A esquerda como ameaça às liberdades individuais OU Como a direita pode utilizar pragmaticamente o caso Edward Snowden a seu favor

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Antes de tudo, peço que leiam 3 textos, de fontes diferentes, com alguns aspectos diferentes da questão, e ao final lançarei meus comentários mostrando que, pragmaticamente, a direita pode usar o caso Edward Snowden a seu favor.

Texto 1: “Ex-consultor da CIA fez doações para ideólogo do Tea Party, diz jornal” (UOL, 10/06/2013, 11h25)

O ex-consultor da CIA que vazou dados sobre o programa de grampos de Agência Nacional de Segurança americana teria contribuído com um dos ideólogos do partido conservador Tea Party.

A informação é do jornal The Washington Post”. Segundo o jornal, registros da campanha de Ron Paul, candidato republicano à presidência dos EUA em 2012, mostram doações de US$ 250 (pouco mais de R$ 500) feitas por alguém de nome “Edward Snowden”, cujo perfil bate com o do ex-consultor da CIA.

A publicação diz que, das duas contribuições à campanha de Ron Paul em nome de Snowden, uma delas foi feita de Waipahu, no Havaí, em maio de 2012. Snowden morava no Havaí até a revelação dos grampos feitos pela NSA (sigla em inglês da Agência Nacional de Segurança). O informante está atualmente refugiado em Hong Kong, onde planeja pedir asilo.

A primeira doação a Ron Paul, de março de 2012, lista Snowden como empregado da Dell, empresa de tecnologia para a qual o ex-consultor da CIA prestou serviços recentemente. Esta contribuição, de março de 2012, partiu de Columbia, no Estado americano de Maryland, onde Snowden morava antes de ir trabalhar com a Booz Allen Hamilton no Havaí.

Ao jornal “The Guardian”, que revelou primeiro a história dos grampos, Snowden disse que contribuiu com um candidato de “terceira via” à presidência dos EUA em 2008 – embora nos EUA haja centenas de partidos políticos, em geral os candidatos dos partidos Republicano e Democrata polarizam as eleições.

Quem é Ron Paul

Ron Paul disputou a presidência dos EUA em 1988, 2008 e 2012. Em 1988, concorreu pelo Partido Libertário, que defende a liberdade tanto na economia quanto individual.

Paul é um apoiador e divulgador do pensamento do economista austríaco Ludwig von Mises, cujas ideias libertárias ajudam a entender por que Snowden o apoiaria. Para o economista, teórico do Estado mínimo, o governo só deve estar presente na vida da sociedade em funções estritamente necessárias, como justiça.

Por décadas, Ron Paul criticou a intromissão do governo nas vidas da população. É o mesmo raciocínio de Mises, para quem os seres humanos devem ser livres para realizar trocas entre si sem a interferência de terceiros.

Por suas ideias, o político foi considerado um “padrinho intelectual” do Tea Party, movimento de direita criado nas eleições de 2012 e no centro de um escândalo envolvendo a Receita americana. O órgão é acusado de dificultar pedidos de isenção fiscal para políticos ligados ao grupo conservador.

Texto 2: “Islândia recorda que Snowden deve pedir asilo pessoalmente no país” (Swiss Info, 10/06/2013, 11:45)

A Islândia informou nesta segunda-feira que qualquer pessoa que deseja obter asilo político, como declarou que pensa em fazer Edward Snowden, depois de ter revelado o programa americano de vigilância das comunicações, deve primeiro entrar em seu território.

A diretora do departamento responsável pelos pedidos de asilo, Kristin Volundardottir, afirmou ao jornal Morgunbladid que o país não recebeu qualquer pedido.

“E a regra é que você deve estar na Islândia para fazer este pedido pessoalmente”, explicou.

Em uma entrevista ao jornal britânico The Guardian, Snowden, de 29 anos, afirmou que se refugiou em um hotel de Hong Kong.

Ele citou “a sólida tradição de liberdade de expressão” na cidade e disse que esperava que as autoridades não o extraditassem para os Estados Unidos. Também afirmou que pretende solicitar asilo à Islândia, conhecida segundo ele por apoiar “os que defendem a liberdade na internet”.

O jovem trabalhava para uma empresa que prestava serviços à Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos.

Snowden divulgou documentos sobre o programa de vigilância dos Estados Unidos das ligações telefônicas feitas pela operadora Verizon, e aparentemente por outras empresas, assim como das comunicações de internautas estrangeiros em nove grandes redes sociais, incluindo Facebook e Skype.

Uma fundação islandesa de defesa da liberdade de expressão, International Modern Media Institute, afirmou no domingo que tentava entrar em contato com Snowden e destacou que “a Islândia poderia não ser o melhor lugar” para evitar a extradição.

Hong Kong, um território semi-autônomo da República Popular da China, tem desde 1996 um tratado de extradição com os Estados Unidos, que reserva um direito de veto a Pequim.

Texto 3: “Líder da extrema-direita pede que França conceda asilo a Edward Snowden” (Correio Braziliense, 10/06/2013, 19:57)

Paris – A líder da extrema direita política francesa, Marine Le Pen, do partido Frente Nacional, pediu nesta segunda-feira que a França conceda asilo político ao americano Edward Snowden, ex-agente da CIA e fonte das revelações sobre o programa americano de vigilância eletrônica.

De acordo com Le Pen, deputada do Parlamento Europeu, Snowden “deve ser deixado em condições de segurança o mais rápido possível”, porque “teve a coragem e o imenso mérito de revelar à humanidade uma ameaça muito grave contra a democracia e as liberdades públicas”.

Tradicionalmente Le Pen critica asperamente a concessão de asilo em seus discursos contra a imigração. Durante a campanha presidencial francesa do ano passado, propôs dividir por cinco o número de refugiados aceitos na França.

Snowden está refugiado em Hong Kong, onde disse ser a fonte das revelações sobre o programa americano PRISM, sistema que permite que a Agência Nacional de Segurança (NSA) americana vigie os usuários da internet inclusive no exterior.

Diante do escândalo, Le Pen já havia pedido ao governo francês que exija as “explicações necessárias” às autoridades americanas. Snowden disse nesta segunda que poderia solicitar asilo político à Islândia, país com a política mais próxima as suas convicções pessoais sobre a liberdade de expressão na internet.

Pouco depois, a Islândia anunciou que não havia recebido um pedido de Snowden e lembrou que qualquer pessoa que desejar obter asilo político nesse país deve entrar primeiro em seu território.

MEUS COMENTÁRIOS

De acordo com a primeira notícia, suspeita-se que Edward Snowden tenha feito doações ao Tea Party, e, em relação a isso, estaria demonstrado um alinhamento ideológico dele em relação ao partido.

Isso é ao mesmo tempo bom e ruim. Bom por que mostraria que alguém que preza os valores da liberdade individual, e proteção do indivíduo contra o governo, resolveu fazer alguma coisa. Ruim por que poderá dar sanção moral para que o governo norte-americano consiga intervir cada vez mais na vida dos cidadãos que pertencem ao Tea Party.

Seja lá como for, isso poderia expor o Tea Party como um grupo revolucionário em prol da liberdade, e a capitalização em cima disso, se a direita tiver talento, seria muito positiva. Mas sempre lembrando: tudo depende da estratégia utilizada.

Por outro lado, Snowden revelou que gostaria de ir para a Islândia, um país que “teria os mesmos valores” que ele. Isto é, de liberdade de expressão e liberdade individual.

Neste ponto, o discurso dele é tipicamente esquerdista, já que os países escandinavos, hoje em dia, são aqueles que querem monitorar até se os homens mijam em pé ou sentados, e ainda querem proibir qualquer manifestação de apoio ao casamento heterossexual.

Na segunda notícia, há um ponto interessante mostrando que a International Modern Media Institute tentou contatar Snowden, dizendo que “a Islândia poderia não ser o melhor lugar” para evitar a extradição. Esta é uma organização islandesa que luta pela liberdade de expressão. Justifica-se: um país que tem o estado tão inchado, obviamente tem um aparato maior para investigar a vida de seus cidadãos, tirando-lhes a liberdade.

Na terceira notícia, devemos ignorar o fato do Correio Braziliense tratar a francesa Marine Le Pen como “extrema-direita”. Na verdade, ela se posiciona contra a islamização européia, e não há nada de “extrema” nisso. Fica sendo apenas a rotulagem desonesta de alguém como “extrema” (ou “ultra”) + qualquer coisa, algo que podemos neutralizar lançando o ridículo sobre esta qualificação.

Pois bem, lá da “extrema”-direita surge um discurso de Marine Le Pen dizendo que Snowden “deve ser deixado em condições de segurança o mais rápido possível”, porque “teve a coragem e o imenso mérito de revelar à humanidade uma ameaça muito grave contra a democracia e as liberdades públicas”. Nossa, que extremismo, não?

Enfim, o que pode ser aproveitado disso tudo. Se tirarmos as besteiras que Snowden disse sobre a Islândia como um país “alinhado com seus princípios” (quando na verdade é um estado interventor), há muitos pontos que podemos citar em uma propaganda de direita plenamente justificada:

  • Os Estados Unidos foram inchando tanto o seu estado, que hoje dependem de um aparato de investigação sobre seus cidadãos para manterem seu poder sobre eles. Esse é um risco do inchamento de todo e qualquer estado. No caso dos Estados Unidos, com sua receita maior do que todos os outros, a coisa é ainda mais perigosa. O perigo, no caso, é para seus cidadãos, especialmente os dissidentes quanto à política do partidão no poder.
  • A indecisão em relação ao lugar para Snowden pedir asilo (China? Islândia? França?) é um exemplo de que inchamento estatal é uma ameaça não apenas norte-americana, mas mundial.
  • O governo de Barack Obama não tem perdão pelo que fez, pois George Bush ao menos tinha o pretexto de estar em período de guerra, momento no qual a constitituição prevê maior vigilância sobre cidadãos. Os Estados Unidos vivem um período de paz, e é claro que a vigilância do estado sobre seus cidadãos é o reflexo de um governo esquerdista, pois não há justificativa nenhuma para esta investigação senão a privação da liberdade individual.
  • Mesmo que Edward Snowden se refugie na China ou Islândia, isso ainda não comprova esses países como maiores adeptos da “liberdade de expressão”. Na verdade são até mais opressores. A diferença é que os dois países não tem motivos para investigar Snowden. Os Estados Unidos, agora, são inimigos dele. Portanto, China e Islândia não representam “salvação” alguma. Deve-se tomar cuidado com este frame em específico.
  • Em resumo, o mundo hoje é um lugar perigoso para dissidentes em relação aos seus governos, e se tornou uma ameaça aos seus próprios cidadãos. Tudo isto é culpa dos inchamentos estatais, e concentrações de poder nas mãos do estado, realizadas por seus próprios governos.

Enfim, estes são os discursos, embutindo frames conceituais fortes, que podem ser extremamente úteis para a direita.

E antes que surjam os protestos: não estou transformando um semi-esquerdista, Edward Snowden (que até fez contribuições ao Tea Party, um partido de direita), em um “símbolo” da direita – ele poderia até ser um bi-conceitual, na terminologia de George Lakoff (alguém que é de direita em alguns aspectos, e de esquerda em outros). A simbologia, se existe, está no curso de eventos em torno de Snowden, e no que podemos aproveitar de toda a situação.

Eu estava esperando há tempos que surgissem evidências da tendência totalitária do governo de Barack Obama, e os eventos recentes (desde a divulgação do escândalo da Receita, contra o Tea Party) vieram pelas mãos de Snowden. É somente por isso que sou grato a ele.

E sempre lembrando: o problema não é o “imperialismo norte-americano” (que hoje nem sequer é mais relevante em termos mundiais, pois outras forças já se igualaram a eles), mas sim o poderio que aquele estado tem para intervir na vida de seus cidadãos.

Por fim: o estado só se torna inchado por que há pessoas crentes em que um governo inchado é “melhor” ou “salvador”. Esta é a crença dos esquerdistas, motivo pelo qual eles representam a doutrina mais perigosa para as liberdades individuais no mundo todo.

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6 COMMENTS

  1. Pelo que eu entendi, as doações foram feitas a Ron Paul, que não tem nenhuma ligação direta com o Tea Party. Aliás, a ligação de Ron Paul com o Tea Party é tão tênue (ele apenas influenciou ideologicamente alguns setores do movimento) que sua referência pela imprensa brasileira não pode ter outro motivo senão atrelar algum tipo de interesse direto do movimento no caso.
    Ah, e tecnicamente a Islândia não é escandinava.

    • Camilo,

      Melhor ainda. A não-associação do Snowden com o Tea Party pode ser uma boa idéia. Alguns consideram a Islândia como um dos países escandinavos. Há quem diga que Escandinávia se limita a Suécia, Noruega e Dinamarca. Outros adicionam Finlândia, e outros ainda a Islândia. Para a propaganda de esquerda, costumam adicionar tudo no mesmo barco. Mas posso estar errado, claro.

      Abs,

      LH

  2. Luciano,

    Quando você era teísta vc era católico ou evangélico? e quais leituras o fizeram virar ateísta(ou fatos)?
    Faço esta pergunta pra ter uma noção de como vc pensava , estou lendo cachorros de palha do John Gray, simplesmente d+, comprei o missa negra e outros que vc indicou, vlw pelas excelentes dicas de livro.
    Embora o cachorros de palha seja excelente, me pareceu engraçado o fato do Gray — pelo – naquele livro — ter um certo tipo de fé na hipótese gaia do James E. Lovelock, pois isto de certa forma evidencia que as pessoas têm a necessidade de acreditar em algo, seja em Deus ou em qualquer outra coisa.

    • Pois é, Dareon.

      Assim como com qualquer autor, eu nunca acredito em todas as crenças deles. Eu foco mais nos métodos. Acho os métodos explicativos que o Gray usa para questionar o humanismo fantásticos.

      Mas eu acho a crença dele na hipótese Gaia ridícula e infantil. Algo como um desespero para alguém que não teve coragem de levar o niilismo às últimas consequências.

      Quando eu era teísta, eu era uma mistura de deísta e adepto da teologia católica. Não frequentava a Igreja. Gostava de ler São Tomás de Aquina e Santo Agostinho.

      Todo o core de leituras sobre dinâmica social (ex. psicologia social, psicologia evolutiva), junto com práticas relacionadas à dinâmica social, me fizeram perder a crença em Deus.

      O fato é que eu tinha um único motivo para crer em Deus. Eu achava que o ser humano era uma espécie à parte em comparação com os outros animais. O estudo aprofundado de dinâmica social e psicologia evolutiva, de uma forma PRÁTICA, me fez perder esta esperança. Foi aí que minha crença em Deus sucumbiu…

      Abs,

      LH

  3. O partido republicano é um fantoche do governo de ocupação sionista mesmo, mandaram aquele babaca do Peter King para chamar Snowden de “traidor”. Como um partido supostamente de direita pode não aplaudir esse homem de pé por falar contra o estado onipotente? Que farsa!

  4. Gostaria de deixar uma correção à matéria que você pode gostar. O povo da Islândia derrubou o governo esquerdista à força em 2009, e elegeu a direita conservadora / libertária, que agora governa o país. Por razões óbvias, esse tipo de coisa não foi, e jamais será noticiado por aqui. A imagem que prevalecerá é a da Escandinávia enquanto paraíso socialista, para os alienados continuarem vivendo seus sonhos utópicos enquanto o governo deita os cabelos. Se você cavar, descobrirá que os homens da Suécia também estão se revoltando contra seu “paraíso”.

    http://www.wsws.org/en/articles/2009/01/icel-j28.html
    http://www.savingiceland.org/2009/01/the-icelandic-government-has-collapsed/
    http://anarchyalive.com/2009/01/145/iceland-protesters-topple-government/

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