No programa “Mulheres”, da TV Gazeta, finalmente perdeu-se o pudor injustificado de criticar o neo-ateísmo

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Como ateu, alguns dizem que eu deveria torcer para Daniel Sottomaior no programa acima, certo? O problema é que ateísmo não pode ser confundido com neo-ateísmo, que é a versão humanista radical do ateísmo.

Enquanto o ateu deveria lutar para viver sua vida de forma secular, e lutar por um estado laico, neo-ateus vivem promovendo discursos de ódio contra religiosos e lutando por um estado humanista, o que, obviamente, é contra os princípios do estado laico.

O maior problema do neo-ateísmo reside no fato de que os teístas, seus adversários naturais, sempre usam luvas de pelica para debater com eles. O resultado é que enquanto o neo-ateu promove discurso de ódio, usando várias artimanhas para bloquear o debate, muitos teístas acham que existe um debate de fato em curso.

Este cenário cria uma situação insana: por um lado, religiosos são vitimados por críticas de neo-ateus em ritmo bate-estaca (e não estou dizendo que críticas são proibidas), e em contrapartida estes não são criticados. Jogar assim é fácil demais.

Surpreendentemente, no programa acima, “Mulheres”, da TV Gazeta, a coisa parece ter mudado. Claro que alguns argumentos teístas foram bastante ingênuos, como principalmente as intervenções do padre Anderson Guerra Andrade.

Sottomaior também acertou em alguns pontos, especialmente quando mencionou seu direito à liberdade de expressão, e o direito de criticar a religião e os religiosos assim como alguém critica outro por sua preferência clubística.

O pastor Roberto Cruvinel, da Assembleia de Deus, foi bastante assertivo e condenou Sottomaior em termos morais por ter um site que defende propagandas dizendo que “adultos com amigos imaginários são estúpidos”. Em relação a isso todas as resposta do neo-ateu se baseavam em algo como “se vocês começaram, então podemos fazer…”, o que nem de longe significa uma validação moral de seus atos.

Fica claro que, quando colocado contra a parede em um debate sobre a moral, Sottomaior não tem muito a oferecer. Outro momento grotesco ocorreu quando ele disse que “se os ateus mataram milhões no regime comunista, foi por que os religiosos começaram…”. Pura palhaçada, que poderia ser facilmente ridicularizada. (Aliás, não há na religião tradicional e nem no ateísmo a motivação para crimes, mas na religião política sim)

Um momento divertido foi quando Sottomaior reconheceu que a ATEA não pratica filantropia. Ele retrucou dizendo que a filantropia das igrejas somente tem intuito de evangelizar. Cruvinel foi eficientíssimo ao desafiar Sottomaior a acompanhar ações de caridade de sua organização, para verificar se estas ações são feitas somente com intuito de evangelizar.

Sottomaior demonstrou incômodo em vários momentos, e nota-se claramente que ele não estava esperando ser questionado por religiosos com a mesma assertividade com que ele questiona os religiosos. Aliás, essa foi uma das descobertas que fiz quando resolvi criar meu paradigma de ceticismo político. Alguns grupos, como neo-ateus, são poderosos enquanto não sofrem o mesmo questionamento assertivo (que deve incluir até ridicularização) que eles impõem aos oponentes.

E, no fundo, os religiosos em geral pegaram até leve demais com ele. Por exemplo, quando Sottomaior acusa as religiões de “homofobia”, ele poderia ser chamado de mentiroso e chantagista emocional. E, além do mais, se a religião não pode ficar livre de críticas, o homossexualismo também não. Isso seria o suficiente para tirar a legitimidade das acusações de homofobia na religião, lançadas pelo neo-ateu.

Mesmo quando Pai Guimarães comparou Sottomaior a um marginal que pratica o terrorismo, pode-se notar ainda que os religiosos estão apenas começando a perceber que não é o fato de neo-ateus pertencerem a uma minoria que os tornaria imunes a críticas.

Também foi citado o programa anterior, com outra sabatina, onde Sottomaior alegou que a prova de que os ateus são vítimas de preconceito é uma pesquisa dizendo que “apenas 13% dos religiosos votariam em um ateu”. Pena que nenhum deles havia demonstrado a fraude nessa pesquisa, pois não faz sentido pegar uma maioria opinando contra uma minoria, sendo que ambos os lados são adversários.

Assim, a pesquisa correta seria “Um ateu votaria em um religioso”, para um ateu, e “Um religioso votaria em um ateu”, para um religioso. E não apenas testar a reação de religiosos contra ateus. O entendimento deste viés já demonstra que a pesquisa trazida anteriormente por Sottomaior era fraude pura.

Nos tempos em que eu era teísta, usava um método espetacular, que eu chamava de postura agnóstica para debates. Este método nos diz que, independente de alguém ser teísta ou ateu, a postura adotada no debate sobre crença em Deus deve ser a de um agnóstico em cima do muro. Isto é, ao invés de partirmos de um princípio onde se tenta provar a existência ou não existência de Deus, alguém assume a postura de dúvida absoluta (só no debate, é claro), e força o oponente a ter que apresentar as evidências que sustentem a ideia que ele aceitou.

A dinâmica social de um debate assim é baseada em questões como a seguinte: quem está provando para a patuléia que é o mais “racional” da história? Este é o que aumenta a chance de sobrevivência da audiência (ao menos será inconscientemente assim percebido).

A estratégia da perspectiva agnóstica faria com que o lado mais interessado em provar a crença do oponente como falsa tivesse que demonstrar que aceitar a sua opção seria “mais racional”.  Obviamente, Sottomaior não conseguiria fazer isso, e, ao tentar, teria que usar mais falácias, e a partir daí seria comprovado como o menos racional, ao menos do debate. Se tivessem usado a perspectiva agnóstica no debate, alguns ali teriam a possibilidade de demolir Sottomaior ainda mais.

No final das contas, vemos que Daniel Sottomaior é um mentiroso de marca maior. Um baita chantagista emocional que depende de fraudes intelectuais para marcar pontos políticos. Mas, do outro lado, os religiosos na maioria das vezes não percebem o quanto ele é fraudulento, e não conseguem reagir com a assertividade necessária, denunciando as fraudes do outro.

Mas neste debate, ao menos, a coisa começou a mudar. Claro que ainda é muito pouco, e a postura ofensiva de debate deve aumentar radicalmente. Mas, finalmente, ao menos para Daniel Sottomaior, ser neo-ateu deixou de ser uma moleza, algo como um “escudo” para ganhar um respeito automático e injustificado.

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22 COMMENTS

  1. Uma dos questionamentos de Daniel Sottomaior cai por terra: o judaísmo tem alguns milhões de pessoas, umas dezenas de milhares de rabinos e nenhuma mulher. Se ele tivesse se informado um pouquinho que fosse, veria a rabina Luciana Pajecki Lederman, bem como Alina Treiger. E isso foi de dar uma pesquisadinha rápida. Na cabeça do Daniel Sottomaior, pelo visto, religiões são coisas bem monolíticas e que todas teriam a mesmíssima estrutura da Igreja Católica (com comando centralizado no papa). Isso, é claro, se ele de fato acreditar nisso, ainda que na prática esteja demonstrando que age como tal (afinal, sempre temos de pensar que alguém marxista, humanista ou neoateísta pode muito bem agir de um determinado jeito sem jamais ter acreditado naquilo e com o exclusivo propósito de passar uma impressão equivocada para o público). Caso Daniel Sottomaior acredite mesmo que todas as religiões são monolíticas, então desprezou totalmente o fato de que o judaísmo não é uma religião de comando centralizado (inclusive quando comprovamos o fato de descobrirem judeus em diversas partes do mundo e que alguns no século XX não haviam conhecido a existência de outros judeus, como o caso dos iemenitas que praticamente viviam na Idade da Pedra). Imagino eu que ele seja capaz de usar termos como “religião evangélica” ou “a igreja evangélica”, quando qualquer pessoa mais atenta sabe que existem diversas denominações independentes entre si.
    Porém, não vou esperar que um neoateu vá se esforçar para entender mais as religiões, até porque ele depende não só do entendimento equivocado das religiões (inclusive vindo dos religiosos, pois muitos têm um grau bem raso do entendimento de outras religiões que não a deles) como também ele depende de as pessoas verem o neoateísmo e o ateísmo como uma coisa só, seja para odiarem neoateus por achar que eles seriam os ateus como são (e aí usar do vitimismo e acusar as pessoas de preconceito), seja para que achem que ateísmo é aquilo que Daniel Sottomaior e seus assemelhados dizem que é.

    Foi interessante notar algumas frases do líder da ATEA. Ao ser indagado sobre respeito à liberdade de religião e de culto, dizer que “isso está garantido na Constituição” tentando esconder sem sucesso que a resposta seria “não respeitamos isso e continuaremos a fazer fotomontagens de mau gosto e continuar falando de corda na casa do enforcado”. E essa foi uma das muitas frases altamente mecanizadas da parte dele.
    Ainda assim, acho que pegaram gente fraca para debater com ele. Vejam o quão quieto ele ficou no Na Moral quando teve de enfrentar o Malafaia. Também acho que ele ficaria pianinho se tivesse de encarar o padre Paulo Ricardo. E se fosse Malafaia e padre Paulo juntos, era capaz de ele fingir desmaio só para não ter de lidar com essa situação.

    • Boa ideia, queria ver um debate bem caloroso, de um lado Silas Malafaia, representando os evangélicos, do outro lado Padre Paulo Ricardo, representando os católicos, do outro (via conferência on-line) Olavo de Carvalho e Daniel Sottomaior, representando a ATEA. Ia ser covardia também né, além de ser 3 contra 1, kkkkkkkk.

  2. Luciano diz:

    Nos tempos em que eu era teísta, usava um método espetacular, que eu chamava de postura agnóstica para debates. Este método nos diz que, independente de alguém ser teísta ou ateu, a postura adotada no debate sobre crença em Deus deve ser a de um agnóstico em cima do muro. Isto é, ao invés de partirmos de um princípio onde se tenta provar a existência ou não existência de Deus, alguém assume a postura de dúvida absoluta (só no debate, é claro), e força o oponente a ter que apresentar as evidências que sustentem a ideia que ele aceitou.

    Bane diz:

    O pr. Cruvinel usou esse método. 🙂
    Ele disse que Sottomaior fugiu de apresentar provas de que Deus não existe.

    Obrigado por esse texto, Luciano. Abcs e continue crescendo.

  3. Quando se compara os debates realizados aqui e os fora do Brasil, é de dar vergonha! Aliás, no conjunto, não há debates de verdade no Brasil, há sim sectária empulhação propagandística, como fazem com as pesquisas de opinião e as estatísticas.

  4. Você poderia me indicar escritores ateus que compreendem a importância da religião e que considera como fraudulenta a maioria dos argumentos materialistas? Lembrava de um que via na religião os símbolos gerais de princípios e significados interiores, mas não lembro o nome, ele considerava a religião como uma gnose histórica e um baú de registros coletivos. Tenho um amigo ateu e que aos poucos está se posicionando em não mais ser um cretino que fala mal dos religiosos por impulso.

  5. Luciano, eu sei que dá trabalho mas seria interessante, para todos os que acompanharam esse debate e ainda não sabem refutar as declarações neo-ateístas, fornecer as bases argumentativas ou os links (dos já tratados aqui nesse site) para desmascarar todas as falácias apresentadas pelo Sottomaior. Abraços e muito obrigado por manter esse espaço que renova em muito nosso entendimento.

  6. Parabéns Luciano, a sua maturidade excede a de muitos teístas e ateus, um debate livre sobre a existência ou não de Deus merece o posicionamento de pessoas como você. Como crente em Jesus Cristo quero parabeniza-lo e pedir que você esteja sempre presente em debates públicos como esse honrando as suas posições e pensamentos. Um grande abraço.

  7. Não consegui ler tudo… Achar que alguém que acredita em um ser imaginário sabe o que está falando… Fé não é virtude, é estupidez. Concordar com religião é concordar com charlatanismo. Parabéns, Luciano, um monte de crente te elogiando… Vc é uma contradição!

    • Jesler

      Não consegui ler tudo…

      Tente leitura dinâmica, ou leitura ativa. Vai te ajudar a adquirir conhecimento…

      Achar que alguém que acredita em um ser imaginário sabe o que está falando…

      Vejamos tua lógica.

      X acredita em Deus
      Logo, X não sabe do que está falando

      Com um truque tão desesperado desses, você ainda quer convencer os leitores daqui que é “racional”? rs.

      Fé não é virtude, é estupidez. Concordar com religião é concordar com charlatanismo.

      Vejamos como é tua “lógica”. O ser humano pode ter fé em muitas coisas, menos em Deus, pois aí não é mais fé, mas sim “a fé”. Então, quem tem fé em Deus, tem fé, e fé é estupidez.

      Parece mais uma tentativa desesperada de xingamento do que um argumento racional, me desculpe a sinceridade…

      Parabéns, Luciano, um monte de crente te elogiando… Vc é uma contradição!

      Vários ateus elogiam Luciano
      Vários teístas elogiam Luciano
      Logo, Luciano é uma contradição

      Vamos aplicar tua lógica

      Médico vai ao cinema
      Engenheiro vai ao cinema
      Logo, médico e engenheiro estão em contradição

      Onde você aprendeu lógica? heheheheh

      Seu discurso parece o de um autista.

    • “Não consegui ler tudo”

      Nós sempre soubemos que a apreensão da informação (seja ela de qualquer forma:escrita, falada, mímica) é um grande problema para neo ateus. 🙂

  8. Boa análise, apesar de curtir a página do facebook da ATEA, sempre achei Daniel Sottomaior patético quando tenta defender o ateísmo, lhe falta conhecimento histórico, antropológico e teológico, e mais patético ainda, são alguns ateus ou neo ateus que resolveram agora adotar o Richard Dawkins como o papa do ateísmo e comemorar o aniversário de nascimento de Charles Darwin. Ridículo isso.

  9. A ATEA tem que ser zuada mesmo, concordei com os religiosos. A ATEA só serve para postar baixaria contra símbolos religiosos e religiosos. Naquele lixo de página já fizeram até piada com senhora religiosa que perdeu o filho. E o Sottomaior é um sonso, fingindo que não sabia sobre o que o pastor estava falando, quando ele se referiu as imagens nojentas que a ATEA posta. A ATEA parece uma religião ultra-fundamentalista, onde pedem dízimo o tempo todo e não promovem a razão e a ciência, ao contrário do que faz o Bule Voador, a Sociedade Racionalista, a Primo Primata e outras páginas.

    A ATEA vende um vitimismo barato, com um bando de adolescentes mal-teístas (acreditam que deus existe, mas ficam de birra com ele por motivos de briga familiar) e criou uma indústria do coitadismo. Ninguém sabe onde a ATEA gasta o dinheiro. Por que as contas não são públicas no site? Pergunte isto e será bloqueado na página.
    O Sottomaior fingir que não sabe que eles tem página no Facebook ou o que é publicado nela é o cúmulo do mau-cartismo e do cinismo. Quem é vítima de preconceito por ser ateu não precisa procurar uma “ong” ateísta e sim o Ministério Público, por exemplo.
    Pra onde foi o dinheiro que o Sottomaior arrecadou com o processo contra o Datena? Embolsou? Alguém sabe? Não, nem falaram no assunto.
    A ignorância em retórica, ceticismo básico e fundamentação para o ateísmo na página da ATEA é galopante. O próprio Sottomaior é um baita sonso e ignorante, sem capacidade para debater seriamente no nível de um Bertrand Russell, um Sam Harris ou um Christopher Hitchens. Querer debater existência teológica de deus falando em papai noel é coisa de pirrralho neo-retardado-ateu de 14 anos. quem vai se convencer com isso?

    Sou a favor daquele pastor Roberto e daquele pai de santo meterem um belo processo no Sottomaior. Ao que estou sabendo, irão levar os posts da ATEA ao Ministério Público.

    E não, não é honesto falar algo como “ah, mas tem religioso que desrespeita o estado laico e os ateus”. Não se combatem erros com mais erros. Não é chamando os religiosos de burros ou postando imagem imbecil zombando da imagem de Jesus que os ateus vão conquistar respeito da sociedade. Não é fazendo piada, colocando Maria no corpo de uma ave no photoshop e escrevendo ‘ave maria’ que os religiosos irão respeitar os ateus. A ATEA é nojenta, não me representa e cada vez mais gente tem descurtido ou se desfiliado desta igreja fanática ateísta.

  10. Apesar de achar que esse debate não irá a lugar nenhum, pois se ambos os lados já estão convencidos das suas verdades, penso que seria muito interessante ter um ex-ateu e um ex-teísta presentes, pois isso daria uma dimensão diferente e talvez teríamos uma contribuição maior.

  11. Bem legal a reflexão, só gostaria de fazer um adendo: a lógica pressuposicionalista. Se eu não me engano esse método apologético “agnóstico” que você citou vem desde a patrística, mas de uns tempos pra cá surgiu um que eu acredito ser muito mais eficiente. Eu não preciso assumir nenhuma postura diferente da minha normal, eu apenas mostro a outra pessoa o quanto a lógica do pensamento dela esta errada e como isso tem origens na própria filosofia de vida dela. Não sei se você já ouviu falar, mas eu curto bastante o Van Til, o Schaeffer, o Frame, que utilizam essa lógica.
    Enfim, parabéns pelo blog!!

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