A dinâmica de Harris, Dennett e Dawkins: como aprender com os neo-ateus na criação de um paradigma de guerra política

4
92

Índice

Quem acompanha este blog desde seu início, em meados de 2009, sabe que o foco era no ataque ao neo-ateísmo. Tanto que o nome original do blog era Neo-Ateísmo, um Delírio. Com o tempo, meu foco direcionou-se para o ataque tanto ao esquerdismo quanto ao neo-ateísmo. Posteriormente, especialmente depois de meu hiato de sete meses, retornando em novembro de 2011, meu foco dividiu-se entre o ataque ao esquerdismo e ao humanismo, pois o neo-ateísmo não é mais que uma versão exacerbada do humanismo.

Se antes eu era um opositor dos neo-ateus, agora eu sou apenas um crítico das fraudes que eles propagam, pois, em termos de métodos, eu acabei assimilando-os.

Recentemente eu comentei com um amigo no Facebook que devíamos olhar o neo-ateísmo com mais atenção, não como um conteúdo discursivo, mas como um conjunto de estratégias para a guerra política. (Atenção: guerra política não significa estratégias logicamente inválidas, e mostrarei aqui que os paradigmas dos neo-ateus são perfeitamente justificáveis)

Quando a dinâmica social se tornou meu paradigma central para a guerra política, eu passei a olhar o neo-ateísmo com uma visão mais estratégica. Não demorou para que, em alguns aspectos, eu já estivesse aplicando o neo-ateísmo, de forma reconstruída.

Mas o que significa um neo-ateísmo reconstruído? Posso dizer que o meu neo-iluminismo tem um pouco disso.

Vejamos então o que é o modelo de Sam Harris, explicitado principalmente em seu livro A Morte da Fé (de 2004, e que deu o pontapé inicial ao neo-ateísmo):

  1. A crítica a uma crença que considerarmos injustificada e perigosa deve ser assertiva, incisiva e sem medo de praticar a ridicularização e o desmascaramento impiedoso.
  2. Caso a crença seja potencialmente perigosa, devemos avisar os oponentes dessa crença em relação a seu perigo.
  3. Se a crença for facilmente ridicularizável, devemos praticar a ridicularização, de forma a tirar poder político de seus proponentes.
  4. Se os adeptos da crença forem contra nosso direito de ridicularizar esta crença, temos um problema adicional para esta crença, pois isso demonstrará sua tendência absolutista e incapaz de aceitar críticas.
  5. Se provarmos este comportamento absolutista dos adeptos desta crença, então devemos propor formas de que possamos viver nossa vida sem que essa crença nos afete.

Note que os cinco passos acima são usados, por Harris, para atacar a religião tradicional. Mas também podem ser utilizados para atacar qualquer sistema de crenças injustificado.

Por exemplo, quando o movimento gay não admite críticas, estão caindo no item 4, dando, enfim, uma justificação moral para seus opositores aumentarem as críticas. Todo o esquerdismo e todo o humanismo podem passar pelo mesmo crivo.

Outro ponto interessante de Harris é apontar que aquele grupo a cair no item 4, também pode ser denunciado como um oponente da sociedade civil, que prevê a livre circulação de ideias. Vale a pena fazer este apontamento em relação ao seu oponente sempre que cabível e necessário.

Daniel Dennett, em Quebrando o Encanto (de 2006), nos oferece também um paradigma agradabilíssimo:

  1. Sistemas de crenças e comportamentos de nossos oponentes devem ser tratados sem o mesmo véu de sagrado usado pelos seus praticantes.
  2. Isto nos dá o direito de olhar as crenças de nossos oponentes “de fora”, tratando tudo isto como um fenômeno natural, assim como tratamos qualquer assunto científico.
  3. A rejeição a este tratamento que fizermos demonstrará que o grupo oponente não aceita ser investigado, e isto também é uma oposição à vida em sociedade civil.
  4. O ato acima torna-se, então, parte do problema, e parte do fenômeno natural que estamos investigando.
  5. Tanto o fenômeno original, como a reação dos adeptos da crença investigada, são empacotados dentro do estudo do mesmo fenômeno, de forma a adquirirmos o máximo conhecimento sobre o fenômeno em si.
  6. A divulgação contínua dos resultados desta investigação aumentará o conhecimento que temos da crença/comportamento sob investigação, permitindo-nos criar um “escudo” protetor ao longo do tempo.

Isto é, quando observamos tanto a crença marxista, quanto a reação dos marxistas quando são questionados (e eles sempre tentam silenciar seus oponentes), temos um fenômeno para o qual devemos obter o máximo de informação possível. Temos que conscientizar o máximo possível de  pessoas a respeito dos perigos do marxismo, como um todo, e a reação dos marxistas ante questionamento é parte fundamental deste fenômeno. Neste caso, conhecimento sobre este fenômeno resulta em poder para seus oponentes.

Novamente, vale ressaltar que o modelo de Dennett foi aplicado para a religião tradicional, mas serve melhor ainda para a religião política.

Diante desta conscientização, transforme sua interação com marxistas, humanistas e outros esquerdistas como o estudo de um fenômeno. Enquanto você está refutando-os, também está coletando padrões de comportamento exibidos por eles. Tudo isso se torna conhecimento, e deve ser consolidado a seu favor.

E como não falar de Richard Dawkins? Seu Deus, um Delírio, de 2006, é considerado o maior best-seller do neo-ateísmo, vendendo mais de 2 milhões de cópias.

Hoje em dia, eu acho Dawkins inferior tanto a Harris quanto Dennett, mas ele também tem algo a nos ensinar. Veja este paradigma sobre a doutrinação escolar:

  1. Crianças e jovens são vulneráveis a doutrinação
  2. O uso de salas de aula para doutrinar crianças e jovens em crenças que as prejudiquem (ou aos seus pais) é abominável
  3. Podemos considerar a doutrinação em salas de aula como algo pior que estupro
  4. Uma sociedade civil requer que denunciemos e desmascaremos toda doutrinação em salas de aula que achemos injustificada

Claro que não precisamos de Dawkins para sabermos que o ataque aos doutrinadores marxistas é tão importante. Mas Dawkins acertou na mosca ao notar que um dos aspectos da guerra política envolve impedir que crianças e jovens sejam doutrinados em sala de aula em crenças às quais nos opomos e que ao mesmo tempo não sejam justificadas.

Hoje em dia, os neo-ateus são prodígios na arte de bloquear a doutrinação em uma religião em sala de aula. Mas, pela mesma argumentação, podemos bloquear a doutrinação marxista, assim como a doutrinação humanista.

Assim como Dennett, Dawkins é um darwinista retinto. E eu também sou.

Isso facilita a absorção de mais um dos paradigmas de Dawkins:

  1. Há uma crença/comportamento que temos razão para definir como injustificada, com um baixo valor de “cui bono?” (Ou seja, o quão proveitoso o ato é, em termos evolutivos)
  2. Ainda assim, nossos oponentes mantém essa crença/comportamento
  3. Devemos estudar, em termos evolutivos, a razão para a manutenção desta crença/comportamento
  4. Este tipo de estudo ajuda a tirar o véu de sagrado desta crença/comportamento, e pode se tornar um argumento contra esta crença/comportamento. E mesmo que não se torne um argumento contra esta crença/comportamento, este estudo pode nos ajudar na defesa contra esta crença/comportamento.

Se você pensou que isto serve apenas para estudar o mecanismo biológico de submissão à autoridade (útil para a sobrevivência, especialmente durante a infância), que explicaria a crença em Deus, está enganado.

Na verdade, este paradigma serve para estudarmos qualquer submissão à autoridade, especialmente à submissão a estados totalitários, e a resposta para o “cui bono?” desta pergunta é muito mais desagradável para os adeptos da religião política que os adeptos da religião tradicional.

A submissão à autoridade de um Deus parece, por si só, não ter causado grandes danos para nossa espécie. Mas a submissão à autoridade de um estado, como a crença subserviente a governos marxistas, fascistas e nazistas, levou aos inchaços estatais que causaram todos os genocídios do século XX.

Os esquerdistas estão moralmente obrigados a se explicarem por que alimentam uma crença/comportamento tão perigosa em termos evolutivos (para a nossa espécie), e devem ser publicamente expostos por isso.

Mas entendo que este quarto paradigma agradará mais aos darwinistas do que aos não-darwinistas. Como eu sou darwinista, faço a festa.

Enfim, creio que é suficiente para deixar claro que quando um oponente meu diz “O Luciano hoje é quase um neo-ateu dentro da política”, eu só tenho a dizer que ele está absolutamente certo!

Sim, depois passar um tempo refutando neo-ateus, acabei assimilando as técnicas de guerra política e dialética de combate que eles utilizam. E, como já disse em outros momentos, faço tudo isso assimilando os métodos que eles lançaram, sem recorrer às fraudes intelectuais, que se tornaram o Calcanhar de Aquiles do neo-ateísmo.

Ademais, os métodos aqui apresentados, todos eles assimilados do neo-ateísmo, podem ser utilizados com muita conveniência para desmascarar o próprio discurso proselitista que os neo-ateus lançam durante boa parte de suas atuações políticas.

Ao reconhecer este aspecto de meu paradigma de debate político, volto, enfim, às minhas origens, onde aprendi com Robert Anton Wilson que assimilar conteúdos, mesmo vindo de nossos oponentes políticos, é uma espécie de arte. Também devo reconhecer que é isto que facilitou com que eu assimilasse com tanta facilidade os métodos de esquerdistas como Saul Alinsky e George Lakoff.

Posso dizer, hoje, que sou uma cria indesejada dos neo-ateus.

Anúncios

4 COMMENTS

  1. Luciano, não hvaria uma redundância no final deste parágrafo:

    “Hoje em dia, os neo-ateus são prodígios na arte de bloquear a doutrinação em uma religião em sala de aula. Mas, pela mesma argumentação, podemos bloquear a doutrinação MARXISTA, assim como a doutrinação MARXISTA.” (caixa alta minha)?

  2. “Mas entendo que este quarto paradigma agradará mais aos darwinistas do que aos não-darwinistas. Como eu sou darwinista, faço a festa”.

    Não necessáriamente, Luciano. Eu não sou darwinista e sugiro mais um argumento contra os neoateus:
    Se o evolucionismo é uma ciência, por que você quer destruir um comportamento EVOLUTIVO (a religião) que fez parte da bem-sucedida evolução dos seres humanos?Paradoxal.

Deixe uma resposta