A ética de um investigador de fraudes para solucionar um dilema da aplicação do ceticismo político contra humanistas e esquerdistas

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Um leitor deste blog, que assina como Pecador, postou uma objeção interessantíssima a uma forma de tratamento minha aos fraudadores intelectuais humanistas, especialmente quando dizem “representar a ciência”.

Para Pecador, em muitos casos o sujeito que diz “representar a ciência”, na verdade toma a “ciência como se fosse uma religião”, e então de fato acredita que a ciência irá ser o norte de suas ações. Eu argumentei que ao invés de aceitar que o oponente “toma a ciência como se fosse uma religião”, devemos entender e divulgar que na verdade ele finge que “toma a ciência como se fosse uma religião” para obter o benefício que esta declaração pode prover. (No caso, obter a aceitação, perante a plateia, de que ele é um “representante da ciência”, e portanto, merece ter suas ideias aceitas com mais facilidade do que o oponente)

Pecador objeta dizendo que não temos como saber que o humanista neste caso está mentindo, e, no fundo, o oponente pode realmente “crer que representa a ciência”. Portanto, não haveria problema algum em dizer, em público, que o oponente “louva a ciência de forma religiosa”.

A meu ver, este é um equívoco da forma aristotélica de debate, onde nós acostumamos a acreditar na palavra dos oponentes e aceitá-las, ao menos temporariamente, enquanto não podemos prová-las como falsas. Vou mostrar aqui que esta é uma forma de tratamento das questões políticas que só leva ao desastre.

Nunca escondi que meu modelo de argumentação vem tanto da leitura de materiais sobre pensamento crítico e ceticismo tradicional, como também da minha experiência particular com Segurança da Informação. Se James Randi adaptou o mundo da investigação de truques de mágica (por que ele próprio era um mágico) para investigação de médiuns, eu uso o universo de investigação de crackers, engenheiros sociais e demais fraudadores corporativos para usar as técnicas de investigação de fraudes que funcionam ao evitar milhões de prejuízos para as empresas para investigar o discurso político e as alegações políticas contidas nestes discursos.

É do universo da Segurança da Informação que trarei um exemplo da engenharia social, que pode ser definida como “o conjunto de práticas utilizadas para se obter informações sigilosas ou importantes de empresas e sistemas, enganando e explorando a confiança das pessoas”. Falarei aqui especialmente de um exemplo de fraude pela forma da engenharia social.  (Leia mais aqui)

Imagine-se como um profissional de segurança da informação de uma empresa que percebe que um de seus funcionários, suspeito de ter amigos em altos cargos de uma concorrência, está tentando acessar um sistema para obter informações que não deveria obter. Para isso ele vai tentar obter a senha de um gerente, usando o truque de contar histórias sobre sua amizade com um dos sócios da empresa, para que o gerente descuide e lhe empreste uma senha que dá acesso a informações que o funcionário não deveria ter. A falsa credencial, no caso, é o fato dele ter uma suposta amizade com um dos donos da empresa. Por isso, mesmo que ele não tenha a senha, teria uma autoridade moral que fizesse o gerente emprestar a senha que lhe dá o acesso indevido.

Quem investiga fraudes em engenharia social já identifica a armação logo de cara: se o sujeito é amigo de um dos sócios da empresa, e isto lhe daria o direito dele acessar o sistema, pois que este sócio não garantiu que ele já tivesse a senha necessária? Além do mais, por que o pedido não está sendo feito diretamente pelo sócio ao gerente, ao invés de pelo funcionário? Outra pergunta: supondo que o pedido fosse feito, por que não foi feito para a área de Segurança da Informação, vindo diretamente do sócio? A fraude é clara, e a ação só pode ser uma: não ceder o acesso indevido, não emprestar a senha e ameaçar de punição quem pede a senha de um outro por vias informais.

Suponha agora que na obtenção da falsa credencial, a própria história do funcionário que quer o acesso indevido, dele ser “amigo de um sócio da empresa”, seja falsa. Esta é a fraude pela qual o sujeito exploraria vulnerabilidades típicas do ser humano, e, pelo poder da influência, poderia ser capaz de obter informações confidenciais e valiosíssimas. Para evitar verdadeiros desastres corporativos, entram em ação os Gerentes de Segurança da Informação, com seu time de profissionais focado em garantir que a empresa sofra o mínimo possível com fraudes do tipo, muitas vezes com coaching e conscientização de profissionais, mas também forçando-o a assinarem termos de responsabilidade. Ou seja, ninguém tem direito de ser ingênuo em alguns momentos.

Agora realize a situação onde o gerente vítima da fraude pense por um momento sequer: “Mas será que esse sujeito, mesmo que esteja iludido em relação a sua amizade com o sócio, e ainda iludido em relação ao fato dessa amizade lhe dar o direito de requisitar a senha para acesso especial a outro gerente, talvez não acredite no que está dizendo?”. Sim, isso é plenamente possível, mas não muda nada o fato de que uma fraude está sendo cometida, mesmo que o sujeito (aquele que tenta obter a senha) tenha enganado a si próprio inconscientemente. O fato é que a fraude, se cometida, dará um benefício indevido ao perpetrador e trará um dano à organização. Em termos de prevenção de fraudes, não faz a menor diferença se o sujeito crê em sua mentira ou não: o que importa é que estamos diante de uma mentira, e que essa mentira tem a única função de dar um benefício indevido ao mentiroso.

Se no mundo da Segurança da Informação somos treinados a evitar fraudes, e portanto ignoramos uma prática que parece “elegante” em debates, por que deveria ser diferente em um mundo tão focado em luta pelo poder como o mundo da guerra política relacionada ao espaço público? Eis a prática de que falo: a tendência a acreditar na palavra pura de alguém sobre um estado mental, sendo que este estado mental, se aceito como verdadeiro, dá benefício somente ao alegador.

Quando alguém diz que “representa a ciência”, e faz seus oponentes o reconhecerem como “alguém que visualiza a ciência como se fosse uma religião”, temos um fraudador que conseguiu seu sucesso máximo, que é obter a credencial “representante da ciência”, a qual automaticamente “desliga” a mente de boa parte da plateia para o aceite automático de suas ideias, não importando o quão falsas sejam. É a mesma coisa que ocorreria se o fraudador que diz ser “amigo do sócio” conseguisse a senha gerencial para obter informações confidenciais, que ele quer vender à concorrência.

A proposta do “debate elegante” entende que não há problemas em reconhecer que alguém “idolatra a ciência”, somente por fazer essa declaração, se existe a percepção de que a pessoa realmente acredita no que está dizendo. O que é o mesmo que dizer que não há problema em um gerente dar a senha particular para alguém obter informações confidenciais, somente por que o beneficiário da obtenção da senha indevida parece crer de verdade que é “amigo do sócio” e/ou que “seu sócio e amigo defende que os procedimentos da organização tenham uma exceção neste caso”. Mas a ótica da segurança da informação (que me parece a mais racional para a questão) diz que se a fraude foi identificada, e a fraude beneficia fortemente o perpetrador da fraude, não faz a menor diferença se acreditamos ou não que o perpetrador crê nas informações falsas que usa para obter o acesso indevido.

É o mesmo caso do email phishing, cuja metáfora já utilizei outras vezes. O email de phishing é um email que, se clicado, permite que suas informações pessoais sejam capturadas por um fraudador. Mas podemos acreditar que o email de phishing veio por engano, e não a partir de alguém mal intencionado. Isso não fará diferença na hora das consequências da fraude surgirem para aquele que foi vulnerável â ela.

Eis então minha conclusão a respeito de se devemos ou não chamar um humanista de “alguém que cultua a ciência como uma religião”. Não, não devemos, pois isso seria o aceite automático de uma fraude como se fosse uma informação válida, somente por que sentimos que o perpetrador da fraude acredita que realmente “cultua a ciência com uma religião”. No mundo corporativo, o gerente poderia questionar ao sujeito que pediu a senha: “Ah, você é amigo do Júlio [o sócio]. Que interessante. A filha dele, Katrina, costuma vir aqui. A conhece?”. O sujeito pode responder: “Claro que conheço, Katrina é uma jovem muito espirituosa”. O problema é que Katrina não existe, foi apenas um “teste” feito pelo gerente para descobrir se estava diante de um fraudador ou não. Esse é um bom teste que ensinamos aos gerentes e líderes para evitar  que eles sejam vítimas de fraudadores usando engenharia social. A partir desse momento, não faz o menor sentido divulgar para alguém “Ei, este rapaz aqui é amigo do Júlio e merece acesso livre ao sistema”. Mesmo que o gerente acredite que o requisitante da senha realmente acredita no que diz, isso não é motivo para ele ser vítima de uma fraude clara. Aliás, se o gerente cair nesse tipo de erro,  pode ser demitido por justa causa.

Em meu paradigma do ceticismo político, pela ótica da dinâmica social (que aliás é base para a engenharia social, tanto para praticá-la como neutralizá-la, que é o que faço), não temos o direito moral de nos enganarmos diante de um fraudador e endossá-lo em suas fraudes. Não devemos ser “caridosos” com o fraudador e tomar como verdade suas declarações fraudulentas e que só gerem benefício a ele, mesmo em momentos onde “sentimos” que o sujeito acredita no que diz durante o lançamento de fraudes. As fraudes não-intencionais (ou auto-enganos), onde o sujeito mente para si próprio, ainda continuam gerando benefícios ao fraudador e danos às suas vítimas. Além do mais, se o picareta se enganou, enquanto pratica uma ação que na verdade é uma fraude (e que só o beneficiará), deve pagar o preço de ter se enganado.

Por isso eu jamais chamarei um humanista de “cultuador da ciência”, ou um apologista de crime de “representante dos direitos humanos” ou mesmo um esquerdista genérico de “defensor dos pobres”. Sei que essas são tentativas de obtenção de credenciais, e todas elas são ações fraudulentas para obtenção de poder. Mas e se o sujeito realmente acreditar no que diz? Isso ainda não faz a menor diferença, pois as fraudes que ele professa continuam sendo fraudes, e o benefício que ele receberá da implementação destas fraudes é o mesmo.

Minha obrigação intelectual (e que, reconheço, tem a ver com meu instinto obtido com a Segurança da Informação) me diz que devo focar em salvar o meu próximo das fraudes que podem acometê-lo, ao invés de me preocupar com o fato de um fraudador ficar deprimido se eu não acreditar nas palavras dele sobre seu estado mental.

A caridade aristotélica, típica do “debate elegante”, diante de um fraudador intelectual, é a última de minhas prioridades.  Eu entendo que devemos satisfação às vítimas (incluindo as potenciais) de fraude, ao invés de sermos caridosos em excesso com os fraudadores.

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4 COMMENTS

  1. Luciano, vamos esclarecer algumas coisas…

    “Um leitor deste blog, que assina como Pecador, postou uma objeção interessantíssima a uma forma de tratamento minha aos fraudadores intelectuais humanistas…”

    Não…..
    Fiz uma objeção à uma afirmação sua referente à EXISTÊNCIA DE CULTO do neos ateus à ciência: “isso de “deus ciência” da ATEA não existe. Ciência, para eles, significa falar “quero ciência e razão no lugar da religião”.

    O seu tratamento aos humanistas pra mim está Ok.

    Pecador objeta dizendo que não temos como saber que o humanista neste caso está mentindo, e, no fundo, o oponente pode realmente “crer que representa a ciência”. Portanto, não haveria problema algum em dizer, EM PÚBLICO, que o oponente “louva a ciência de forma religiosa”.

    Há um erro nesse parágrafo, eu nunca afirmei que não há problema em dizer isso EM PÚBLICO, e deixei muito claro, na seguintes afirmação…

    “Entendo que em debate (dinâmica social), essa afirmação tem alto índice de virada para os neo-ateus, dado o pouco conhecimento estrutural, teórico e ideológico de toda a questão por parte dos que assistem ao debate. Mas no debate 1 a 1, uma afirmação como essa (é uma granada psíquica, para quem sabe usar),que tende a desestabilizar o oponente neo-ateu.”

    Quem investiga fraudes em engenharia social já identifica a armação logo de cara: se o sujeito é amigo de um dos sócios da empresa, e isto lhe daria o direito dele acessar o sistema, pois que este sócio não garantiu que ele já tivesse a senha necessária?

    São duas coisas diferentes. E quem investiga fraudes de engenharia social deveria saber disso. Não há uma relação direta entre uma pessoa ser amiga de outra, e ter acesso irrestrito a dados dessa pessoa, ou terceiros a não ser que a empresa não tenha adotado nem mesmo as medidas padrão de segurança (o que por si já diria muito sobre a empresa). A não ser que o sujeito apareça com uma documentação forjada, que diga aos gerentes que lhe deem uma senha, e mesmo assim não só ele como a documentação ainda podem ser submetidos a teste. O fato é…. que ele mesmo SENDO, OU NÃO, AMIGO DO SÓCIO não lhe dá direito de acesso baseado somente na palavra dele. Isso nós concordamos desde o início. — “. Mesmo que o gerente acredite que o requisitante da senha realmente acredita no que diz, isso não é motivo para ele ser vítima de uma fraude clara.”

    Agora vamos relacionar isso com sua frase inicial do que gerou esse post….”isso de “deus ciência” da ATEA não existe”….dentro do exemplo que você citou seria o mesmo que dizer “isso de de amizade com o sócio não existe”…..

    Como eu disse anteriormente, uma suposta amizade entre o sujeito e o sócio não é pretexto para dar a esse sujeito qualquer tipo de acesso (pensei que isso tinha ficado claro nos comentários anteriores)…entretanto afirmar que a ‘amizade entre o sócio e o cara não existe’, é forçar..simplesmente porque isso é uma possibilidade, mesmo sendo INDIFERENTE quanto à ação de ceder acesso, ainda é uma possibilidade.

    Quando você escreve: “Suponha agora que na obtenção da falsa credencial, a própria história do funcionário que quer o acesso indevido, dele ser “amigo de um sócio da empresa”, seja falsa.”
    Percebo em seu post, que em momento algum você vislumbrou a hipótese do cara ser mesmo amigo do sócio da empresa, e o tomou como mentiroso.

    Após destacar um truque para revelar a fraude você diz: ” A partir desse momento, não faz o menor sentido divulgar para alguém “Ei, este rapaz aqui é amigo do Júlio e merece acesso livre ao sistema”.

    Porém eu afirmar ““Ei, este rapaz aqui é amigo do Júlio” e …….”merece acesso livre ao sistema” são duas situações distintas. Inclusive, se o sujeito for amigo mesmo do Júlio, isso poderia até ser indicativo da possibilidade de Júlio estar envolvido na fraude contra os outros sócios. De qualquer maneira a divulgação da informação de que o sujeito se colocou como amigo de Júlio, e a partir disso tentou um golpe, serviria até pra deixar o Júlio e os outros sócios mais espertos (Isso, é claro, se levarmos em conta o tamanho da corporação).


    não faz a menor diferença se acreditamos ou não que o perpetrador crê nas informações falsas que usa para obter o acesso indevido

    Quanto ao acesso, realmente não faz. Mas faz diferença quanto à que medidas são tomadas no descobrimento da fraude. Tanto na punição ao fraudador, quanto na continuação de uma possível investigação. Uma pergunta que me faço frequentemente após ler o seu blog é: — ok…entramos em debate político, apontamos as desonestidades intelectuais, vencemos o debate com menor dano possível….e AÍ?????? O sujeito (humanista) chegou, tentou a fraude eu o chamei de fraude e provei que ele estava mentido….e aí????….
    No mundo corporativo, em situações como essa você chama a polícia acusa o sujeito….se ele for amigo do sócio, é PIOR pra ele, pois ele estava usando a amizade com o sócio para beneficiar-se de maneira ilegal, o que pode além das acusações formais…rendeu uma processo de dano moral contra pessoa física..ou seja o dano é maior (e você gerente de segurança até pode capitalizar em cima disso). Mas e na dinâmica social….quais são as sanções que infringimos ao humanistas? Entenda que quando você está debatendo a muito tempo com os humanistas, apenas vencer o debate não parece mais suficiente.
    Então você me afirma…ok…o neo-ateu realmente acredita na razão como se ela fosse deus….e aí???? E daí que podemos usar isso contra ele, da mesma forma que ele usa contra os religiosos. APÓS O APONTAMENTO DA FRAUDE…podemos usar isso como fator de ridicularização — olha o comentário do daniel

    “O neo-ateísmo tem como fonte sagrada de conhecimento a Ciência e como divindade a Razão.
    Ciência é o nome pelo qual chamam a coleção dos livros do Dawkins e Razão é o nome do secador de cabelo mágico que alegam ter o poder místico de reverter o sacramento cristão do batismo.”

    Isso devia virar meme. É o tipo de assertividade / acidez / ironia, que falta na maioria dos oponentes dos humanistas.


    Minha obrigação intelectual me diz que devo focar em salvar o meu próximo das fraudes que podem acometê-lo, ao invés de me preocupar com o fato de um fraudador ficar deprimido se eu não acreditar nas palavras dele sobre seu estado mental.

    Minha obrigação intelectual me diz que o meu próximo é tão responsável pela sua salvação, quanto eu pela minha, portanto eu não me preocupo com a depressão do fraudador, mas me é interessante usar seu estado mental contra ele mesmo, como tenho feito até o momento sem maiores problemas. Mas outros podem não querer usá-lo, evidentemente isso é uma opção.

    A caridade aristotélica, típica do “debate elegante”, diante de um fraudador intelectual, é a última de minhas prioridades. Eu entendo que devemos satisfação às vítimas (incluindo as potenciais) de fraude, ao invés de sermos caridosos em excesso com os fraudadores.

    Minha objeção não se trata de caridade aristotélica, nem debate elegante, nem pena do humanista….mas o uso assertivo de sua condição mental, contra ele mesmo…por isso eu disse que “é uma granada psíquica, para quem sabe usar”. Mas há um momento para usá-la…mesmo se em público (agora sim eu afirmei em que condição ele pode ser usado EM PÚBLICO).

    Por isso eu jamais chamarei um humanista de “cultuador da ciência”
    Você o chama de cultuador da religião política…..ou cultuador do humanismo. E depois tem que explicar o conceito da mesma forma (ou não?….posso estar engando). Mas o simples fato de chamá-los de cultuadores de ‘qualquer coisa” APÓS O APONTAMENTO da fraude, para os humanistas, em especial os neo-ateus, já é uma grande ridicularização….e pra mim está bom.

    Concluindo, você realiza uma ligação direta entre a frase “o neo-ateu cultua a ciência”, com a frase “o neo-ateu é representante da ciência”. Enquanto que pra mim são diferentes, minha sugestão é usá-las em conjunto, em contextos diferentes. Entre o culto e a representação de uma entidade ou uma instituição há um abismo de detalhes. Dois exemplos clássicos são Malafaia e Dawkins.

    Malafaia se põe como representante da religião. Há discordância de que ele representa a religião por diversos religiosos, e ainda assim ele é um cultuador da religião. Se amanhã ele for flagrado em um encontro homossexual, fica comprovada a fraude e sua crença (não apenas ele) se tornará motivo de ridicularização por todo o país, porque não será representante de fato da religião, mas só um cultuador hipócrita dela, visto que ele (nessa tese) não pratica a verdadeira religião.

    Dawkins se põe como representante da razão, lógica e ciência por via do humanismo. Há discordância de que ele representa a razão, lógica e ciência por diversas pessoas. São divulgados diversos erros, e desonestidades intelectuais em seus discursos…logo ele não é representante da ciência, lógica e razão mas um cultuador hipócrita dela, visto que ele não pratica a verdadeira razão, lógica e ciência. É um lógica, razão e ciência distorcida, que pertence a construção mental própria dele, como uma uma insanidade coletiva. E isso definitivamente deveria ser usado contra ele na situação abaixo:

    http://www.youtube.com/watch?v=2Bla3t8jEP4

    http://www.youtube.com/watch?v=H-GFpQZkke8

    http://www.youtube.com/watch?v=bErQvvVuDuQ

    Durante o debate craig pareceu muito mais representante da ciência do que dawkins….que ficava o tempo todo atacando o teísmo em vez de discutir mesmo as teorias…(as quais provavelmente ele nem possuía conhecimento profundo)…ou seja, enquanto craig estava lá para debater teorias, dawkins estava para fraudar o máximo possível. Após argumentar de modo tão interessante, craig deveria ter esculhambado com Dawkis por ele ser um mero ‘cultuador’ da ciência, e não um representante de fato dela. Ele inclusive poderia ter usado o comentário do Daniel, e isto teria sido devastador para Dawkins e seus admiradores ao fim do debate.

    Ps: Senti falta da diferenciação entre funcionais e beneficiários que você disse que iria fazer…..
    Abs.

    • Pecador,
      Eu creio que cometi um equívoco no entendimento de sua proposição, e resolverei isso na parte 2, onde tratarei dos beneficiários e funcionais.
      Mas vamos a alguns pontos.
      Fiz uma objeção à uma afirmação sua referente à EXISTÊNCIA DE CULTO do neos ateus à ciência: “isso de “deus ciência” da ATEA não existe. Ciência, para eles, significa falar “quero ciência e razão no lugar da religião”.
      Sim, ciência significa isso para eles, mas é exatamente isso que os líderes deles querem que isso signifique para a maior quantidade possível do público, pois é aí que ganharão o debate. Em suma, ao usar a ressignificação “luta contra a religião é igual a luta pela ciência”, eles estão conseguindo os pontos que querem. E eu concordo que a visão deles de ciência é deturpada, mas o público, em sua maior parte, não perceberá isso.
      Há um erro nesse parágrafo, eu nunca afirmei que não há problema em dizer isso EM PÚBLICO, e deixei muito claro, na seguintes afirmação… “Entendo que em debate (dinâmica social), essa afirmação tem alto índice de virada para os neo-ateus, dado o pouco conhecimento estrutural, teórico e ideológico de toda a questão por parte dos que assistem ao debate. Mas no debate 1 a 1, uma afirmação como essa (é uma granada psíquica, para quem sabe usar),que tende a desestabilizar o oponente neo-ateu.”
      Desculpe, eu deixei passar a parte do debate 1 a 1. Se você tiver um debate 1 a 1, que não está sendo gravado em vídeo (pois se ele for para o YouTube, deixa de ser 1 a 1, e pode virar conteúdo divulgado a público), sim, eu concordo que sua estratégia é perfeita.
      E quem investiga fraudes de engenharia social deveria saber disso. Não há uma relação direta entre uma pessoa ser amiga de outra, e ter acesso irrestrito a dados dessa pessoa, ou terceiros a não ser que a empresa não tenha adotado nem mesmo as medidas padrão de segurança (o que por si já diria muito sobre a empresa)
      Não existe mesmo, mas essa relação artificial pode ser criada em nível psicológico. O fato é que mesmo existindo controles implantados, as pessoas continuam sendo vulneráveis à sugestão. Note que no meu exemplo eu citei um sujeito que tenta convencer um gerente a lhe entregar a senha dizendo que é “amigo do sócio E QUE neste caso os procedimentos padrão podem ser ultrapassados”.
      Como eu disse anteriormente, uma suposta amizade entre o sujeito e o sócio não é pretexto para dar a esse sujeito qualquer tipo de acesso (pensei que isso tinha ficado claro nos comentários anteriores)…entretanto afirmar que a ‘amizade entre o sócio e o cara não existe’, é forçar..simplesmente porque isso é uma possibilidade, mesmo sendo INDIFERENTE quanto à ação de ceder acesso, ainda é uma possibilidade.
      Não é tão indiferente quanto parece. Imagine-se que você é um gerente, e que existem outros gerentes. Se o sujeito está mentindo (e eu propus um teste para testar essa mentira, que foi o exemplo de falar sobre uma filha falsa do sócio), mesmo que ele não influencie este gerente, que segue os padrões, o sujeito ainda pode continuar, nos corredores, usando a informação falsa “sou amigo do sócio”. E, por um distúrbio mental, o sujeito pode REALMENTE acreditar que é amigo do sócio. Mas a afirmação “sou amigo do sócio” é uma fraude, para tentar fazer alguém AFROUXAR os controles de segurança QUE EXISTEM.
      Há uma regra importante: a existência dos controles não é garantia de que eles sejam seguidos. E é aí que reside o poder dos engenheiros sociais.
      Percebo em seu post, que em momento algum você vislumbrou a hipótese do cara ser mesmo amigo do sócio da empresa, e o tomou como mentiroso.
      Verdade. Mas é que no post eu já tratei essa questão como a fraude, pois eu falei do teste para ver se ele mentia ou não. Supondo que isso não seja mentira, aí teríamos a SEGUNDA fraude, que é dizer “Por isso [amizade com o Júlio], eu devo ter direito ao acesso a sua senha.”.
      Veja que a metáfora se encaixa, e por isso vou trabalhá-la melhor e com mais detalhes.
      Logicamente, o fato dele ser amigo do sócio não é o que deve dar o direito dele ter a senha, especialmente em um lugar com controles para isso. Assim como o fato do sujeito ser o “amigo da ciência” não é o que deve dar o direito dele ter acesso irrestrito à mente de 90% dos leitores, para que suas ideias sejam automaticamente aceitas. Mesmo que o sujeito seja o “amigo da ciência”, as pessoas deveriam avaliar cada argumento individualmente, não é isso que ocorre na realidade.
      Em suma, as regras da lógica e os controles da segurança ainda são vulneráveis à SUGESTÃO humana, que é a vulnerabilidade ao APELO À AUTORIDADE. Se estudarmos os testes de Milgram, veremos que alguém é capaz de regrar éticas de não matar alguém somente por que foi vítima do apelo à autoridade.
      Portanto, as duas fraudes (o sujeito ser amigo do sócio, quando não é, e o direito de quebrar as regras da empresa por essa amizade,quando não tem esse direito) devem ser neutralizadas.
      Porém eu afirmar ““Ei, este rapaz aqui é amigo do Júlio” e …….”merece acesso livre ao sistema” são duas situações distintas. Inclusive, se o sujeito for amigo mesmo do Júlio, isso poderia até ser indicativo da possibilidade de Júlio estar envolvido na fraude contra os outros sócios. De qualquer maneira a divulgação da informação de que o sujeito se colocou como amigo de Júlio, e a partir disso tentou um golpe, serviria até pra deixar o Júlio e os outros sócios mais espertos (Isso, é claro, se levarmos em conta o tamanho da corporação).
      Tudo bem, mas devemos pensar na organização como um todo. Mesmo que você tenha seguido regras lógicas e claras de entender que é absurdo o sujeito associar a falsa amizade dele com o direito dele receber a senha, alguns outros podem cair nessa falsa associação.
      Podemos, no futuro, até usar o exemplo claro de pessoas que caíram nessa falsa associação, e portanto orientá-las a investigar até a afirmação inicial.
      Uma pergunta que me faço frequentemente após ler o seu blog é: — ok…entramos em debate político, apontamos as desonestidades intelectuais, vencemos o debate com menor dano possível….e AÍ?????? O sujeito (humanista) chegou, tentou a fraude eu o chamei de fraude e provei que ele estava mentido….e aí????….
      Se existe um público acompanhando o debate, você já pontuou se conseguiu demonstrar a fraude do outro e foi assertivo no debate psicológico subsequente, pois o sujeito ainda pode tentar se safar.
      No mundo corporativo, em situações como essa você chama a polícia acusa o sujeito….se ele for amigo do sócio, é PIOR pra ele, pois ele estava usando a amizade com o sócio para beneficiar-se de maneira ilegal, o que pode além das acusações formais…rendeu uma processo de dano moral contra pessoa física..ou seja o dano é maior (e você gerente de segurança até pode capitalizar em cima disso). Mas e na dinâmica social….quais são as sanções que infringimos ao humanistas?
      Eu vejo que o importante, neste caso, é causamos um “dano moral”, que é o preço que eles devem pagar por serem fraudulentos. Quanto mais isso for feito em maior quantidade, mais eles perdem espaço.
      “O neo-ateísmo tem como fonte sagrada de conhecimento a Ciência e como divindade a Razão. Ciência é o nome pelo qual chamam a coleção dos livros do Dawkins e Razão é o nome do secador de cabelo mágico que alegam ter o poder místico de reverter o sacramento cristão do batismo.” Isso devia virar meme. É o tipo de assertividade / acidez / ironia, que falta na maioria dos oponentes dos humanistas.
      Olha, neste caso, eu aplaudi a ação, pois o meme ridiculariza a tentativa deles se associarem à razão e à ciência. Mas isso deve sempre ser feito com o maior cuidado.
      <Minha obrigação intelectual me diz que o meu próximo é tão responsável pela sua salvação, quanto eu pela minha, portanto eu não me preocupo com a depressão do fraudador, mas me é interessante usar seu estado mental contra ele mesmo, como tenho feito até o momento sem maiores problemas. Mas outros podem não querer usá-lo, evidentemente isso é uma opção.
      O que eu quis dizer é que o “próximo”, muitas vezes, não tem conhecimento de guerra política e dinâmica social, e esse conhecimento ficará restrito a uma parcela da população. Tenho familiares religiosos, que não merecem ser relegados a cidadãos de segunda classe somente por que um humanista usou a fraude de se associar à “ciência” e enganou o público. Por isso, eu assumo a responsabilidade, por ter conhecimento para fazer isso.
      Minha objeção não se trata de caridade aristotélica, nem debate elegante, nem pena do humanista….mas o uso assertivo de sua condição mental, contra ele mesmo…por isso eu disse que “é uma granada psíquica, para quem sabe usar”. Mas há um momento para usá-la…mesmo se em público (agora sim eu afirmei em que condição ele pode ser usado EM PÚBLICO).
      Concordamos neste ponto.
      Você o chama de cultuador da religião política…..ou cultuador do humanismo. E depois tem que explicar o conceito da mesma forma (ou não?….posso estar engando). Mas o simples fato de chamá-los de cultuadores de ‘qualquer coisa” APÓS O APONTAMENTO da fraude, para os humanistas, em especial os neo-ateus, já é uma grande ridicularização….e pra mim está bom.
      Ok, mas minha sugestão é o cuidado nesta ação. Pois todos os que chamei de cultuadores da religião política ou do humanismo tentaram fugir desta associação. Muitos tentam se dizer como “representantes dos ateus”, pois isso é melhor politicamente para eles.
      Mas, em termos de dinâmica social, um neo-ateu que é chamado de “cultuador da ciência” pode dizer “sou cultuador da ciência, da razão e da liberdade, melhor que…”

      Por isso, fica a dica de tomarmos cuidado com alguns frames.
      Concluindo, você realiza uma ligação direta entre a frase “o neo-ateu cultua a ciência”, com a frase “o neo-ateu é representante da ciência”. Enquanto que pra mim são diferentes, minha sugestão é usá-las em conjunto, em contextos diferentes.
      Sim, mas só a dica do cuidado com a “estática”, como diz o Horowitz. Quando é preciso explicar muito, há riscos, especialmente quando os rótulos são benéficos para o oponente. Ciência é um rótulo benéfico, mas humanismo e religião política são quase neutros.
      Após argumentar de modo tão interessante, craig deveria ter esculhambado com Dawkis por ele ser um mero ‘cultuador’ da ciência, e não um representante de fato dela. Ele inclusive poderia ter usado o comentário do Daniel, e isto teria sido devastador para Dawkins e seus admiradores ao fim do debate.
      Eu já diria para o público: “Ele tenta convencer vocês que adora a ciência, mas sabemos que é fraude, e mostrei aqui…”. O comentário do Daniel, ridicularizando a asserção do Dawkins, também poderia ser útil. Só não podemos deixar que a mensagem sub-comunicada seja a de que “Dawkins cultua mais a ciência, do que seus oponentes”. Pois aí o coice pode ser forte, como eu já citei: “Cultuo a ciência, a razão e a liberdade”. Reverter esse frame depois pode ser muito difícil.
      Ps: Senti falta da diferenciação entre funcionais e beneficiários que você disse que iria fazer…..
      Verdade. Farei um texto posterior a respeito para concluir o raciocínio.
      Obrigado pelas sugestões e dicas, e a ótima argumentação.
      Abs,
      LH

      • Obrigado, excelente argumentação você também luciano… principalmente na questão da artificialidade, sugestão humana e afrouxamento dos controles…
        Mas o ponto de maior razão apontado em sua resposta foi uma simples frase: ” Ciência é um rótulo benéfico, mas humanismo e religião política são quase neutros.”

        Sim, de fato ciência é rótulo benéfico…humanismo também é (questão de humanismo x humanitarismo), mas mesmo assim ciência é um rótulo de maior poder. Eu me toquei disso enquanto escrevia uma comparação entre Dawkins e Malafaia em suposição.

        Entramos em um ponto de equilíbrio da questão. O argumento é de que o cara é “cultuador da ciência” é uma faca de dois gumes. Na verdade não é um argumento (em debate), é uma frase de ridicularização, e deve ser usada (se usada) com extremo cuidado, após o apontamento da fraude, e nisso enquanto o frame estiver sobre seu controle, pois isso colocará o usuário em defesa (o que é bom), ou tentando realizar fraudes ainda maiores (o que pode ser desastroso).

        Vou aguardar ansiosamente a segunda parte, para não interrompê-lo e fazer um apanhado geral.
        Abs.

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