Rotina esquerdista: Não sou nem de esquerda e nem de direita

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Última atualização: 06 de junho 2013 – [Índice de Rotinas][Página Principal]

Antes de tudo, isto é uma rotina apenas no debate público com pessoas razoavelmente politizadas, pois no cotidiano do povão, muitos nem sabem o que é “ser de direita ou de esquerda”, e geralmente caem em uma categoria de que falarei em outros posts.

De início, temos que saber por que alguém, que tende para a esquerda, quer ser reconhecido como “não sendo nem de direita e nem de esquerda”?

A resposta é até simples demais: participantes de debates públicos são vendedores de idéias. Automaticamente, o fato de alguém ser aderente a uma ideia diminui (embora não elimina) automaticamente o valor desta ideia. O senso comum pensa: “Ele diz isso por que é comunista!” ou “Ele diz isso por que é conservador!” e coisas do tipo.

Para reduzir o grau de rejeição, o debatedor poderá alegar que “não é nem de direita e nem de esquerda”, para, enfim, ser reconhecido pelo público como não aderente a ideia. Mas, se ele não é um aderente, mas mesmo assim está apoiando a ideia, qual a mensagem sub-comunicada? Simples. A posição política elogiada é tão boa que ele, mesmo que não esteja do lado desta posição, “tem que reconhecer os méritos dela”.

Este tipo de interesse justifica por que existe tanta fuga da lógica quando alguém luta para fingir, perante ao público, que “não é de direita, e nem de esquerda”.

Vamos arrumar essa bagunça, usando um critério facilmente justificável: a crença fundamental. Assim, alguém ou é ateu ou teísta, se considerarmos a crença fundamental que define teísmo ou ateísmo. Neste caso, a crença em Deus. Mas este ateu pode ser espiritualista, o que é tipicamente considerado como sendo uma característica teísta ou deísta. Mas não há problema algum em alguém ser ateu e espiritualista. Ou mesmo ser ateu e adotar alguns princípios de uma religião. Ou rejeitar as religiões e adotar o teísmo. Mesmo assim, isto não permite que alguém diga que “não é nem ateu e nem teísta”.

Usando o mesmo critério, tomemos a crença no estado inchado, e nas pessoas que tomam conta deste estado. Sendo esta a mais fundamental das crenças do esquerdismo, por causa da crença no homem (a crença humanista que é um guarda-chuva para o esquerdismo –  e, como já disse, surgiram recentemente até direitistas humanistas, mas estes vivem em duplipensar, o que não é o caso dos esquerdistas, que seguem o humanismo à risca), alguém deve ser definido como esquerdista pelo fato de apostar ou não neste estado. A rejeição a esse paradigma configura o pensamento de direita.

Desta forma, é muito fácil saber se estamos diante de alguém da esquerda ou da direita. Se um sujeito começa a pedir subserviência das pessoas “ao estado” (como se fosse uma entidade abstrata e benevolente)… é de esquerda. Um esquerdista ainda tentando implementar a rotina poderia dizer que “quer o estado inchado, mas só se os serviços forem bons”, o que é o mesmo que dizer que “defende o estupro, mas acha que uma rosa deve ser deixada no corpo na mulher após o ato de violência”. Isto é, não existe um meio termo entre “aceitar estupro” e “não aceitar estupro” ou “aceitar estado inchado” e “não aceitar estado inchado”.

Claro que um esquerdista pode adotar algumas idéias da direita, e a teoria da dissonância cognitiva explica o processo. Já vi esquerdistas (raríssimos) defendendo penas altas para criminosos e até a redução da maioridade penal, por causa da crença na responsabilidade individual, mas isso pode configurar no máximo um esquerdismo moderado.

Mesmo na situação de um esquerdismo moderado, ainda existe uma opção entre esquerda ou direita na crença fundamental do esquerdismo, assim como mesmo na situação de um ateu espiritualista X teísta não-espiritualista existe uma opção entre ateísmo ou teísmo, que não pode ser superada.

A impossibilidade de superação existe por que falamos de dilemas, ou seja, situações onde ou escolhemos um lado ou escolhemos outro. A não ser que exista um esquerdismo quântico no sentido do espiritualismo picareta de um Amit Goswami. Aí existiria o “ser e não-ser” ao mesmo tempo ou até o “existir e não-existir ao mesmo tempo”. Mas nada disso pode ser levado a sério.

Quando alguém começar a dizer que “não é de esquerda e nem de direita”, observe o comportamento e faça questionamentos incômodos, e você poderá notar que, em relação a crença fundamental da esquerda, o sujeito irá demonstrar o seu lado. Que com certeza não é uma posição “nem de direita e nem de esquerda”, mas sim de esquerda.

Na maioria absoluta dos casos de aplicação desta rotina, podemos ter segurança de estarmos diante de alguém da esquerda. São eles que adoram maquiar a realidade, inclusive sobre as definições que abarcam seu paradigma. Tudo para facilitar sua venda.

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17 COMMENTS

  1. Luciano, não valeria a pena falar do rebu que acabou de acontecer em São Paulo promovido pelo Movimento Passe Livre dizendo que protestam contra o aumento da passagem para R$ 3,20? As manifestações começaram na Paulista e, durante a repressão policial, dividiram-se entre Bela Vista e Consolação. Houve quebra-quebra (incluindo lixeiras e vidraças do Shopping Paulista, fora terem jogado objeto contra uma banca de jornal), como se pode ver na página do evento, mais especificamente aqui e aqui. Fala-se de fazer um segundo ato amanhã, no Largo da Batata, o que pode denotar algum uso de tática que se utilize de pequenas manifestações localizadas. Porém, já fica a impressão de que há fissuras dentro do movimento, como se pode ver aqui, com gente que viu a depredação de patrimônio particular e dispositivos de uso público comum. Seguem vídeos dos ocorridos de hoje:

    http://www.youtube.com/watch?v=lZ1Qi-Ba_bk

    http://www.youtube.com/watch?v=4s4xcPb51cQ

    http://www.youtube.com/watch?v=LJCKO_O_HRY

    http://www.youtube.com/watch?v=cMAD6-P_Qw8

    http://www.youtube.com/watch?v=7hkDv0Asm4k

    Também achei mais fontes de informação, como esta e esta outra. Olhando os álbuns de fotos do UOL e G1, fica-me a impressão de que o movimento seja astroturfing, pois vemos bandeiras de PSTU, PCB e PSOL, fora que em um dos vídeos vê-se a bandeira do movimento anarquista. Engrossando as filas, há também gente do Sindicato dos Metroviários (o que nos pode fazer suspeitar que estejam usando a manifestação para conseguir alguma conquista qualquer e logo deixariam o pessoal do Passe Livre a ver navios após a conquista). O movimento em questão também foi deflagrado em outras cidades, como Rio, Goiânia e Natal.
    Vemos marxistas-humanistas-neoateístas combatendo marxistas-humanistas-neoateístas? Vemos sim, mas aqui fica difícil saber se é um movimento aproveitável para se avançar o combate ao marxismo-humanismo-neoateísmo, ainda mais pelo tanto de vandalismo (vide e auê que fizeram no Shopping Paulista, com direito a quebrar o para-brisa de um carro que será sorteado na promoção do Dia dos Namorados. Quem ganhar aquele carro já terá em mãos um modelo que não está exatamente intacto, mesmo que o funileiro e o vidraceiro a repará-lo sejam dos bons). Observe-se que o Passe Livre costuma queimar uma catraca a cada uma de suas manifestações e uma de suas bandeiras é o fim da tarifa de transporte público, um óbvio absurdo e, pensando em quem possa insuflar o movimento, a tal meta para otário tentar bater e nunca conseguir. Por outro lado, temos uma tarifa de ônibus que realmente está alta e pode fazer com que suspeitemos que seja uma espécie de acerto de conta dos MHNs no poder com aqueles que financiaram a campanha. No meio disso tudo, o povo (e observe-se que gente do povo que se desiludiu com o vandalismo dos manifestantes já avisou que não irá engrossar mais suas fileiras). Para complementar, este outro link sobre a história toda.

  2. Detalhe: geralmente o esquerdista que tenta implementar este truque tenta posar de bom samaritano com discursinho pseudo-humanitário, mas defendendo o método esquerdista de resolução do problema: estado inchado.

  3. Tópico utilíssimo e maravilhoso, pois expulsa aquele grilo da cabeça da gente. Quem aqui já não ficou confuso com sujeitos que se denominavam anti esquerda ou direita, mas utilizavam discurso esquerdista, e ainda sendo religiosos?

    Mas e quanto aos anarquistas? Eles poderiam ser enquadrados nessa categoria?

    • Natan…

      Depende do que estão alegando. Se é o anarquista que diz que “para chegar ao anarquismo lindo e maravilho, precisamos de um estado forte transitório”, obviamente estamos diante de um esquerdista.

      Se o anarquista já propõe um mundo sem estado de imediato, este seria um extrema-direita.

      Abs,

      LH

  4. Não sei se concordo. É mais fácil definir o que é teísmo x ateísmo. Porém, há controvérsias nas definições de direita x esquerda. A própria wikipedia não usa como pedra de toque as preferências pelo tamanho do estado (que me parece uma definição calcada no libertarianismo norte-americano). Ela define “esquerda” como a aceitação ou suporte da igualdade social, e “direita” como aceitação ou suporta da hierarquia social ou desigualdade social.

    Lógico que aí podemos dizer que o esquerdista tipicamente acha que é o estado quem tem que intervir e forçar ali uma igualdade social, mas aí o estado seria a ferramenta, não que o esquerdista automaticamente tenha um tesão por um estado grande.

  5. Rótulos só servem para iludir. Um ateu pode se rotular de “cristão” e lucrar muito dinheiro pedindo dízimos. Acreditar piamente nesses rótulos só favorece politiqueiros, por exemplo, o pastor Feliciano, que usou a grande massa de sua igreja para ajudar o PT, e depois ganhou do PT a CDH: os pastores da Assembleia de Deus (igreja do Feliciano) pediram, amplamente, que os fieis votassem na Dilma nas últimas eleições: mas agora, que ele polemizou, cresceu, apareceu, fez crescer e aparecer o movimento gayzista, antagonizando-o, e ainda por cima, paradoxalmente, vem sendo elogiado por Bolsonaro e afins, ele é “de direita”, é “conservador”. Logo, o povo que se rotula “de direita” vai acabar dando voto ao pastor Feliciano, que é nada mais que um soldado do PT… até mesmo Bolsonaro, emocionado contra o gayzismo, não consegue ver um palmo diante do nariz, e vive a elogiar Feliciano, que, repito, instrumento do PT, e alavanca do movimento gayzista.

  6. Algumas vezes digo que não sou de esquerda, nem de direita. Da esquerda, tenho certeza que não pertenço, visto que acho nocivo todo esse controle do estado e do marketing. E não digo que sou de direita, justamente por causa da história dos frames que você colocou em outra postagem. Tem uma série de conceitos que a esquerda transformou em demônios, que tem apelos negativos, e só vejo como meio de me esquivar deles, falando que sou uma terceira coisa, talvez um ângulo reto para cima ou para baixo. Ao menos o pessoal de cérebro lavado abre um pouco o ouvido, quando não conseguem me capturar com os rótulos de praxe. No fim das contas, podem ficar até achando que sou esquerdista, já que não estou batendo diretamente de frente,mas vou tentando inserir alguns questionamentos, dúvidas…eles adoram criar um demônio, fica um sado-masoquismo eterno e nada novo acontece.

  7. Luciano, eu não sabia bem como contacta-lo… mas tem uma rotina esquerdista que é muito usada: O PT era de esquerda mas está governando para a direita, ele se vendeu (uma óbvia falácia). O melhor jeito de contra atacar seria destacando que os altos impostos, o seu apoio a organizações que atacam a propriedade privada e que a corrupção generalizada seriam todas características de um partido de esquerda? Gostaria de ouvir sua opinião… eu procurei essa rotina-esquerdista mas não achei o tema, acho que esse merece um texto. Se permite-me dar outra sugestão: teria como seu site ter um espaço onde podemos pedir certos assuntos?

    Obrigado… continue seu ótimo trabalho

    • Macuw,

      Vou tratar dessa rotina em mais detalhes futuramente.

      Quanto a espaço para solicitação de conteúdo, esta caixa de comentários já tem sido usada para isso.

      Mas se tiver exemplos na Net dessa área adicional para solicitação de material, por favor me envie para análise.

      Att.

      LH

  8. “Mesmo assim, isto não permite que alguém diga que “não é nem ateu e nem teísta”. Pois eu digo que não sou nem uma coisa e nem outra. E tem um nome para o que eu sou: apateísta; que significa que para mim, a religião é absolutamente indiferente. Respeito todas (as repeitáveis, é claro) desde que não comecem a tentar me converter. Quanto ao resto, penso que sou de direita. Pelo menos, pelo que tenho lido no seu blog, é com o que mais me identifico.

    • Patrícia,

      Em termos práticos, não é possível ficar imune a dilemas. Mesmo que algo seja indiferente (religião), imagine que você veja pessoas rezando. Sua mente terá que tomar uma decisão (acredito que há um Deus X não acredito). O cérebro humano não funciona sem processos decisórios. A meu ver, o que você chama de apateísmo é uma forma de ateísmo.

      Abs,

      LH

      • Além disso existem os motivos filosóficos que dão base ao ateísta
        Materialismo e cientificismo o tempo todo
        Pergunte pra dez entre dez qual o motivo dele acreditar que Deus não existe, ele vai responder:’não há evidências’
        SO FUCKING WHAT? Quem foi que disse que tudo que é real tem que ter evidências?
        Esse é o mesmo pessoal que acredita em TONELADAS de coisas sem evidência nenhuma, acreditam que a bolha imobiliária (mesmo com evidências) é mentira porque é coisa de direita…
        Ateus = bando de hipócirtas

  9. Então o que se diz neste tópico é que o centrismo não existe? Esse argumento não seria um estratagema para forçar simpatizantes da direita a repudiar todos os argumentos esquerdistas, mesmo os bons, como a existência de um sistema público de previdência?

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