A racionalidade ingênua da direita e a estupidez astuta da esquerda

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Esta excelente aula de Olavo de Carvalho a respeito da atuação situação política do Brasil resume muito do que tenho tratado neste blog, especialmente após incorporar a dinâmica social na análise da guerra política.

Mesmo com 70 minutos de duração, recomendo que todos a assistam do início ao fim, caso queira entender por que a direita, mesmo com os melhores argumentos, não consegue hoje em dia ganhar da esquerda no debate público.

Enquanto o debatedor de direita luta para encaixar os raciocínios mais lógicos possíveis, o esquerdista nem de longe se preocupará com a lógica de seus argumentos, mas sim com os truques que conseguirá implementar para tirar o oponente do debate. O direitista não perceberá os truques e ficará, como sempre, a ver navios.

Olavo também acerta ao dizer que a maioria dos esquerdistas não estão conscientes de sua “estupidez astuta” (eu traduzo por “piores argumentos, mas melhores frames”). Essa conscientização pertence aos beneficiários e arquitetos do esquerdismo. Mas, por osmose, a fraude arquitetada pelo beneficiário/arquiteto estará reproduzida no discurso do funcional, que poderá nem estar ciente em seu íntimo de estar cometendo uma fraude ou não. (Segundo Robert Anton Wilson, a mente de um fanático “edita” as informações recebidas do mundo exterior, sem perceber esse processo em muitos casos)

O que importa é descobrirmos e entendermos por que a esquerda hoje em dia não precisa lançar um argumento racional sequer, e ainda assim consegue ganhar os espaços públicos.

A chave está no fato de que o maior problema a resolver, pelo lado da direita, é a ingenuidade política. Não raro eu digo que vejo direitistas agindo, diante de um esquerdista, como se fossem crianças diante de um adulto. De coração aberto, direitistas são vítimas de empilhamentos inacreditáveis de fraudes intelectuais.

No exemplo recente de Marco Feliciano se defendendo das difamações na questão inventada pelo movimento LGBT da “cura gay”, a única saída para ele é começar a se conscientizar de que está diante de grupos que criam fraudes intelectuais por projeto, mentindo como se fossem psicopatas.

Sem esse tipo de percepção, os melhores argumentos da direita sempre serão rejeitados por causa de um sem número de truques, rotinas, encenações e armadilhas que a esquerda pratica. Quem supera essa fase da ingenuidade política, passa até a sentir pena daqueles que estão ao seu lado, mas só servem para ser vítimas de truques oponentes.

Veja um exemplo de um escritor, Richard Cohen, que escreveu livros falando de sua conversão da homossexualidade para heterossexualidade. Rachel Maddow, jornalista LGBT, armou uma quantidade tão impressionante de truques que Cohen ficou desconcertado. Prestem atenção:


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Vamos às fraudes de Rachel:

  1. Ela diz que Cohen não está “credenciado” por nenhuma das associações mainstream de psicologia, e portanto, “os argumentos dele não valem”.
  2. Ela diz que Cohen inspirou políticos de Uganda que querem condenar homossexuais a morte, portanto Cohen é responsável por mortes de homossexuais em Uganda.
  3. Ela diz que Cohen apresenta estatísticas que podem fazer pessoas se voltarem contra homossexuais.

O problema é que qualquer conhecedor de guia de falácias sabe que, respectivamente:

  1. É uma falácia da autoridade, pois não sabemos se as tais associações de psicologia atuais são idôneas, e portanto, não há uma autoridade válida que possa dizer quem pode ou não falar em termos de psicologia.
  2. É uma falácia da falsa causa, pois mesmo que o livro de Cohen seja inspirador em um aspecto para alguns políticos de Uganda, não há nada no livro que peça a morte de homossexuais. É como o caso de um executivo da Enron que tinha como livro de cabeceira O Gene Egoísta, de Richard Dawkins. Mesmo que eu seja oponente de Dawkins em seu humanismo, não me rebaixaria tanto a ponto a dizer que Dawkins é responsável pelas fraudes da Enron, pois isso seria uma fraude intelectual tão grande quanto a cometida por Rachel.
  3. É uma falácia da consequência, em que dados são julgados como válidos por causa de suas consequências. Na verdade, se os dados são verdadeiros, as consequências são irrelevantes. Cohen, aliás, foi ingênuo ao dizer que na próxima edição do livro esses dados seriam retirados.

Com três falácias tão grotescas como estas acima, como é que ela se saiu tão bem? É aí que entra aquilo que Olavo de Carvalho define como a estupidez astuta. Rachel sabe que mente feito uma psicopata, mas Cohen não tem a menor noção de que está diante de alguém cometendo fraudes arquitetadas para tirá-lo do debate. Resultado: independente do que ele disser, ela vence.

Aliás, o termo mentir como psicopata não é um exagero. Essa expressão é inspirada por um episódio da série Dexter, cuja cena está abaixo:


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Eu discordo de Olavo em relação ao longo tempo necessário para formarmos uma elite de direita pronta para o combate político. Acho que hoje em dia, em tempos de multiplicação da informação (graças à Internet), o intervalo de tempo é claramente menor, mas, obviamente, não são mudanças que ocorrem do dia para a noite.

Ainda assim, o desafio deveria ser “formar” cabeças de pessoas da direita de modo a tirar delas a ingenuidade política.

Por exemplo, um “consultor” de estratégia política, poderia ter orientado Cohen a dizer coisas como as que seguem:

  • “Ter sido expulso das associações de psicologia citadas é um orgulho para mim, pois Stanley Milgram, a figura mais ousada da psicologia social, também conseguiu esse feito. O problema é um aparelhamento intelectual ocorrido na área de humanas, que tem limitado os estudos em todas as áreas do conhecimento psicológico, por causa do politicamente correto. E isso não refuta meu material.”
  • “Quem associa o autor de um livro sobre orientação sexual com atos de políticos que querem matar homossexuais, mesmo que o autor não tenha feito isso, e ainda tenta atribuir culpa dos atos dos políticos de Uganda ao autor, está cometendo uma desonestidade intelectual completa, além de difamação. É preciso ser extremamente imoral e irracional para fazer isso.”
  • “Se os dados no livro são válidos, é irrelevante se alguém ficará indignado com um determinado grupo por causa deles. A ciência funciona de forma a revelar verdades, e não pensar se aquilo que ela revela vai incomodar grupos sectários.”

Após as 3 defesas, Cohen estaria moralmente justificado a esculhambar sua oponente das mais diversas formas possíveis, sempre apontando a extrema desonestidade e absoluta imoralidade do ato dela de mentir feito uma psicopata.

Este é o tipo de “gap” a ser resolvido. Treinar pessoas da direita a conviverem em um mundo onde esquerdistas nadam de braçada por mentirem e fraudarem o debate público, tornando os direitistas sempre presas fáceis, que vão “travar” diante de uma quantidade inacreditável de truques.

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9 COMMENTS

    • O Larry Rohter falou com boa propriedade a respeito da história toda. Não me lembro de alguém na mídia televisiva (seja aqui ou em outros países) falando da tentativa petista de guinar o movimento para o que lhe interessa (tentaram, mas o povo se recusou e, agora, o que vemos é a Dilma chamar para conversar os movimentos chapa-branca, os mesmos que foram expulsos das manifestações, o que significa que na prática não está sendo contemplada a voz do povão).

    • eu passei por isso recentemente, com um amigo meu esquerdista. Ele é professor de humanas e se especializou na questão racial, por um viés marxista.
      Sou negro, entendo e aplaudo a iniciativa de grupos de pesquisarem e transmitirem a tradição negra para pessoa de descendência africana. E só. Já ele culpa os brancos por tudo que há de mal no mundo, dizem que só brancos são racistas, ignora o fato de que a escravidão já era praticada em solo africano. Propõe a derrubada da civilização ocidental (sendo eu católico, jamais vou aceitar isso).
      Tentei construir um discurso racional, mas ele me atacou com vários frames. Eu mudei de estratégia e fiz de tudo para, por exemplo, relacionar sua ideologia supremacista ao nazismo,

      • Outra coisa importante é ver que os católicos também não estão tão quietinhos assim. Veja este texto do padre Paulo Ricardo, bem como leve em consideração que católica (aqui não importando se é ou não praticante) era a maioria dos brasileiros que foram às ruas nas duas semanas anteriores e rechaçaram a presença de partidos a ponto de o Passe Livre ter suspendido a convocação de novas manifestações.

  1. Luciano, voltando ao Passe Livre, você viu que em Hasselt (Bélgica) irão retornar com a cobrança do ônibus e não é por € 0,20, mas sim por € 2 milhões? O prefeito local fala de Talinn (Estônia), que tornou gratuito o transporte público, como exemplo de cidade maior, mas convenhamos que 426.503 habitantes só tornam a capital do país báltico uma cidade grande se pensarmos que o parâmetro europeu do que é uma cidade grande ou uma metrópole tem números menores do que o mesmo parâmetro para brasileiros. Por aqui, 400 mil pessoas é coisa de cidade média e inclusive acharíamos que uma cidade de tal tamanho tem altas possibilidades de ter uma maioria de pessoas com mentalidade tacanha e pouco cosmopolita (ainda que haja honrosas exceções a isso em municípios de tal porte). Hasselt, por sua vez, tem 74.588 pessoas. Se formos computar a área de ambos os municípios, veremos que a cidade belga tem 102,24 km², enquanto a capital estoniana tem 159,2 km². Logo, ambas cabem dentro, e com sobras, da área paulistana (1.522,986 km²) e são menores do que a maioria dos bairros paulistanos, mesmo aqueles de baixa densidade populacional. Logo, são lugares onde qualquer sistema de transporte público roda pouco o suficiente para que os gastos que se tenha com eles possam ser compensados de outras formas (ainda que Hasselt esteja já sentindo os efeitos de pagar por algo que nem todos usam, ainda que quase todos usem por não pagarem diretamente).
    A mesma matéria fala do exemplo de Agudos, mas não devemos esquecer que tal município, que tem uma extensa área de 967,591 km² e apenas 34.532 habitantes, tem importantes aportes tributários de AmBev e Duratex, que devem ser altos o suficiente para que se possa permitir que os habitantes locais possam viajar sem tirar do bolso e sem que o dinheiro que se jogue em cima dos 16 ônibus seja uma perda tão significativa assim (aliás, veja-se inclusive que tiveram de reduzir o tamanho do governo municipal cortando cargos de confiança, o que não deixa de ser um efeito colateral curioso se pensarmos no que normalmente é associado a transporte gratuito). Isso não é assim tão diferente do que vemos em alguns países árabes nos quais a renda do petróleo é tanta e a população é tão reduzida que é possível prescindir-se dos impostos e ainda assim fechar no azul.

    Porém, já que o assunto é São Paulo, temos Haddad falando que a cidade está no vermelho e que a história de ter deixado a tarifa municipal em R$ 3 poderá prejudicar o fecho das contas. Diz o prefeito paulistano que recebeu a cidade com contas deficitárias e, ainda que essa seja uma alegação que todo e qualquer prefeito recém-empossado faça, creio que aqui tenhamos mesmo de dar um crédito ao que ele diz, pois está parecendo algo como “em que enrascada fui metido?”. Ainda que São Paulo tenha muito mais fontes de renda que Agudos, tem uma população bem maior e o grau de aporte tributário das empresas, ainda que enorme, é insuficiente para que se consiga tarifa zero tamanhos os gastos que o município tem.
    Se pensarmos aqui no aspecto marxista-humanista-neoateísta da história, há um desconforto inclusive para que se pense em maneiras de o governo municipal se tornar mais eficiente, uma vez que administrações MHNs tenderão a ter gastos mais altos que as de outros matizes (muita gente para meter em cargo de confiança, muitas secretarias e por aí vai), uma vez que o poder público é o principal sustentáculo daquilo em que creem. Caso tentem ser mais eficientes com o atual nível de arrecadação, teriam de apelar a auditorias extensas, que podem revelar inclusive coisas que deponham contra MHNs do passado, algo não muito conveniente para a estratégia desenvolvida. E caso o Legislativo municipal faça uma CPI das boas (por aí entendendo-se uma que corte na própria carne) e vá descobrindo ineficiências em gastos públicos ou, no caso do transporte coletivo, eventuais conluios entre empresas e gente no poder, isso chegaria a um ponto em que o próprio Executivo da cidade também ficaria comprometido em seu plano de longo prazo, aqui podendo entender que Haddad rifou parte de sua aprovação popular por ter mais três anos para poder recompor sua imagem pública e pensando aqui que Dilma sofreu muito mais perdas e em momento pior, por ser fim de mandato, não sendo à toa que o MPL parou de conclamar manifestações por notar que o povo brasileiro resolveu assumi-las e guiná-las para algum ponto longe do que queriam os MHNs no poder, em que pese a presidente ter convocado para conversar os movimentos chapa-branca como se eles fossem representantes dos desejos do povo (sendo que foram rechaçados das passeatas), em vez de prestar atenção àquilo que a voz difusa das ruas pedia (nesse ponto, o Legislativo foi mais ágil e já sepultou a PEC 37).

    Enfim, dá para se notar o quanto de margem que há para se discutir a respeito.

  2. Luciano, um texto no qual não consegui ver viés marxista-humanista-neoateísta, mas mesmo que tivesse algum que fosse, ainda assim a ideia principal é válida: hoje em dia deve-se prestar muita atenção ao que dizem as redes sociais, pois elas permitem antecipar muitas coisas e assim se evitar que tenhamos pessoas fazendo passeatas na rua que podem ser guinadas para propósitos que não agradem aqueles que estão marchando (vide Dilma se encontrando só com movimentos chapa-branca, alguns dos quais inclusive expulsos das marchas principais).
    Aqui fica um pouco parecido com aquela história do rei da Inglaterra criando o parlamento e evitando assim que ocorresse por lá aquilo que ocorreu na França depois de 1789. Obviamente que se um combatente do marxismo-humanismo-neoateísmo tiver um plano de governo, seria muito bom que incluísse um vigoroso monitoramento de redes sociais para saber aquilo que o povo está querendo e assim antecipar-se e evitar conturbações.

    Não esqueçamos que, por aqui, o PT está mais avançado que outros partidos e criou a tal tropa de choque que atua nas redes sociais. Porém, note-se que aqui é algo de ação reativa, enquanto a proposta do texto do link é também se pensar no uso proativo do monitoramento para que se consiga entender melhor o povo. Sabendo-se antecipar reações, fica muito difícil dar brechas para que MHNs consigam explorar tensões naturais da sociedade para criar a conturbação de que precisam para que se progrida sua agenda.

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