A crença na crença esquerdista, OU o esquerdismo de segunda mão

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Demétrio-Magnoli

Sei que vou incomodar alguns com o que vou dizer, mas tratarei de um fenômeno que notei há alguns tempos em relação ao trato dado pela direita ao esquerdismo. Também usarei insights vindo dos autores neo-ateus, denunciando um fenômeno que eles definem como “crença na crença”.

“Crença na crença” é um termo cunhado por Daniel Dennett, e utilizado bastante por Richard Dawkins, no qual ele criticava alguns ateus por não acreditarem em Deus, mas ao mesmo tempo acharem que a crença em Deus é uma coisa boa. Assim, mesmo não acreditando em Deus, o ateu continuaria acreditando na virtuosidade da crença em Deus.

Traduzindo esse fenômeno para um padrão específico, podemos redefinir a crença na crença desta forma: não acreditar nas alegações principais de uma pessoa ou grupo, mas acreditar em diversas outras alegações políticas desta pessoa ou grupo.

Por exemplo, alguns religiosos dizem que “uma pessoa só é moral se for religiosa”. Eu não acredito nesta afirmação. Se um ateu não acredita em Deus, mas acredita na afirmação de que “uma pessoa só é moral se for religiosa”, então ele acredita na crença religiosa (e em alegações que alguns aderentes fazem a respeito dessa crença). Para Dawkins, isso significa se tornar um religioso de segunda mão. Mas a crença religiosa não é assunto deste post, mas sim o fenômeno da crença na crença.

É quando noto que muitos adeptos da direita possuem crença na crença esquerdista, tornando-se, sem querer, esquerdistas de segunda mão. Ainda que esquerdistas moderados, os direitistas que possuem crença na crença tem sido muito úteis à esquerda.

Se tomarmos por base que toda a crença no estado que esquerdistas possuem é retribuída em doses proporcionais com nossa descrença no mesmo estado, podemos tomar como ponto de partida que somos tão descrentes no estado quando o ateu é um descrente em Deus. Assim, quase todo direitista não tem crença na alegação central do esquerdismo.

Mas agora é que a porca torce o rabo. Pois em relação à sua crença, os esquerdistas fazem diversas afirmações, que, infelizmente, são tomadas como verdade por algumas pessoas da direita.

Por exemplo, quando o esquerdista defende sua crença no estado, dizendo que é assim que “se fará a justiça social”, muitos direitistas caem no truque e dizem: “priorizar a justiça social é uma balela”. Qual a alegação política esquerdista que foi aceita de forma injustificada aqui? Simples: “a esquerda defende a justiça social, mas a direita não”.

O problema é que toda uma literatura com base em Milton Friedman e Ludwig von Mises nos mostra exatamente o oposto: a justiça social é melhor defendida com base nos princípios do livre mercado. Foi assim que surgiu a motivação para a abolição da escravatura: lançar pessoas consumidoras no mercado. Isso vale para todas as minorias. A afirmação de que “a esquerda defende a justiça social, mas a direita não” é flagrantemente falsa, mas muitas pessoas da direita a aceitam. Isso é o fenômeno de “crer na crença” do esquerdismo. A partir daí, alguém passa a fazer propaganda do esquerdismo mesmo sem perceber.

Outro exemplo está em quando um esquerdista diz: “somos adeptos da mudança, mas eles são adeptos da conservação do status quo”. Ué, mas conservar o aparelhamento estatal criado pelos esquerdista não é uma conservação do status quo? Mesmo assim, incrivelmente surgiu o rótulo conservador, que é atribuído unicamente a quem é de direita. Aí basta o esquerdista dizer “ele é conservador, então conserva [o status quo], e portanto não quer a sociedade melhor”. Se alguém de direita repetir o mesmo discurso, dificilmente perceberá que o esquerdista está rindo nas costas dele. Temos aqui mais um esquerdista de segunda mão.

Sou um fã de Ann Coulter, que, as vezes, se torna esquerdista de segunda mão ao chamar os esquerdistas de “liberais”. Mas como é que podem ser liberais se querem inchar o estado, o órgão repressor que tem o monopólio da ação coerciva legalizada? Ao dar o rótulo “liberal” aos esquerdistas, ela acreditou em crenças de esquerdistas.

Sei que é polêmico o que afirmo, pois autores como Olavo de Carvalho e Ann Coulter são importantíssimos no combate à esquerda. Mas vez por outra aceitam algumas pequenas crenças esquerdistas que são extremamente benéficas ao esquerdismo (exemplos: “o conservadorismo é característica da direita”, “a justiça social é coisa da esquerda, não da direita”, “a esquerda é liberal” – e não estou dizendo que os dois autores citados possuem todas essas crenças, mas sim uma ou outra delas). O que estou dizendo é que toda a grande ajuda que eles tem dado à direita seria ainda mais efetiva se não incorporassem instâncias de crença na crença esquerdista.

Eis a diferença para o paradigma neo-iluminista que defendo. Eu não estou interessado apenas em divergências básicas com os esquerdistas, mas principalmente em desmascarar todas as alegações políticas injustificadas que fazem. Em suma, não só eu rejeito a crença esquerdista, como principalmente a crença na crença esquerdista.  Em outras palavras, eu não estou apenas interessado naquilo que os esquerdistas falam sobre suas propostas políticas, mas também naquilo que os esquerdistas falam sobre eles próprios e também sobre seus oponentes.

Toda essa esfera de discurso esquerdista contém alegações que, se aceitas, dão benefício político ao oponente. Pelo meu paradigma de ceticismo político, uma alegação política é aquela que, se aceita, gera benefício político ao seu oponente. Estas alegações devem ser priorizadas para questionamento. O neo-iluminismo não passa da aplicação do ceticismo político contra a religião política (esquerda).

Seremos realmente efetivos no combate à esquerda quando demonstrarmos que não só as crenças básicas do esquerdista são inválidas, como principalmente o são as crenças que eles fazem a respeito de seus valores, suas intenções e dos valores e intenções do oponente. Cada rotulagem feita por um esquerdista, por menor que seja, contém afirmações sobre o mundo. Cuidado com aquilo que deixamos de questionar e expor como falso, quando cabível.

Em resumo: precisamos não apenas rejeitar a crença esquerdista, como também qualquer instância de crença na crença esquerdista.

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14 COMMENTS

  1. Concordo plenamente com você. De fato, é o que acontece na maioria das vezes. Não se trata apenas de uma questão de divergências ideológicas ou de opiniões opostas, mas também de retórica e argumentação. Será sempre um pouco difícil debater ou refutar um esquerdista se você não consolidar firmemente os fundamentos da “sua teoria” em sua ideia e não conseguir perceber o caminho da discussão. Veja só, percebi que aqui mesmo, no texto, existe uma pequena crença na crença (que pode ser totalmente verdadeira, parcialmente, ou totalmente falsa). Encontra-se no 8º parágrafo, com o autor dá o exemplo da crença na crença implícita. Vejamos:

    “Por exemplo, quando o esquerdista defende sua crença no estado, dizendo que é assim que “se fará a justiça social”, muitos direitistas caem no truque e dizem: “priorizar a justiça social é uma balela”. Qual a alegação política esquerdista que foi aceita de forma injustificada aqui? Simples: “a esquerda defende a justiça social, mas a direita não”.”

    Nesse ponto, o autor mostrou um erro de argumento e uma contradição: “a esquerda defende a justiça social, mas a direita não”, mas não detectou ou não apontou um outro ponto da crença que surge como uma Cavalo de Tróia, qual seria, o fato de que “O Estado não faz justiça social”. Ou seja, o que quero demonstrar aqui. A crença não está apenas no fato de que a direita não defende a justiça social, mas também de que, de fato a esquerda defende a justiça social. Nesse momento o direitista além de se mostrar contra a justiça social (por ser de direita) ainda aceita pacificamente o fato de que a esquerda faz justiça social. A argumentação aqui deveria partir do princípio básico de que: primeiro, a justiça social não é feita pela esquerda, trata-se de uma falácia, pois tirar dinheiro de quem produz e dar para quem não produz gera apenas mais pobreza e indignidade social; segundo, a direita faz sim justiça social, mas com justiça, não tirando dinheiro de uns e dando à outros, mas sim gerando riqueza.

    De fato a crença na crença é muito recorrente. Devemos prestar atenção não apenas na ideia ou ideologia em discussão mas também na forma do debate e que caminhos estamos seguindo.

    O ideal seria afirmar: “a esquerda e o socialismo nunca fizeram e nunca farão justiça social (refutada a ideia de que a esquerda faz justiça social), sempre trouxeram mais pobreza e miséria ao povo (desfecho). E a direita, capitalista e liberal, é tão boa e eficiente que, mesmo indiretamente, mesmo sem levantar essa bandeira, fez e sempre fará justiça social, deixando todos mais ricos e com mais dignidade social (corrigida a afirmação negativa e feita a defesa da tese e ideologia de direita). Devemos ficar atentos e prestar atenção nas afirmações ponto a ponto.

    Outro exemplo: “nós esquerdistas somos à favor da distribuição da riqueza e igualdade social, e você é contra ou à favor?”. Aqui percebe-se claramente o esquerdista pautando o debate fixando premissas e já limitando a resposta do debatedor.
    A resposta ideal: “vocês esquerdista nunca distribuíram riqueza nem realizaram igualdade social, vocês apenas tiram dinheiro de quem trabalha mais e dá pra quem não trabalha, trata-se de uma distribuição de pobreza e criação de desigualdade social. Nós somos à favor da criação de riqueza e da liberdade social”.

    E por ai…
    Saudações
    Sucesso!

    Ps: ESCREVI MUITO, PEÇO PARA NÃO ACEITAR. Fique à vontade para responder por e-mail.

  2. E impressionante como as nossas crenças nos traem sem percebermos e, o quanto o seu trabalho especializado nos ajuda a refletir sobre nos mesmos em termos do modelo de criaçao mental determinante e, todo o complexo de ideias, pensamentos e sentimentos refletindo em nossas palavras e açoes. A cada leitura aprimora-se a visao e isto e crucial para a neo mentalidade em formaçao. Por fim, creio que isto e o começo da verdadeira revoluçao, uma transformaçao intima e pessoal, que inspire a muitos a pensar mais alem das “verdades conhecidas”. Muito obrigado.

  3. Perfeito. Por isso, não alivio mais. Detono. Ah, mas o PT fez pelos pobres o que nunca ninguém tinha feito!
    Fez, sim. Distribuiu esmolas que tem alto custo e são um “vôo de galinha”, que no médio prazo vai fazer água, não existe almoço grátis. Investir em EDUCAÇÃO (de verdade, não esse refeitorio onde ë feito um proselitismo barato que, na vida real, nao serve para nada. Basta ver a compreensao de texto que o aluno saido do ensino medio apresenta) E SANEAMENTO!

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