Por uma direita unida… ou não? Como uma hipotética desunião da direita pode se tornar uma arte se apreendermos as lições vindas do neo-ateísmo?

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Quando eu vi o título do vídeo de Rodrigo Constantino, “Por uma direita unida”, torci o nariz. Mas no curso da transmissão há algo de útil.

Antes preciso dizer que me incomodo com essa conversa de “devemos nos unir”, pois entendo que quanto mais nos “unirmos”, mais dissonâncias cognitivas surgirão (tanto em agrupamentos nossos, olhando pela perspectiva da direita, como ocorreriam em agrupamentos da esquerda), e portanto, mais riscos existem para o empreendimento.

Ao contrário, eu defendo uma direita cada vez mais desunida, sendo conectada apenas por um único elo: a rejeição ao esquerdismo.

Nos modelos de guerra assimétrica, esse é efetivo, e com muito mais foco (aliás, a câmera de Constantino parece desfocada), pois para participar dele precisamos ter um princípio norteador: a esquerda deve ser combatida em seus cânones centrais. E só.

Não é preciso acreditar em muitas coisas para fazer isso. Basta  nos conscientizarmos do absurdo que é o esquerdismo.

Outro problema é quando Constantino diz que é possível conversar com uma esquerda moderada.

Nonsense! Pois qualquer esquerdista que abrir a boca na mídia para falar de qualquer comentarista da direita, irá tachá-lo de “ultra-direita” ou “amigo da ditadura militar” e epítetos nessa linha.

Polarização é uma regra da política,e um princípio da propaganda.

Se ele já começa dizendo que a esquerda “pode ser moderada”, já entra de cabeça baixa como oposição.

Aliás, deve-se tomar cuidado em especial com a “esquerda moderada”, pois ela geralmente serve de fachada para a esquerda mais radical.

Os pontos positivos no vídeo incluem, enfim, um pragmatismo interessante, e entendo que ser politicamente pragmático é muito necessário hoje em dia.

Ele cita alguma possibilidades.

A primeira é a da redução do apoio dos libertários à liberação do uso de drogas. A ideia libertária (com a qual concordo) de que todos poderiam usar as drogas que quisessem obviamente incomoda os conservadores. Constantino sugere que os libertários deixem esse assunto de lado, portanto. Não tiro a razão dele.

A segunda é a da amenização do ateísmo militante, ou seja, dos neo-ateus, movimento que Constantino abraçava até pouco tempo. O curioso é que neste blog eu sempre bati nesta tecla (até cansar) há muito tempo. Eu sempre dizia que não fazia o menor sentido um ateu de direita militar para acabar com a religião tradicional, pois isso ajudaria os esquerdistas, que dependem da diminuição do culto em Deus para aumento do culto ao homem (e, em consequência, ao Estado).

Neste caso, creio que a dica do Constantino veio tarde demais. O neo-ateísmo já se “enraizou” na sociedade e não vai diminuir. Se tornou um estilo de vida. Orgulhos novos foram criados, como se fosse uma nova torcida de futebol.

Enfim, não há mais retorno na questão do neo-ateísmo. Por esse motivo (como tantos outros) hoje eu defendo a expansão do neo-ateísmo, e sua fórmula, para atacar inclusive os neo-ateus.

A terceira questão é a do aborto, em que ele entende, corretamente, que a posição conservadora cristã é extremista: a vida não pode ser interrompida em momento algum, ou por qualquer motivo. A luta contra o aborto é uma causa perdida (pois como você explicará para uma mulher estuprada que ela tem que ver seu corpo se deteriorar para ter uma criança indesejada?) para a direita cristã.

Enfim, diante dessas questões, Constantino pede que os lados “deixem para lá” esses temas, pois o prioritário é derrubar o projeto bolivariano do PT.

No fim, a ideia é interessante, mas ingênua.

O ideal é criar um movimento de longo prazo, e não algo “focado na próxima eleição”, pois foi esse o grande talento do PT: lutar para criar um movimento durante décadas e décadas.

Para se criar uma cultura de oposição, deve-se criar um movimento de longo prazo, radical, focado em rejeição à esquerda. Algo similar ao que os neo-ateus fazem em relação à religião, só que contra a esquerda.

Eis algumas regras que devemos assimilar do neo-ateísmo, mas para uso contra a esquerda:

  • Não devemos o menor respeito às crenças que consideramos injustificadas;
  • Se estas crenças são ao mesmo tempo consideradas por nós como injustificadas e perigosas, é nossa obrigação desmascará-las e apontar suas consequências ao público;
  • Se em nosso juízo as mesmas crenças são injustificadas e perigosas, devemos lutar por um mundo em que essa crença não nos afete;
  • O mero ato dos pertencentes à essas crenças de se horrorizarem com nossas críticas é uma abominação, pois isso mostra que não aceitam críticas e são totalitários;
  • Todo ato meu em ataque a estas crenças pode até ser considerado desprezível e abjeto (por eles), mas ninguém tem o direito de não se sentir ofendido, e devo lutar pelo meu direito de expressão como inviolável;
  • Em muitos casos, a versão moderada de uma crença é corresponsável pelos atos da versão mais radical, pois a “pose” moderada de alguns acoberta os crimes dos radicais;
  • A doutrinação escolar em uma crença que você considerada injustificada e perigosa é pior que abuso sexual, e é com essa contundência que devemos denunciá-la;
  • A ridicularização de um grupo ideológico que consideramos perigoso é nossa obrigação moral;
  • A existência de vários paradigmas e desacordos dentro do nosso grupo deve ser um motivo de orgulho. Mas sempre lembrando que temos um inimigo em comum;
  • Se não assumirmos nossa obrigação de desmascarar o oponente somos corresponsáveis pelo estado atual que rejeitamos.

Esse ritmo bate-estaca de ataque deve ser contínuo e contundente, com a revelação contínua e incessante dos fatos da esquerda que vão dando combustível ao movimento.

Aí, em uns 10 a 15 anos, podemos COMEÇAR a pensar em frutos.

Agora, infelizmente, não há expectativas.

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17 COMMENTS

  1. Mas é nesse contexto que se apregoa a união: para combater as esquerdas! Não há outra forma, democracia são números, votos, quantidade conta. Não há outra forma de aumentarmos a quantidade na oposição se não nos agregarmos. Correto o Rodrigo Constantino. Depois da derrocada esquerdista, cada um que volte para o seu quadrado.

  2. Esse povo não vai aprender mesmo… o plano anti-esquerda perfeito seria acelerar o processo de ditadura no país e depois derrubá-lo… assim como aconteceu na Europa Oriental, onde símbolos esquerdistas são banidos… parece-me este o único modo de escapar disto… Qual sua opinião Luciano?

    • Também penso assim; seria uma longa ditadura, bem maior que os 21 anos de milicos, mas que acabaria caindo cedo ou tarde… Apesar das perdas, os danos que o socialismo causaria aqui o afastaria para sempre do continente, a maioria dos países ex-comunistas hoje quase não têm esquerda ou ela foi proibida como no caso da Hungria.

  3. Luciano,
    Novamente vc foi muito bem. Vi esse video do Constantino e entendo o que ele quis dizer, mas nunca diria isso para o grande publico. Este discurso serve para uma mesa com lideres em um reuniao para definir um inimigo em comum, mas nao para o homem medio. O constantino eh um comunicador, nao um estrategista. Para trancar os rumos da direito são preciso pessoas com estudo em varias areas do conhecimento. A funcao do rodrigo eh linha de frente, para uma criar uma tatica de retaguarda sao necessarias outras qualidades. Por isso acredito ser fundamental pessoas como velho olavo.
    A direita precisa de seu “forum de sao paulo”.

  4. Dentro do que ele se propôs, um dos maiores equivocos dele foi não ter citado o Olavo de Carvalho, mesmo que de passagem, com o intuito de abrir uma porta para a aproximação dos dois. Ninguém discorda que ele mudou e amadureceu; que ele tenha mudado e amadurecido justamente nos pontos em que o Olavo mais o criticou não pode ser coincidência.

  5. Se o Rodrigo Constantino fosse mais humilde perceberia o gigantesco mico que é se arvorar a ser o líder unificador da “direita” brasileira. O professor Olavo de Carvalho vem formando massa crítica de pessoas há pelo menos 15 anos com suas aulas de filosofia, livros e palestras. E vive dizendo o óbvio: antes da formação de uma geração intelectual de perfil liberal-conservadora (como o PT fez usando os métodos gramascianos por mais de vinte anos), qualquer ação no campo da política fracassará. Mesmo que eventualmente o PT seja derrotado numa eleição para a presidência da república, as universidades, a burocracia estatal, o meio artístico, as redes sociais, os sindicatos, muitas igrejas etc continuarão coalhadas de esquerdistas militantes.

    O Rodrigo Constantino ainda não deve ter percebido que, mais do que uma luta política, é uma luta de valores que ocorre em todo o Ocidente, onde o humanismo vem nadando de braçada. É preciso provocar um processo tanto de reimpreganação de valores éticos e morais na sociedade (independetemente das religiões) e uma rejeição cabal às idéias humanistas. Vejam como do lado deles deu certo, por exemplo, o plano de rejeição aos preceitos cristãos: no imaginário de muita gente, os evangélicos, por exemplo, são ou pastores ladrões ou pessoas fanáticas e alienadas. Essa idéia está presente em histórias em quadrinhos, nas novelas, em livros, em filmes, na Internet.

    Um exemplo que pode parecer banal mas não é são os quadros de humor do Porta dos Fundos, que estão bombando no YouTube. Já vi elogios rasgados a eles em vários sites de esquerda justamente pelo posionamento esquerdista e politicamente-correto, com sketches que escracham com o marido fiel, o genro certinho, o branco supostamente racista e homofóbico, o padre pedófilo, o pastor ladrão, o jornalista crítico do PT, textos bíblicos etc. Já é um humor ácido adaptado à agenda politicamente correta, que faz imenso sucesso. E os caras – que são inegavelmente competentes no que fazem – ainda posam de críticos do politicamente correto. E são apontados pelos esquerdistas como o humor verdadeiro e de alto nível, em detrimento aos “reacionários” Danilo Gentili, Rafinha Bastos e demais humoristas de stand-up que criticam o PT e o politicamente correto. Daí vemos como os ideais humanistas já se impregnaram no imaginário de boa parte da população.

    Vencer o PT numa eleição pode parecer importante, mas é só uma gota num verdadeiro oceano. Se o PSDB entrar no lugar, os ideais humanistas vão continuar a dar as cartas no governo. Os tucanos são esquerdistas também, só que menos bandeirosos e revolucionários. A vitória no campo político terá de ser precedida necessariamente de uma vitória no campo cultural, como aconteceu exatamente com o PT e a\ esquerda no Ocidente.

    Pra terminar, adorei a idéia de usar os métodos dos neo-ateístas contra os humanistas. Mas isso não vai acabar se tornando um problema pra quem não é adepto da dinâmica social, Luciano? Como os cristãos, que em tese culturam a verdade, vão usar esses métodos sabendo que eles são em certa medida fraudulentos? Ou não? O que você acha?

    • Excelente questionamento!

      Vou fazer até um post para tratar mais disso.

      O que eu proponho é o uso da ESTRATÉGIA dos neo-ateus, e da POSTURA deles, e não das fraudes que eles cometem, é claro. Por exemplo, todos os itens nos bullets não compõem fraudes.

      Uma fraude neo-ateísta, por exemplo, é dizer que sem a religião, não existiria o 11 de setembro. Eu sou contra fazer este tipo de fraude. Mas demonstrar que o marxismo é a ideologia que moveu genocídios na Rússia, China e Cambodja não é uma fraude.

      As lições que defendo que sejam utilizadas a partir do neo-ateísmo não conspiram em nada contra valores cristãos.

      Abs,

      LH

  6. Eu fiquei abismado foi com a ideia de “esquerda democrática” que o Constantino acredita que exista. Ele não entendeu que democracia para a esquerda significa outra coisa?

    Sou contra essa união, também concordo que o ataque vindo por diversos oponentes é muito mais efetivo.

  7. A uniao da direita deve ser entre os lideres das alas, cada grupo se concentra em atacar o esquerdismo ao inves de atacar a outra direita, mas nao deve ser entre os membros das respectivas alas. Nao precisa colocar os cristaos e ateus juntos em um evento, cada um no seu quadrado pode atacar o esquerdismo sem necessariamente se unir .
    No caso do olavo acho que o constantino tem o seguinte pensamento: se eu falar que apoio o olavo me queimo com meu publico (o que eh fato) (da mesma forma acho que olavo nunca vai fechar com os conservadores ateus abortistas ou liberais em relacao as drogas), mas para quem sabe um pouco das coisas percebe sinais claros do trablaho de olavo no discurso do constantino. O velho sabe que muitos diretistas apesarem de beber em sua fonte nunca confessaram.

    • Primeiro, obrigado pelas palavras.

      Segundo, quando eu falei em degeneração para o corpo da mãe, disse que isso ocorre no nível estético. Exemplo são as estrias que surgem, e outros danos. Há mulher lindas que deixaram de se tornar desejáveis após a primeira gravidez. Nem todas, é verdade.

      Por isso algumas mulheres entendem que esse risco só pode ser assumido por causa de uma gravidez desejada, não indesejada.

      É por isso que fiz meu argumento onde queria saber como explicaríamos às mulheres, como um todo, que esses problemas dela são irrelevantes em relação aos da criança que ainda nem sequer sente alguma coisa.

      Abs,

      LH

  8. Acho que o Constantino errou feio em pedir pra os conservadores deixarem o aborto de lado, é, provavelmente, a bandeira principal do momento para os conservadores, para nós é homicídio, não há como flexibilizarmos. O casamento gay é menos importante, as drogas são menos importantes, oposição ao aborto é uma bandeira essencial que a maioria não negociará. Quanto a estratégia, gostei do vídeo dele, mas acho que a ideia correta é essa sua, você resumiu bem com seus tópicos, mostrar os crimes da esquerda, seus absurdos e tachá-los do que são: loucos, sem para isso precisar dos grupos oposicionistas se unirem (ainda mais pela infantilidade de muitos seguidores dele, que estão num estado de relatividade moral e neo-ateísmo mas podem se voltar contra a esquerda ainda assim, isso porém sem se unir aos conservadores).

    Constantino só pisou muito feio na bola de não citar o Olavo, ainda mais quando boa parte de quem assistiu sabe que o amadurecimento intelectual dele surgiu a partir das críticas do Olavo, se está mesmo determinado nesse propósito tem que dar o braço a torcer e reconhecer quem é maior que ele.

  9. Muito interessante esse post , porém há alguns pontos que me suscitaram duvidas e discordâncias rasas a respeito de algumas ideias ;

    ” A segunda é a da amenização do ateísmo militante, ou seja, dos neo-ateus, movimento que Constantino abraçava até pouco tempo. O curioso é que neste blog eu sempre bati nesta tecla (até cansar) há muito tempo. Eu sempre dizia que não fazia o menor sentido um ateu de direita militar para acabar com a religião tradicional, pois isso ajudaria os esquerdistas, que dependem da diminuição do culto em Deus para aumento do culto ao homem (e, em consequência, ao Estado). ”

    Embora eu reconheça que o movimento ateísta militante ou neo ateísmo , tenha uma serventia muito maior para a esquerda , pois os neo ateus funcionais , se perdem facilmente com sua ira a religião a ponto de se associarem a grupos e movimentos políticos que mesmo defendendo discursos mirabolantes e que se aceitos poderão prejudicar até eles ( os neo ateus ) , mas que pelo simples fato desses partidos e oporem á grupos conservadores religiosos , já é um fator chave para apoiá-los .

    Porém um neo ateu moderado , que mesmo guardando ressentimentos e animosidades com a religião tradicional , mas que não deixou que o conceito neo -ateísta tenha destruído totalmente sua visão política, poderia contra argumentar afirmando que nem sempre o fato de alguém deixar a crença religiosa iria acarretar no ganho de crenças humanistas e esquerdistas e que já que o método apresentado pelo blog ajudaria muito mais os neo ateus do que os religiosos , pois o problema dos neo ateus é o fato deles justificarem alguns pontos de sua agenda com o uso de fraudes , porém eles poderiam muito bem justificar certos pontos sem o uso de falácias e conciliar de maneira conveniente a defesa de seu ceticismo pela religião e a luta por um estado mais secular , que não permita que certas crenças religiosas e ideológicas prejudique o bem-estar daqueles não creem nelas .

    Outro ponto que também me deixou um pouco confuso foi a questão do aborto do qual discordo totalmente, com ressalvas apenas quando ele e a mulher correm risco ele se trona “justificavél” . porém estou aberto para uma mudança de paradigmas á esse assunto .

    ” A terceira questão é a do aborto, em que ele entende, corretamente, que a posição conservadora cristã é extremista: a vida não pode ser interrompida em momento algum, ou por qualquer motivo. A luta contra o aborto é uma causa perdida (pois como você explicará para uma mulher estuprada que ela tem que ver seu corpo se deteriorar para ter uma criança indesejada?) para a direita cristã. ”

    Mas se a mulher é estuprada a culpa é do estuprador que cometeu um ato de extrema barbaridade e maldade . O que a criança em questão têm a ver com isso ? quem tem que pagar pela maldade e o crime que cometeu o sujeito que violentou a vítima e não a criança . Uma criança inocente não têm o direito de perder sua vida pelo crime do seu pai , se a mulher não quer ter a criança é mais adequado que ela entregue a parentes ou a adoção e seja criada ou adotadas por pessoas que tenham condições financeiras e psicológicas de cuidar daquela criança ,

    Bom são essas a minhas objeções e discordância a certos pontos do texto , que ao meu ver mostrou bons argumentos e dicas para os conservadores .

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