Serão as leis de mídia uma “doença infantil do esquerdismo petista”? O problema é que eu não nasci ontem…

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O ano de 2013 (mais propriamente no dia 26/12) encerrou-se com uma trinca de textos que mostram que temos muitos, mas muitos motivos para nos preocuparmos com a censura de mídia.

O primeiro dos textos vem de Eugênio Bucci, que foi dirigente da estatal, Radiobrás (Empresa Brasileira de Comunicação S.A.), na época do governo Lula. O texto é intitulado “Dos que tanto amam odiar a imprensa”, publicado em 26/12 no Estadão:

Primeiro, eles acusavam a imprensa de ser um “partido de oposição” e pouca gente se incomodou. A acusação era tão absurda que não poderia colar. Numa sociedade democrática, relativamente estável e minimamente livre, os jornais vão bem quando são capazes de fiscalizar, vigiar e criticar o poder. O protocolo é esse. A normalidade é essa. Logo, o bom jornalismo pende mais para a oposição do que para a situação; a imprensa que se recusa a ser vista como situacionista nunca deveria ser atacada. Enfrentar e tentar desmontar a retórica do poder, irritando as autoridades, é um mérito jornalístico. Sendo assim, quando eles, que se julgavam aguerridos defensores do governo Lula, brandiam a tese de que a imprensa era um “partido de oposição”, parecia simplesmente que os jornalistas estavam cumprindo o seu dever – e que os apoiadores do poder estavam simplesmente passando recibo. Não havia com o que se preocupar.

Depois, as autoridades subiram o tom. Falavam com agressividade, com rancor. A expressão “partido de oposição” virou um xingamento. Outra vez, quase ninguém de fora da base de apoio ao governo levou a sério. Afinal, os jornais, as revistas e as emissoras de rádio e televisão não se articulavam nos moldes de um partido: não seguiam um comando centralizado, não se submetiam a uma disciplina tipicamente partidária, não tinham renunciado à função de informar para abraçar o proselitismo panfletário. Portanto, acreditava-se, o xingamento podia ser renitente, mas continuava sendo absurdo.

Se os meios de comunicação tivessem passado a operar como partido unificado, com o intento de sabotar a administração pública, o que nós teríamos no Brasil seria um abalo semelhante ao que se viu na Venezuela em 2002. Ali, houve um conluio escandalosamente golpista dos meios de comunicação que, por meio de informações falsificadas, tentou derrubar o presidente Hugo Chávez, eleito democraticamente havia pouco tempo. Por fortuna, a quartelada mediática malogrou ridiculamente. Por escassez de virtú, Chávez passaria todo(s) o(s) seu(s) governo(s) se vingando das emissoras que atentaram contra ele.

Discurso autoritário

No Brasil, não tivemos nada parecido. Nossa imprensa, convenhamos, é preponderantemente de direita e, muitas vezes, apresenta falhas de caráter, algumas inomináveis, mas nunca se perfilou com a organicidade de um partido político. Por todos os motivos, a acusação continuava sem pé nem cabeça.
Mas o fato é que começou a colar e o cenário começou a ficar esquisito. Agora, as inspirações até então submersas daquela campanha anti-imprensa afloram com mais nitidez. Era um recurso para dar tônus à disposição dos cabos eleitorais (de muitos níveis), para inflar o ânimo dos militantes de baixo e para inflar o ego dos militantes de cima. Agora, chegamos ao ponto de dizerem que os repórteres deram de ombros para a cocaína encontrada no helicóptero da família do senador Zezé Perrella (PDT-MG) porque ele, embora esteja filiado a um partido da base governista, teria lá suas inclinações consideradas pouco fiéis. Difícil saber.

As mesmas vozes acusam os mesmos repórteres de terem exagerado na cobertura do julgamento do mensalão. Na falta de uma oposição de verdade que pudesse servir de vilã cruel, na falta de um satanás mais ameaçador para odiar (a “herança maldita” de FHC não funciona mais como antagonista imaginária), querem fazer valer essa ficção ufanista de que o País vai às mil maravilhas, só o que atrapalha a felicidade geral é esse maldito partidarismo da imprensa. A tese pode ser doidona, mas está funcionando. Alguns quase festejam: “Viva! Achamos um inimigo para combater! Vamos derrotar os editores de política deste país!”.
Deu-se, então, um fenômeno estranhíssimo: as forças instaladas no governo, como que enfadadas do ofício de governar, começaram a fazer oposição à imprensa. Dilma Rousseff jamais embarcou na cantilena, o que deve ser reconhecido e elogiado, mas está cercada de profetas que veem em cada redator, em cada fotojornalista, uma ameaça ao equilíbrio institucional.

A oratória petista depende de ter um antagonista imaginário. Sem isso, parece que não para mais de pé. Sim, temos aí um traço de discurso autoritário. Em todo regime autoritário ou totalitário, a figura mais essencial é a do inimigo. Para os nazistas, esse inimigo estruturante foram os judeus. Para o chavismo, foi o imperialismo, encarnado por Bush, que teria cheiro de enxofre. E mesmo Bush só conseguiu salvar seu mandato do fiasco porque lhe caiu no colo o inimigo chamado terrorismo. É claro que não se pode dizer que o PT atualmente se reduza a um discurso tropegamente autoritário, mas as feições autoritárias e fanatizantes desse discurso vão ganhando densidade a cada dia. Não obstante, está assentado em bases fictícias, completamente fictícias.

Ponto de bala

Vale frisar este ponto: sem um inimigo para chamar de seu, esse tipo de ossatura ideológica se liquefaz. O que seria dos punhos cerrados dando soquinhos no ar sem o auxílio luxuoso do inimigo imaginário? O que seria dos sonhos de martírio em nome da causa? O que seria das fantasias heroicas e do projeto ambicioso de virar estátua de bronze em praça pública?

Foi aí que a imprensa entrou no credo. Na falta de outra instituição disposta a não se dobrar ao poder, disposta a desconstruir os cenários grandiloquentes armados pelas autoridades, eles encontraram na imprensa a sua razão de viver e de guerrear. Só assim, só com seu inimigo imaginário bem definido, esse discurso encontra seu ponto de equilíbrio: ficar no poder e ao mesmo tempo acreditar – e fazer acreditar – que está na oposição, que combate um mal maior. Seus adeptos, que imaginam odiar a imprensa sem se dar conta de que a temem, agarram-se à luta com sofreguidão. Estão em ponto de bala para o ano eleitoral de 2014.
Mesmo assim, feliz ano-novo.

Tirando uma série de delírios (como a teoria da conspiração de que a mídia venezuela conspirou contra Chavez, apenas para justificar que o ditador bolivariano tenha implementado censura posteriormente, além de dizer que a imprensa no Brasil é de direita, mesmo que só tenha espaço para 5 ou 6 colunistas de direita, junto com uns 500 ou 600 de esquerda), há pontos muito interessantes no texto de Bucci, como a noção de que o ataque feito pelo PT é injustificado.

Claro que ele tenta nos enrolar dizendo que tudo isso não passa da “busca de um inimigo”. Será mesmo que um partido político tão matreiro como o PT iria ser vítima de uma armadilha mental desse porte? Ou então o PT não demoniza deliberadamente a imprensa, da mesma forma que Chavez fez com a imprensa venezuela, para tentar obter uma justificativa moral para censurá-la?

Ou seja, mesmo em textos que criticam a campanha de demonização de imprensa feita pelo PT, temos uma série de armadilhas intelectuais das quais devemos nos desvencilhar.

A extrema-esquerda ficou irritadíssima com o texto de Bucci, e um de seus militantes mais fogosos, Gabriel Priolli, respondeu no mesmo dia (26/12) com o artigo “A Imprensa de Lado”:

Eugenio Bucci contesta hoje [26/12] no Estadão a ideia de que a imprensa atua como “partido de oposição”. Argumenta que essa ideia não causava preocupações enquanto parecia restrita a defensores irracionais dos projetos petistas, mas começa a tomar proporções preocupantes, agora que o próprio governo e lideranças do PT ecoam a mesma crítica.

“Numa sociedade democrática, relativamente estável e minimamente livre, os jornais vão bem quando são capazes de fiscalizar, vigiar e criticar o poder. O protocolo é esse. A normalidade é essa”, diz Eugenio, expressando o credo básico do jornalismo liberal. “Logo, o bom jornalismo pende mais para a oposição do que para a situação; a imprensa que se recusa a ser vista como situacionista nunca deveria ser atacada”, julga ele.

“Nossa imprensa, convenhamos, é preponderantemente de direita e, muitas vezes, apresenta falhas de caráter, algumas inomináveis, mas nunca se perfilou com a organicidade de um partido político”, observa Eugenio. Para ele, a imprensa não se articula nos moldes de um partido porque não segue comando centralizado, não se submete à disciplina que os partidos impõem aos filiados e não renunciou à função informativa “para abraçar o proselitismo partidário”.

Bucci acredita que a crítica ao partidarismo da imprensa está assentada “em bases fictícias, completamente fictícias”. Mas ela cumpriria uma função política. “Na falta de uma oposição de verdade que pudesse servir de vilã cruel, na falta de um satanás mais ameaçador para odiar (a ‘herança maldita’ de FHC não funciona mais como antagonista imaginária), querem fazer valer essa ficção ufanista de que o País vai às mil maravilhas, só o que atrapalha a felicidade geral é esse maldito partidarismo da imprensa”.

Confesso que sinto um considerável desconforto quando vejo Eugenio se referir ao petismo com essa alteridade impossível para quem, como ele, foi militante do PT a vida toda e funcionário em elevado cargo de confiança no Governo Lula. Mas o que interessa são os argumentos do colega e amigo, e se discordo deles, cabe rebatê-los.

Imprensa retrógrada

Primeiramente, observo que a imprensa não é criticada por converter-se formalmente em partido político, algo que, mesmo querendo, lhe seria impossível. A imprensa é criticada por agir partidariamente, por ter como único foco de crítica o PT e sua aliança governista federal, e por pautar o discurso e as ações dos partidos de oposição contra o governo petista. Desde Lula e agora sob Dilma.
Estão de tal forma sincronizados o noticiário da imprensa e as iniciativas do conglomerado PSDB-DEM-PPS, ambos alimentando-se mutuamente, que é dispensável qualquer organicidade partidária da mídia. Na verdade, mídia e oposição são faces inextrincáveis da mesma moeda, não existem mais separadamente. Fazem as mesmas críticas e defendem o mesmo receituário para os problemas do país, a ponto de certos parlamentares converterem-se em meros ventríloquos de conceitos exarados em editoriais e colunas de opinião. Ou vice-versa.

Mas é no plano estadual e municipal que se observa melhor como o empenho fiscalizador da imprensa aplica-se tão somente a gestões do PT. Erundina, Marta, Benedita, Olívio, Tarso, Jacques Wagner, qualquer governante petista sempre enfrenta o máximo rigor no julgamento de suas ações. Agora mesmo, Haddad está sob intenso fogo de barragem.

Já para os governos tucanos ou assemelhados, o que a imprensa oferece é pouca cobrança e muita condescendência. Haja vista tão somente o caso do Cartel do Metrô, falcatrua que envolve valores dez vezes maiores que o Mensalão, mas que está longe de ser tratada como “o maior escândalo de corrupção do pais”. Aliás, está longe de ser minimamente noticiada.

É nítido e insofismável que a imprensa opera com dois pesos e duas medidas. Que demoniza governos populares, mas não governos conservadores. Que carrega nas tintas e dramatiza qualquer irregularidade que envolva petistas, mas diminui, relativiza ou esconde os “malfeitos” de opositores dos petistas. Que não perde a menor oportunidade de jogar no colo do PT problemas que não foram criados por ele, como ocorre nesse instante, na cobertura da Máfia dos Fiscais paulistanos.

Portanto, são reais, completamente reais, as bases da cobrança ao “partidarismo” da imprensa. Não se trata da doença infantil do esquerdismo manifestando-se contra uma valorosa ferramenta da democracia, senão da ressurgência e agravamento da doença crônica do sectarismo na mídia, comprometendo a própria saúde da democracia.

O Brasil não vai às mil maravilhas, certamente, embora haja muito do que ufanar-se, nas conquistas de anos recentes. Mas o país não consertará seus problemas nem avançará com o auxílio dessa imprensa parcial, manipuladora e retrógrada, que sabe ser muito combativa quando lhe interessa e frequentemente omissa quando interessa a toda a sociedade.

Em 20 de novembro de 2013, eu publiquei o texto As evidências de que tudo o que o PT diz sobre a mídia é mentira deslavada, neutralizando praticamente todo o conteúdo de Priolli. Todas as afirmações em que ele diz que o PT é prejudicado pela mídia são mais falsas que os prédios derrubados pelo Godzilla na antiga série japonesa.

Ethevaldo Siqueira, que se diz “amigo de ambos”, trouxe o texto “A doença infantil do esquerdismo antimídia:

Li Eugênio Bucci no Estadão de hoje [quinta-feira, 26/12] e Gabriel Priolli em seu blog. Considero-me amigo de ambos e não tenho por que fazer nenhum ataque pessoal – como é regra geral deste Facebook. Confesso-lhes que me irrita profundamente os ataques sistemáticos que a esquerda brasileira – em especial o PT e seus aliados – faz à chamada “grande mídia”, acusada de ser um partido de oposição ou, pior, de um partido “golpista”.

Bucci diz com grande dose de acerto que, no Brasil, nossa imprensa, “é preponderantemente de direita e, muitas vezes, apresenta falhas de caráter, algumas inomináveis, mas nunca se perfilou com a organicidade de um partido político”. Eu acrescentaria: “como em qualquer outro país do mundo”. E perguntaria: “Que esperar da maioria da mídia de um país de economia capitalista? Que fosse de esquerda?”

A rigor, a grande mídia não é “de direita”, do ponto de vista ideológico, mas, sim, “conservadora” – como nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra, no Japão e na maioria esmagadora dos países. Nos Estados Unidos, a mídia mais conservadora se alinha aos governos republicanos. A menos conservadora, lá chamada de “liberal” (designação que, nos Estados Unidos, define as posições reformistas e mais à esquerda) apoia majoritariamente os governos democratas, ou seja, do Partido Democrático.

E vale notar que, historicamente, aqueles que sempre se opuseram aos conservadores são chamados de liberais – exatamente no sentido que esses partidos e seus seguidores têm nos EUA ou na Inglaterra. Outra coisa completamente diferente é o liberalismo econômico.

Doença infantil

Há no Brasil uma esquerda hidrófoba que realmente destila ódio contra a mídia brasileira e ameaça com frequência submetê-la ao “controle social”. Não considera ainda que as redes sociais da internet – num país com mais de 100 milhões de internautas – começam a ter um peso significativo, embora ainda aos trancos e barrancos, grupos de esquerda e tropas de choque sabidamente pagas para difamar, caluniar e demonizar todos os que denunciam a corrupção nos governos petistas. É claro que há honrosas exceções, entre portais e blogs de qualidade.

Um argumento de Gabriel Priolli é significativo ao dizer que “somente o caso do Cartel do Metrô, falcatrua que envolve valores dez vezes maiores que o Mensalão, (…) está longe de ser tratada como “o maior escândalo de corrupção do pais” – assim como “está longe de ser minimamente noticiada”. Uma coisa não justifica a outra, Gabriel. E um escândalo não se mede pelo valor do dinheiro público desviado. Seja de R$ 150 milhões como o mensalão ou de supostos R$ 900 milhões como o da Siemens-Alstom-PSDB.

O ex-secretário nacional de Justiça do governo Lula, Romeu Tuma Júnior, tem posição mais equilibrada do que a maioria dos petistas e tucanos que eu conheço. Leiam seu livro – Assassinato de Reputações – e reflitam nas acusações que ele faz à politização da Polícia Federal e ao próprio Ministério Público. Essas duas entidades – diz Tuma Jr. – têm alas petistas e tucanas que acabam engavetando denúncias contra medalhões seus líderes, como exatamente, ocorreu no caso do escândalo dos trens paulistas.

Estou terminando de ler o livro de Tuma Jr. Assim que finalizar a leitura, prometo fazer uma resenha sobre seu conteúdo. Antecipo apenas uma opinião de caráter geral a todos aqui: acho que petistas e tucanos devem lê-lo e levar em conta as denúncias, os fatos e as situações vividas pelo policial.

E não estou discutindo as mais desmoralizantes referências que ele faz contra o Barba – apelido de Lula nos tempos do Dops, em que, segundo Tuma, o líder sindical de São Bernardo foi o grande informante da polícia política, nos tempos da ditadura. Acho que a palavra está agora com Lula para defender-se. Não estou discutindo a execução do prefeito Celso Daniel, de Santo André, em 2002 – que Tuminha atribui como estudioso do processo policial ao PT. Aliás é estranho que os petistas honestos – que os há, creio – não busquem a verdade a fundo nesses crimes políticos, da eliminação de Celso Daniel e de Toninho de PT, prefeito de Campinas.

Como se compõe a mídia?

A esquerda não percebe a diversidade da mídia brasileira – que não se compõe apenas de jornais, revistas, rádios e TVs – aí incluídos os maiores veículos, como Folha de S. Paulo, Estadão, O Globo, Veja e Época, redes de TV, como Globo, Band, Record, SBT, RBS e outras – mas também revistas como posições muito diferentes, como Carta Capital, e revistas mais governistas como Carta Capital, ou independentes IstoÉ, como Piauí, Brasileiros, e veículos nanicos chapas-brancas, sustentados por partidos de esquerda ou publicidade estatal, como Vermelho, dois blogs famosos de coleguinhas nossos 22 emissoras públicas de TV, estatais, educativas e mais de 3.000 emissoras de rádio com as opiniões mais diversificadas, controladas majoritariamente, por políticos governistas, espalhadas pelo País. Que “pensamento único” poderá unir essa fauna tão diversa?
E notem que as 3.000 emissoras de rádio brasileiro (AM e FM) entram em rede nacional obrigatória toda noite, de segunda a sexta-feira, das 19 às 20 horas (horário de Brasília), no melhor estilo fascista do do Estado Novo, com um programa obrigatório de noticiário puramente chapa branca, governamental, criado em 1935.

Discordo de forma total mas com o maior respeito dos dois últimos parágrafos do artigo de Gabriel Priolli (ver aqui). Ele diz que “são reais, completamente reais, as bases da cobrança ao “partidarismo” da imprensa.” E nega que se trate “da doença infantil do esquerdismo manifestando-se contra uma valorosa ferramenta da democracia, senão da ressurgência e agravamento da doença crônica do sectarismo na mídia, comprometendo a própria saúde da democracia”.
Quem tem sido mais sectário do que os críticos da mídia, inconformados com a denúncia de corrupção dominante nos governos petistas? Isso é, sim, a doença infantil do esquerdismo, que fecha os olhos a tudo que a mídia diz contra o governo. Prefiro dar mais crédito ao que dizem a ex-petistas, como Hélio Bicudo – o advogado que enfrentou o Esquadrão da Morte. Ou o próprio Eugênio Bucci, que conheceu por dentro os critérios políticos e éticos do governo Lula, na área da comunicação.

Eterna desculpa

Priolli diz que “o Brasil não vai às mil maravilhas, certamente, embora haja muito do que ufanar-se, nas conquistas de anos recentes”. Essa é toda a avaliação do Brasil depois de 12 anos de governos petistas?

Eu gostaria que meu colega e jornalista dissesse que temos os muita corrupção, uma política tributária escorchante que nos leva quase 40% do PIB (equivalente às da Escandinávia) e nos devolve serviços públicos de padrão africano. Uma educação das piores do mundo. Saúde pública que desespera milhões. Transportes públicos que degradam e rebaixam o ser humano ao nível de animais. Segurança pública que apavora o cidadão honesto e trabalhador. Uma burocracia que destrói a competitividade nacional. Precisa mais?

Por que não estudar, não ler, não analisar os dois lados da história, não dizer toda a verdade? Dessa forma, não ficaremos nas mãos da imprensa que “relativiza ou esconde os malfeitos dos opositores dos petistas” – como diz Priolli.

Um de meus desafios a petistas e tucanos é simplesmente este: Vamos apurar a fortuna pessoal de todos os ex-presidentes e ex-governadores? A começar de Collor, Sarney, FHC e Lula. Mas é preciso ir a fundo nessa apuração, inclusive em parentes até terceiro grau e “laranjas” conhecidos?

Vamos exigir a apuração rigorosa de todos os escândalos dos trens paulistas, da fortuna do Lulinha, dos donos do Friboi, do mensalão tucano. Tudo isso para que ninguém contraponha sentenças do STF decididas por maioria, numa corte com 9 ministros escolhidos por governos petistas.

Que tal, amigos. Vamos acabar com essa eterna desculpa de dizer que a culpa é da imprensa, aliás, como todos os governos corruptos fazem? Ou que “eles também fazem o mesmo”. Ou “não roubamos para nosso bolso, mas fizemos apenas caixa-2 para nosso partido, nosso projeto de poder”.

Talvez por Ethevaldo Siqueira ser “amigo de ambos” (Bucci e Priolli), sua crítica é capaz de ao mesmo tempo demonstrar os erros de Priolli, como também manter os leitores anestesiados em relação aos problemas mais perigosos.

Claro que não posso deixar de ignorar a mentira deslavada de Siqueira ao dizer que a mídia é, em geral, “conservadora”. Como sempre, eles não são capazes de demonstrar um critério científico, junto a posteriores evidências, para justificar suas alegações. Por exemplo, uma mídia que demoniza o Papa, enquanto endeusa Jean Wyllys, é “conservadora” sob quais critérios?

O problema mais perigoso, no entanto, é que, assim com Bucci, Siqueira fala de uma “doença infantil” do PT quando este tenta censurar a mídia.

É preciso de uma ingenuidade sem igual ou de uma desonestidade maquiavélica para usar este tipo de discurso. Como é que um fraudador pode ser culpado de “ingenuidade” por escolher um conjunto de fraudes que o beneficie? Seria esta a “doença infantil” dos fraudadores? Se há uma “doença infantil” a ser corrigida, esta se encontra nas vítimas dos fraudadores, oras.

Isto é, mesmo na hora de criticar os ataques do PT à mídia, Bucci e Siqueira tratam seus leitores como crianças, usando a tática da redução de dano: isto é, se não dá para negar o crime principal dizendo que o PT quer censurar a mídia, então a onda agora é tentar convencer o leitor de que isso é um “erro lógico” ou um “engano infantil” do governo. Ao contrário: é uma artimanha muito bem elaborada para a manutenção da posse do estado inchado.

Vamos aos fatos. Manter o poder em um estado inchado, para esquerdistas beneficiários, é a melhor coisa do mundo. O problema é que o socialismo, quando implementado (mesmo que parcialmente), esmaga o país, sua competitividade e, em comparação com outras nações mais desenvolvidas, veremos de maneira mais nítida o impacto negativo trazido pelo socialismo. Por isso, mesmo que para continuar destruindo o país, é preciso de “um pouco mais de tempo” por lá, para sugar o que resta, como vemos ocorrer com Venezuela e Argentina. Para isto, é preciso que a população tenha a percepção sobre a situação do país completamente turvada, e, então, é preciso controlar a mídia.

Quer dizer, se há “doença infantil” isso se encontra nas vítimas do que jogam este jogo de censurar a mídia, e não dos jogadores. Se este é o nível de debate sobre a questão da censura de mídia, então a coisa está mais feia do que parece.

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6 COMMENTS

  1. Luciano percebo que esta adquirino um estilo próprio de escrita . Uma marca sua é sobretudo quando voce diz ” Isso é mais falso que … ” Exemplos: Mais falso que orgasmo de prostituta , que mestruação de travesti , que a sensualidade da Hortência na Playboy e agora mais falso que os prèdios do Godzilla! Hueheueheueeheueheeu

  2. Luciano.

    Temos de ficar triplamente espertos a respeito disso my friend.

    O movimento revolucionário está determinado a impor, goela abaixo da sociedade, o controle da mídia e da internet com o tal marco civil.

    O caso do Miguel Nagib (Escola sem Partido) é um exemplo do perigo oriundo do nosso próprio Poder Judiciário aparelhado com juízes ideologicamente engajados.

    Temos de divulgar ao máximo as informações dessa natureza para alertar os incautos. Principalmente agora com o advento do Carnaval e da Copa do Mundo a população em geral tende a perder o foco da realidade.

    Luciano continue sempre assim, com seu excelente trabalho e bom combate.

    Abraços.

  3. O Gregório Duvivier publicou um artigo na Folha com várias informações falsas sobre a Igreja Católica. Agora que seria um ótimo momento para processá-lo e a Folha de São Paulo no pólo passivo com pedido de resposta e indenização, muito provavelmente ninguém vai fazer. Escreve um artigo sobre isso aí.

  4. Oi Luciano.

    Aproveito para divulgar artigo jornalístico importante, e a meu ver relevante e pertinente a esse seu post.

    Publicado no http://midiasemmascara.org por Percival Puggina.

    http://www.midiasemmascara.org/artigos/governo-do-pt/14843-as-autoridades-da-republica.html

    Às autoridades da República!

    Escrito por Percival Puggina | 13 Janeiro 2014
    Artigos – Governo do PT

    [ As denúncias são graves e, se verdadeiras, descortinam a gênesis de um Estado policial e totalitário. Há crimes noticiados no livro. E o de prevaricação não me parece o maior deles. ]

    [ Num Estado de Direito, os fatos descritos exigem investigação e cabal esclarecimento. ]

    Excelências. Li, de capa a capa, o volumoso livro de Romeu Tuma Júnior que leva o sugestivo título “Assassinato de reputações”. A obra ganhou uma espécie de lançamento nacional através da revista Veja, no início de dezembro último, e consta entre as mais vendidas no país. Presumo, por isso, que milhares de cidadãos a estejam lendo. Assim como eu, hão de estar perplexos e alarmados com as denúncias que faz.

    É na condição de cidadão que redijo esta carta. Parece-me conveniente fazê-lo assim, aberta, para tornar pública a inquietação da maioria dos leitores que já percorreram as exaustivas páginas desse livro. Dirijo-a às autoridades porque são várias as que podem agir neste caso. Não alinharei, aqui, as acusações e denúncias descritas em “Assassinato de reputações”. De um lado porque muito pouco sei sobre o autor e, como simples cidadão, não tenho como averiguar a autenticidade do que dele se diz e do que ele relata. De outro, porque a honra alheia não encontra em mim alguém disposto a assassiná-la. A prudência exige que sobre ela só se emita juízo público negativo após sentença transitada em julgado.

    No entanto… milhares estão lendo esse livro. Como eu, se fazem perguntas civicamente inquietantes. Por que persiste, decorrido um mês inteiro de seu lançamento, o perturbador e coletivo silêncio de quantos deveriam agilizar-se para contestá-lo? Por que, mais grave ainda, as próprias instituições tão fortemente atacadas e apontadas como objeto de aparelhamento político-partidário não bradam em sua própria defesa? As denúncias são graves e, se verdadeiras, descortinam a gênesis de um Estado policial e totalitário. Há crimes noticiados no livro. E o de prevaricação não me parece o maior deles.

    Em meio ao inquietante silêncio de quem deveria falar, as solitárias reações que encontro ao explosivo texto são disparos laterais dirigidos ao seu autor, que se apresenta, na obra, como uma das vítimas dos assassinatos em série que menciona. Convenhamos que desacreditar o livro com uso do argumentum ad hominem, mediante ataque pessoal ao autor, não é satisfatório ou suficiente ante a torrente de denúncias que formula, relatando episódios que diz ter pessoalmente vivido. Aos cidadãos brasileiros interessa saber se o que está dito no livro é verdade ou não. E quais as providências adotadas por quem as deve adotar. Inclusive contra o autor se for o caso. Num Estado de Direito, os fatos descritos exigem investigação e cabal esclarecimento. Não podem ser varridos para baixo do espesso tapete do tempo. Não são, também, prevaricação, o silêncio de quem deveria falar e a omissão de quem deveria agir?

    Bem sei que a promiscuidade entre as funções de governo e as de Estado decorre do vício institucional que as vincula ao mesmo centro de poder. Nosso lamentável presidencialismo faz isso. É tentador, nele, confundir os espaços partidários (por isso provisórios) próprios do governo, com os espaços permanentes (e por isso não partidários) da administração pública e do Estado. No entanto, por mais que o modelo favoreça o aparelhamento das instituições, não é aceitável a ideia de que vivemos num país onde algumas delas servem para investigar ou não investigar, dependendo do lado para onde sopra o vento das más notícias. Gerar dossiês por encomenda política é coisa de Estado policial, totalitário.

    Publicado no jornal Zero Hora.

    http://puggina.org

    Abraços.

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