Segundo Thomas Sowell, pensar está se tornando algo obsoleto. De acordo com minha tese do duelo cético, eis o motivo.

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apatia

Fonte: Instituto Mises Brasil

Embora seja humanamente impossível responder a todos os e-mails e cartas que os leitores me enviam, muitos deles são bastante interessantes e intelectualmente instigantes, tanto no sentido positivo quanto no sentido negativo.

Por exemplo, um jovem me enviou um e-mail pedindo as fontes em que eu havia me baseado para citar alguns fatos negativos sobre o desarmamento em um artigo recente.  É sempre bom checar os fatos — especialmente se você checar os fatos de ambos os lados da questão.

Em contraste, um outro sujeito simplesmente me criticou por tudo o que eu havia dito nesse artigo.  Ele não pediu as minhas fontes e nem quis saber se elas existiam; ele simplesmente saiu fazendo afirmações em contrário, como se essas suas assertivas fossem automaticamente corretas pelo simples fato de estarem sendo pronunciadas por ele, algo que, em sua mente, invalidaria automaticamente tudo o que eu havia escrito.

Ele se identificou como médico, e as alegações que ele fez sobre armas eram as mesmas que haviam sido feitas anos atrás em uma revista médica — alegações que já foram inteiramente desacreditadas desde sua publicação.  Ele poderia ter aprendido isso caso houvesse me dado a oportunidade de responder às suas provocações, de um modo que nos engajássemos em um debate.  Porém, ele próprio deixou claro desde o início que sua carta não tinha o objetivo de gerar um debate, mas sim apenas de me acusar e me denunciar.

Esse tipo de comportamento se tornou um procedimento padrão no mundo atual.

É sempre surpreendente — e apavorante — constatar quantos assuntos extremamente sérios não são discutidos seriamente hoje em dia; as pessoas simplesmente saem emitindo afirmativas e contra-afirmativas, tudo de maneira generalizada.  Seja em debates de internet ou até mesmo em programas de televisão, as pessoas simplesmente tentam calar seu opositor falando mais alto do que ele ou simplesmente recorrendo a frases de efeito de cunho emotivo.

Há inúmeras maneiras de fazer parecer que se está argumentando sem que na realidade se esteja produzindo absolutamente nenhum argumento coerente.

Décadas de educação escolar e universitária simplificada — para não dizer idiotizante — certamente têm algo a ver com a atual situação, mas isso não explica tudo.  A educação não somente foi negligenciada no sistema educacional atual, como também já foi quase que completamente substituída pela doutrinação ideológica.  A doutrinação que hoje é feita por professores e instituições supostamente educacionais é amplamente baseada na simples vocalização das mesmas pressuposições básicas e não-comprovadas de sempre.

Se as instituições educacionais de hoje — desde escolas a universidades — estivessem tão interessadas em diversidade de ideias quanto estão obcecadas com diversidade racial e sexual, os estudantes ao menos adquiririam experiência ao ver as pressuposições que existem por trás de diferentes visões, e entenderiam a função da lógica e da evidência ao debaterem tais diferenças.  No entanto, a realidade é que um estudante pode passar por todo o seu ciclo educacional, desde o jardim de infância até seu doutoramento, sem entrar em contato com absolutamente nenhuma visão de mundo que seja fundamentalmente diferente daquela que prevalece dentro do espectro de opiniões autorizadas e politicamente corretas que domina o nosso sistema educacional.

No que mais, a perspectiva moral da visão ideológica predominante é completamente maniqueísta: as pessoas imbuídas dessas ideias realmente se veem como anjos combatendo todas as forças do mal — seja o assunto em questão o desarmamento, o ambientalismo, o racismo, o homossexualismo, o feminismo ou qualquer outro ismo.

Um monopólio moral é a antítese de um livre mercado de ideias.  Um indicativo desta noção de monopólio moral dentre a intelligentsia esquerdista é o fato de que as instituições que estão majoritariamente sob seu controle — escolas, faculdades e universidades — são justamente aqueles que usufruem muito menos liberdade de expressão do que o resto da sociedade.

Por exemplo, ao passo que a defesa e até mesmo a promoção da homossexualidade é comum nos campi universitários — e comparecer a palestras e aulas que fazem tal promoção é frequentemente algo obrigatório nos cursos introdutórios —, qualquer crítica ao comportamento homossexual é imediatamente rotulada de “reacionarismo”, “preconceito” e “incitação ao ódio”, sujeita a imediata punição.

Enquanto porta-vozes de vários grupos raciais e étnicos são livres para denunciar com veemência “os brancos” por seus pecados passados e presentes, verdadeiros ou imaginários, qualquer estudante branco que similarmente venha a denunciar as transgressões ou os desvarios de grupos não-brancos garantidamente será punido, se não expulso.

Até mesmo estudantes que não defendem ou não promovem absolutamente nada podem ter de pagar um preço caso não concordem com a lavagem cerebral que ocorre nas salas de aula.  Recentemente, nos EUA, um aluno da Florida Atlantic University que se recusou a pisotear um papel em que estava escrito a palavra “Jesus”, a mando de seu professor, foi suspenso pela universidade.  Felizmente, a história veio a público e gerou uma onda de protestos fora do mundo acadêmico.

A atitude deste professor pode ser descartada e ignorada como sendo um caso isolado de extremismo, mas o fato é que o establishment universitário saiu solidamente em sua defesa e atacou implacavelmente o estudante.  Tal atitude mostra que a podridão moral que impera na academia vai muito mais além do que um simples professor adepto da doutrinação e da lavagem cerebral.

Estamos hoje vivenciando todo o esplendor do anti-intelectualismo que se espalhou por metástase ao longo de todo o mundo acadêmico.  As universidades se tornaram tão dominadas por uma insistência na inviolabilidade de um determinado pensamento grupal, que qualquer professor “forasteiro”, que não compactue com a predominância deste pensamento gregário, não mais pode falar a respeito de um determinado assunto sem antes ter sido devidamente credenciado por seus pares.  Uma simples pesquisa sobre o tratamento dispensado a acadêmicos que ousam questionar a santidade do aquecimento global mostra bem esse ponto.

Já houve uma época em que um curso universitário era considerado um meio de introduzir as pessoas a uma ampla gama de assuntos que lhes permitiria pensar e falar inteligentemente sobre várias questões que estivessem afetando suas vidas.  O pensamento coletivista — que hoje é predominante no meio universitário — rejeita tal ideia, conferindo o monopólio de determinadas questões apenas àquelas pessoas que são reconhecidas como “especialistas” por seus pares.

Este método educacional que recorre à intimidação e à simples repetição de frases de efeito de cunho emocional evidencia a completa falência do sistema educacional.  Se professores universitários — teoricamente a nata intelectual da sociedade, pessoas que por vocação e profissão deveriam ser as mais rígidas seguidoras do rigor intelectual — agem assim, como podemos esperar que o restante da população apresente discernimentos mais profundos?

Para sobreviver e progredir, seres humanos precisam saber pensar.  Porém, estamos cada vez mais terceirizando esta função para acadêmicos, que por sua vez pautam o conteúdo da mídia.  Tal terceirização de pensamento ajuda a explicar por que há hoje uma escassez de pensamentos originais e significativos.

O fracasso do sistema educacional vai muito além da ausência de um aprendizado útil.  O real fracasso está naquilo que de fato é ensinado — ou melhor, doutrinado — nas salas de aula, algo evidenciado pelos formandos que as universidades cospem para o mundo, seres incapazes de apresentar qualquer resquício de pensamento original.

Jamais se preocupe em se aprofundar em qualquer assunto: os “especialistas” cujos empregos se resumem a promover a agenda do establishment político e cultural já têm tudo explicado para você.

Meus comentários

Dois pontos. Eu concordo com a identificação do “problema” feito por Thomas Sowell. Mas, de acordo com minha tese do duelo cético, discordo ferrenhamente da “causa do problema” que ele identificou.

Vamos aos fatos. Temos um seríssimo problema no senso comum a respeito do ceticismo. No passado, pirrônicos nos ensinaram que ceticismo era o “ato de questionar a si próprio”. Assim, nossa própria mente faria um filtro selecionando o joio do trigo no que diz respeito às ideias a serem aceitas.

Tanto a dinâmica social quanto qualquer área que estuda a mente tem ajudado a demolir essa noção dia após dia. O ser humano é um animal falível, sugestionável e que possui uma série de vulnerabilidades mentais. E mesmo que não possuísse essas vulnerabilidades, ainda seria uma máquina focada em auto-interesse.

A tese do duelo cético corrige essa falha gravíssima do senso comum a respeito do ceticismo sugerindo que devemos focar em um ceticismo feito pelo oponente da idéia, ao invés do seu proponente. Assim, ao invés de esperarmos que as pessoas “questionem a si próprios”, digo que devemos focar em questionarmos nossos oponentes. (O que não significa que não devemos nos auto-questionar, mas sem alimentar falsas esperanças de que os outros também farão isso)

Quando Sowell diz que é “surpreendente” que muitos “assuntos extremamente sérios não são discutidos seriamente hoje em dia”, eu diria exatamente o contrário: é extremamente previsível, de acordo com minha tese do duelo cético.

Ora, se o oponente de um fraudador não questiona esse fraudador, então o fraudador vai nadar de braçadas. Assim, é de se esperar que a qualidade do debate caia cada vez mais em um cenário onde não aprendemos a questionar nossos oponentes da mesma forma que James Randi questionava os médiuns.

Sowell indica como um dos fatores para a atual idiotização a questão da educação ter sido substituída pela doutrinação ideológica. Entretanto, a doutrinação ideológica é benéfica para um dos lados da guerra política. Assim sendo, por que os oponentes desse lado não denunciam a doutrinação ideológica em quantidade suficiente?

A ingenuidade de Sowell chega a dar dó quando ele diz que  “se as instituições educacionais de hoje — desde escolas a universidades — estivessem tão interessadas em diversidade de ideias quanto estão obcecadas com diversidade racial e sexual, os estudantes ao menos adquiririam experiência ao ver as pressuposições que existem por trás de diferentes visões, e entenderiam a função da lógica e da evidência ao debaterem tais diferenças”.

Mas por que eles fariam isso se o interesse deles é derrotar o oponente ideológico? Essa é a idéia central que devemos superar para começar a corrigir as falhas grotescas que o senso comum tem a respeito do ceticismo. As instituições educacionais de hoje vão continuar cumprindo a agenda delas à vontade, por que essa agenda beneficia os que assumiram o poder por lá. É tão difícil entender algo tão óbvio?

Ele lamenta, por exemplo, do caso “de um aluno da Florida Atlantic University que se recusou a pisotear um papel em que estava escrito a palavra “Jesus”, a mando de seu professor, foi suspenso pela universidade”. Depois conta que o establishment universitário saiu em defesa do professor e atacou o estudante. Sowell diz que isso é uma evidência de que há uma “podridão moral que impera na academia, que “vai muito mais além do que um simples professor adepto da doutrinação e da lavagem cerebral”.

Ele está correto em denunciar a podridão moral, mas também deveria denunciar a mansidão quase servil dos oponentes dos esquerdistas. São estes que deviam denunciar e processar a Florida Atlantic University, não os esquerdistas. De novo sou obrigado a dizer o óbvio: os esquerdistas se dão bem com a implementação da agenda deles, e portanto eles vão elogiar o professor e atacar o aluno mesmo.

Toda a lamentação de Sowell, portanto, consegue identificar o problema adequadamente, mas fracassa retumbantemente ao identificar a causa do problema.

A tese do duelo cético resolve todo o enigma, ao denunciar que a causa raiz do problema está na ausência de questionamento do oponente de uma idéia.

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1 COMMENT

  1. Os que as esquerdas querem hoje – para malucos só lhes falta chifres – é que ninguém mais pense por si – eles se encarregam de o fazer pela coletividade, e farão o melhor por todos…
    E todos de corrente no pescoço e focinheira na boca, vigiados por apenas 24 horas e sob ração de má qualidade…
    Oi, Cuba, Coreia do Norte…

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