Leandro Narloch e a prova de que esquerdistas são os verdadeiros fascistas

10
384

10jun2012---ativistas-do-grupo-feminista-femen-realizam-neste-domingo-10-protesto-contra-o-fascismo-da-industria-do-sexo-em-frente-a-bordel-no-distrito-da-luz-vermelha-reeperbahn-em-hamburgo-na-1339329563811_956x500

Fonte: Blog do Rodrigo Constantino (excerto de “Guia Politicamente Incorreto do Mundo”, de Leandro Narloch)

No livro Fascismo de esquerda, o ensaísta americano Jonah Goldberg defende que os princípios do ditador italiano Benito Mussolini seguem presentes em protestos, discussões políticas e ações dos governos. Goldberg não se refere à influência de skinheads neonazistas, mas de um fascismo “do bem”, suave, com uma roupagem sustentável e bem-intencionada.

Grupos desse tipo manteriam a essência da ideologia: o impulso de calar liberdades individuais em nome da justiça social, da saúde pública ou de outro bem comum desenhado por técnicos e especialistas. Os políticos à esquerda, justamente os que mais costumam colar o adjetivo “fascista” na testa dos outros, seriam os principais adeptos dessa nova expressão da ideologia.

Para Goldberg, isso acontece porque eles nutrem uma crença maior nos direitos e poderes do estado. “O que os une são seus impulsos emocionais ou instintivos, tais como a busca pelo ‘comunitário’, a exortação para se ir ‘além’ da política, uma fé na perfectibilidade do homem e na autoridade dos especialistas e uma obsessão com a estética da juventude, o culto da ação e a necessidade de um estado todo-poderoso para coordenar a sociedade no plano nacional ou global”, diz o Goldberg.[i]

É preciso ter cuidado ao chamar as pessoas de fascistas. Enquadrar o adversário numa categoria abjeta é uma tática rasteira para se ganhar uma discussão. É tão comum que deu origem à “lei de Godwin”, segundo a qual “à medida que cresce uma discussão online, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Adolf Hitler ou nazismo aproxima-se de 100%”.

O termo “fascista”, do mesmo modo, perdeu seu significado – é usado à esquerda e à direita com o sentido de “herege”, “monstro”, “horrível” ou simplesmente “alguém que não concorda comigo”. Ao descrever esse costume, o ensaísta Jonah Goldberg corre o risco de cair na própria armadilha – afinal ele também aponta o fascismo nas pessoas de quem discorda.

Eu tive uma ideia para descobrir quem são, afinal, os mais favoráveis ao fascismo hoje em dia. Resolvi perguntar aos próprios políticos brasileiros o que eles achavam de alguns pensamentos de Mussolini. Consultei A Doutrina do Fascismo, o manual ideológico publicado em 1932 pelo ditador italiano e seu filósofo de plantão, Giovanni Gentile, e tirei dali cinco frases que, mesmo fora de contexto, expressam o pensamento totalitário. Omiti referências à Itália e ao fascismo e expus as cinco afirmações à avaliação de 60 deputados federais em Brasília – sem contar para eles, é claro, que as frases vinham do livro-base do ditador italiano.

As frases são as seguintes:

  1. Um homem se torna um homem apenas em virtude de sua contribuição à família, à sociedade e à nação. [ii]
  2. Como um anti-individualista, acredito numa concepção de vida que destaca a importância do estado e aceita o indivíduo apenas quando seus interesses coincidem com os do estado.[iii]
  3. O estado deve abranger tudo: fora dele valores espirituais ou humanos têm pouco valor.[iv]
  4. O estado deve ser não apenas um criador de leis e instituições, mas um educador e provedor de vida espiritual. Deve ter como objetivo reformular não apenas a vida mas o seu conteúdo – o homem, sua personalidade, sua fé.[v]
  5. O estado deve educar os cidadãos à civilidade, torná-los conscientes de sua missão social, exortá-los à união; deve harmonizar interesses divergentes, transmitir às futuras gerações as conquistas da mente e da ciência, da arte, da lei e da solidariedade humana.[vi]

Meus pesquisadores registraram a opinião dos deputados em questionários com escala de 0 (discordo totalmente) a 4 (concordo totalmente). O resultado? Os deputados ficaram em cima do muro em relação às frases de Mussolini. Entre as respostas, a média ficou entre “discordo parcialmente” e “não concordo nem discordo” – o que já é uma surpresa, tendo em vista que são pensamentos do inventor do fascismo. [vii]

No entanto, bem como o ensaísta previu, as ideias fascistas tiveram menos discordância entre os políticos de esquerda. No topo da aceitação das frases, o deputado Jair Bolsonaro foi o único à direita, dividindo espaço com colegas que frequentemente o classificam como fascista. Já entre os que mais discordaram, são poucos os deputados à esquerda.

Deputados mais favoráveis às afirmações de Mussolini

  • Oziel Oliveira (PDT-BA) 14
  • Jair Bolsonaro (PP-RJ) 12
  • Vander Loubet (PT-MS) 10
  • Alexandre Roso (PSB-RS), Beto Faro (PT-PA), Cândido Vaccarezza (PT-SP), Dalva Figueiredo (PT-AP), Protógenes Queiroz (PCdoB-SP), Flávia Morais (PDT-GO), Francisco Praciano (PT-AM), José Airton (PT-CE), Miguel Corrêa (PT-MG) 9

A soma 20 indica total concordância; 10, a neutralidade; 0 a total discordância.

Deputados menos favoráveis às afirmações de Mussolini

  • Lael Varella (DEM-MG), Betinho Rosado (DEM-RN) 0
  • Augusto Coutinho (DEM-PE), Luiz de Deus (DEM-BA), Otavio Leite, (PSDB-RJ) 1
  • Alexandre Leite (DEM-SP), Márcio Bittar (PSDB-AC), Marco Tebaldi, (PSDB-SC) 2
  • Valdivino de Oliveira (PSDB-GO), Pinto Itamaraty (PSDB-MA), Valadares Filho (PSB-SE), Almeida Lima (PPS-SE) 3
  • Carlos Zarattini (PT-SP), Fernando Coelho Filho (PSB-PE) 4

A soma 20 indica total concordância; 10, a neutralidade; 0 a total discordância.

Entre os partidos que tiveram pelo menos três deputados ouvidos, a tese do “fascismo de esquerda” se confirmou com exatidão – e uma surpreendente coerência. Quanto mais à esquerda, menor a discordância:

Aceitação das frases por partido

  • PCdoB 8,33
  • PT 7
  • PDT 6,9
  • PSB 5,38
  • PSDB 2,2
  • DEM 0,8

A soma 20 indica total concordância; 10, a neutralidade; 0 a total discordância.

Houve casos interessantes entre as respostas. Diversos deputados concordaram efusivamente com trechos do manual do ditador italiano. Diante da primeira frase (“Um homem se torna um homem apenas em virtude de sua contribuição à família, à sociedade e à nação”), apenas nove deputados afirmaram discordar completamente. Vinte e dois se disseram neutros. Já Cândido Vaccarezza (PT-SP), Francisco Praciano (PT-AM), Protógenes Queiroz (PCdoB-SP), Oziel Oliveira (PDT-BA) e Jair Bolsonaro (PP-RJ) concordaram totalmente.

Também teve um bom número opiniões favoráveis a afirmação “Como um anti-individualista, acredito numa concepção de vida que destaca a importância do estado e aceita o indivíduo apenas quando seus interesses coincidem com os do estado”. Os deputados Assis Melo (PCdoB-RS), Domingos Dutra (PT-MA), José Airton (PT-CE), Perpétua Almeida (PCdoB-AC), Vander Loubet (PT-MS) e Oziel Oliveira (PDT-BA) concordaram totalmente com a ideia fascista do indivíduo como mera engrenagem do Estado. O trecho de A Doutrina do Fascismo que mais teve apoiadores foi o último do questionário. Catorze deputados concordaram com ele.[1]

[1] São eles: Abelardo Camarinha (PSB-SP), Alexandre Molon (PT-RJ), Alexandre Roso (PSB-RS), Anselmo de Jesus (PT-RO), Beto Faro (PT-PA), Dalva Figueiredo (PT-AP), Flávia Morais (PDT-GO), Jair Bolsonaro (PP-RJ), Miguel Corrêa (PT-MG), Oziel Oliveira (PDT-BA), Sandra Rosado (PSB-RN), Sebastião Bala Rocha (PDT-AP), Valmir Assunção (PT-BA), Vicentinho (PT-SP).

[i] Jonah Goldberg, Fascismo de Esquerda, Record, 2007, página 23.

[ii] Giovanni Gentile e Benito Mussolini, The Doctrine of Fascism, edição kindle, posição 82.

[iii] Giovanni Gentile e Benito Mussolini, posição 110.

[iv] Giovanni Gentile e Benito Mussolini, posição 110.

[v] Giovanni Gentile e Benito Mussolini, posição 168.

[vi] Giovanni Gentile e Benito Mussolini, posição 82.

[vii] As entrevistas foram realizadas entre 20 de maio e 5 de junho de 2013 no Congresso Nacional.

Meus comentários

Foi muito bom Rodrigo Constantino ter publicado em seu blog o excerto acima, cedido por Leandro Narloch a ele. Fiz questão de reproduzir o conteúdo aqui, pois é essencial como um exemplo de meu paradigma do ceticismo político.

Toda e qualquer alegação de um esquerdista deve ser tratada como a alegação de um médium que alega fazer leitura na borra do café. Ela deve ser investigada e testada. Assim, se o esquerdista alega que nós da direita somos “fascistas”, somente por que discordamos do culto ao estado inchado praticado pela esquerda, então devemos testar a alegação deles.

O teste acima, de Narloch, é estupendo, pois mostra que no fim a aderência aos princípios do fascismo aumenta de acordo com o aumento de esquerdismo da pessoa, e reduz com o aumento de direitismo. É por isso que sempre digo que qualquer rotulagem, por menor que seja, oriunda de um esquerdista, é uma alegação a ser questionada e colocada sob escrutínio cético. Quantas pessoas da direita não aceitaram o rótulo “fascista”, bizarramente atribuído por esquerdistas a quem é da direita, e não foram pesquisar adequadamente o termo?

Quem duvidou da alegação esquerdista  e foi investigar (além dos que já tinham conhecimento do que é o fascismo antes dos esquerdistas tentarem impor-lhe o rótulo), descobriu que essa é uma das mais recorrentes fraudes que os esquerdistas são orientados a propagar durante sua militância.

O pior de tudo é que todo o show de encenação da esquerda chamando seus oponentes da direita de “fascismo” não passa da estratégia leninista (?) que prega: “acuse-os do que você faz”.

Enfim, não sou fascista, por que sou anti-esquerdista. Então, sou anti-fascista, anti-nazista e anti-marxista.

Anúncios

10 COMMENTS

  1. Luciano, aproveitando a “deixa”, é impressionante o descaramento dos esquerdistas quando confrontados. Veja o caso recente dos policiais mortos em SP. O cartunista-idiota-útil, Latuff, fez um declaração digna de esquerdistas doentes (pleonasmo puro), que o menino que matou o pai mereceria duas coisas: tratamento psicológico (?) e uma medalha. Ao ser bombardeado contra esta estúpida declaração, o cartunista-idiota-útil disse que foi uma “provocação” e que ele tinha o direito de se manifestar. Ainda, pediu ajuda aos companheiros do PSOL, PCO, PSTU, MST…
    Evidente que após as críticas, o tal cartunista-idiota-útil, fez que não era com ele e direcionou toda sua revolta às policias militares, sugerindo sua extinção. Imagine a polícia, que se pudesse, ele implementaria.
    Mas no final das contas, nós é que somos fascistas.
    Saudações!

  2. Ayan, nesse momento não estaríamos incorrendo em uma falácia Ad Hominem? Na minha visão, parece que estamos afirmando que tais pensamentos são errados apenas porquê Mussolini defendia eles.

    • Não ué, quem faz uso do Ad Hominem é a esquerda, eles usam “facista” como xingamento e mostramos que ele estão muito mais perto das ideias de Mussolini que nós, se eles quiserem passar a defender essas ideias discutiremos elas em si, mas ele não vai aceitar ficar sob esse rótulo que ele queria usar pra colocar a plateia contra você.

  3. Luciano, acabei de ler hoje o referido livro. Em que pese ter alguns errinhos, os mesmos não comprometem nem um pouco o conteúdo que se quer passar, pois são em informações acessórias.
    Há capítulos que são especialmente interessantes, como:

    1) O que fala sobre a África. Lá conta-se sobre os regimes locais de cunho marxista e como no mais pobre dos continentes (e possivelmente influenciado pelo gramscismo) trocou-se a ideia de luta de classes por luta de etnias (vide, por exemplo, Idi Amin. E aqui dá até para fazer um daqueles memes do velociraptor questionador, pois se você culpa uma etnia em vez de uma classe social pela opressão que supostamente estaria sofrendo, isso passa a ser algo muito parecido ao nazismo (e também ao verwoedismo, uma vez que na África do Sul tivemos regime que privilegiava uma minoria étnica em detrimento de uma maioria que não é de tal grupo);

    2) Por incrível que pareça, os marxistas-humanistas-neoateístas (principalmente os de matiz mais clássico) que tanto falam contra as campanhas de libertação do Tibete e mencionam certas verdades históricas sobre aquele país invadido (como punições draconianas, regime praticamente feudal, obrigação de transformar um dos filhos em monge e outras) acabarão tendo de falar do livro do Leandro Narloch caso alguém queira uma fonte rápida para consulta. Talvez aqui o autor tenha incluído essa informação como uma trollagem proposital, pois sabe que se os MHNs mais exaltados falarem algo como “não gosto desse jornalista, mas no Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo ele fala tudo sobre o Tibete e com fontes”, indiretamente estará instigando mais pessoas a lerem todo o resto do livro (incluindo o capítulo com 32 motivos contra o comunismo e o outro sobre a África), pois não há como evitarem isso (ainda mais que o texto é bem claro e não há maiores digressões);

    3) O capítulo sobre o fascismo é bem interessante, não só pelo teste como também pelas explicações que já havíamos tido aqui, como o antissemitismo de Karl Marx.

    Digo que dá para ler o livro em uma tarde em que se esteja bem inspirado e você seja bom leitor. Espero que ele comece a criar outros Guias, pois há muita coisa na história do Brasil, da América Latina, do mundo, da cultura popular e outras coisas que renderiam muito bem.

Deixe uma resposta