Jogo esquerdista: Caminhando na “marcha da história”

16
164

HegelNapoleon

Última atualização: 13 de agosto de 2013 – [Índice de Jogos] [Página Principal]

Um outro jogo esquerdista que já tratei no passado, Julgamento pelo Futuro, somente pode ser habilitado por este que vou tratar aqui. E antes de falar deste, falemos do que seria uma percepção realista sobre o futuro da humanidade. O fato é que não podemos prever de forma clara (a não quando falamos de revoluções tecnológicas) como viveremos no futuro.

Alguns exemplos. Será que teremos um governo global ou uma série de núcleos de poder continentais? Não sabemos. Ou teremos uma sociedade mundial secularizada ou um retorno ao puritanismo (especialmente depois que o secularismo deixar de ser novidade)? Também não sabemos. Será que novas tecnologias garantirão a prosperidade global ou então teremos uma pequena elite com concentração de poder a ponto de exterminar a massa (fazendo os genocídios do século XX parecerem bullying de jardim da infância)? Também não sabemos.

Embora possamos fazer palpites, não temos bola de cristal para saber como será o futuro. E muito menos conseguimos projetar o futuro em termos morais e éticos. Por exemplo, os massacres ocorridos na Revolução Francesa francesa muito provavelmente não estavam no “projeto” dos primeiros iluministas. Mas o discurso dos primeiros iluministas levou ao iluminismo radical, quando criou-se a religião política, iniciando-se a era dos grandes genocídios.

Claro que nós podemos controlar um pouco do futuro, mas apenas o breve futuro e em um contexto muito limitado. É por isso que John Gray, em “The Immortality Comission”, desdenha daqueles que investem tudo que podem em criogenização. Mas como essas pessoas sabem que daqui a 200 ou 300 anos sequer existirá o direito de propriedade? Sim, é preciso do direito de propriedade para que os contratos de criogenização tenham validade. Em suma, não sabemos como será o futuro longínquo, e nem sequer sabemos se os contratos de criogenização serão rasgados e os corpos descongelados jogados no mar.

Essa é uma visão realista de como podemos olhar o futuro. Ele não é algo “fechado” e “cravado” em pedra, mas contém hipóteses em cima das quais podemos apenas chutar. Tomar um futuro longínquo idealizado, como se fosse um dogma, é uma aposta de fé. É irracional.

No jogo esquerdista Caminhando na Marcha da História, por outro lado, toma-se a direção exatamente oposta. Mesmo que descrito em termos vagos (conforme o jogo da Situação Projetada Intencionalmente Vaga), eles tomam como um fato que o futuro idealizado com certeza vai ocorrer. E fim de papo.

Claro que a história nos traz exemplos de ganhos em termos morais e éticos, como, por exemplo, a abolição da escravidão ou a garantia do direito de voto às mulheres. Não nego que, nesses quesitos, evoluímos em termos morais. Por outro lado, regredimos moralmente com a criação do politicamente correto, e com o apoio público a crimes cometidos pelos adeptos desta ideologia. Outro retrocesso moral abominável é a criação de uma cultura onde pessoas podem ser julgadas não por seus atos, mas por pertencerem à uma “classe”. Estes fatos nos mostram que nossa sociedade deve se gabar tanto de conquistas como derrotas no campo da moral e da ética.

Ao contrário dessa constatação que só faz observar para os fatos, neste jogo o esquerdista diz que se um dia a escravidão foi abolida, no futuro a distinção entre gêneros sofrerá o mesmo destino. Dirão que a normatização da heterossexualidade também terá seu fim, e mesmo as feias serão tão desejadas como as belas, pois a “ditadura da beleza” terá chegado ao fim. Garantirão que ao final (por que não?) a diferença entre pobres e ricos será irreconhecível, com o fim das classes, e todos pertencendo a uma única classe. Tudo será felicidade pura. Esse processo é o que eles chamam de “marcha da história” (os marxistas tradicionais focam apenas no fim das classes sociais no âmbito econômico, enquanto os marxistas culturais tratam de mais classes). Ao fim da marcha da história, teremos então o marco definido por eles como “o fim da história”, ou seja, o momento em que a sociedade terá corrigido todas as suas “chagas sociais”.

Não importa quais são as reclamações do esquerdista, ele sempre terá um catálogo de “chagas sociais” que tentará curar. Ele irá declarar, em público, que luta para corrigir esses problemas.

Alguém poderá questionar: “Luciano, qual a paga neste jogo?”. Aí é que a porca torce o rabo. E para entender o ganho, tente imaginar a história de Abraham Lincoln, que precisou subornar políticos para conseguir abolir a escravidão. Será um ato ético? Seria o suborno um ato moral? É quando olhamos para o mundo atual, sem escravidão, e dizemos: “É, valeu a pena”. A maioria entende que atos inicialmente imorais deixam de sê-lo por que deram sustentação ao término de amoralidades maiores. Assim, o julgamento de certo ou errado passa a ser uma questão unicamente histórica.

Mas se o futuro idealizado é algo que os esquerdistas tomam como fato, então não há atos condenáveis que possam fazer, pois todas suas ações seriam apenas o ato de “caminhar na marcha da história”. Claro que eles não precisam provar que a história terá um fim, e nem sequer que as “soluções” apontadas serão sempre boas (no caso da abolição da escravatura, podemos julgar que foi uma coisa boa – e essa proposta nem foi esquerdista, diga-se), e nem mesmo garantir que as novas soluções não trarão consequências muito piores do que a não-implementação das “soluções”. Mesmo assim, eles sempre tomarão, por fé, que “a história terá um fim, e que o final ocorrerá com as correções dos problemas sociais”, conforme apontados por ele. A partir desse momento, todos seus atos estarão justificados a partir do Julgamento pelo futuro.

Imagine que um esquerdista queime um policial vivo durante uma manifestação. Ao ser preso, você poderá, de acordo com a lógica tradicional, dizer que o ato dele foi extremamente imoral. Mas na ótica do esquerdista e de seus amigos, ele estava apenas “caminhando na marcha da história”, portanto livre de qualquer culpa. Quando denunciamos as fraudes e problemas das propostas esquerdistas, basta que eles digam que “você não entende o processo histórico”. Neste jogo, portanto, eles dirão que conhecem o processo histórico, sabem como ele vai terminar, e que estão apenas caminhando na marcha deste processo.

Esta é uma das maiores inversões da realidade praticadas por esquerdistas, onde basta eles criarem um futuro idealizado (o qual eles alegarão que irá ocorrer com certeza, e, ao ocorrer, a história terá chegado ao fim), e dizerem que tudo que fazem não passa de uma “caminhada na marcha da história”.

Obviamente, tudo não passa de uma grande fraude intelectual, e podemos exigir evidências de que o futuro projetado realmente vai ocorrer. As tentativas mais aproximadas da implementação deste “futuro” resultaram em genocídios no passado, até por que para “construir o futuro lindo” (que eles garantem que irá ocorrer com certeza), precisarão de concentração de poder, se não para eles, ao menos para seus líderes.

O curioso é que ao observarmos o comportamento esquerdista vemos que o truque de “fim da história” (criado por Hegel, e adaptado por Marx) jamais tem data fixa para ocorrer, pois não passa de um estratagema para obtenção de poder. O fim da história, é claro, nunca chega. Mas o poder, que é bom, chega.

Anúncios

16 COMMENTS

    • Eu fui na câmara de Porto Alegre ocupada a convite de um amigo esquerdista. Era o que eu esperava: uma orgia esquerdista de todas as matizes. Não existia espaço fora da esquerda, completamente dentro da caixinha. Tinha uma banquinha de livros que só tinha livro marxista. Essa galera nunca vai ver a luz assim, se autoconsomem.
      Quando disse a esse amigo que achava aquilo extremamente monolítico, ele me respondeu que bastava eu chegar lá com idéias liberais, de direita, etc…, que seria ouvido e considerado, sem problemas. Difícil de acreditar.

  1. Em português: Artigo 6.21. Propaganda de relações sexuais não-tradicionais entre menores
    [Código da FR sobre violações legais administrativas] [Capítulo 6] [Artigo 6.21]

    1. Propaganda de relações sexuais não tradicionais entre menores, com o emprego de meios de informação, expressa na disseminação de informação destinada à difusão de relações sexuais não-tradicionais em estabelecimentos de menores, favorecimento de relações sexuais não-tradicionais através de uma representação distorcida que iguala relações sexuais tradicionais às relações sexuais não-tradicionais, ou a imposição de informação sobre relações sexuais não-tradicionais que causem interesse em tais relações, se estas não constituírem ofensa criminal, –
    punível com multas administrativas na proporção de quatro mil a cinco mil rublos para o cidadão; para funcionários legais – de quarenta mil a cinquenta mil rublos; para pessoas jurídicas – de oitocentos mil a um milhão de rublos e suspensão administrativa de suas atividades por noventa dias.
    É notável que em nenhum momento a lei administrativa russa determina homossexuais como seu sujeito ativo, dando a entender que tanto heterossexuais quanto homossexuais podem incorrer na infração administrativa. Mais adiante, seus artigos 3º e 4º preveem para estrangeiros, além da multa, a prisão e expulsão administrativa do território da Federação Russa, ainda que cometida através de meios eletrônicos como a internet(artigo 4º). A lei russa, conforme declarado pelo deputado Vitaliy Milonov(Rússia Unida), não visa “proibir a comunidade gay e LGBT na Rússia”, mas apenas impedi-la de propagar seus valores nas escolas, para menores. O projeto teve a aprovação de praticamente todos os partidos russos como o Rússia Unida, que tem entre seus quadros personalidades homossexuais como o cantor Borís Moyseev; o LDPR, do ultranacionalista Jirinovskiy, governista; e o KPRF, o Partido Comunista da Federação Russa, de esquerda, oposição e herdeiro do Partido Comunista da União Soviética. Este último exigiu uma majoração no valor da multa.

    Mas nem todos aceitam que os russos criem suas próprias leis. Grupos de ativistas LGBT tem disseminado factoides e ódio contra a Rússia, especialmente em publicações LGBT e redes sociais, alguns mesmo alegado que a lei russa “estimula o assassinato de gays”, que “prevê pena de morte para gays” ou que o Estado russo visa o “extermínio de gays”. Essa manobra retórica é comumente usada contra todos aqueles rejeitam o programa LGBT, sendo que alguns vão mais além. Na rede social “Facebook”, uma usuária de nome Karla Prais alega que a Rússia “tem uma tradição de nazistas”, a despeito do fato da potência nórdica ter derrotado cerca de 80% das forças militares do III Reich. Outro militante chamado Walter Costa alega ser o país uma “nação dos infernos” pelo fato desta não ter uma parada LGBT, alguns são ainda mais categóricos, defendendo o uso de uma bomba(presumivelmente atômica) na Rússia para exterminar, além dos russos, evangélicos e católicos, como uma militante denominada Lay Santana, num grupo de discussão chamado “Comunidade Racionalista”. Além da natureza anticomunista e imperialista de tal afirmação, ela é considerada também criminosa pelo direito brasileiro, na Lei 7.716/89 em seu artigo 20, que em seu parágrafo segundo prevê inclusive sua prática através de meios de comunicação. Há algum tempo, uma jovem de São Paulo foi penalizada judicialmente por defender o extermínio de nordestinos. A despeito de posições isoladas, essa atitude é incitada por jornais voltados ao GLS e da grande mídia. Coincidência ou não, a promoção de tal propaganda antirrussa na grande mídia ocidental se deu após a polêmica em torno de Eduard Snowden.

    • Percebam aos 5:40 do vídeo a expressão atônita do conservador do Arena, que parecia petrificado diante do jogo do esquerdista, sem saber reagir, e não reagiu mesmo. É por isso que este blog é fundamental para quem quer atuar como formador de opinião para a direita. Post maravilhoso, Luciano!

    • A pior coisa q existe no debate político é deixar o esquerdista proferir falácias, e fazer ressignificações e em NENHUM momento apontar o engodo e a desonestidade do interlocutor. Esse papinho todo de “mudança” saindo da boca de um esquerdista me dá asco…..já logo jogava na cara dele, que mais de 100 milhões de pessoas que viram essa mudança ocorrer, hoje estão debaixo da terra, mortos por essa mudança. A tal marcha histórica é banhada de sangue — ironicamente sangue do proletariado.

      Se falando de monarquia e comunismo, o professor esquerdista só respondeu sobre monarquia….É IMPRESSIONANTE assistir assim em vídeo, como a mente de um esquerdista funcional SE RECUSA até a ouvir uma simples pergunta acusatória sobre comunismo.

      Ainda no assunto monarquia o conservador rolou na lama, não se deve entrar em assunto complexo como esse sem ter tempo de explicar a perspectiva….até porque ele mesmo, no exemplo que citou, disse que os monarcas são tiranos….putz…… Deveria ter apontado que o tal ‘professor’ não respondeu o apontamento concernente ao avanço do comunismo em nosso país. É por isso que não gosto destes programas, a coisa toda sempre parece montada, e É DE FATO montada pra ferrar com o conservador, direitista, religioso e etc, e quando o conservador tem a oportunidade de destruir os dogmas esquerdistas geralmente fica papagaiando opiniões que não representam todos os conservadores, além de não fazer o mínimo da obrigação concernente a apontar as desonestidades intelectuais de seus oponentes. Dá vontade de dar um tapa.

  2. “””
    Imagine que um esquerdista queime um policial vivo durante uma manifestação. Ao ser preso, você poderá, de acordo com a lógica tradicional, dizer que o ato dele foi extremamente imoral. Mas na ótica do esquerdista e de seus amigos, ele estava apenas “caminhando na marcha da história”, portanto livre de qualquer culpa. Quando denunciamos as fraudes e problemas das propostas esquerdistas, basta que eles digam que “você não entende o processo histórico”. Neste jogo, portanto, eles dirão que conhecem o processo histórico, sabem como ele vai terminar, e que estão apenas caminhando na marcha deste processo.
    “””

    Acredito que pode-se usar os mesmo argumentos contra eles, assim:

    Faz parte do processo histórico prender todos os criminosos.

  3. Não sei se você conhece, Luciano, mas um livro interessante que trata da sociogênese desta forma de pensar que se tornou característica da esquerda é “Crítica e crise”, do historiador alemão Reinhart Koselleck. Fica a sugestão.

  4. Luciano, ao contrário do texto, não acredito que tenha sido um retrocesso a “invenção” do politicamente correto.

    Lembro-me que, mesmo na época em que isso ocorria, costumávamos rir das novas expressões, como “verticalmente prejudicado”, para referir-se ao anão.

    Ora, mesmo assim, achei, particularmente um avanço nas relações sociais, afinal, junto a algumas expressões, vinha uma ofensa, ou insulto. Mais ou menos como a expressão “gordo fazendo gordice”.

    Mas entendo que atualmente o politicamente correto tenha sido tomado de assalto pelo marxismo cultural, e mesmo contar anedotas está sendo difícil.

    conversando com um gayzista, e já de saco cheio de seus argumentos, passei a contar várias anedotas conhecidas, trocando todos os termos politicamente incorretos por Rapaz branco, classe média, heterossexual”, e expus essa bobagem a eles. Na mesma mão, disse a ele que s melhores anedotas de gays aprendi com um amigo meu, que é gay (isso é real, mesmo, não argumento).

    Em suma, o politicamente correto, levado apenas para esse lado, tornou-se um peso.

    • Concordo que podemos discutir se a idéia do politicamente correto em si é imoral, mas hoje em dia o politicamente correto já estabelecido se tornou moralmente um retrocesso. Em relação a idéia original,pode até ser que as intenções tenham sido boas. Mas é aquilo né: os projetos feitos para reformulação da sociedade quase nunca dão os frutos idealizados por alguns. E isso vale até para o politicamente correto.

  5. Mandaram essa mensagem pro Olavo desmascarando mais uma fraude da esquerda. Eles não deixam um tópico sequer sem praticar fraude, chega a ser engraçado:

    “Caro Olavo:

    Preciso fazer um reparo ao seu excelente texto “O Espertalhão Simplório”, publicado no MSM: Milton Friedman não foi conselheiro do governo Pinochet. Essa é uma calúnia batida e rebatida pela esquerda há 40 anos, ao ponto que hoje todo mundo repete como se fosse coisa mais do que sabida. O economista e o Presidente encontraram-se uma vez, quando Friedman visitava o Chile para dar uma série de palestras. Pinochet o chamou para perguntar sobre a política econômica que deveria seguir, e conversaram por uma hora. A coisa acabou por aí. Nunca mais tiveram contato direto ou indireto.

    É bem verdade que um grupo de economistas treinados em Chicago e ex-alunos de Friedman – os “Chicago Boys” – foram em grande parte responsáveis pelas diretrizes econômicas do regime, mas daí ao Friedman ter sido conselheiro formal ou informal do governo, vai uma distância.

    Mais detalhes estão aqui: http://reason.com/archives/2006/12/15/the-economist-and-the-dictator
    O próprio Friedman esclarece as coisas nesse vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=dzgMNLtLJ2k

    Abraço do seu amigo e aluno,
    Fábio M. Chaves”

  6. Culpa é um sentimento desconhecido aos esquerdistas. Vergonha na cara, sua prima irmã, também. É tudo uma grande autopunhetação ideológica, só lêem Marx, Foucalt, Marcuse, etc e querem posar de isentos!!!
    Que tal dar uma olhada na literatura do “outro lado”. Uma pessoa com um mínimo de honestidade não consegue sair ileso da experiência.

Deixe uma resposta