A dinâmica social do MPL e do “apartidarismo” auto-alegado por eles

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Os  leitores deste blog já se acostumaram a dois termos que uso continuamente: dinâmica social e ceticismo político. Eu não criei a dinâmica social, apenas a adaptei do material de Kurt Lewin, em uma versão muito mais palatável e aplicável à todas as interações humanas. Mas eu criei o  ceticismo político como o método cético que pode, de acordo com a tese do duelo cético, melhorar a qualidade do debate público.

Aqui, mostrarei que há dois tipos de análise sobre a política: com ou sem a ótica da dinâmica social. E, pela ótica da dinâmica social, moralmente sou obrigado a aplicar o ceticismo político. É com estes dois filtros que avaliarei o suposto apartidarismo do MPL.

Antes, deixe-me falar um pouco dos dois métodos.

Dinâmica social pode ser descrita como a análise profunda das interações humanas em um âmbito muito maior do que pela análise superficial da linguagem. Queremos saber, pela dinâmica social, a natureza humana, os componentes do animal humano, os jogos que existem nessa interação, e quanto mais embasados pela psicologia social, psicologia cognitiva e pela psicologia evolutiva, melhor.

Um dos lemas da dinâmica social, em meu modelo de aplicação, diz que embora o discurso superficial seja importante, ele se torna irrelevante se não estiver congruente com o comportamento daquele que fez o discurso. Por discurso superficial, temos a palavra verbalizada. Mas mesmo que a palavra seja verbalizada, em forma oral ou textual, ainda não conseguimos saber as intenções daquele proferindo o discurso, e em muitos casos nem sequer avaliamos os frames que podem estar embutidos no discurso.  A dinâmica social nos diz para observarmos mais profundamente,  e a avaliação da congruência ou não  entre comportamento e discurso é um dos métodos mais poderosos para isso.

Imagine alguém que diga “Eu defendo o método científico, e tomo minhas decisões baseadas no método científico”. Pela estrutura de avaliação tradicional do comportamento, muitos aceitam a informação à partida. Mas pela ótica da dinâmica social, o discurso de alguém que diz “tomar decisões baseadas no método científico” deve ser congruente com um comportamento demonstrando, de fato, que suas decisões são mais baseadas no método científico do que outras pessoas competindo pelo reconhecimento de tomar as decisões mais acertadas.

É por isso que vejo muitos criticando os humanistas dizendo que eles “cultuam a ciência”, enquanto eu digo a estes críticos, com toda a tranquilidade do mundo: “Não. É exatamente o oposto. Eles não cultuam a ciência, mas dizem que a cultuam para obter o benefício que este frame pode prover”. Claro que é fácil falar isso depois de estudar o comportamento daqueles que declaram “representar a ciência” e ver que ele não é nem um pouco congruente com o discurso.

A mudança de perspectiva é radical, pois passamos s observar muito mais componentes no discurso do que a apenas a palavra nua. Buscamos as intenções, os resultados e as consequências  dos discursos, e em alguns casos as estratégias contidas neles. Observamos, enfim, a vacuidade da política. Grande parte do discurso filosófico se torna suspeito, embora não todo. As abstrações humanas contidas na linguagem, algumas vezes, são esvaziadas automaticamente.

O ceticismo político torna-se muito mais proveitoso neste contexto. Ceticismo político significa o ato de questionar alegações políticas. Uma alegação política é aquela que, se aceita, gera benefício para uma pessoa ou grupo sobre outra pessoa ou grupo.

Um sujeito me disse: “Na política, se busca o bem comum”. Mas esta já é uma alegação política, pois não existe o “bem comum”. Existem interesses divergentes, temperamentos divergentes, metas divegentes e históricos pessoais divergentes em quaisquer amostragens populacionais que fizermos. Nunca haverá o “ganho de todos”. Sempre grupos vão perder, e outros vão ganhar. Mas se alguém convence o público que, mesmo assim, “luta pelo bem comum”, este já terá obtido um benefício, isto é, o benefício de ser reconhecido em público como alguém que “luta por todos”, quando na verdade não é isso o que ocorre. Assim, pelo ceticismo político, se alguém diz que “luta pelo bem comum”, eu defendo que isso deve ser questionado pelos oponentes deste declarante, e, se isso não for feito, ele terá obtido um benefício sobre seus adversários.

Partindo destes dois métodos, vamos avaliar o Movimento Passe Livre, desde suas ações iniciais, há cerca de duas semanas.

Em dois posts magníficos, Reinaldo Azevedo fez um trabalho de investigação básica. Primeiro, descobriu que a ONG Alquímidia, que é dona do domínio do Movimento Passe Livre, recebe polpudas verbas do governo. Em seguida, descobriu que a ONG Juntos, que deu grande apoio ao MPL no início, tinha domínio registrado em nome de Luciana Genro. A investigação de Azevedo foi bem básica: simplesmente consultou o “whois” no site Registro.BR.

A informação de Azevedo  só confirmou aquilo que estava no imaginário público: os partidos PSTU, PSOL, PCdoB e PCO eram aliados do MPL. A manifestação começou em São Paulo, no dia 6 de junho, com protestos contra o aumento do passe de ônibus de R$ 3,00 para R$ 3,20. Eram de 2.000 a 3.000 manifestantes nas ruas. Nos dias 7 e 11, as manifestações se seguiram, com pequenos confrontos  entre polícia e manifestantes. No dia 13 de junho, quarto dia de protestos, a polícia finalmente pegou pesado com os manifestantes. O tiro saiu pela culatra e os manifestantes começaram a usar seus feridos como instrumento de motivação para conseguir mais revolta popular.

Até esse momento, o MPL era um movimento intrinsecamente petista. Alguns poderão perguntar: mas o que o PT ganha com isso? Simples. O PT é um partido de orientação marxista (no discurso), mas é mais pragmático que outra coisa. Todas as ações do PT são orientadas a aumentar o poder a partir do inchaço estatal. A redução da tarifa de ônibus atende a este objetivo. Um passe livre então?  Com certeza, os líderes do PT teriam um orgasmo com isso. Mas e os partidos PSTU, PSOL e PCO? Ora, estes fazem apenas o jogo da “crítica amiga”, dizendo que estão insatisfeitos com o PT apenas por que o PT não está sendo tão esquerdista quanto deveria. Mas é exatamente esse tipo de crítica que o PT quer, para obter a autoridade moral para inchar o estado o máximo possível.

Voltemos  à questão da surra que os manifestantes sofreram da polícia em 13 de junho, que serviu como uma excelente divulgação para o movimento, que resolveu ousar com duas artimanhas de marketing. A primeira foi usar o slogan “Não é só por 20 centavos” (que sempre resultava em discurso como “estou de saco cheio”, logo, bastaria alguém estar de saco cheio de alguma coisa para participar do movimento, e essa era a mensagem sub-comunicada), e a segunda foi a ideia de se declarar apartidário. Com as imagens correndo mundo afora, todos indignados com a ação da polícia, e as manifestações ocorrendo em várias capitais, a receita realmente era explosiva.

O jogo do falso apartidarismo, por si só, foi brilhante, embora arriscado. Como já disse, pela dinâmica social, se o comportamento não for congruente com o discurso, este vale menos que um peido. A declaração “somos apartidários” não significa absolutamente nada ao mesmo tempo em que os comportamentos do MPL se baseiam em solicitar demandas que atendam ao interesse do PT. Mas por que um movimento se declararia apartidário enquanto na verdade é partidário?

A resposta novamente é simples:  o ser humano tende a ficar em estado de alerta diante de declarações assumidamente partidárias. Mas ele “relaxa” diante de declarações apartidárias. É por isso que muitos tentam se declarar “nem de esquerda e nem de direita”, quando na verdade isto não existe.  O objetivo do jogo do falso apartidarismo é convencer uma plateia de uma neutralidade que não se possui. Pelo uso do ceticismo político, obviamente a afirmação “somos apartidários” deveria ser investigada, mas isso chega a ser covardia, pois a resposta eu já tinha desde os dois posts de Reinaldo Azevedo.

A mistura da simulação de falso apartidarismo, com o slogan “Não é só 20 centavos” e a indignação popular causada pela exploração da violência policial em 13 de junho,  ajudou a trazer várias pessoas de várias frentes para ao movimento. Só que quando eles usaram o slogan “Não é 20 centavos” e se declararam “apartidários”, na verdade queriam apenas partidos de esquerda participando, juntamente com demandas de esquerda. Surpreendentemente, várias  demandas novas  começaram a surgir, fora do controle do MPL. Como por exemplo os protestos contra a PEC 37, que beneficiaria o governo federal. Claro que o MPL não queria protestos contra a PEC 37. Outros levaram a sério a afirmação “somos apartidários”, e resolveram dar chutes nos fundilhos de militantes do PSTU e PSOL em algumas passeatas. Recentemente, expulsaram militantes do PT. Foi quando não só o PT como o MPL perderam o controle da coisa. O movimento, criado para ajudar o PT, agora estava funcionando contra o governo em alguns momentos, e a favor em outros.

Nos últimos dias, a liderança do MPL manifestou a preocupação com “a direita participando” das manifestações, que chegaram a colocar 1 milhão de pessoas nas ruas em 20 de junho, em um movimento cujas demandas nem eram mais relacionadas a redução da tarifa de ônibus, mas sim contra a corrupção e a PEC 37.

Muitos “analistas” dizem que “não estão entendendo nada”. Este é um argumento de venda para os métodos que proponho, pois eu não fiquei surpreso em momento algum. Exatamente por não ter dado a mínima para as declarações do MPL, mas sim para o comportamento deles, quase nunca congruente com o discurso.

Agora eles dizem: “não somos antipartidários, mas apartidários”. Evidentemente estão preocupados com o fato de petistas terem tomado paulada em algumas manifestações de rua. Os investidores do MPL estão brabos, mas o fato é que o empreendimento de guerra assimétrica realmente tomou um rumo inesperado.

Mas a direita não tem motivos para ficar otimista, pois se o PT perdeu o controle de sua fera (e o MPL também), ainda não temos direitistas no Brasil com conhecimento de estratégia política em quantidade suficiente. Por outro lado, o PT é o melhor partido brasileiro em termos de estratégia política. Eles são formados  na escola gramsciana, e sabem jogar de acordo com as regras de Chomsky, Alinsky e Lakoff, autores  que a direita deveria conhecer.

Se o PT não tem o controle das manifestações de rua no momento, ainda é o partido que melhor pode utilizar os eventos relacionados a seu favor. Por exemplo, Dilma já aventa com a possibilidade de chamar os prefeitos e governadores para discutir o transporte público, saúde e educação. É claro que o PT vai tentar usar as manifestações para inchar mais o estado, e consolidar ainda mais seu poder. O MPL com certeza fará novas manifestações, mais focadas, com objetivos claros: dar pretextos para o PT inchar estado.

Se o MPL continuará usando o jogo do falso apartidarismo, eu não sei. Isso tudo depende da estratégia alinhada por eles. O objetivo, como eu já disse, todos nós sabemos: dar pretexto para o PT inchar mais o estado. Se movimentos paralelos, totalmente independentes do MPL, se solidificarem, com uma proposta distante da esquerda, isso pode ser positivo. Mas muito cuidado: pois o PT ainda tem chances de usar isso a seu favor.

Manifestações independentes poderiam ser pela redução da maioridade penal, arquivamento da PEC 37, abandono  de todas as proposta de controle da mídia e daí por diante. Note que essas propostas não são 100% de direita, e podem atender até a bi-conceituais (aqueles que, segundo Lakoff, adotam algumas  idéias da esquerda e outras da direita – não confundir com alguém que conseguiria a proeza de não ser nem de direita nem de esquerda).

O que falta agora é a reunião de um ou mais cérebros da direita na organização destes movimentos, que deveriam rivalizar com o MPL. Se o MPL atende ao PT, é contra o PT que as possíveis manifestações de direita devem lutar. Nem que para isso seja preciso declarar um “apartidarismo” na luta contra um governo  federal de tendências ditatoriais.

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23 COMMENTS

  1. Matou a pau Luciano!

    Olha uma petição no site da Avaaz defendendo a Dilma: http://lucianoayan.com/2013/06/22/a-dinamica-social-do-mpl-e-do-apartidarismo-auto-alegado-por-eles/

    Presta atenção no discurso deles

    “O PT, Partido dos Trabalhadores, hoje representado pela presidente Dilma, foi responsável por importantes conquistas para nação, principalmente nas áreas sociais, promovendo pela primeira vez significativos avanços para diminuir as desigualdades sociais existentes historicamente neste país. A presidente Dilma, que foi eleita pelo povo brasileiro, está dando continuidade e aprimorando estas importantes conquistas. Alguns setores da elite burguesa parecem tentar distorcer as reais motivações das manifestações que ocorrem em nosso país desde meados do mês de junho de 2013, que são apartidárias e reivindicam melhorias nas áreas do transporte coletivo, educação, saúde e segurança a todos os políticos deste país, independente da legenda partidária.

    É realmente o truque do falso apartidarismo, o PT joga isso igual o MPL, não acha, Luciano?

  2. [OFF] Luciano, me chegou uma dúvida a qual eu não consigo encontrar uma visão adequada.
    Os esquerdistas adoram falar que ditadura tal é de direita, bla, bla, bla. Mas a direita não é caracterizada pela pouca influencia estatal? Se há pouca influência estatal, que deveria ser o regulamentador centralizado que definiria a ditadura, como poderia haver ditadura por parte da direita, se o Estado já é mínimo, tendo o poder se fragmentado nas mãos de vários grupos econômicos?

    • Dalton,

      Todas as ditaduras que os esquerdistas alegam ser “de direita” na verdade são ditaduras de esquerda, mas não-marxistas. O truque deles é baseado em dizer que “se alguém não é marxista, é de direita”, mas sabemos que isso é absurdo. O esquerdismo tem várias facetas, todas elas baseadas em busca de pretexto para inchar o estado.

      Abs,

      LH

      • Vou aproveitar então Ayan, a ditadura do Pinochet promoveu liberdade econômica? Não tenho muito conhecimento sobre esse assunto e sempre ouvi falar que economicamente a política do Pinochet foi influenciada por Milton Friedman. Se sim, essa seria uma ditadura de centro-direita ou algo assim?

      • Daniel,

        O Chile estava em uma condição tão crítica, que foi feito um programa de austeridade que, sim, tinha alguns princípios inspirados em Friedman. Mas os gastos estatais ainda permanecera mmuito altos, e, nas áreas fundamentais, a redução foi apenas de 20% em termos de gastos. Eu não sei se o governo de Pinochet seria de direita, mas que foi uma amenização do esquerdismo radical anterior, foi um fato.

        Abs,

        LH

      • Entendi.

        Então, basicamente, é meio que impossível que haja uma ditadura, vindo da direita, sem que haja molho esquerdista encharcando o bolo, correto?

  3. A introdução, fazendo um pequeno resumo e “localizando no tempo” o emprego de Cetismo Político e Dinâmica social foram ótimos, muito bem trabalho.

    Posteriormente, matador. Sem mais. Não há uma vírgula a se adcionar.

  4. Desde o princípio, eu disse que esses protestos não resultariam em nada. E caso, esses protestos, culminem em algo, estaremos em um situação igual ou pior do que estamos hoje, como muito bem elucidado no texto.

    O que precisamos, de fato, é enDIREITAr o Brasil!

    • No caso do PC Siqueira, ele cometeu um erro de estratégia, pois, como influenciador de opinião pública que ele é, ele depende muito do jogo do falso apartidarismo. Ele largou esse jogo para tentar dizer que “as manifestações são de esquerda”. Mas ele se esqueceu de que a própria manifestação usou o slogan “não é só por 20 centavos”, e então o argumento do vídeo perde efeito. A manifestação só poderia ser qualificada como “de esquerda” se o movimento fosse pela redução na passagem, pois aí seria um pretexto para inchar o estado, e nada é mais esquerdista que isso. O correto é dizer que a primeira manifestação do MPL era esquerdista, mas o PC Siqueira confunde a platéia dizendo que todas as manifestações agora são do MPL, ou são de esquerda. Como sempre, esquerdista depende de falácias para capitalizar um pouco. O ponto positivo é a confissão de PC Siqueira dizendo que ele é de esquerda, e a meu ver isso deveria ser tratado como alguém que se declara nazista ou adepto da Al Qaeda. Ou seja, alguém que não pertence ao debate racional.

  5. Luciano, você acredita que há uma possibilidade, pelo menos de conscientização, da direita e dos liberais utilizar o movimento pra propaganda? Algo como: “Você sabia que trabalha até 30 de maio pra pagar impostos?”. Ou: “Menos Estado, menos carga tributária”. Capitalizar o caso do mensalão e etc. Sempre algo mais… — como dizer? — mainstream? Já é um começo. Ou não?

    Aliás, sobre os casos de partidarismo, acho interessante capitalizar, principalmente no facebook. Digo, você tem uma quantidade de pessoas que não tem partido político e querem o apartidarismo. Isso seria uma boa hora pra mostrar que tais partidos não prestam, que eles são contra a população e que só querem vender voto e poder.

    Abçs.

  6. Luciano Ayan, minha análise não despreza os cristãos que foram à Brasília no último dia 5/6. Os que não puderam ir apoiaram os manifestantes de bem, pois foram motivados pelos seus líderes que voltaram de Brasília. Faço uma digestão sobre isto neste post “Cristãos não deixarão o PT se eleger mais no Brasil!”, associado à reunião do Rui Falcão e MST, ocorrida na sexta-feira. http://wp.me/p1uBiQ-Tb Vale a pena dar uma olhada e ver um outro ponte de vista. O povo de Deus acordou e apoia o pedido de Impeachment!

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