento pode ser interpretado não como “um ato de terrorismo suicida de pessoas de um país contra o outro”, mas sim “um ato da religião”. Essa ação de controle de frame é o mote central do livro “A Morte da Fé”, de Sam Harris, e provavelmente uma das razões que fazem os neo-ateus ficarem tão furiosos contra os religiosos.

Se o livro de Harris se baseia em uma mentira descarada, o mais importante em nossa análise é observar que o núcleo central para a implementação desta mentira foi o “enquadramento” do evento de uma maneira diferente (isto é, a ressignificação) por objetivos estratégicos. Para não esquecermos mais o conceito: isto é o controle de frame, que é a ressignificação aplicada de forma estratégica.

A única forma de neutralizar o ataque seria fazer uma nova ressignificação, apontando a verdade dos fatos. Ou seja, demonstrando não só que o 11 de setembro não é um evento da religião (mesmo que os terroristas suicidas tenham sido islâmicos, não há evidências de que isso é condição suficiente para o ato, e nem que tenha sido condição necessária), como também demonstrando a extrema imoralidade do ato de Sam Harris, ao realizar uma ressignificação desonesta para estabelecer uma campanha de ódio.

Note que, tanto para impor uma mentira (como fez Sam Harris), como para neutralizar essa mentira (ou seja, demonstrar que eventos com 11 de setembro são independentes da religião), é preciso controlar o frame.

Portanto, um bom debate, onde as ressignificações passem a fazer parte do jogo (e em todos os debates, humanistas e esquerdistas estão jogando o jogo político), traz ambas as partes lutando para controlar o frame.

Se o controle de frame for exercido por ambos os lados da contenda, de forma estratégica, aí sim a verdade poderá prevalecer, pois há um duelo de frames nos quais as ressignificações desonestas podem ser abatidas.

Entretanto, se o lado X controlar o frame e disser uma mentira, não adiantará de nada o lado Y dizer uma verdade, pois se o frame foi controlado pelo oponente, Y nem será ouvido.

Conclusão: em debates com humanistas ou esquerdistas, você pode perder ou vencer. Se não adentrar ao mundo do controle de frame, a derrota já estará garantida, mesmo que você fale a verdade, pois mesmo mentindo, o humanista/esquerdista tentará controlar o frame a todo o momento.

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10 COMMENTS

  1. Estava sentido falta de um post especificamente sobre controle de frame e dessa terminologia ser utilizada mais livremente em seu texto, LH. Pare para respirar; seu novo paradigma é complexo, abrangente e contém muitas inovações em termos de, digamos, taxonomia e nomenclatura. Às vezes eu sinto que seu estilo e suas premissas se alteraram e eu ainda não consegui absorver.

    Quando eu digo que se alteraram, não estou afirmando que mudaram completamente, com a inconsistência lógica de cartas ideologias ou mesmo a fuidez de conteúdo que caracteriza as mais diferentes propostas revolucionárias que surgiram ao longo da História. É que parece que as coisas foram amadurecendo muito rapidamente na sua mente, e no texto de hoje seu paradigma já tem um nível de acabamento diferente, mais evoluído, do que tinha semana passada. Ou ontem. Para você, parece natural, mas às vezes um leitor pode ficar perdido.

    Ex.: no mesmo dia, você fez um post propondo a nomenclatura “neo-iluminismo” e outro já escrevendo a partir dessa perspectiva, com esse nome, e nem nos deu muito tempo para nos acostumarmos ao conceito. Depois eu entendi o que era o neo-iluminismo, e achei adequada a escolha do termo, conseguindo fazer o link com as origens teóricas e mesmo filosóficas do Iluminismo e percebi a conexão lógica e o resgate conceitual que você fez. Mas deu trabalho… um texto intermediário, guiando os leitores por esse caminho, teria sido útil.

    Por isso registro minha satisfação ao reencontrar a expressão “controle de frame”. Eu ainda estou “digerindo” coisas que você escreveu quando “rotinas de controle de frame” estavam na linguagem corrente do blog. O seu pioneirismo, louvável e meritório que é, traz alguns ônus, já que imagino que você escreva para ser devidamente compreendido.

    Pegue um texto seu do começo de 2012 e um desta semana e constate a diferença…

    Anyway, muito bom o conteúdo deste post; sua objetividade por criar dúvidas em alguns, mas para outros que já acompanham o blog há mais tempo tem um gostinho de “aula de revisão”, daquelas que ajuda a sistematizar e organizar o que já se sabe. Então, valeu! rsrsrs

    Aguardando o livro, hein? Espero que nele esteja uma versão ainda melhor da finada e saudosa seção “Desvendando a ilusão do neoateísmo”…

    • Obrigado pelas palavras, Thiago, e pelas objeções.

      Essa “refatoração” contínua em meu paradigma, de fato, existe. Ela ocorre especialmente após o meu retorno, em novembro de 2011, pois antes, de 2009 até abril de 2011, o blog era bem simplório no que tangia à refutação à esquerda.

      A partir do retorno, o que era uma defesa em relação ao neo-ateísmo, se tornou um ataque não só ao humanismo radical (ou seja, o neo-ateísmo), como ao esquerdismo. (Já haviam uns ataques aqui e ali, mas eram coisas esporádicas)

      Desde momento em diante, meu paradigma não foi mudando, mas se ampliando e incorporando mais elementos para se solidificar.

      Por exemplo, se o ceticismo político é uma tese que torna o ceticismo assertivo de gente como James Randi um método, ele precisava ser justificado. Por isso, a tese do duelo cético, que sustentou logicamente meu empreendimento. Junto com isso, vinha a dinâmica social no contexto da guerra política. É com a dinâmica social que veio a ideia do controle de frame, da análise de propaganda, do jogo de rótulos e agora o mapeamento de rotinas (ao invés das antigas “técnicas”, do início do blog).

      O neo-iluminismo foi a consequência natural do ceticismo político aplicado à religião política. Ou seja, um paradigma para a superação da religião política. E o neo-esquerdismo, que é o paradigma que defendo como o único moralmente aceitável para os esquerdistas, é uma outra abordagem.

      Mas confesso que realmente é muita informação e também inovação.

      Para resolver isso, diante de seu ótimo feedback, vou priorizar a seção Glossário, que trará o “léxico”, deste blog. Verbetes próximos: “Frame”, “Neo-esquerdismo”, “Neo-iluminismo”, etc.

      Em relação ao livro, terei nele muito pouco do que havia na série “Desvendando a ilusão do neoateísmo”, mas muito do que havia na série “Um novo ceticismo”. Mas, antes mesmo de lançá-lo, estou trabalhando no próximo, este sim, focado na demolição do humanismo radical (é onde parte do conteúdo da série “Quebrando o encanto do neo-ateísmo” será reaproveitado), ou seja, o neo-ateísmo. Se no primeiro, eu falo especificamente do ceticismo político e do duelo cético, como métodos e justifico-os argumentativamente, daí para a frente os próximos (seja livros ou conteúdo publicado aqui) são basicamente a aplicação do meu método contra um grupo específico, no caso, os neo-ateus. E depois os esquerdistas como um todo. 😉

      Enfim, valeu pelo feedback muito pertinente.

      Abs,

      LH

    • Não, Walber. O frame só existe no nível individual, embora em muitos casos os frames sejam compartilhados (Jung fez a teoria dos arquétipos para isso). O frame é o enquadramento que alguém dá aos eventos do mundo. Por exemplo, quando passa uma mulher gostosíssima na rua, percebemos que ela é muito gostosa. A essa imagem, temos um frame, e temos sensações, estímulos, etc. Quando ouvimos a palavra ciência, temos um frame para essa palavra, e assim por diante. Quando na política se exerce o jogo de rótulos, está ocorrendo uma GUERRA DE FRAMES, onde cada um tenta controlar o frame. Isto é, obter as percepções na platéia que são ativadas por alguns frames que estão na mente dessas pessoas.

      Claro que palavras e atos traduzem-se em frames mais simples, argumentos são frames mais complexos, e cosmovisões são frames muito complexos, que na verdade são um alinhamento de vários frames.

      Exemplo: na crença cristã temos ‘salvação’, ‘auto-conhecimento’, ‘religação’ e vários outros frames, que são ativados por uma cosmologia.

      Já a cosmovisão de alguém pode surgir a partir do atendimento aos frames que o indivíduo já possui.

      Sei que é complexo de primeira, mas assim como fiz um texto sobre o controle de frame, falarei sobre o ‘frame’ em si.

      Abs,

      LH

  2. Lia outros artigos seus e classificava – sem saber o que era – frame como uma “etapa” de algo… Kkkkkkk um pouco longe do que realmente é!

    Agora consegui compreender tudo e o frame é uma arma muito poderosa!

    Ayan cara, os esquerdista visitam muito esse blog? Sei lá… Esses caras aprendendo isso…

    • Rubens,

      Essa é a maior diversão da coisa: muitos esquerdistas funcionais não sabem, mas o discurso que eles usam é MONTADO pelos seus líderes que tem domínio do controle de frame.

      O que estou fazendo é dar a direita o mesmo recurso que a esquerda já possui.

      E, se temos melhores argumentos, então podemos enfim levar vantagem na batalha de ideias, mas apenas se controlarmos o frame. 😉

      A melhor coisa é que a esquerda não tem mais nada a ganhar com esse conhecimento que já não tenha. É a direita que tem que tirar muitos anos de desvantagem nesse conhecimento.

      Abs,

      LH

  3. Realmente, o PT tem controle sobre essa técnica de frame, não que eu acredite que esse partido seja de esquerda, basta ver seus aliados, mas eles conseguem enganar o “povo” fazendo acreditarem que o Brasil vai bem e assim conseguirem a “sua vitória”, mas, acredito que usam mais que frame para enganar, acho que, criar falsas pesquisas ou manipular resultados talvez não faz parte dessa técnica.

    Parabéns pelos seus artigos, apesar de bem complexos para meu entendimento, terei que me esforçar mais…

  4. Lendo esse texto me deu uma nostalgia de quando eu estava no topo do conhecimento, rs, lá pela época do Neo-ateísmo, um delírio. Pena que eu acabei parando no meio do caminho, mas enfim, eis aqui uma comparação melhor, que li no livro “Não tenho fé suficiente para ser ateu”, lá nos idos de 2008:

    Dois pesquisadores de mercado foram enviados por uma empresa de calçados para a Índia com o intuito de descobrir se a implantação de um fábrica seria possível. Ao término do expediente, os dois retornaram, o primeiro foi enfaticamente pessimista:

    “Não trago boas notícias… As pessoas na Índia só andam descalças, dificilmente haverá mercado para nossos calçados e a fábrica vai falir…”

    O segundo, diferentemente, veio com uma euforia otimista:

    “Já podemos começar pra ontem!!! Ninguém usa calçados na Índia, o mercado é extremamente vasto, seremos pioneiros por ali!!!”

    A história demostrou que o segundo estava certo, hoje em dia abundam as fábricas de calçados na Índia.

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