Aperitivos da Guerra Política – IV – A ação política

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Venho por meio desta dizer que leitores de direita (ou do centro, ou até mesmo esquerda moderada) que frequentem este blog não são nem serão desrespeitados por causa de opiniões e argumentos honestos que estejam desfocados da realidade. Nunca serão, jamais serão.

Porém, confesso que me passam ideias mal educadas pela cabeça quando leio a seguinte argumentação: “Luciano, temos um grave problema que parece insolúvel: não temos um partido de direita que nos represente. Sem isso, não há um projeto eficiente de tomada de poder que dê certo.”

Gostem ou não, a análise histórica dos eventos políticos nos conta que tal tipo de raciocínio demonstra um equívoco em termos de como funcionam os atores na política. E por ator me refiro a qualquer tipo de agente que tenha algum tipo de ação. Isso inclui eu, você, os outros, quaisquer grupos de pessoas (organizadas ou não), partidos e o que valha.

Relembremos o que política significa: a capacidade do animal humano de obter benefício para si próprio ou seu grupo em conflito com outros indivíduos ou grupos a partir de interações não diretamente coercitivas. Quando essa capacidade é exercida em questões relacionadas ao estado, temos a política pública. A política pública é oficialmente executada pelos políticos profissionais e as entidades que os representam. Políticos profissionais, vinculados aos partidos, incluem vereadores, prefeitos, governadores, deputados, senadores, ministros e presidentes, dentre outros.

Seja lá como for, não é aí que a política é definida, mas na ação dos grupos sociais que não executam a política profissional, mas atuam fortemente na política pública. Aqui encontra-se qualquer tipo de organização de pessoas, ou mesmo indivíduos que, desbravadores, conseguem atuar fortemente como agentes de pressão em uma dada questão política. Vou além: a política não é apenas definida, como também decidida nas ações destes indivíduos/grupos, mais ou menos talentosos, motivados e/ou estratégicos.

É preciso reconhecer que a política é decidida a partir da ação política de indivíduos ou grupos que não fazem parte da política profissional, mas são capazes de influenciar e pressionar, num primeiro momento, e se aliar, posteriormente, a indivíduos e entidades da política profissional, que enfim podem fazer valer seus interesses.

A ação política é constituída de várias ações, que incluem:

  • Influência da opinião pública, a seu favor
  • Neutralização do poderio de seus oponentes
  • Pressão suficiente para forçar o surgimento de indivíduos e partidos dispostos a lutar por sua causa
  • Capacidade de visão estratégia, para elaborar alianças no momento certo
  • Tomada de posições estratégicas, de forma a multiplicar seu ponto de vista
  • E daí por diante

O exemplo mais acabado deste modelo é o do PT, partido que chegou ao poder em 2002, com a eleição de Lula. Porém, a ação política deles datava dos tempos da ditadura militar, a partir de sindicatos e movimentos sociais que se organizaram em prol de seus interesses.

Sei que eles não vão gostar do que vou escrever, mas são os fatos: os interesses desses políticos não-profissionais (presidentes de sindicatos, líderes de ONG’s, etc.) que influenciaram e posteriormente formaram o PT eram centrados em conseguir verba estatal. E se um partido tomasse o poder sustentado por esses políticos não-profissionais, estes últimos obviamente seriam recompensados.

Claro que seria ingenuidade de minha parte ignorar o fato de que várias demandas desses “grupos sociais” (como o Marco Civil recém-aprovado e a Censura de Mídia ambiciona, além de outras propostas abjetas) hoje em dia surgem de dentro do PT, que luta para nos fazer acreditar que são “demandas dos grupos sociais”. Mas também é verdade que no início da história petista, foram esses “grupos sociais” que determinaram os resultados futuros do PT. Foi a partir daí que o PT não apenas se formou, como sentiu-se pronto a conquistar poder a partir das demandas desses grupos.

Se hoje criticamos os petistas por causa de suas ideias e implementações imundas, basta lembrar que as ações políticas não-profissionais (que são as que decidem o jogo) que originaram o partido e o fortaleceram foram executadas de maneira estrategicamente exemplar por indivíduos e grupos capazes de jogar o jogo político. Enquanto isso, do lado das pessoas com uma visão de direita, passamos décadas assistindo a ação política da extrema-esquerda. No jogo dos atores não-profissionais da política, parece que ficamos décadas na arquibancada comendo pipoca, enquanto eles foram para o campo, treinando feito loucos e tentando aprender o máximo possível em termos do que fosse suficiente para vencer suas partidas.

Você pode até me questionar: “mas se esses agentes políticos não-profissionais tinham os piores interesses do mundo, mamando nas tetas do estado, você quer que tenhamos os mesmos interesses e motivações?”. É exatamente o contrário: eu escrevo para pessoas que tenham nojo deste tipo de ambição, mas que tenham como objetivo político viver em um país livre, sem ditadura e sem coerção. Ou seja, se você quer viver em um país livre, então tem uma ambição política totalmente diferente da deles.

Em termos futebolísticos, se eles são a Argentina, nós somos o Brasil. Se eles são o Vasco, nós somos o Flamengo. Somos rivais, simples assim. Só que eles tem entrado em campo para jogar, enquanto nós ficamos décadas esperando a morte chegar.

Reconheço que hoje em dia existe uma atuação de direita nas redes sociais, o que até me causa uma surpresa positiva. Eu não achava que teríamos tanta atuação na Internet em tão pouco tempo. Mas ainda é apenas o começo.

Uma das coisas que devemos evitar é reclamar da ausência de um partido de direita que nos represente (ou mesmo de um partido de esquerda moderada que adote profundamente nossas agendas). Se fizermos nosso trabalho direitinho, e na quantidade necessária, automaticamente os partidos de direita vão surgir. E vão nos representar.

Nós, que defendemos o livre mercado, já devíamos ter percebido isso há mais tempo. Uma empresa surge com um produto para nos atender por que, a partir de pesquisas de mercado, entendeu que nós estávamos “merecendo” aquela oferta. Foi assim com o lançamento de qualquer produto no mercado. E quem decide o jogo não é a empresa, mas os consumidores do produto. No livre mercado, o poder está com os consumidores.

Na política, ocorre a mesma coisa. O poder, o verdadeiro poder, está com os agentes não-profissionais da política. Claro que alguns destes vão liderar grupos e até efetivamente se aliar a políticos profissionais e suas entidades. Foi assim com a CUT, o MST e diversos outros grupos, aliados ao PT, tanto que até hoje a política profissional e não-profissional se confundem para eles. Mas se não existir uma forte base de agentes da política não-profissional atuando na questão pública em favor deles, nada feito.

Uma vez que tenhamos compreendido esta dinâmica, basta partir para a ação política, que pode ocorrer de várias formas: vencer debates na Internet, criar memes, lançar vídeos no YouTube, filmar um ato de vandalismo da extrema-esquerda (e divulgar), postar em caixas de comentários de notícias e por aí vai. Não se acha capaz de fazer isso? Ao menos divulgar páginas e textos da direita com certeza eu creio que você consegue. Qual o tempo gasto para ações políticas? Você acha que é suficiente? O que você acha que poderia estar fazendo melhor?

Enfim, esses são os questionamentos mais enriquecedores para nós no momento. Não precisamos ficar choramingando dizendo que “nenhum partido nos representa”. Devemos, antes de tudo, fazer por merecer esta representação. E não adianta apenas atuarmos direitinho, em termos estratégicos. Temos que atuar com táticas e estratégias adequadas, e em quantidade suficiente.

Antes de nos preocuparmos com o fato de “não existirem partidos de direita”, devemos nos preocupar com o fato de não termos ação política não-profissional (repito mais uma vez: que é o que decide) com boa estratégia e em quantidade suficiente para forçarmos o vicejar destes partidos em nossa direção. Mais ou menos como diria Gandhi: “Você deve ser a mudança que você quer para o mundo”. Se queremos que partidos nos representem, estamos suficientemente “nos representando”? Dito de outra forma, os resultados políticos não caem do céu.

Em uma casca de noz, compreender esta lei dura, mas verdadeira, adaptar-se a ela e enfim fazer algo em sentido de lutar pela vitória de seu lado nas questões políticas significa assimilar definitivamente o que é a ação política.

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8 COMMENTS

  1. Não é bem um partido de direita, mas nessa semana o partido NOVO (http://www.novo.org.br/) conseguiu finalmente as quase 500.000 fichas para se registar junto ao TCE. Eles seguem a doutrina libertária (que alguns chamam de liberal, mas dá confusão), Mises, Hayek, escola austríaca, etc.

    Enfim, como disse, não exatamente de direita, mas um contraponto forte ao gigantismo estatal. E contam com uma multidão na internet. Para estas eleições não terão candidatos, somente para 2016.

    Aliás, falando em internet, esta será um dos maiores cabos eleitorais nesta eleição.

    • Pelo que vi só posso fazer 2 observações sobre o partido Novo:
      1)Nome com data de validade, daqui a 20 anos já ficará estranho manter esse nome.
      2)Eles dizem que acreditam na meritocracia mas não deixam se reeleger(se uma pessoa tenha talento para com a política porquê não?).Como fazer em cidades pequenas?

      Gostaria de saber outras avaliações sobre esse partido por que se for pra fazer um partido que seja direito.

  2. eu ouvi o Olavo dizer uma vez que o ideal msm era não necessariamente criar, mas tomar os partidos.

    Cada dia vj que isso é vdd. Só quem começou a se tornar uma pedra no sapato das agendas do PT ultimamente foi a chamada “bancada evangélica”, que não é nada mais que o PSC (Partido SOCIALISTA Cristão). Recentemente até o Paulo Eduardo Martins (reaça até o talo e austríaco na espinha dorsal) se ingressou lá. Às vzs do cadáver de um partido desses nasce o que procuramos (mais importante que o Partido Comunista é o Movimento Comunista – Mao dizia).

    O partido democrata foi invadido pela turma Alinskiana (lendo a agenda macroeconômica de corte de impostos do Kennedy e comparando com o Obama de hj em dia é assustador). A Thatcher deu uns tapas no partido conservador britânico e realizou a façanha de puxar os Trabalhistas um pouco mais pro centro do que eram na década de 70 (o mais significativo dela foi a questão retórica – eu sei que mtos libertários criticam o governo em si, mas só em tornar ideias liberais respeitáveis num cenário pós-keynesiano-social-democrata…).

  3. Já fiz essa pergunta aqui antes, mas acho que agora posso elaborar um pouco mais: como incutir na dita opinião pública alguma simpatia ao liberalismo (acho que o termo ‘direita’, logo de cara, pode assustar um pouco as pessoas)? Digo, como mostrar ao brasileiro médio que ele tem mais chances de crescer num sistema mais liberal? Outra pergunta: a priori, os tucanos são a melhor opção?

    • Diego,

      Tirando o PSOL, PCdoB e PSTU, qualquer outro partido é melhor opção que o PT.

      Mises, Hayek e o ótimo livro “O Livro Politicamente Incorreto da Esquerda e do Socialismo”, de Kevin Williamson, são suficientes para uma boa base argumentativa.

      Abs,

      LH

  4. Luciano, é possível aplicar os aperitivos da guerra política em relação aos hábitos de um povo?

    Por exemplo: um local onde a maioria das pessoas costumam jogar lixo em qualquer lugar (menos na lixeira), ou estacionar em vagas de pessoas com necessidades especiais (como deficientes físicos) sem que atendam este requisito. Ainda tem o momento das filas de ônibus, onde quando as pessoas vão entrar no coletivo, há uma desordem na fila com pessoas querendo entrar como se o mundo fosse acabar em 1 segundo. Situações no trânsito, e por aí vai.

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