O neo-esquerdismo como gerenciamento de premissas dos “projetos” esquerdistas

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A respeito de meu post Por que a direita deveria lutar por um bolsa família muito mais recheado(!)?, o leitor Aijalom Wagner fez uma objeção a respeito deste bloco de texto meu: Entretanto, tanto esquerdistas como direitistas devem ser motivados a procurar a doação voluntária. Os esquerdistas principalmente, que defendem o uso do dinheiro estatal, podem criar grandes ONG’s, como se fossem versões do Rotary e Lyons Club, para garantir as bolsas ao cidadão carente.”

Abaixo, a objeção de Aijalom:

Esta não é a ação que interessa a esquerda, como sendo a Bolsa Familia apenas um método de engrandecer o Estado, criar Ongs faria do Estado um calabouço de rapinas rapidamente. Vindo do Estado o Bolsa Família soa como o apoio do povo ao Governo. É muita ingenuidade, pois a esquerda quer implantar um Estado que se impõe, porque isso será a autoridade do partido. Sua ideia leva em conta que haja boas intenções na esquerda e ela não passa de métodos de apoio popular e trocas.

Sinto que ocorreu um erro grave de entendimento do neo-esquerdismo, e provavelmente isto seja mais minha culpa do que de Aijalom, que entendeu o neo-esquerdismo de maneira exatamente oposta a que propus.

O fato é que ele não pensou pela ótica da gestão de premissas (típica do gerenciamento de projetos), e eu usei este método. Mas creio que eu deveria ter explicado que o ceticismo corporativo é um método que norteia minhas abordagens do ceticismo político.

Voltando ao mundo corporativo, noto que esta é uma dificuldade que temos, diariamente, para entender o mundo que nos rodeia quando falamos em projetos. De cada 10 profissionais que adentram o mundo de projetos, somente 2 ou 3 conseguem absorver essa ideia.

Recentemente, eu questionei um líder de projetos: “Quantas máquinas precisam estar disponíveis até quinta, dia X do mês Y, para que os testes de segurança ocorram conforme os prazos estipulados?”. Ele respondeu: “Em nossos projetos, nunca temos máquinas disponíveis”. Eu, de novo: “Não foi essa a pergunta que eu fiz. Eu não estou pedindo que você conte suas historinhas tristes e irritantes. Vou repetir a pergunta: Quantas máquinas precisam estar disponíveis até quinta, dia X do mês Y, para que os testes de segurança ocorram na data?”.

O que ocorreu aí? O fato é que um número específico de máquinas, a serem fornecidas pela empresa entregando um software, deveria ser cobrada deste fornecedor para que os testes técnicos pudessem ocorrer. Mas enquanto isso tínhamos uma equipe que jamais colocou a pressão no fornecedor. Resultado: obviamente o fornecedor não tinha que fornecer as máquinas suficientes, pois esta nunca foi uma premissa gerenciada pela equipe de projetos. Restava ao time reclamar dos infortúnios da vida.

O gerenciamento de premissas tem por obrigação definir tudo que deve ser tomado como uma verdade (temporária) para que um projeto seja entregue de acordo com a tripla restrição: tempo, custo e escopo. Isso não significa que essas premissas sejam atendidas, mas sim que pessoas ou grupos serão responsabilizados por algumas entregas.

Quando eu elaborei o neo-esquerdismo, finalmente encontrei um meio de gerenciar as premissas dos esquerdistas, que vivem dizendo que querem “o bem dos pobres”, mas raramente são responsabilizados moralmente por esta premissa que querem estabelecer. O que ocorre é que eles verbalizam essa frase (“quero o bem dos pobres, e meus oponentes querem o oposto”), obtem as respostas emocionais da patuleia por terem usado este discurso, e tudo fica por isso mesmo. É claro que é jogo sujo, e só eles é que estão levando vantagem.

Assim, se o esquerdista realmente quer “ajudar os pobres” (o que duvido, mas no gerenciamento de premissas isso não faz a menor diferença, pois se ele não quiser de verdade o que diz que quer, ele pagará o preço), então temos que ter um método em que as premissas do esquerdistas sejam colocadas sob teste.

O neo-esquerdismo é uma forma pela qual as premissas do esquerdista são, enfim, colocadas sob teste, de uma forma que podemos desafiá-los em qualquer debate que adentremos. Se ele realmente quiser ajudar os pobres, deverá obrigatoriamente aceitar o neo-esquerdismo. Mas o Aijalom diz que o esquerdista só usa coisas como Bolsa Família como um “método de engrandecer o estado”. Eu concordo com ele, mas no gerenciamento de premissas é que eles serão pegos mais facilmente.

Há um problema muito sério com a direita atualmente: falta tato e habilidade política para colocarmos os esquerdistas na parede. A vida deles se torna fácil demais no debate, pois basta escolherem as palavras mágicas (isto é, os frames corretos, onde eles se posicionam a favor dos desfavorecidos) e começarem a capitalizar. Enquanto isso o direitista pensa que o debate prossegue, mas, na mente de pelo menos 90% da plateia, o debate já acabou, e o esquerdista é que se tornará merecedor de atenção.

Esta é a ingenuidade de que devemos fugir. Achar que vamos conseguir algum resultado se não colocarmos pressão nas alegações políticas dos esquerdistas.

O neo-esquerdismo, como um método que criei, sugere exatamente o oposto: o esquerdista deve pagar o preço de suas alegações. Se ele diz que “quer ajudar os pobres”, deve ser desafiado a demonstrar isso, e durante o desafio, ele tem duas opções:

  1. Recusar o desafio, e então demonstrar minha tese (a de que o esquerdista só serve para inchar o estado)
  2. Aceitar o desafio (o que duvido), e então provar que estou errado.

Mesmo que eu ache improvável que o item 2 ocorra, o que importa é o desafio.

É como no mundo dos projetos, onde podemos falar para o fornecedor: “Conforme o escopo do projeto, precisamos de 20 máquinas para os testes do produto,e elas devem ser fornecidas por vocês. Vocês tem condição de atender a essa premissa?”.

Assim como no caso do esquerdista, a resposta pode ser sim ou não. E se a resposta for não, pelo menos a empresa tem tempo de buscar um outro fornecedor, que esteja pronto a atender as premissas do projeto. Ou então abandonar as premissas do projeto. Mas não podemos deixar as premissas pra lá pois elas são declaradas como verdade pelo esquerdista a todo momento, e,então, nos cabe exercer pressão sobre estas premissas.

Se o “projeto” deles é salvar os pobres, então vemos que eles estão afrouxando essa premissa, pois colocam como restrição que “a ajuda tem que vir do Estado”. Mas podemos mostrar que essa restrição conspira contra a própria premissa, pois podemos provar que o estado é prejudicial aos pobres, pelo excesso de impostos embutidos nos produtos, o que prejudica em especial a vida do cidadão comum.

O que defendo, então, é um método pelo qual o esquerdista deixe de ser um sujeito que “finge ajudar os pobres como pretexto para inchar estado” (é o que podemos avaliar a respeito do comportamento dele), e possa, enfim, ser colocado à prova para demonstrar que ele realmente crê no que ele diz que crê. E, para isso, eu não preciso que a crença do esquerdista seja verdadeira, pois já entrei na fase do gerenciamento de premissas. Se ele não conseguir provar a premissa como verdadeira, ele pagará o preço por isso.

Abaixo um ótimo vídeo de Ricardo Vargas, sobre premissas e restrições em projetos, que pode nos ajudar:


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Em suma, se o esquerdista diz que quer “salvar os pobres com sua ação”, anote isso na “ata”, como se fosse um gerente de projetos, e depois lance a pressão para cima dele. É aí que você terá mais autoridade para dizer “Se você diz que quer ajudar os pobres, e não arrumar pretexto para inchar estado, por que não tomou decisão X?”

Assim como podemos decretar que um fornecedor fracassou ao atender as premissas sob responsabilidade dele (assim como de dar garantias deste atendimento), podemos dizer em público que o esquerdista fracassou ao demonstrar que ele realmente “quer o bem dos pobres”.

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6 COMMENTS

  1. Espere aí, podemos entender o neo-esquerdismo mais como um desafio aos esquerdistas do que como uma proposta ideológica? É bastante interessante essa perspectiva, se for seu objetivo, e ela me lembra o teste da fé do infiel de John Loftus.

    • Bom, não é uma proposta ideológica pois não acredito em ideologias. Deixo isso para esquerdistas. Mas é verdade que ela é tanto um desafio aos esquerdistas (que acho que não passarão), como o estabelecimento de um diálogo com os bi-conceituais, que devem entender que o esquerdismo como existe hoje precisa ser problematizado, pois não atende sequer ao discurso dos esquerdistas.

      O OTF, do John Loftus, não é uma proposta lógica, mas um inacreditável truque de manipulação de categorias.

  2. Desde a primeira vez que vi o neo-esquerdismo neste site, comecei a utilizá-lo em debates com esquerdistas e sempre tenho me dado bem. Luciano, não sei se você percebeu, mas o neo-esquerdismo é uma das ideias mais poderosas que você já criou neste blog. É um verdadeiro aniquilador de esquerdistas.

    • É, eu também sempre tiro o neo-esquerdismo da manga quando vou debater com esquerdistas, e eles perdem o rebolado. Assim o neo-esquerdismo é tanto uma proposta que problematiza o esquerdismo atual, como também o desconstrói, e também serve para demonstrar o quão fraudulento é o esquerdismo atual.

      • Luciano,

        eu vivi uma experiência no passado que me serviu de alerta com relação a essas pessoas de esquerda de carteirinha. Quando eu estava na faculdade eu tive um relacionamento com uma menina comunista e toda a família também era comunista de ir em assembléias do partido. Todos eram funcionários públicos, é claro.

        Eu morava na periferia da cidade, enquanto que eles moravam no centro. Quando fez um ano de namoro eu levei a menina num restaurante caro da cidade. Quando chegamos na casa dela, ela contou para a mãe dela, que não deu 5 minutos e me passou “a mijada”, dizendo que era um absurdo ter ido naquele lugar, falou que os donos eram uns porcos exploradores, foi falando tanta asneiras até chegar na tal “luta de classes”.

        Aí eu peguei e disse “Senhora, sabe por que eu quis ir lá?”, e ela: “Não faço a mínima idéia”. Eu: “Pelo mesmo motivo que a senhora não vende sua caminhonete ford e a casa na praia, e doa o dinheiro para os pobres, eu tb mereço, como todos da minha comunidade que trabalham, um pouco de luxo que o malvado do capitalismo oferece.”

        Nem preciso dizer que o relacionamento não durou muito. Mas quer saber, conheci outras mulheres, inclusive empresárias muita mais inteligentes que me ensinaram muita coisa.

  3. (Corrigindo)
    Entendi sua postura argumentativa. mas eu apenas fiz uma análise menos estratégica. Ao meu ver só há uma estratégia contra quem tem o poder de matar: pegar em armas, fora isso estratégias não competem de frente com as estratégias do governo. De qualquer forma estaremos vendo surgir algo que vai além de nossa capacidade de derrubar em termos argumentativos todo o plano de trabalho do Estado. Pelo visto percebe-se que sou bem mais pragmático que você. rsrsrsr

    Grande abraço.

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