Manifestantes que causaram um atropelamento não eram, então, bandidos

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Fonte: G1

Vítima do atropelamento que deixou um jovem morto e outras 12 pessoas feridas durante os protestos em Ribeirão Preto (SP) na noite de quinta-feira (20), a estudante universitária Pabline Luana Lalucci, de 20 anos, descreve como sendo de revolta o sentimento em relação ao empresário Alexandro Ishisato Azevedo, suspeito do crime. “Não somos bandidos. Estávamos ali para protestar pelos brasileiros, por ele também”, diz Pabline em relação à declaração dada por Azevedo ao G1, quando ele se refere aos manifestantes como bandidos. O atropelador, que teve a prisão temporária decretada na noite de sexta pela Justiça de Ribeirão Preto, está foragido. Segundo o delegado da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) Paulo Henrique Martins de Castro, equipes da polícia estão empenhadas na prisão.

O carro modelo SUV que era dirigido por Azevedo foi apreendido pela polícia na casa dele, em um condomínio de luxo, próximo ao local do crime. O veículo foi levado para o pátio da Polícia Civil de Araraquara (SP).

Pabline, que é moradora de Pontal (SP), cidade vizinha a Ribeirão Preto, conta que participou do protesto em Ribeirão Preto com mais três amigas. Uma delas é a estudante Nicole Froes, que também foi atropelada e se recupera em casa, após ficar dois dias internada em um hospital de Ribeirão.

Segundo Pabline, as amigas caminharam do Centro até o cruzamento da Rua Professor João Fiúsa com a Avenida José Adolfo Bianco Molina, na Zona Sul de Ribeirão Preto, onde o atropelamento aconteceu. Elas protestavam contra a votação da PEC 37, que retira do Ministério Público a atribuição de realizar investigações criminais.

No momento em que o carro dirigido pelo empresário Alexandro Ishisato se aproximou da multidão, Pabline diz que estava no cruzamento. Uma amiga percebeu que o ânimo do motorista estava exaltado e pediu para que as outras jovens se afastassem do veículo. “Minha amiga disse para sairmos de perto porque ficou com medo de acontecer alguma coisa. Eu fui para o canteiro central em frente ao supermercado e fiquei próxima a sarjeta. Foi nesse momento que ele acelerou e passou por cima de tudo. Eu caí e bati a cabeça, não vi mais nada. Minha amiga disse que o menino que morreu caiu por cima de mim”, conta a estudante.

A jovem foi socorrida, levada ao pronto-socorro central e transferida para a Santa Casa de Ribeirão Preto, onde permaneceu internada até a tarde de sexta-feira. Ela sofreu um corte profundo na cabeça e levou oito pontos. O ombro, os pés, os joelhos também ficaram feridos e ela teve um deslocamento do quadril.

Na sexta-feira, o empresário suspeito do atropelamento falou ao G1 por telefone. Ele afirmou que foi cercado pelos manifestantes que começaram a agredi-lo e os classificou como bandidos. Azevedo declarou arrependimento por sua atitude. “Eu estou arrependido, não queria ter feito isso, não queria tirar a vida de ninguém. Isso não é da minha índole. Não era um monte de estudante de verdade, era um bando de bandidos. Só tinha bandidos. Eles gritavam ‘eu sou bandido mesmo’. Eles davam paulada [no carro], me xingavam. Eu só queria sair dali, longe de mim querer fazer mal para alguém”, afirmou.

Sobre a declaração, Pabline se mostra indignada. “É revoltante saber que esse homem nos chamou de bandidos. Todos ali estavam protestando de maneira pacífica, por mudanças. Este homem, por ser empresário, deve pagar altos impostos. Estávamos ali por ele também. Ele agiu sem pensar nas consequências e queria atropelar todos. Ele deve responder na justiça, mas também deveria ir a público e pedir desculpas a sociedade. Ele tem que ser preso e servir de exemplo para que outras pessoas não façam o que ele fez”, afirma.

Pabline não chegou a conhecer o estudante Marcos Delefrate, morto no episódio, mas diz que o caso não pode ser esquecido. “Todos disseram que ele era uma pessoa muito boa e ele estava lutando por nossos direitos. Aí aparece este homem, o atropela e ainda o chama de bandido? Ele tem que ser preso.”

Pelas redes sociais, uma nova manifestação foi marcada para acontecer na terça-feira (25) em Ribeirão Preto.  A estudante, no entanto, não deve participar por causa dos ferimentos. “Estou impedida porque não tenho condições de sair, mas não vou desistir de lutar pelos nossos direitos.”

Meus comentários

** ERRATA publicada em 24/06 as 00:51 *

Um leitor deste blog me alertou que eu tinha sido injusto com os manifestantes que tinham sido atropelados pelo motorista.

A expressão “Este homem, por ser empresário, deve pagar altos impostos. Estávamos ali por ele também” realmente não denota algo esquerdista, mas sim alguém que entende que os impostos são altos demais.

Reconheço meu erro, e retiro minhas críticas ao suposto esquerdismo dos manifestantes.

De minha parte, continuo não concordando com a pressão e ameaças ao motorista, pois acho que isso é desnecessário para o movimento.

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3 COMMENTS

  1. Luciano, será que você não se confundiu? No meu entendimento, quando ela disse “Este homem, por ser empresário, deve pagar altos impostos”, o “deve” não foi no sentido de que ele deveria ser punido com altos impostos, mas uma especulação de que ele possivelmente pagaria altos impostos por ser empresário. Tanto que logo depois ela diz: “Estávamos ali por ele também.” Ou seja, ela via nele também um vítima do estado que arrecada (explora) mas não devolve na mesma proporção, e que, portanto, estaria também sendo defendido por ela na manifestação. Foi assim que eu entendi. Estaria eu errado?

  2. O problema é que de boa intenção o inferno está cheio. Se uma pessoa faz algo errado e diz que o está fazendo por mim também, eu obviamente vou discordar. Ainda que eles não sejam esquerdistas de carteirinha, ainda assim, bateram no carro e ameaçaram o motorista, coisa que a jovem convenientemente ignora ou justifica – atitude tipicamente esquerdista.

    Não concordo com o que o motorista fez, e acho que ele deve responder na justiça, e que tudo seja averiguado (embora tenha pouca esperança que o caso seja conduzido com imparcialidade, afinal temos um rico malvado e os pobres jovens que apenas o estavam ameaçando, nada demais), mas tampouco me sinto representando por uma turma que primeiro grita sem violência para depois fazer o que fez.

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