O ceticismo político como arma mortal contra o esquerdismo

5
38

bnprodobdoc

Avaliando retroativamente meu empreendimento, percebo que faltava um post meu explicando por que o questionamento cético e assertivo ao esquerdismo, feito nos mesmos moldes em que James Randi questiona os médiuns, é não apenas justificado como urgente. Resolvo o problema agora.

Antes, vamos rever o conceito de ceticismo político, que defende um modelo adicional de ceticismo no qual nós priorizamos o questionamento às alegações políticas. Uma alegação política é aquela que, se aceita, gera benefício para a pessoa ou grupo que a propaga em detrimento de outra pessoa ou grupo.

Um dos universos mais perfeitos para aplicação do ceticismo político é a política pública, que envolve questões relacionadas ao estado, ou mesmo entre grupos rivais que disputam espaço para influenciar as políticas públicas. Claro que você pode usar o ceticismo político para questões relacionadas ao mundo corporativo. Mas no mundo da política pública, ele funciona ainda mais.

Mesmo que muitos conservadores de direita sejam cristãos (embora o conservadorismo não seja a única forma de alguém ser de direita), no hora das discussões públicas, as alegações de direita são muito modestas e racionais. Ao mesmo tempo, a esquerda tem maior tendência a rejeitar a religião tradicional, pois transfere a crença em Deus para a crença no Estado. Automaticamente, tornam-se alegadores de crenças absurdas e injustificadas. Mais ainda: quando verbalizadas, essas crenças são legítimas alegações políticas, o que é o objeto central de ataque do ceticismo político.

Para ilustrar melhor as alegações políticas, vamos sair um pouco da política pública, e retornar ao ceticismo contra médiuns ou alegadores de UFO’s. Se alguém disser “apareceu um extraterrestre no quintal”, dificilmente temos uma alegação política. Pergunte-se: o que o alegador ganha com a existência de um extraterrestre no quintal? Provavelmente ele esteja alucinando ou é um auto-iludido, mas isso não configura que ele verbalizou uma alegação política. Mas se ele estiver querendo vender fotos de extraterrestres e ganhar uma grana com isso, já temos uma alegação política. Isto por que ele está obtendo um benefício por causa de sua alegação. Ele lesa outros com o fato de sua alegação ser aceita. Assim, a diferença entre alegação tradicional e alegação política reside na identificação de um fator chamado “benefício”, que é dado a uma pessoa ou grupo, e geralmente isso causa um “impacto” negativo em uma pessoa ou grupo.

Alguém poderia objetar: “Mas e se alguém afirma algo em prol do bem comum?”. Bem, se alguém afirma legitimamente algo em prol do bem comum, então não teríamos uma alegação política. Mas quase sempre que vemos alguém afirmar que sua causa é “pelo bem comum”, a alegação, se questionada com cuidado, revela-se falsa. Sempre alguém sai prejudicado. Por exemplo, alguém poderia dizer que proibir a crítica ao islamismo na Europa (enquanto tudo é liberado quando for para criticar o cristianismo) seria uma ação “pelo bem comum”. Mas um opositor poderá identificar que os islâmicos estão morrendo de rir do fato de serem privilegiados, já que não podem ser criticados, enquanto os grupos de que eles não gostam podem ser criticados. Parece que a tese do “bem comum” neste caso foi por água abaixo. Faça o teste e garanta também realizar uma análise das agendas políticas, e veja que afirmações clamando “luta pelo bem comum” quase nunca passam no teste.

E vejam que maravilha: a própria alegação “minha luta é pelo bem comum” é uma legítima alegação política, pois, se aceita, ela gera o benefício de influência psicológica da plateia em prol de quem a alegou.

“Benefício”, então, pode ser visualizado de muitas formas: maior aceitação de suas idéias pela platéia, conquista do poder, destruição de um inimigo, auto-realização psicológica por ver seu candidato vitorioso (aqui a pessoa pode não ganhar poder, mas ganha uma sensação psicológica positiva), etc.

Alegações podem se dividir em várias classificações, mas duas são especialmente importantes: (1) impacto no descrente e (2) foco da alegação.

No primeiro caso, é importante olhar para o quanto uma alegação, se aceita, impacta aquele que nela não acredita (ou ao menos não deveria acreditar, pois a crença conspira contra ele próprio). Por exemplo, se eu acredito que um criminoso deva ser punido, então eu posso impactar a vida de pessoas que cometem crimes (por que provavelmente o criminoso acredita que ele não deva ser punido). Mas a crença de que criminosos não podem ser punidos pode ser aceita, nas políticas públicas, e isso causa a morte de pessoas inocentes (e que muitas vezes acreditam que criminosos devem ser punidos). Este é um exemplo claro de uma crença impactando a vida daqueles que nela não crêem.

Caso a crença impactasse a vida apenas do crente, não teríamos problema algum, pois o princípio da liberdade individual inclui o direito de alguém destruir a sua própria vida, se quiser. Qualquer um pode colocar sua vida em risco, e conspirar contra ela. Pode acreditar em coisas absurdas, que levarão sua vida a um abismo… O problema moral é quando estas crenças impactam a vida dos que não compartilham a mesma crença.

A segunda classificação, quanto ao foco da alegação, possui dois tipos: ad hominem e ad rem. No primeiro caso, temos alegações focadas em pessoas, e no segundo aos demais aspectos do mundo e da realidade. Qualquer uso de auto-rotulagem ou de xingamentos está na categoria ad hominem. Mas quando alguém diz que “as políticas de segurança em São Paulo são falhas” está praticando um ad rem.

Alegações ad hominem devem obter uma escala ainda maior de priorização no questionamento de acordo com o ceticismo político por causa de seu impacto.

Para entender este impacto, veja uma situação corporativa onde um gerente sênior aparece em uma reunião de portfolio de projetos e deve defender 20 projetos no período de uma tarde. Pode ser que nem todos os projetos sejam defensáveis. Alguns podem ser rejeitados. A defesa dos projetos geralmente pertence ao universo das alegações ad rem.

Agora imagine a mesma situação onde ao invés de defender os projetos, o gerente diga: “Como gerente acionista, todos meus projetos devem ser pré-aprovados!”. E suponha ainda que todos na mesa acreditem. Realize em sequência a situação na qual a alegação deste gerente (de que ele é acionista) é falsa e que na verdade nem todos os projetos dele atendem aos critérios do portfolio de projetos.

O dano na situação onde o público aceita que “ele possui tal qualificação que todos seus projetos devem ser pré-aprovados” (alegação ad hominem) em comparação com a situação onde aceita-se que “o projeto X deve ser aceito, por motivos Y e Z” (alegação ad rem), em caso de falsidade na alegação, é muito maior no primeiro caso. É por isso que profissionais de segurança da informação estão muito atentos às credenciais falsas, pois, a partir do momento em que alguém acessa um sistema e obtem permissão a dados que não deveria ter acesso, os danos são terríveis.

No quesito da discussão pública, nota-se que o animal humano possui heurísticas que incluem a vulnerabilidade ao apelo à autoridade. Se autoridade auto-alegada por alguém for aceita como verdadeira (alegação ad hominem), a patuléia tende a aceitar o resto das alegações injustificadas que ele fizer. Assim, quando X convence o público que é “defensor dos pobres” ou que “representa a ciência”, temos alegações políticas de alto impacto negativo para os oponentes desta pessoa e/ou grupo, e que se classificam como ad hominem, ou seja, são aquelas que abrem a porteira, perante a maior parte da população, para todo o resto das idéias que X trouxer a partir daí.

Portanto, muito cuidado com estas duas classificações: (1) impacto no descrente e (2) foco da alegação. Todas as alegações políticas de seus oponentes politicos devem ser questionadas, mas priorize as que tenham maior impacto sobre você ou seu grupo (e sobre aqueles a quem você defende), e as que sejam ad hominem.

Diante desta introdução teórica, basta revermos paradigmas como o controle de frame, a dinâmica social, o jogo de rótulos e as técnicas de propaganda, além de conhecer as falácias típicas de seu adversário (ou até ser capaz de descobrir novas falácias), e, enfim, começar a encarar o discurso do seu oponente político de uma outra forma, muito menos ingênua e muito mais preparada a entender o jogo do poder. Quando executamos este modelo de ação completo em direção especificamente à religião política (isto é, o humanismo, e todo o esquerdismo), temos o neo-iluminismo, que se define como “ação de questionamento a autoridades morais injustificadas que sejam utilizadas para fins de ganho político”.

Quando um humanista ou esquerdista abre a boca para discursar, o espetáculo de alegações políticas começa.

Ele diz: “se aceitarmos as idéias de direita, os pobres sofrerão”. Só que as idéias da direita pedem desinchamento do estado, e quem disse que a única forma de ajudar os pobres é por inchamento estatal? Ele dirá: ‘”Somente o estado é confiável”. Mas podemos questionar: como ele prova essa confiabilidade? Ele diz: “Por causa da marcha da história”. Mas quem prova que esta marcha da história realmente existe (embora existam evoluções tecnológicas, e algumas evoluções morais, e outras perdas morais também…)? Ele dirá: “Você não me apóia pois é contra os pobres.” Mas podemos estudar o histórico de aplicação das idéias dele e ver que o dinheiro sai principalmente das mãos dos assalariados pobres com os altos impostos defendidos pelos esquerdistas. Ele diz: “O capitalismo causou a crise nos Estados Unidos”. Mas daí estudamos e verificamos que o caos no setor bancário e imobiliário começou com o Jimmy Carter Act, que deu incentivo para os banqueiros emprestarem dinheiro a faixas da população com maior risco de dar calote. Ele diz: “Você é fascista!”. Mas ai estudamos o significado de fascismo e vemos que somos contra tudo que o fascismo prega, enquanto a esquerda apóia a maioria das idéias do fascismo.

E assim, sucessivamente, podemos tornar a interação com eles algo que os derruba de forma mortal em termos intelectuais, principalmente se formos desafiadores e assertivos no desmascaramento dessas fraudes. E essa assertividade durante o desmascaramento é outro ponto essencial, pois, se tradicionalmente o humanista/esquerdista viveu a vida capitalizando com suas mentiras, é preciso ser bastante assertivo para que sua ação de desmascaramento tenha impacto. Não tenha pudores em ridicularizar o adversário e chamá-lo de desonesto ou safado, pois fraudadores sabem que merecem um puxão de orelha.

Em suma, diante deste mindset, temos uma nova perspectiva no trato de nossos adversários. E, enfim, podemos começar a tirar o poder político que eles ajudaram a criar para os donos de estados inchados (que eles cultuam), assim como outrora o iluminismo causou danos à monarquia.

Anúncios

5 COMMENTS

  1. “Pergunte-se: o que o alegador ganha com a existência de um extraterrestre no quintal? Provavelmente ele esteja alucinando ou é um auto-iludido, mas isso não configura que ele verbalizou uma alegação política. Mas se ele estiver querendo vender fotos de extraterrestres e ganhar uma grana com isso, já temos uma alegação política. Isto por que ele está obtendo um benefício por causa de sua alegação. Ele lesa outros com o fato de sua alegação ser aceita. Assim, a diferença entre alegação tradicional e alegação política reside na identificação de um fator chamado “benefício”, que é dado a uma pessoa ou grupo, e geralmente isso causa um “impacto” negativo em uma pessoa ou grupo.”

    Permita-me discordar, sr. Luciano.

    Isso que dizes ser uma alegação política não o é: é uma alegação econômica. Mesmo supondo que o imbecil queira vender fotos de um pretenso ET, ainda isso não seria uma alegação política. Se ele pretende ganhar dinheiro com isso, levando-se em consideração que ele é um auto-iludido/alucinante, as pessoas que aceitarem comprar suas fotos fizeram-no livremente e o efeito da divulgação dessa estupidez é, claro, a difusão da confusão e da estupidez. Do mesmo modo um flato: dado que prejudica o ânimo

    Esse ato – que em si não é político – pode ter efeitos políticos, caso – numa igualmente delirante hipótese – as pessoas iludidas comecem a se organizar visando (aí sim) pedir benefícios ou concessões para a construção de uma pista de pouso de ETs.

    Penso que política seria melhor definida como a imposição/mediação de interesses, valores, conflitos e crenças, visando conquistar o maior bem comum possível (subjetiva ou objetivamente considerado, conforme a esfera de valores do indivíduo).

    • Concordo com parte de sua objeção.

      na verdade a afirmação “há um ET no quintal” não é política, mas a afirmação “há um ET no quintal, e tirei fotos dele, e estou vendendo” já seria política.

      Seu exemplo ótimo dá um exemplo de política pública (ou política das questões públicas), mas há outras políticas, como a política sexual, política corporativa, política do invidíduo, etc.

      Quando alguém diz “minha prática política visa conquistar o maior bem comum possível”, esta é uma alegação política.

      Uma alegação política é aquela que, se aceita, gera benefícios a uma pessoa/grupo sobre outra pessoa/grupo.

      Enfim, a política vai muito além das questões do estado.

      Abs,

      LH

  2. Mesmo que muitos conservadores de direita sejam cristãos (embora o conservadorismo não seja a única forma de alguém ser de direita)…

    Luciano, talvez fosse uma boa também mapear as configurações mais comuns da direita, de maneira a que as pessoas consigam ter uma boa noção sobre tal espectro. Não esqueçamos que a maioria das pessoas associa direita com alguém mal-humorado, amargurado e uma série de coisas ruins (mesmo que aquele avozinho piadista e de bem com a vida de que muitos se lembram fosse de direita e não fosse nem um pouco um monstro). Pelo que me lembro do que você disse anteriormente, libertários-anarcocapitalistas são outra espécie de religião política, logo não podendo ser qualificados como de direita (ainda que tenham pontos de contato tanto com ela quanto com o marxismo-humanismo-neoateísmo). E, obviamente, não podemos chamar de direita o nazifascismo, uma vez que o mesmo bebeu muito na fonte marxista e até operacionalizou o racismo do próprio Marx.

Deixe uma resposta