A fantástica pegadinha de Alain Sokal OU Por que estamos justificados a duvidar da sanidade do discurso de esquerda?

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Em “Slander: Liberals Lies About The American Right”, há uma tese interessante. O livro, escrito por Ann Coulter, demonstra, com mais de 800 fontes, que esquerdistas simplesmente abandonam todo e qualquer aspecto do discurso racional em prol de sua agenda. Junto com propaganda enganosa, falsa rotulagem, rotinas manjadas e truques psicológicos, simplesmente não há debate racional a partir deles.

Logo na introdução, Rush Limbaugh diz:

Esquerdistas não dialogam sobre suas idéias de forma honesta. Ao invés disso, eles inventam fatos “malucos” e “estudos” a respeito de pessoas como eu, lançam xingamentos, os repetem de forma incessante, e esperam que eu perca meu tempo respondendo às suas ofensas ao invés de fazer o que minha audiência quer que eu faça: continuar falando a verdade.

Rush entende que “quando não estão de posse de seus truques contra os conservadores, esquerdistas não tem mais nada o que dizer”. A ideia do livro de Ann Coulter é aplicar um custo ao uso das fraudes esquerdistas lançadas contra conservadores, demonstrando que eles não conseguem lançar um argumento sequer sem estas fraudes. Ele conclui: “É como ver um povo perder sua linguagem”.

Logo no início do primeiro capítulo, Ann Coulter diz:

O debate político neste país é impossível. Seja conduzido no Congresso, ou em programas televisivos, ou mesmo em jantares ou coquetéis, política se tornou um esporte sujo. Sem me arriscar a entregar a conclusão final: é tudo culpa da esquerda.

Ela segue:

Não é possível realizar progresso argumentativo em nenhuma questão pois um dos lados está fazendo argumentos e o outro está jogando ovos – tanto de maneira figurada quanto literal. Fuga do assunto e difamação constituem a marca registrada do “argumento” de esquerda. Lógica não é o métier deles. Fé religiosa cega sim.

Ann não compara os esquerdistas aos religiosos em geral, mas sim aos fanáticos religiosos. Segundo ela, “os fanáticos religiosos mais enlouquecidos argumentam de forma mais calma e razoável do que esquerdistas respondendo às estatísticas sobre permissão de porte de armas”.

Uma argumentação razoável para entender esse fenômeno é a espiral do delírio. Não é que um esquerdista seja demente ou louco, mas sim que, por se encontrar dentro do grupo culturalmente hegemônico, conseguiu lançar seus oponentes na espiral do silêncio. Logo, isso os coloca automaticamente na espiral do delírio. A regra é clara: se os oponentes de uma ideia são aqueles que podem reprimir, via argumentação, as bobagens que são lançadas em torno de uma ideia, estes oponentes precisam agir. Mas se estão na espiral do silêncio, dificilmente contestarão as idéias oponentes. O resultado é que a esquerda, por não ser contestada suficientemente, diz o máximo de bobagens que conseguir, pois estão obtendo benefício político a partir destas bobagens.

Veja o que ela diz:

Talvez se os conservadores tivessem controle total de todo e qualquer meio de disseminação de notícias por um quarto de século, possivelmente teriam esquecido como debater também, e talvez chamariam os esquerdistas de estúpidos e malvados ao invés de argumentar. Mas este é um universo alternativo. Neste universo, a arena pública é composta de propaganda esquerdista de parede a parede.

O livro de Coulter foi escrito em 2002. Mas seis anos antes, Alain Sokal, professor de física, desmascarou o auto-alegado “senso crítico” da esquerda pós-moderna. (Todas as citações a partir de agora vem do livro The Sokal Hoax: The Sham That Shook the Academy, dos editores da Lingua Franca)

No início de 1996, Sokal enviou o artigo “Transgredindo as fronteiras: em direção a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica” para o periódico Social Text, focado em estudos culturais e editado pela Duke University Press. O problema é que o artigo era, segundo o próprio Sokal, um embuste, construído em torno “das mais tolas citações que eu pude encontrar… de alguns dos mais proeminentes intelectuais franceses e americanos” e com uma “argumentação sem sentido ligando essas citações”.

Veja um exemplo das bobagens propositais contidas no artigo:

Tem se tornado cada vez mais evidente que a “realidade” física, não menos que a “realidade” social, não passa de uma construção linguística e social; e que o “conhecimento” científico, ao invés de ser objetivo, reflete e codifica as ideologias dominantes e relações de poder da cultura que o produziu; que as alegações sobre verdade da ciência são inerentemente submetidas às próprias teorias auto-referenciais; e, consequentemente, que o discurso da comunidade científica, mesmo com todo seu valor inegável, não pode obter um status epistemológico privilegiado no que diz respeito à narrativas contra-hegemônicas emanando das comunidades dissidentes ou marginalizadas.

Essa parte é o embaralhar e dar de novo em cima da teoria crítica de Max Horkheimer. Até o momento, portanto, nada de novo.

A novidade está na “solução” proposta por Sokal:

Aqui meu objetivo é levar a fundo essas análises, usando os desenvolvimentos recentes na gravidade quântica: o campo emergente da física no qual a mecânica quântica de Heisenberg e a relatividade geral de Einstein estão finalmente sintetizadas e também superadas. Na gravidade quântica, como veremos, a noção de espaço-tempo deixa de existir como uma realidade física objetiva;  a geometria se torna relacional e contextual; e as categorias fundacionais da ciência anterior – entre elas, a existência em si própria – se tornam problematizadas e relativizadas. Esta revolução conceitual, conforme argumentarei, tem profundas implicações para o conteúdo de uma futura ciência pós-moderna e liberatória.

Depois de um longo mingau sem sentido, Sokal conclui:

[…] a ciência pós-moderna fornece uma refutação poderosa do autoritarismo e elitismo inerentes na ciência tradicional, assim como uma base empírica para uma abordagem democrática ao trabalho científico […] O conteúdo e a metodologia de uma ciência pós-moderna passa a fornecer um suporte intelectual poderoso para o projeto político progressivo, entendido em seu sentido mais amplo: a transgressão das fronteiras, a quebra das barreiras, e a radical democratização de todos os aspectos da vida social, econômica, política e cultural.

Incrível, não? Pois bem: ao mesmo tempo em que mandou esse “hoax” para a Social Text, Sokal enviou um outro artigo, para a Lingua Franca, explicando que havia submetido a Social Text a um embuste.

Sokal diz:

[…] para testar os padrões intelectuais prevalentes, eu decidi tentar um experimento modesto (mesmo que não controlado, eu admito): será que um periódico norte-americano de estudos culturais – com um quadro do qual fazem parte figuras notórias como Fredric Jameson e Andrew Ross – iria publicar um artigo literalmente baseado em nonsense, se (a) ele soava bem, e (b) estivesse em favor das pré-concepções ideológicas dos editores?

A resposta foi sim, para espanto de Sokal: “O que aconteceu ali? Será que os editores não perceberam que meu artigo foi escrito como uma paródia?”

Ele nos explica mais:

No curso do artigo, eu emprego conceitos matemáticos e científicos de forma que poucos cientistas ou matemáticos os levariam a sério. Por exemplo, eu sugiro que o “campo morfogenético” – uma ideia New Age bizarra proposta por Rupert Sheldrake – constitui uma quebra das barreiras da gravidade quântica. Esta conexão é pura invenção; nem mesmo Sheldrake faz tal alegação. Eu digo que as especulações psicoanalíticas de Lacan tem sido confirmadas por trabalhos recentes na teoria do campo quântico. Mesmo leitores que não são cientistas devem perguntar que raios tem a ver a teoria de campo quântico com psicanálise. Certamente meu artigo não dá um argumento razoável para suportar essa conexão. Posteriormente no artigo eu proponho que o axioma da igualdade na teoria de campos da matemática é de qualquer forma análoga ao conceito homônimo na política feminista. Na verdade, tudo o que o axioma da igualdade diz é que dois conjuntos são idênticos se e somente se eles tem os mesmos elementos. Mesmo os leitores sem treino matemático deveriam desconfiar da alegação de que o axioma da igualdade reflete as alegações feministas. Em síntese, eu escrevi o artigo de forma que qualquer físico ou matemático competente (ou mesmo um graduando nessas matérias) perceberia que tudo se tratava de uma gozação. Evidentemente, os editores da Social Text se sentiram confortáveis em publicar um artigo de física quântica sem se preocupar em consultar qualquer um com conhecimento no assunto.

É claro que ninguém é obrigado a conhecer física quântica, mas, para alegações extraordinárias, investigações mais detalhadas deveriam ter sido feitas, conforme Sokal diz:

É compreensível que os editores da Social Text não podiam avaliar criticamente os aspectos técnicos de meu artigo (o qual é exatamente o motivo pelo qual eles deveriam ter consultado um cientista). O que é mais surpreendente é como eles aceitaram de imediato minha implicação de que a busca pela verdade na ciência deve estar subordinada a uma agenda política, e o nível de confiança que eles depositaram na lógica contida no artigo.

O maior interesse de Sokal era tentar descobrir o quanto esquerdistas estavam dispostos a fugir da realidade objetiva para continuar defendendo suas agendas políticas. Em suma: o quão pouco eles valorizam a verdade, em benefício de sua agenda. Para tornar tudo mais irônico, Sokal é um esquerdista moderado.

O escândalo Sokal gerou grande repercussão no mundo acadêmico no final dos anos 90, embora hoje em dia esquerdistas façam tudo para jogar a vergonha para debaixo do tapete.

Na época, Jacques Derrida, em um artigo para o Le Monde, classificou nestes termos a ação de Sokal e seu amigo Jean Bricmont (que juntos escreveram o livro “Imposturas Intelectuais”): “oportunidade de uma reflexão séria desperdiçada”, “não são sérios”, “cavaleiros mal-treinados”, “censores”.

Quer dizer, Derrida age exatamente conforme o padrão previsto por Ann Coulter. Como não tem argumentos e não consegue refutar o experimento de Sokal, parte para a xingação.

Tudo previsível para um grupo de pessoas que não dá a mínima para a realidade objetiva.

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