Luiz Felipe Pondé: “O mal-estar na civilização dos anjos”

2
143

Anjo5

Fonte: Folha de S. Paulo

O otimismo está na moda com o novo livro do psicólogo cognitivista Steven Pinker, “Os Anjos Bons de Nossa Natureza”, da Cia. das Letras. Sou um admirador do seu já clássico “Tábula Rasa” (o título do livro remete a conhecida tese empirista segundo a qual somos inteiramente frutos do meio).

No “Tábula Rasa”, gosto em especial da parte denominada “Vespeiros”, dedicada às polêmicas contra as ciências humanas e sua defesa ideológica da “tábula rasa” a ser preenchida pelas modas ideológicas do momento, do tipo meninos e meninas não existem a não ser como construção social. Risadas?

Considero o evolucionismo e a ciência cognitiva ganhos enormes para a compreensão do comportamento humano. Mas, me pergunto se ele, com este novo livro, não está fazendo mais um panfleto de marketing moral do que um livro “científico”.

Não aceito plenamente suas conclusões a partir daquilo que ele oferece como uma “ciência cognitiva do otimismo”. E, infelizmente, suspeito que Pinker tenha sucumbido a pressão para ser legal, pressão esta que todo mundo que atua como agente do pensamento público sente hoje em dia.

Essa é a praga do politicamente correto: tão invisível como um pó que cai sobre nosso cérebro e não percebemos até nos tornarmos zumbis intelectuais com medo de pensar o impensável.

Temo que assumir que melhoramos porque os americanos passaram de Bush a Obama, e porque existe a ONU e os shopping centers, é mais ideologia (o que Pinker normalmente critica) do que “ciência”. Mesmo a “estatística do bem” só convence quem crê em estatística aplicada a seres humanos.

Dá até a impressão de que o autor se convenceu que o mundo é mesmo igual às regiões mais ricas dos Estados Unidos, onde ele vive.

O conforto e a segurança podem ser mesmo um grande viés a entortar nossas conclusões. Pinker confundiu a felicidade de um circo com ar-condicionado, lanchonetes e ONGs com evolução da paz.

A tese de Pinker em seu novo livro é que a humanidade está, desde o século 19, ficando menos violenta fisicamente. Não é de todo absurdo dizer isso se levarmos em conta que grande parte da humanidade hoje em dia se ocupa com ganhar dinheiro, comprar casas e carros, comer uma alimentação saudável e combater as rugas, afora se conectar às redes sociais e falar besteiras quase o tempo todo.

Trata-se da paz como resultado da banalidade do pequeno sucesso e das horas vazias preenchidas com imposto de renda, divórcios e faturas do cartão de crédito.

Mas, suspeito que esse sucesso da paz se dá antes de tudo porque, além dessa ocupação com um cotidiano que vai da TV a cabo às angústias com a previdência privada, as instituições da democracia representativa e da sociedade de livre mercado (que os comunistas gostam de chamar de capitalismo) representam de fato um ganho, contendo nossa vocação para violência, que agora adormece, cândida, babando nos bares, restaurantes, free shops e ONGs para pandas.

Estamos em paz porque compramos muito, comemos muito e somos muito narcisistas. Estamos muito próximos dos personagens felizes e idiotas do “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley.

O otimismo “científico” de Pinker me lembra outro otimista, Francis Fukuyama, e seu “fim da história”, porque segundo este, não há possibilidade de retrocedermos para uma sociedade sem democracia liberal. Será?

Esses dois autores, Pinker e Fukuyama, parecem não levar em conta que estamos votando em candidatos duvidosos, comprando computadores, pílulas e Viagra há pouquíssimo tempo e que assumir “200 anos de história da paz do consumo” contra 1 milhão de anos (grosso modo) de sofrimentos intermináveis é como julgar a vida de um homem de mil anos pelos dois últimos segundos passados.

Por último, retornaria ao clássico freudiano “Mal-Estar na Civilização” (recusado pela moda cognitivista). Mesmo Norbert Elias, referência essencial para um dos “bons anjos” de Pinker, sabia bem que o processo civilizador cobra um preço alto pela repressão da “besta em nós”.

Resta saber qual seria o “retorno do reprimido” deste mundo de bons anjinhos.

Meus Comentários

Para que uma rede de computadores seja invadida, é preciso que as pessoas se descuidem, e, com otimismo injustificado, deixem de pensar um pouco em proteção.

Steven Pinker, que de fato escreveu ótimos trabalhos, como “The Blank State” (assim como “The Stuff of Thought” e “How the Mind Works”), descambou definitivamente para o humanismo mais fraudulento neste novo livro.

O que um humanista precisa? Simples. Precisa de seu descuido em relação à natureza humana, para que seja mais fácil invadir a rede. Digo, que as pessoas aceitem suas propostas de consolidação de poder para a “salvação” da humanidade. Um dos fundamentos do humanismo é, portanto, fazer o ser humano ficar “descuidado”, e, enfim, vulnerável para todas as atrocidades que possam ser cometidas contra ele.

Por exemplo, a população alemã não era composta de bárbaros antes de praticar o Holocausto Judeu. Pelo contrário, era a nação de grandes intelectuais, que ajudaram a ditar as regras desde o advento do Iluminismo. E o que ocorreu na Segunda Guerra Mundial? Será que ocorreu um “apagão” na mente dos alemães? Claro que não. Apenas foram reunidas as condições necessárias para que um governo inchado pudesse massacrar sua própria população.

A tal “estatística do bem”, proposta por Pinker, é outra fraude intelectual das mais grosseiras.

Ele parte do princípio óbvio de que era muito mais fácil um humano adulto morrer na época das sociedades tribais. Avalia que esse risco diminui progressivamente com o tempo, e, então, estamos caminhando a uma “era da empatia absoluta”.

As estatísticas, no entanto, escondem uma verdade cada vez mais cruel: se em sociedades de larga escala há um menor risco de um país entrar em guerra com o outro (há muito em jogo, como grandes corporações que teriam seus negócios afetados pela guerra), caso isso aconteça, o estado hoje tem muito mais poder do que há vários séculos atrás, e então é capaz de muito mais atrocidades contra o seu próprio povo do que era na época medieval, por exemplo.

Outro ponto que Pinker omite sorrateiramente de sua equação é o fato de que hoje temos muito mais artimanhas linguísticas e truques de propaganda, em praticamente uma ciência da manipulação da mente, de forma que vai ser muito fácil fazer a massa aceitar genocídios no futuro. Basta que governos totalitários utilizem as “palavras mágicas” corretamente.

A tese de Pinker é refutável em todos os seus cânones. Ele ignora os governos totalitários do século XX em sua amostra, dizendo que “em outras épocas, com a mesma tecnologia, matariam muito mais”. Só que ele esconde o fato de que não estamos julgando os governos totalitários pelo quanto matariam outros povos em uma guerra. É o oposto: estamos julgando governos totalitários que, com o advento da religião política, começaram a achar muito divertido matar seu próprio povo em larga escala. E esta é uma inovação da era moderna.

Ele diz que na Idade Média, as pessoas se divertiam ao ver um gato ser queimado em praça pública. Daí conclui que “evoluímos”. Só que ele omite o fato de que hoje em dia pessoas compram tartarugas na China, para vê-las sofrer no espaço de um mês e meio, até morrerem. Um amigo até disse que isso seria a “crueldade nível capeta”.

É assim que segue a obra de Pinker. Partindo de uma teoria que ele considera correta (mas não prova), e enganando o leitor escondendo todos os fatos inconvenientes que nos mostram que temos cada vez mais motivos para ficarmos preocupados com a espécie humana.

Hoje em dia, por exemplo, o neo-ateísmo lança uma campanha de ódio contra os cristãos em uma escala tão exagerada que o discurso anti-semita dos alemães parece uma canção de ninar. Hoje em dia, aliás, até uma suposta “defesa das minorias” vira motivo para lançamento de discurso de ódio contra os oponentes. Humanistas e esquerdistas estão cada vez mais especializados em lançarem ao público discursos para indução ao genocídio.

A realidade dura, que o livro de Pinker não consegue esconder, é a de que cada vez mais temos motivos para ficarmos preocupados. Segurança temporária causada por investimento em segurança e câmeras, assim como policiamento nas ruas, não é o suficiente para garantir que as pessoas fiquem mais pacíficas e/ou tolerantes. A espécie humana continua biologicamente a mesma, até que os alegadores demonstrem que existiu alguma mutação na espécie tornando-nos mais “pacíficos por padrão”.

A periculosidade da espécie humana é a mesma dos tempos das cavernas, e discursos que falsificam os dados para propor uma “era da empatia”, só estão ajudando-nos a ficar cada vez mais descuidados em relação a espécie humana. Uma era em que até discursos como o de Pinker são proliferados como se fossem “algo a ser digno de respeito” (os acadêmicos o adoram, especialmente em sua fase ultra-humanista, como a atual) é uma era para cada vez mais termos motivos para temer. E muito.

Agora já não temos apenas tecnologias de mídia e manipulação linguística para criarem discursos de indução ao genocídio. Temos também discursos como o de Pinker querendo que fiquemos cada vez mais descuidados e despreparados para lidarmos com um mundo cada vez mais perigoso.

Anúncios

2 COMMENTS

  1. Luciano, em linha semelhante a esse texto do Pondé, mas indo para o mundo nu e cru, mais uma prova de que “liberdade” para marxista-humanista-neoateísta significa apenas e tão somente “fazer aquilo que adiante a agenda que prego e, caso se escolha algo que não a adiante, faremos uma intervenção”: colégios de São Paulo que resolveram repetir fórmula mais ou menos parecida com a daquela escola sueca que não trata alunos pelo sexo.
    Observe-se que com parte das coisas até concordaríamos, como o lance de estimular a imaginação das crianças dando-lhes objetos neutros que podem ser vistos de diferentes maneiras conforme a criança que os manipula, e aqui nada muito diferente daquelas brincadeiras que espontaneamente qualquer criança faz com paus, pedras e caixas ou a lógica do castelinho de areia.

    Porém, eis que meninos começam a agir como meninos e meninas começam a agir como meninas e vão respectivamente brincar de futebol e casinha sem que ninguém os tenha obrigado a tal. E aí o marxismo-humanismo-neoateísmo de microcosmo resolve pôr as manguinhas de fora e dizer que as coisas não deveriam ser assim e que deveriam incluir coleguinhas do outro sexo nas brincadeiras. Qualquer pessoa só interviria nas brincadeiras das crianças em raras ocasiões, como quando se machucam ou machucam as outras, mas aqui ficam querendo que as crianças supostamente machuquem suas almas, quando aparentemente nenhuma delas ficou ofendida com as restrições que elas próprias criaram.
    Observe-se também como o tal lance intervencionista é sempre maior contra os meninos. Fica parecendo que eles serem meninos e fazer aquelas coisas normais de meninos é algo criminoso e toca chamarem os pais dos mesmos para orientação pelo fato de eles cometerem o desatino de… serem meninos. Se eles agem como meninos, logo começam a fazer ilações de que a maneira como brincam enquanto pequenos gerariam suposta violência futura contra mulheres e homossexuais (algo para o qual obviamente não se tem prova concreta hoje nem no futuro).

    Esqueceram-se esses pedagogos que querem encaixar pessoas nem que a marretadas em uma utopia que o mundo lá fora não se importa nem um pouco com o que as pessoas pensam e que eventuais conflitos lá fora não irão ter qualquer mediação para serem resolvidos e que o adulto que nele estiver tem de ter consigo a habilidade de resolvê-los sem apelar a terceiros. É também o mesmo mundo que não irá se adaptar aos desejos de uma única pessoa por esta achar que o mundo lhe deve algo que foi prometido sabe-se lá por quem (e aqui pensando no grau de impessoalidade que assumiu o marxismo-humanismo-neoateísmo).
    Em termos psicológicos, e pensando aqui que estamos falando de crianças, também poderá ficar a pergunta sobre quanto que os pequenos que estão sendo sem saber cobaias de experimento de engenharia social irão ficar quando adolescentes ou adultos e tendo de lidar com pessoas que não fazem nem nunca fizeram parte do mundinho que criaram para eles. Veja-se no texto inclusive a preocupação de pôr os adultos como opressores das crianças, como se zelo parental fosse não aquilo que se deve ter conforme o grau de autonomia da prole, mas uma mão pesada de carrasco.

    Esses mesmos pedagogos não notam (ou, mais provavelmente, recusam-se a notar) que meninos e meninas fazem ou mesmo inventam brincadeiras unissex. Esconde-esconde é uma delas, pega-pega é outra e todas as crianças envolvidas ficam contentes com isso e é uma daquelas muitas provas de que nós enquanto animais sociais somos capazes de fazer conciliações. E, olhando sob perspectiva mais equilibrada, como a do jornalista João Fortunato, veja-se inclusive os valores que ensinam às crianças inclusive de uma forma em que tornam-se capazes de ensinar a si próprias.
    Por vezes não posso deixar de pensar em quantos pedagogos estão sendo inocentes úteis ao não notar que tais práticas que tanto ferem a dinâmica normal das crianças. Podem até estar sinceramente achando que estão fazendo um bem e, pior ainda, não reparando que estão na prática sendo marxistas-humanistas-neoateístas, mesmo que em seus fazeres normais repudiem tal tipo de filosofia (ainda que imperceptibilidade a uma ampla maioria seja a intenção do gramscismo).

    Alguns pais podem ser MHNs de fato e conscientemente levarem suas crianças para as tais escolas mencionadas na matéria que falei (assim como pais católicos praticantes prefeririam que seus filhos estudassem em escolas católicas), mas também há muitos pais não-MHNs, mas sem essa consciência que lentamente vem se desenvolvendo na população, que estão levando filhos para tais tipos de ensino sem notar que os entregam de bandeja para a agenda dos filhotes de jacobinos e que é diferente um filho sair católico praticante de uma escola de tal religião (que inclusive acolhe alunos de outras religiões e dá a mesma qualidade de educação, apenas retirando a parte religiosa conforme pedido dos pais) do que um filho sair MHN de uma escola MHN sem perceber que se tornou MHN ou, pior, revoltando-se contra uma família e amigos não-MHNs que na prática o amam muito mais do que qualquer MHN beneficiário que, do MHN funcional ou de quem inconscientemente age de forma MHN, só amam mesmo a capacidade de serem inocentes úteis e não questionarem os postulados do marxismo-humanismo-neoateísmo e seus efeitos ao redor.

Deixe uma resposta