Esquerdistas que não entendem o mundo: Sakamoto se irrita com pesquisa dizendo que brasileiras não se vêem nas propagandas da TV

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Fonte: Blog do Sakamoto

Quem só mostra mulheres ricas, loiras, jovens, magras em comerciais de TV pode não estar no melhor caminho para convencer os consumidores a comprarem  seus produtos. Uma pesquisa apontou que 56% dos entrevistados não acredita que as propagandas mostrem a mulher da vida real e 64% gostaria de ver mais mulheres de classe popular em comerciais. Pedi a Jacira Melo e Marisa Sanematsu, do Instituto Patrícia Galvão,  que atua em defesa dos direitos da mulher e é responsável pela pesquisa ao lado do Data Popular, um texto para este blog:

Brasileiras não se veem nas propagandas da TV

Pesquisa nacional Data Popular, realizada em parceria com o Instituto Patrícia Galvão, revela que 67% dos entrevistados gostariam de ver mais morenas nas propagandas na TV, 51% querem ver mais mulheres negras e 56% não acreditam que os anúncios mostrem a mulher da vida real.  Entre os homens e mulheres entrevistados, 78% veem mais mulheres jovens nas propagandas e a maioria gostaria de ver mais mulheres maduras.

Ao analisar os dados desse estudo é possível dizer que as mulheres não apenas não se identificam com as propagandas, mas se veem também com diferentes capacidades, projetos e sonhos, que vão para além de um corpo sexualizado.  Do total de entrevistados, 84% concordam que o corpo da mulher é usado como chamariz para promover a venda de produtos e 60% consideram que as mulheres ficam frustradas quando não têm o padrão de beleza das propagandas na TV.

Esses dados nos levam a concluir que há um descompasso, ou pior, um curto-circuito entre anunciantes/publicitários e as consumidoras. Embora um profissional do ramo vá provavelmente dizer que não há nada de errado com a percepção da população captada pela pesquisa, pois a publicidade opera na lógica do “aspiracional”, isto é, do sonho, do idealizado, o que obviamente se contrapõe ao real, por outro lado parece óbvio que as brasileiras, que são, por exemplo, em sua maioria negras e morenas, não aspiram se tornar brancas e loiras e, por conseqüência, não se identificam com as mensagens publicitárias da TV brasileira.

A publicidade na contramão dos avanços da sociedade brasileira – A pesquisa revela também que 80% dos entrevistados consideram que as propagandas na TV mostram mais mulheres brancas, e 51% gostariam de ver mais mulheres negras. A publicidade brasileira, por preconceito de classe e de raça/cor, costuma operar com estereótipos e modelos únicos, antigos, ultrapassados e distantes do lugar das mulheres na sociedade, do seu protagonismo, e mais distante ainda do biótipo das brasileiras.

A população, segundo a pesquisa, tem a expectativa de que a representação da mulher na publicidade seja diversa em termos de idade, tipo de cabelo, cor de pele, enfim, que a propaganda não trabalhe com uma representação única. E aqui é preciso focalizar a baixa presença de mulheres negras nos anúncios veiculados na TV. Será que na cabeça de anunciantes e publicitários, a cor negra ainda remete à pobreza? Será que eles ainda operam com a ideia de que os negros no país têm baixo poder de compra e por isso não interessam como alvo de suas estratégias? Ou estamos mesmo diante de uma manifestação de preconceito racial e ignorância, uma vez que há mais de uma década dados econômicos vêm mostrando exatamente o oposto, que os negros, que hoje representam 52% da população brasileira, têm significativo e crescente poder aquisitivo e movimentam R$ 720 bilhões em consumo por ano.

A elite que faz e aprova os anúncios ainda segue o padrão europeu, porque ela própria é branca, machista e ainda carrega forte preconceito racial. E não é capaz de entender que a população negra não aspira se tornar branca, ao contrário, tem orgulho de ser negra e cotidianamente constrói suas próprias referências.

No campo publicitário, como em outras áreas da comunicação, é praxe dizer que a publicidade apenas reflete comportamentos, costumes e tendências da sociedade. No entanto, a pesquisa Data Popular/Instituto Patrícia Galvão sugere que a propaganda na TV está longe de compreender o significado e impacto da representação da mulher em sua diversidade de cor. A publicidade está distante dos sonhos e ideais em circulação nos diferentes espaços e segmentos sociais. Em outras palavras, se a mulher não se vê na propaganda, não vai se identificar nem com o anúncio e nem com o produto.

Sabe-se que a publicidade procura estabelecer padrões, mas age como se assim não fosse, como se os anúncios não reforçassem estereótipos.  E é preciso destacar que essas representações revelam uma concepção unicamente comercial, desvinculada de qualquer responsabilidade sobre o papel social da mídia. É inegável que a expressão do padrão estético disseminado pela mídia em geral, e pela publicidade em especial, oferece um modelo de beleza feminina de difícil acesso, o que torna a mulher brasileira uma presa fácil de todo tipo de produto estético, em especial os que prometem milagres. E a pesquisa toca nesse aspecto e revela a percepção crítica da população: para 65% o padrão de beleza nas propagandas está muito distante da realidade das brasileiras. E, como não poderia deixar de ser, 60% consideram que as mulheres ficam frustradas quando não atingem este padrão. Resultado: a frustração feminina com a própria imagem e a consequente busca por uma aparência mais próxima dos padrões repetidos à exaustão pela mídia alimentam as poderosas indústrias da beleza.

58% entendem que as propagandas na TV mostram a mulher como objeto sexual – Há muito os movimentos de mulheres denunciam peças publicitárias que ofendem a dignidade e a imagem das mulheres, e que oferecem para as futuras gerações imagens que reforçam preconceitos. É imperativo atentar para as sérias consequências das mensagens discriminatórias que são bombardeadas em nosso cotidiano, especialmente através da TV. Ao reforçar estereótipos negativos da figura feminina – a representação que opera no plano de uma “mulher símbolo sexual”, de uma “mulher ideal”, de uma “mulher ilusão”, de uma “mulher perfeita”, sem vontade, sem autonomia e a serviço dos desejos masculinos –, a publicidade promove efeitos pedagógicos altamente negativos sobre as futuras gerações de garotos e garotas.

A pesquisa Data Popular e Instituto Patrícia Galvão tem também o objetivo de alimentar e animar um debate consequente sobre a atual concepção do órgão de autorregulação da publicidade no país, o Conar, um espaço controlado por dirigentes de agências e emissoras de TV. Também acreditamos que os dados dessa pesquisa devem estimular na sociedade o debate sobre regulação e um código de ética da publicidade brasileira.

Para acessar a pesquisa na íntegra, clique aqui.

Jacira Vieira de Melo é graduada em Filosofia pela Universidade de São Paulo, mestre em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP, especialista em comunicação social e política na perspectiva de gênero e raça. É diretora executiva do Instituto Patrícia Galvão – Mídia e Direitos. Marisa Sanematsu é jornalista, com mestrado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. É editora de conteúdos do Instituto Patrícia Galvão – Mídia e Direitos.

Meus comentários

Quando alguém de extrema-esquerda realmente acredita no que diz acreditar, simplesmente desiste de tentar entender o mundo e, ao invés disso, cria uma ilusão para a qual direciona todas as suas esperanças, renegando qualquer nesga de realidade.

É por isso que a lógica de Sakamoto beira o inacreditável, violando todos os quesitos de bom senso. Que a tal Jacira Vieira de Melo, graduada na USP, absorva as mesmas expectativas nos diz muito sobre o baixíssimo nível da maior universidade pública do Brasil.

É por isso que todo o texto de Sakamoto não faz o menor sentido.

Quando o ser humano observa propagandas e filmes, não está buscando se observar neste conteúdo, mas sim absorver um conteúdo que tem algo de diferente, e, em alguns casos, de extraordinário.

No cinema, isso é facilmente observável. Vejamos os principais campeões de bilheteria da história do cinema. Temos elfos, hobbits, Batman, Homem de Ferro, alienígenas azuis de Pandora e tudo mais. Eu também não me identifico com nenhum deles. E não me sinto discriminado.

E isso vale para as propagandas de TV. Como exemplo, observe uma propaganda com Neymar. Nenhum brasileiro se vê nesta propaganda, pois quase todos são pernas de pau perto de Neymar.

Enfim, nas propagandas e qualquer forma de mídia de entretenimento, buscamos instintivamente (e muitas vezes subconscientemente) aquilo “que não vemos todos os dias”. Até por que se fosse somente para nos observarmos na TV ou em propagandas, por que despenderíamos tempo com elas?

Precisávamos dar uma vassoura Sakamoto e outra para Jacira, pois este tipo de raciocínio de ambos é falta de um serviço decente.

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15 COMMENTS

  1. ”uma vez que há mais de uma década dados econômicos vêm mostrando exatamente o oposto, que os negros, que hoje representam 52% da população brasileira, têm significativo e crescente poder aquisitivo e movimentam R$ 720 bilhões em consumo por ano.”

    Esses caras são esquizofrênicos. Usam justificativas e alegações contraditórias quando convém, ou seja, se fosse para justificar as cotas raciais não usariam o argumento que destaquei acima.

  2. Caramb, nunca houve tantos negros, pardos e todas as matizes possíveis na propaganda de tve e de revistas no Brasil! O que é que esses caras querem? Aqui tem de tudo. Eu sou 100% vira-lata. com muito orgulho!

  3. Sem contar que a “pesquisa” é altamente suspeita já que foi financiada pela Fundação Ford, a (ir)responsável pela disseminação no Brasil das tais “ações afirmativas” (conforme MAGNOLI, Demétrio. Uma gota de sangue) que estão transformando o brasileiro em racista recalcado e sanguinário, num retorno bizarro ao mundo da primeira metade do século XX.

    • Segue a íntegra do texto para que outros conheçam o tal de Alex Castro, que nada mais faz do que operacionalizar o que disse o Manifesto Comunista sobre desprezar toda e qualquer opinião que não fosse espelho:

      Carta Aberta às Pessoas Privilegiadas
      (repasse à sua pessoa privilegiada favorita.)

      Escuto muito: homens reclamando da histeria das feminazis, pessoas cis reclamando da agressividade das militantes trans, brancas reclamando do vitimismo do movimento negro, religiosas reclamando da chatice das ateias militantes.

      Essa gente não tem mesmo nenhuma empatia?

      * * *

      É comum ouvir as pessoas privilegiadas (homens, brancas, cis, ricas, etc) reclamarem que as militantes de causas subalternas (movimento negro, LGBT, trans, feministas, indígenas, ateus, etc) são agressivas, defensivas, estressadas, etc.

      Mas é fácil ser calma e tranquila quando se está sentada no topo da pirâmide. Quando se possui todas as vantagens e todos os direitos e todas as seguranças. Quando não se é diariamente encoxada no metrô ou revistada pela polícia. Quando suas comunidades não são invadidas ou remanejadas.

      Talvez as militantes estejam mais estressadas que você, ó pessoa privilegiada, porque além de sofrer tudo o que sofrem todas as pessoas subalternas, elas também VEEM.

      VEEM e GRITAM.

      Veem a opressão e a repressão, veem as mortes e os estupros, veem a dor e a desigualdade.

      E gritam contra tudo isso, todos os dias, de todas as maneiras, contra a corrente, contra a maioria, passando por chatas, ouvindo que são defensivas, falando quase sozinhas, mas sempre falando, sempre gritando, sempre na luta.

      Então, meu conselho às pessoas privilegiadas é: não reclame da agressividade de quem sofre e combate violências que você nunca sofreu nem combateu.

      Talvez vocês também devessem combater agressivamente o racismo e o machismo, a homofobia e a transfobia.

      * * *

      Querida pessoa privilegiada,

      Claro que você fica incomodada com o discurso anti-establishment, seja ele ateu ou trans*, feminista ou LGBT, anti-racista ou anti-consumista, etc ou etc.

      Esse discurso é FEITO, PENSADO, ARTICULADO especificamente pra te incomodar.

      Ao reclamar do incômodo, você está só confirmando que o alvo desse discurso, de fato, era você.

      Então, agora que a mensagem atingiu o destino, é hora de botar a mão na consciência, refletir sobre a origem desse incômodo, questionar seus privilégios.

      * * *

      Sempre que escrevo variações do trecho acima, chamando as pessoas privilegiadas a “botar a mão na consciência, refletir sobre seus incômodos e questionar seus privilégios”… sabem o que acontece?

      Elas se sentem atacadas.

      O mecanismo do privilégio é esse:

      Você tem tudo sempre tanto a seu favor que um mero chamado para “botar a mão na consciência” já te parece um “intolerável ataque aos vilões da história”.

      O que te faz uma pessoa privilegiada é isso:

      Sentir-se sinceramente atacada e vilificada quando alguém só te pede pra refletir sobre seus privilégios.

      * * *

      Quem faz parte do grupo dominante, quem passou os últimos séculos pisando & dominando, matando & explorando, não tem que pedir respeito: tem que DAR.

      Não é a branca que deve pedir respeito à negra.

      Não é o homem que deve pedir respeito à mulher.

      Não é a hétero que deve pedir respeito à homossexual.

      Não é a cis que deve pedir respeito à trans*.

      Não é a cristã que deve pedir respeito à ateia.

      Para demonstrar que não é uma canalha, para demonstrar que entende a história de dominação do seu grupo sobre os mais fracos, tem que acontecer justamente o contrário:

      É a branca que deve demonstrar respeito à negra.

      É o homem que deve demonstrar respeito à mulher.

      É a hétero que deve demonstrar respeito à homossexual.

      É a cis que deve demonstrar respeito à trans*.

      É a cristã que deve demonstrar respeito à ateia.

      Diz pra mim que você entende?

      Um membro de uma religão que tortura e mata há milhares de anos, que até hoje nos enfia goela abaixo uma legislação que mata mulheres TODO dia, pedir respeito a uma figurinha de gesso é rigorosamente tão obsceno quanto aquelas pessoas que defendem a existência da “parada do orgulho hétero” ou do “dia da consciência branca”.

      Aliás, pré-explicando aos que vão perguntar: uma camisa “100% Branco” é de profundo mau-gosto, ao mostrar uma pessoa privilegiada celebrando seu privilégio. “100% Negro”, por outro lado, é a celebração de uma identidade subalterna tentando se afirmar contra todas as desvantagens inerentes no sistema. Existe uma enorme diferença.

      * * *

      Se você acha que mulher que defende seus direitos é feminazi; que cotas são racismo reverso; que aprovação do casamento homoafetivo é ditadura gay; que existem marajás vivendo com os $134 do bolsa-família; que os militares nos salvaram em 1964; etc etc; então, sim, você tem razão de me acusar de radical e intransigente.

      Eu realmente não quero diálogo com você. Não vou responder suas provocações. Não vou contra-argumentar suas ideias.

      Dialogar com você seria dar às suas posições nojentas uma validação que elas não merecem.

      Não há conversa possível.

      * * *

      Sartre: “detesto vítimas que respeitam seus carrascos.”

      * * *

      As pessoas que mais mandam são as que se sentem mais acuadas pela patrulha de quem não manda nada.

      Para quem faz parte do status quo e está acostumada a ser a opinião dominante e nunca interpelada, qualquer contradiscurso, mesmo marginalizado e quase impotente, é sempre visto como intolerável:

      “Feminismo radical”, “racismo reverso”, “ateísmo militante”, “ditadura gay”, etc.

      O ideal é a feminista feminina, a negra que sabe o seu lugar, a atéia calada, a gay dentro do armário.

      É fácil ser tolerante com a outra: basta ela ficar quieta e nunca me lembrar que existem no mundo opiniões diferentes das minhas.

      * * *

      alice walker: “quem exige seu silêncio não é seu amigo.”

      * * *

      Entendo as privilegiadas defendendo seus privilégios. Não entendo a militante negra reclamando das feminazis, a ateia se insurgindo contra o racismo reverso, a gay incomodada pelas ateias militantes.

      Falta espelho e falta solidariedade.

      * * *

      Quando afirmo minha condição de privilegiado, algumas pessoas acham que estou me gabando.

      Mas a pior coisa que vejo são as pessoas privilegiadas que nunca se reconhecem privilegiadas… justamente para não assumirem as responsabilidades do privilégio.

      As pessoas privilegiadas devem reconhecer seus privilégios não para se gabar (ou para se envergonhar), mas porque só assim podem assumir sua responsabilidade de ajudar as não-privilegiadas. Só assim podem começar a compensar a sociedade por tudo o que receberam em excesso. Só assim podem começar a abrir mão de alguns privilégios em prol de quem tem menos.

      E eu sou uma pessoa privilegiada em quase todos os quesitos.

      Isso não me faz o vilão. Isso não me faz o inimigo. Isso não significa que sou culpado pelos crimes da nossa sociedade machista, racista, elitista, homofóbica, transfóbica, intolerante.

      Mas significa que, como BENEFICIÁRIO desses crimes, tenho a responsibilidade de ajudar. De me tornar parte da solução e não do problema.

      Sou um homem branco hétero cis, classe média alta e pós-graduado (e também feminista, esquerdista, ateu, praticante de BDSM e poliamor), que consciente do lugar de privilégio que ocupa em nossa sociedade racista, machista, homofóbica, transfóbica e elitista, tenta utilizar esses privilégios para melhor pesquisar, refletir e promover pautas como feminismo, lutas sociais, consumismo, movimento negro, narcisismo, escravidão, trabalho doméstico.

      E você?

      * * *

      Não se muda o mundo respeitando a opinião de quem te oprime.

      * * *

      Para chamar atenção para o sexismo da nossa língua, o texto acima usa o feminino como gênero neutro.

      Ao menos o cara é sincero em falar que é gramsciano, como podemos ver aqui:

      sou ateu. feminista. de esquerda. politicamente correto.

      sempre vivi relações abertas, inclusive meu casamento. sou participante ativo da comunidade bdsm. já fui pra cama com mais de uma pessoa ao mesmo. já fiz muita coisa com muita gente, e lambi os beiços.

      sou contra a pena de morte. sou contra a redução da maioridade penal. apóia a justiça restaurativa.

      sou a favor de direitos iguais para as pessoas homossexuais, inclusive e especialmente casamento e todos os direitos correlatos, como herança, dividir plano de saúde, etc.

      acho que existe um gigantesco ponto cego na nossa sociedade, e até nos nossos movimentos civis, em relação às pessoas trans*, que precisam ser ouvidas, vistas, acolhidas, respeitadas.

      acho que a pessoa comum não deve ter direito a portar armas.

      sou a favor de cotas raciais e sociais nas escolas, universidades, funcionalismo público. e não, isso não resolve, mas é um primeiro passo.

      sou contra a criminalização de opiniões racistas ou homofóbicas, por achar que a lei não tem direito de legislar opiniões, apesar de concordar com a judith butler que linguagem violenta É violência.

      sou a favor da descriminalização da maconha e de outras drogas.

      sou a favor do direito irrestrito ao aborto. já ajudei três amigas a abortarem. nunca de filha minha, aliás.

      não sou nem nunca fui filiado a nenhum partido político. votei na dilma. não sei se votaria nela de novo — depende de quão nefanda será a outra opção.

      * * *

      essas são minhas posições. elas não estão abertas a debate. elas podem mudar sem aviso prévio.

      se você discorda delas, eu não estou disposto a debater com você. respeito sua opinião e não quero mudá-la.

      se você é radicalmente contra meus posicionamentos, se você me acha um bandido ou monstro ou um louco etc etc por ter essas opiniões, talvez você não devesse estar lendo essas linhas.

      de resto, sente-se, fique à vontade, leia os textos.

      abração.

      Observe-se aqui que ele também é desconstrucionista:


      mini-manual pessoal para uso não-sexista da língua

      30 September, 2013

      em meus textos, para chamar atenção para o sexismo de nossa língua, estou invertendo a norma e usando o feminino como gênero neutro.

      o que isso quer dizer?

      * * *

      digamos que um parque conta com dez animais da espécie Panthera leo.

      de acordo com as regras atuais da língua portuguesa, podemos dizer que “existem dez leoas no parque” somente se:

      a) temos certeza absoluta que os dez animais são fêmeas.

      por outro lado, falamos que “existem dez leões no parque” se:

      b) temos certeza absoluta que os dez animais são machos.

      c) se houver ao menos um macho no grupo.

      d) se não soubermos nada sobre os gêneros dos animais.

      * * *

      decidi inverter a regra.

      agora, uso o masculino somente na opção b, quando tenho certeza que o indivíduo ao qual me refiro é masculino.

      para as opções c e d, uso o feminino.

      * * *

      o que isso quer dizer na prática?

      abaixo, alguns exemplos.

      * * *

      para falar da humanidade de modo geral, agora uso o feminino, mesmo quando é a primeira pessoa do plural que me inclui, um homem:

      “quando estivermos idosAs e entrevadAs, incapazes e enrugadAs, a única lembrança que vai restar da criança que fomos um dia são nossos olhos.” (do meu texto “os mesmos olhos”)

      * * *

      para falar aos seres humanos de modo geral, uso o feminino, idealmente antecedido de “pessoa”:

      meu texto “carta aberta às pessoas privilegiadas” normalmente teria se chamado “carta aberta aOs privilegiadOs”, se referindo a todas as pessoas privilegiadas do mundo de ambos os sexos.

      se eu mudasse simplesmente para “carta aberta Às privilegiadAs”, o texto poderia passar a impressão errada, graças ao treino sexista que impusemos aos nossos ouvidos, de estar falando somente para as mulheres privilegiadas e não aos homens.

      portanto, para evitar essa distorção e manter o significado genérico, o título final ficou “carta aberta às pessoas privilegiadas”.

      também estou me esforçando para usar a palavra “pessoa” livremente e sem medo de repetições.

      * * *

      só uso o masculino para me referir especificamente a homens.

      da mesma “carta aberta” citada acima:

      “Escuto muito: HOMENS reclamando da histeria das feminazis, pessoas cis reclamando da agressividade das militantes trans, brancas reclamando do vitimismo do movimento negro, religiosas reclamando da chatice das ateias militantes. … É comum ouvir as pessoas privilegiadas (HOMENS, brancas, cis, ricas, etc) reclamarem que as militantes de causas subalternas (movimento negro, LGBT, trans, feministas, indígenas, ateias, etc) são agressivas, defensivas, estressadas, etc.”

      da minha “declaração de princípios”:

      “sou atEU. feminista. de esquerda. politicamente corretO.”

      no caso, só estão no masculino as menções específicas a homens e minha auto-menção individual, que sou homem. todo o resto está no feminino.

      * * *

      um ponto especial sobre pessoas trans*:

      eu me refiro no masculino a quem se apresenta e se auto-identifica como homem. e idem para mulheres. não cabe a mim e nem me interessa ser o juiz de quem nasceu com quais órgãos ou quem tem o quê debaixo das roupas.

      se a mulher que vazou os segredos para a wikileaks se apresenta como chelsea manning, isso é tudo o que preciso saber para me referir a ela e tratá-la como mulher.

      é uma simples questão de respeito.

      * * *

      existem várias outras maneiras de inverter o sexismo da língua, como usar o arroba e o x.

      respeito muito todas as pessoas que também estão lutando por menos sexismo na língua e que escolheram usar essas ou outras opções.

      os meus motivos para não adotá-las são os mesmos de juno, expostos no texto: deixando o X para trás na linguagem neutra de gênero

      recomendo também esse utilíssimo manual para o uso não sexista da linguagem.

      * * *

      essas são somente as pequenas regrinhas que estou seguindo em MEUS próprios textos para tentar torná-los menos sexistas. não estou impondo essas regras a ninguém nem acho que você é uma pessoa horrível se não segui-las.

      essas regras estão em fluxo e em teste, sendo aplicadas no dia-a-dia e constantemente revistas e repensadas.

      agradeço quaisquer sugestões ou críticas construtivas. erro muito, mas sei ouvir e me corrigir.

      * * *

      talvez a grande contribuição da filosofia durante o último século tenha sido essa:

      as palavras importam. a linguagem molda o mundo.

      vale a pena brigar por isso. não é uma luta vã.

      A impressão que me passa é a de que parece o que diz a famosa canção do Ultraje:

  4. “Enfim, nas propagandas e qualquer forma de mídia de entretenimento, buscamos instintivamente (e muitas vezes subconscientemente) aquilo “que não vemos todos os dias”. Até por que se fosse somente para nos observarmos na TV ou em propagandas, por que despenderíamos tempo com elas?”

    Se quiséssemos nos observar na TV colocaríamos um espelho no lugar.
    Sakamoto quer a decadência da TV.

  5. Joãosinho Trinta chinelou os ancestrais ideológicos de Kawabonga, digo Sakamoto, há décadas: ‘O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria e intelecual’

  6. André,

    “Se quiséssemos nos observar na TV colocaríamos um espelho no lugar.
    Sakamoto quer a decadência da TV.”

    Isso está sendo feito a pelo menos uns 10,12 anos.

    Lendo esse post do Luciano e do Sakamoto, percebe-se que a TV (mundial acho) ACELEROU o processo de sua decadência- acabando no esgoto atual- a partir do momento que foi criado o primeiro reality show.

    Desconfio que essa IDEIA DELIRANTE de transformar o telespectador em “ASTRO” da telinha partiu de algum esquerdista (“o povo necessita si ver na tv!”… O povão quer si ver na tv! Bingo!!). O resultado é essa DESOLAÇÃO TOTAL na grade televisiva aberta (e até a cabo), onde audiências minguam e parte do grande público vaza pra outros veículos (rádio e internet) ou adoece (por se tornar vítima inerme da sua “ascenção social” televisiva) com tanta mediocridade, tanta falta de talento, tanto embuste, tanto cinismo, tanta falta de senso de humor e originalidade, enfim, diante do cotidiano nada extraordinário, mas muito semelhante ao da maioria do povão…

    Acredito que essa situação tem aumentado os casos de depressão e histeria nos lares das famílias brasileiras.

    Isso tb acabou criando outro paradoxo (esquerdista só tem merda na cabeça mesmo!): os comerciais de maior sucesso e lucratividade continuam mostrando aquilo “que não vemos todos os dias”, enquanto nos programas (principalmente nos de auditório) só si vê aquilo que si vê no espelho de casa. É a escrotidão auto-sustentável. A produção economiza uma grana com convidados consagrados pelo público e crítica, e devolve de volta pra audiência clones do bizarro ou personagens nulos da mesmice do nosso cotidiano pusilânime, frívolo e asqueroso.

    Joãozinho Trinta- que era um sábio e arranhou a crença esquerdista esbanjando o luxo no carnaval popular- deve tá ‘isssquenntando’ e rolando na cova!

  7. Parabéns pelo vosso INCANSÁVEL trabalho de desmascarar os PICARETAS, Luciano!

    Você deveria ser o professor master de Ciência Política em QUALQUER dessas universidades lixo públicas.

    FATO!

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