Deputada venezuelana cassada dá um show de consciência política a ser assimilada pela parte da direita que adota o direitismo depressivo

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mariacorina

Sempre é bom lembrar o que significa o direitismo depressivo, termo criado por este blogueiro que vos escreve.

Direitismo depressivo é a condição do discurso político de uma pessoa da direita que assume um padrão de composto de propaganda de inevitabilidade para o adversário (ou seja, o adversário de esquerda sempre tem a vitória garantida quando e da forma que quiser), que serve como racionalização para um pedido por intervenção militar que, inevitavelmente, serve como mais uma propaganda não intencional para ajudar a esquerda.

Dentro dessa ótica, o direitista depressivo opera em um continuum no qual seus discursos se baseiam em racionalizações para

  • (a) Dizer que a esquerda sempre terá a vitória garantida e sempre se tornará invencível se jogarmos em termos democráticos
  • (b) E, portanto, os militares precisam intervir

Quando (b) é refutado, o discurso (a) é propagado cada vez com mais força (e com mais arrogância), sempre para prover a racionalização para (b). O direitista não percebe, no entanto, que (a) significa a aplicação da técnica da inevitabilidade (ou seja, demonstrar que o objeto sob propaganda é “inevitável”), só que em favor do adversário, e (b) significa outra propaganda dizendo que “democracia” é o rótulo da esquerda, e que, portanto, não deve ser atribuído à direita.

O direitismo depressivo, avaliado politicamente, chega a ser tão absurdo que parece até ter sido contratado pela esquerda.

De maneira diametralmente oposta, a deputada venezuelana (não sei se é de direita ou de esquerda moderada) Maria Corina Machado compõe uma antítese do discurso do direitismo depressivo. Veja a matéria da Folha:

A deputada cassada da Venezuela María Corina Machado disse nesta quinta-feira em São Paulo que a mudança política na Venezuela é irreversível e acusou o governo do presidente Nicolás Maduro de ser o único responsável pela violência.

“Nós não queremos a guerra civil, são eles que se interessam pela violência. Nosso movimento é pacífico e, só com a nossa voz, conseguimos que a transição política se torne irreversível”.

A entrevista foi feita após um encontro com 70 venezuelanos que moram na capital paulista. Ela não quis comentar sobre as declarações do chanceler Luiz Alberto Figueiredo sobre a mediação da Unasul, negando que o órgão tenha a intenção de interferir em assuntos internos do país.

No entanto, criticou os países sul-americanos por não terem aplicado a carta democrática da OEA, como foi feito no caso de Honduras e do Paraguai quando houve a saída de Manuel Zelaya e Fernando Lugo.

María Corina Machado deve voltar para Caracas na madrugada de sábado. Amanhã, ela se encontrará com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no Palácio dos Bandeirantes.

A líder opositora deverá voltar ao Brasil em duas semanas para uma audiência pública na Câmara de Deputados. Ela foi convidada pelo presidente da Comissão de Relações Exteriores, Eduardo Barbosa (PSDB-MG).

OVACIONADA

Por volta das 19h, Corina se reuniu com seus conterrâneos em um hotel na avenida Paulista, que a receberam sob o grito de “valente”.

Ela disse ter ficado emocionada com a recepção no Congresso, na quarta (2). “Enquanto em um dia a Guarda Nacional me impediu de entrar na Assembleia Nacional do meu país, aqui me receberam de pé e me aplaudiram.”

Em seguida, pediu aos imigrantes que levem os motivos dos protestos à população do Brasil, considerado por ela o país mais importante para entregar a mensagem dos manifestantes.

E brincou sobre o papel dos venezuelanos no mundo. “Vocês são tão nossos embaixadores como eu sou deputada.”

“Hoje temos uma tarefa histórica a fazer. Vamos fazer uma transição pacífica e todos poderão voltar. Não há lugar melhor no mundo para essas crianças crescerem”.

O encontro foi encerrado com o hino nacional venezuelano e com fotos entre a deputada e os venezuelanos, que, em sua maioria, usavam bandeiras ou roupas com a cor do país.

Enfim, Corina diz que a transição política na Venezuela é irreversível, e que suas ações fazem parte de um momento histórico.

Ao dizer que a opção pelo lado que ela defende é “irreversível”, ela demonstra a confiança e combatividade que a opinião pública espera de qualquer lado da guerra política. E, segundo Horowitz, o lado mais combativo (e confiante em sua vitória) tende a prevalecer.

É claro que o governo de Nicolas Maduro está mais pra lá do que pra cá, e eles passam verdadeiros apuros políticos. E também é verdade que a censura na Venezuela é muito mais severa do que no Brasil.

Enquanto isso, os direitistas depressivos, no Brasil, dizem que “está tudo acabado, está tudo dominado (pelo PT)” e, portanto, “nada mais há para ser feito”, compondo o continuum de que falei deste tipo de discurso. Imagino se um direitista depressivo desses estivesse na Venezuela. Será que ele passaria a dizer apenas “estamos mortos”?

É claro que o discurso de Corina é politicamente muito mais consciente do que o discurso dos direitistas depressivos. O fato é que Corina fala para obter resultados, enquanto os direitistas depressivos destroem resultados (e constroem resultados para os oponentes).

As palavras de Corina deveriam servir para envergonhar os direitistas depressivos. E, quem sabe, fazê-los aprender uma coisa ou duas.

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29 COMMENTS

  1. eu creio q a reação dos direitistas histéricos (os que luciano chama de direitistas depressivos) seja fruto de, pelo menos, 3 fatores:

    1- o marketing confiante dos psicopatas do PT, q mina a confiança dos direitistas:
    o q acaba levando direitistas para um caminho anti-democrático, sem q estes direitistas percebam q isso gera rótulos odiosos para eles mesmos, algo q a esquerda adora usar na guerra cultural.

    2- a contaminação, à longo prazo, pelo marxismo cultural implantado no brasil há décadas:
    a ponto de muitos direitistas se sentirem incapazes de resolver seus próprios problemas se não for por meio do estado ou das forças armadas.

    3- a própria cultura brasileira:
    q já trás em sua base um pessimismo e um desamparo. o q leva direitistas à optarem por intervenção imediata de uma força maior q os protejam.

    aqui fala john connor.

    • Cara, já disse, vc não é John Connor. O JC não fala essa besteira de ‘aqui fala john connor’. A franquia terminou quando saiu da mão do James Cameron, chamar aquele pateta do último filme de jc é uma blasfêmia.

      • A questão é que NÃO HÁ OUTRA ALTERNATIVA que não a guerra cultural. Os esquerdistas aprenderam isso HÁ MUITO MAIS TEMPO.

        É por isso que eles estão chegando ao poder com facilidade.

      • Guerra-cultural é uma besteira? A esquerTRALHA não acreditou nisso e, assim, está em franca vantagem no exercício do poder político no mundo todo.
        Ainda bem que Olavo de Carvalho ou David Horowitz também pensam o oposto do que você afirma. Por causa deles e outros poucos estamos revertendo implacavelmente a influência antes predominante dos revolucionários.

  2. Tirar Maduro do poder pelo voto? Com os superpoderes criados por Chavez e por ele mesmo? hmmmm, sei não. Eu tenho a firme convicção que Maduro vai escancarar geral e acabar com essa palhaçada de eleições, etc, já que Fidel faz isso há 50 anos e continua firme. E como na ilha dos Castro, na mesa dos poderosos não falta nada. Só que agora, quem está bancando a farra não é mais a Rússia, mas o Brasil!!!!

  3. Muito Corajosa essa mulher, sinto vergonha por não ter todo esse entusiasmo, na verdade não consigo enxergar uma chance de melhora nesse País,basta olhar para os próprios brasileiros, a maioria não está dando a minima,confesso que é perturbadora a sensação de solidão,parece que todos a sua volta estão anestesiados e você sem poder fazer nada, os esquerdistas estão em toda parte, e admiro seu empenho, Luciano, estou lendo seu blog ja faz alguns dias e acho muito interessante o conteudo postado aqui, e é disso que mais precisamos, de um “Brainstorming” ,trocar ideias e discutir melhores estratégias, mas por enquanto minha postura é de pessimismo ,infelizmente. só não me leve a mal por isso.

  4. Caro Luciano,

    Confesso que sou um “direitista depressivo”. Levarei em conta as suas críticas – muito pertinentes e construtivas, aliás – e tentarei mudar a minha postura. Mas o oposto, o “direitista maníaco”, totalmente eufórico e cheio de si, também não é o caminho (não me refiro a ninguém em especial). Nesse caso acho que vale o clichê: “entre o otimismo e o pessimismo, fico com o realismo”.

    Mas sinceramente, o meu “quê” de depressivo não se refere ao PT ou às esquerdas em geral; estes só estão no poder por causa de importante parcela do povo. Sim, acredito que o povo brasileiro, incluindo a sua elite, é composto por pessoas de mal caráter e baixíssimo nível. Basta trafegar de carro em qualquer capital para constatar isso ou ir a uma fila de supermercado. Ou então basta perder a carteira em algum lugar para ter noção de como é a maioria do povo (inclusive a classe média e alta). A estupidez, o mal-caratismo, a imoralidade no Brasil é extremamente democrática, não se importando com classe social, escolaridade, cor, sexo. Isso não se resolve com democracia nem com ditadura.

    E não estou falando dos outros apenas. Estou falando de mim também! Quantas vezes já “me peguei” jogando lixo na rua (bituca de cigarro), algo desprezível em países sérios como o Japão ou a Alemanha.

    Mas concordo contigo. As coisas sempre podem piorar (inclusive o que já é ruim), então não é pertinente ficar apenas com uma atitude passiva em relação aos fatos. De fato não existem “salvadores do mundo”, mas com certeza existem “destruidores” do mundo e estes tem que ser atacados e combatidos a todo custo.

    Abraço!
    Felipe

    • Felipe, acrescento duas coisas

      1. Tratar a sua vitória como inevitável é uma ação política. É a mesma que ser confiante na hora de abordar uma mulher. Isso faz a diferença.
      2. A cultura de um povo deve ser mudada pelos intelectuais orgânicos, que devem exercer INFLUENCIA sobre este povo. Eu entendo que criticar um povo por sua situação é como criticar os consumidores. Na verdade, somos nós que temos que convence-los que nosso produto é o melhor.

      Abs,

      LH

      • Não impede mesmo. Mas chegar dizendo que “não tem condições de ter a mulher” GARANTE QUE O CARA NÃO VAI COMER NINGUÉM.

        Em suma, temos uma estratégia que PODE DAR CERTO e outra que COM CERTEZA DARÁ ERRADO.

  5. A sua comparação dessa mulher com os ‘direitistas depressivos’ não vale por um motivo bem simples, sr direitista pollyana: na venezuela a merda é tanta que grande parte da população, incluíndo ex chavistas, já estão contra o governo. Se houvesse um golpe militar lá, como o que aconteceu aqui em 64, seria apoiado pela população. E se houve alguma força responsável pela mudança do povo, não foi guerra cultural nenhuma mas sim o povo sentido na pele a consequência da merda socialista se avolumando.

    O brasil também vai ter que chegar nesse ponto pra talvez melhorar alguma coisa.

    • Slaine,

      Sua racionalização não funciona por um único momento: qualquer governo só é tirado se os indicadores são ruins.

      Se houvesse um golpe militar lá, como o que aconteceu aqui em 64, seria apoiado pela população.

      Mas se eles começarem em público pedir golpe militar, perderiam o frame. Independentemente do que vai ou não ocorrer, eles escolheram frames corretos na Venezuela. é isso que tento explicar aos direitistas depressivos…

      Sr direitista pollyana

      Esse adjetivo não faz o menor sentido:

      1 – Quem demonstra confiança para conquistar uma mulher não está sendo “Polyanna”, mas agindo para OBTER UM RESULTADO.
      2 – Diante de situações críticas de guerra, é difícil dizer que COM CERTEZA o adversário vence. Ver este texto: http://lucianoayan.com/2013/11/02/por-que-a-direita-necessariamente-vai-vencer-a-guerra-politica/

      Ou seja, é um fato do mundo que a confiança da vitória, mesmo em momentos críticos, tem consequências FAVORÁVEIS ao seu resultado.

  6. As sociedade de direita política, conservadora(de valores) em sua maioria e também liberais tem que se manifestar. Sair ás ruas. Ter organização. Fazer protesto organizado e ter movimento estudantil nas universidades públicas.

  7. Luciano, o colunista do UOL, Ricardo Feltrin, afirma que o SBT cedeu à pressão do Governo (leia-se, do PT) e afastou Rachel Sheherazade. A se confirmar, podemos preparar uma lista de todos os anunciantes do SBT e pregar um boicote a eles até que ela seja readmitida e que eles denunciem abertamente a pressão. Isso é muito sério. Seria a prova de que já vivemos um bolivarianismo pleno.

    http://celebridades.uol.com.br/ooops/ultimas-noticias/2014/04/05/sbt-cede-a-pressao-e-afasta-rachel-sheherazade-do-ar.htm

    • É exatamente isso. A censura da esquerda tem que criar mártires para a direita.

      Com talento, isso pode ser usado contra o PT. Quer dizer que o partido censura alguém por defender a população de criminosos?

      A ideia de boicote é fundamental, e concordo contigo.

  8. O direitista depressivo trabalha para esquerda sem se dar conta, é um colaborados involuntário e inconsciente. Seu pessimismo “pega”, infecta as mentes, mas esse mesmo pessimismo pode ser devolvido à esquerda se mudamos de postura e tomamos atitudes.

    A essência do socialismo é o roubo: confisco de todas as propriedades da população para o Partidão, que por sua vez finge pertencer ao povo mas pertence a uma elite, composta pela cúpula dos movimentos esquerdistas, sindicatos etc.

    Chavez prometeu o paraíso ao povo venezuelano e Maduro, é claro, não poderá jamais cumprir essa promessa. Por isso o povo de lá saiu às ruas.

    Aqui deveríamos fazer o mesmo.

  9. Luciano, você viu o noticiário hoje sobre a Ucrânia? Pretensos rebeldes, que parecem tão suspeitos de ser manifestação espontaneamente popular como são os black blocs por aqui, proclamam república soberana na região de Donetsk, no extremo leste ucraniano. O presidente ucraniano em exercício acusa a Rússia de começar o segundo estágio de ação, enquanto os Estados Unidos pedem ao governo de Putin que pare com a desestabilização do país que foi vítima do Holodomor. Yulia Timoshenko diz que esses focos de desestabilização do país serão eliminados.
    Aqui está ficando bem evidente um método do eurasianismo que também foi usado há mais ou menos meia década na Geórgia: o fomento de regiões etnicamente russas para que se rebelem e criem países que só são reconhecidos pelos russos, como a Ossétia do Norte. Como sabemos, o governo russo não é nem nunca foi confiável em suas declarações, pois disse que iria parar após anexar a Crimeia, mas não é o que estamos vendo agora com essa região de Donetsk e a possibilidade de uma região de Moldova querer ser parte da Rússia. Há suspeitas de que esses pretensos rebeldes na realidade sejam russos pagos para fazer isso e que passariam ao mundo a impressão de um grande volume de gente querendo isso. E a dinâmica da coisa envolve basicamente o que Hitler faria (o tal “espaço vital” dos russos), mas por vias mais gramscianas (ao usar recursos indiretos).

  10. Pelo seu discurso, Corina é muito ingênua. A oposição otimista e ingênua da qual ela faz parte, provavelmente iludida pela palavra “Democracia”, permitiu a ascensão de Chávez. Apostar em vias democráticas quando já não há democracia, é no mínimo falta de percepção da realidade e esse é o maior favor prestado à esquerda.

    • Diego,

      Na verdade, QUALQUER UM, INDEPENDENTE DO CENÁRIO, terá obrigatoriamente que falar em nome da democracia. Esta não é uma opção. Esse é o erro da parte da direita que acha que desabafos contra a democracia são uma ação política.

      Abs,

      LH

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