Glossário: Humanismo

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picodellamirandola

Última atualização: 05 de agosto de 2013 – [Índice de Termos][Página Principal]

Já passou da hora de eu ter feito este verbete, pois muitas pessoas confundem humanismo com humanitarismo, e não entendem por que este blog ataca tanto humanismo como esquerdismo. Automaticamente alguns pensam: humanismo não é uma coisa boa? Esta é a confusão entre humanismo e humanitarismo.

Humanitarismo é a prática do amor ao próximo, em caráter voluntário e filantrópico. Eis o que eu defendo: quanto mais humanitarismo, melhor.

Humanismo não tem absolutamente nada a ver com humanitarismo. O humanismo é a filosofia que prega que o ser humano é um animal apartado dos outros animais, e que, portanto, pode controlar seu destino e resolver suas contingências através da ação política.

Autores como Marsílio Ficino, Giannozzo Manetti e especialmente Giovanni Pico della Mirandolla deram os pontapés iniciais para uma cosmovisão que fizesse a substituição de Deus pelo homem.  A obra mais explícita na definição desta cosmovisão pode ser definida como “Oração da Dignidade do Homem”, publicada por Mirandolla em 1480.

Esses primeiros autores, aliás, não eram ateus nem deístas, mas sim católicos. Mas já traziam em suas idéias o cerne do humanismo: a capacidade do ser humano em resolver suas contingências para remodelar o mundo e a si mesmo. Somente séculos depois outros autores propuseram que o humanismo fosse levado às últimas consequências e colocasse o homem como se fosse Deus.

Não podemos confundir o humanismo com o ateísmo básico, que prega a descrença em Deus, ou mesmo com o deísmo, que até acredita em Deus mas renega as escrituras. Por isso, é possível confundir o secularismo com o humanismo.

O próprio secularismo, aliás, surgiu na época de Martinho Lutero, com a idéia de que o estado não deveria tomar partido de uma religião em específico na definição de suas políticas, e nem privilegiar ou prejudicar pessoas pelo fato delas pertencerem a uma religião.

Fica claro que secularismo não é o mesmo que humanismo, assim como humanismo não é o mesmo que ateísmo. Diante dessas duas verdades, muitos hoje em dia se confundem achando que humanismo significa tanto luta pelo secularismo, como também luta em prol daqueles que não tem religião. Só que ao estudarmos as ações humanistas atuais, veremos que a maioria delas é anti-secularista, geralmente violando o princípio do estado laico. Os humanistas atuais geralmente dizem que o religioso não pode se expressar na vida pública, mas de acordo com o estado laico sabemos que é exatamente o oposto: todos podem se expressar, tanto ateus, como teístas, tanto protestantes como islâmicos, e daí por diante.

Assim, é importante saber que rejeitar o humanismo não é o mesmo que rejeitar o direito à cosmovisão ateísta e nem o estado laico. Rejeitar o humanismo é simplesmente rejeitar a crença em que o ser humano é um animal apartado dos outros animais e que, portanto, pode resolver suas contingências a partir de projetos políticos.

Essa idéia central do humanismo não só é flagrantemente falsa e demonstrada como inócua em análises históricas, como rejeita tudo que sabemos do homem de acordo com a teoria da evolução. De acordo com a teoria de Darwin, o homem é um animal como os demais, e não pode fugir de suas contingências. A Bíblia também diz que o homem não é um animal que pode fugir de suas contingências, mas afirma isso por via da crença no “pecado original”. O que importa é que nem a visão darwinista e nem a visão cristã dão sustentação ao humanismo.

O humanismo também é especialmente mentiroso quando seus adeptos se definem como “representantes da ciência” ou “donos da razão”. No primeiro caso, já mostrei que eles estão em oposição à principal teoria científica sobre a biodiversidade (a teoria de Darwin). No segundo, eles usam o termo “razão”, não como a expressão do debate racional de fato, mas sim como ferramenta de marketing pessoal. Por terem lutado sempre para implementar a religião política no lugar da religião tradicional, dizem que os adeptos da religião tradicional são “da fé”, enquanto eles “da razão”. Mas, na verdade, a religião política é a mais irracional de todas as crenças.

O humanismo dá sustentação a todos regimes totalitários, pois, a partir da crença em que o ser humano pode resolver as contingências a partir de projetos humanos, seus adeptos tornam-se uma manada prestes a cair em discursos esquerdistas como marxismo, nazismo e fascismo, e diversas outras formas de totalitarismo. Por exemplo, se alguém surgir com uma crença no governo global para garantir a eco-salvação, obviamente precisará incutir humanismo na cabeça de seus adeptos. Se alguém convencer os outros de que uma civilização repleta de drones nas mãos de estados inchados irá nos “salvar”, também é preciso de humanismo.

Toda crença esquerdista é uma crença humanista, enquanto algumas raras crenças da direita podem também ser humanistas, como no caso do neo-conservadorismo de Francis Fukuyama. Entretanto, para alguém de direita ser adepto do humanismo é preciso de muito duplipensar. Também existem algumas pessoa de direita que podem se declarar humanistas por confundir humanismo com humanitarismo, como mencionei anteriormente.

Já vi alguns humanistas dizendo que humanismo é apenas a “busca de uma moral sem a presença de Deus ou deuses”, mas isso não é humanismo. Talvez faça parte de versões particulares do humanismo, feitas para criar um humanismo moderado, de forma a proteger o humanismo filosófico de ataques, pois o humanismo em si é extremamente frágil filosofica e cientificamente. Que fique bem claro, o humanismo que está sendo exposto aqui é o mesmo de Pico della Mirandolla, como também de Auguste Comte, Bertrand Russell, Richard Dawkins, Carl Sagan, Paul Kurtz, e vários outros, assim como aquele defendido pelas principais associações humanistas ao redor do mundo.

Se alguém disser que “humanismo é somente contemplação pelo ser humano”, isso não é o humanismo investigado aqui. Esses humanismos particulares, moderados, somente surgem por que as pessoas gostam do termo humanismo, mas não possuem nada a ver com a filosofia humanista e nem com as ações políticas humanistas. Ou até por que seus adeptos possuem a filosofia humanista fundamentalista, mas querem enganar a platéia com uma versão “light” do termo para que ela fique livre da investigação cética.

O humanismo é mais que uma crença, mas sim uma cosmovisão, que deve ser colocada sob extremo escrutínio cético, pois ela tende a levar seus adeptos a fanatismos abomináveis e perda de conexão com a realidade. Além de ser um paradigma indigno para cérebros adultos, o humanismo renega tudo que sabemos cientificamente a respeito do ser humano e é essencialmente totalitário.

Ver texto: “A piscina perigosa do humanismo: uma religião com tudo de ruim e nada de bom”.

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