Aperitivos da guerra política – V – O poder da confiança na vitória

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A melhor forma de aproveitar o material dos estrategistas da esquerda e de seus seguidores é estudá-los não por seus argumentos em prol do “futuro maravilhoso” (o que sempre é uma mentira, no caso deles), mas por seus padrões comportamentais transpostos em tudo que escrevem. Ou seja, aprender de fato com eles.

Por essa perspectiva, o inimigo não se torna mais apenas alguém a ser refutado, mas alguém a ter seus comportamentos assimilados de forma reconstrutiva. Ao observarmos uma tática de guerra de nosso inimigo, desde que ela se adeque à nosso padrão moral, passamos a adquirir conhecimento, ao invés de rejeitá-lo.

Sempre me incomodei quando via autores da direita mais preocupados em rejeitar alguns autores esquerdistas focados em estratégia, e de forma diametralmente oposta demonstrando baixo interesse em aprender boas táticas com eles. Nada podia ser mais conveniente para os esquerdistas beneficiários.

Li vários autores mencionando Saul Alinsky. Raros diziam como reconstruir suas táticas para uso por parte da direita. Muitos costumavam dizer que ele “saudava Lúcifer” ou era “moralmente corrupto”, mas e ficamos apenas nisso? Para além da imoralidade do autor, não existiram boas táticas que se adequavam aos nossos padrões morais e que deveriam ser usadas por nós quase que imperativamente? Outros tantos citam Gramsci, mas pouco aprendem com ele. Mas a estratégia de guerra posição não é útil também para a direita? Ou mesmo o conceito de guerra cultural a partir do uso de intelectuais orgânicos? Aprender com os adversários, infelizmente, não se tornou comum para a direita.

Quem lê este blog sabe que essa tendência de recusa ao aprendizado com o oponente não apenas foi quebrada como praticamente transmutada em comportamento oposto: em relação aos principais líderes táticos e estratégicos esquerdistas, nada é mais interessante para mim do que assimilar suas melhores táticas e estratégias, desde que não estejam em desalinhamento com nossos padrões morais.

Uma coisa que sempre notei nestes autores (em especial Gramsci, Alinsky, Lakoff e Krugman) é a extrema habilidade deles demonstrarem confiança na vitória, ou seja, de que vão vencer. Seus discursos tratam na maior parte do tempo de ajustes táticos a serem feitos para que a vitória inexorável ocorra. Perguntas automaticamente decorrem desta percepção. Como por exemplo, eles estão corretos ao agir assim? Não poderiam ser mais “humildes”? Ou mesmo demonstrarem mais modéstia em suas exibições de confiança?

Eis a resposta: eles estão corretíssimos em agir assim. Em termos de manifestação de confiança na vitória o comportamento deles é na maior parte dos casos inteligente e gera resultados. Exatamente o oposto do que acontece com o comportamento da maior parte dos direitistas.

O fato é que o componente “confiança na vitória” é um frame poderosíssimo, pois o animal humano instintivamente tem maior predileção a se aliar àqueles confiantes em que podem conquistar seus objetivos. E se cada um dos lados políticos tem seu objetivo, aquele a demonstrar maior confiança tende a levar vantagem. Não é preciso mais do que isso para explicar o benefício em demonstrar mais confiança na vitória do que seu oponente.

Tenho certeza que alguns ouvirão a contra-argumentação: “Mas e se eles [os oponentes] demonstrarem mais chances e tiverem mais meios para a vitória?”. Para resolver este problema preciso retornar à 1944, no desembarque das tropas aliadas na Praia de Omaha, na Normandia. O melhor exemplo é a cena inicial de Resgate do Soldado Ryan:

Imagine-se como lider de um time de soldados (na verdade, esta é a função de intelectuais orgânicos na guerra política) e está junto a eles. Realize que a tampa do barco está prestes a se abrir, e você sabe que há grandes chances de morrer. O que você diria aos seus soldados? Alternativa 1: (1) Vamos começar a orar pois vamos morrer, ou (2) Vamos invadir a ilha e chutar a bunda desses nazistas?

A realidade é mais dura e cruel do que pode parecer: a opçao por (2) aumenta radicalmente sua chance de resultados. Garante resultados? Não. Eu disse aumenta radicalmente essas chances.

A regra dizendo para olharmos unicamente pela ótica da probabilidade, como se fôssemos observadores imparciais (por exemplo, ao olharmos o comportamento de um monte de pulgas em um recipiente fechado) pode ser quebrada quando você é parte do cenário sob análise. Principalmente por que sua postura em relação à demonstração de confiança na vitória pode (e vai) fazer diferença a seu favor.

Não entenda isso como “ignorar a realidade”, mas um fator a ser considerado. E não é o único fator da guerra política, mas um deles. De nada adianta demonstrar confiança na vitória com estratégias e táticas erradas. Mas, se as estratégias e táticas foram aprimoradas, conte com a confiança na vitória (sempre que estiver em um meio onde as pessoas estão te lendo ou ouvindo) para aumentar suas chances de conquistar corações e mentes.

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4 COMMENTS

  1. Luciano,

    Descobrir este blog foi um dos meus ganhos de 2014. Sempre achei a direita brasileira conformista, acomodada e fatalista com relação às chances de êxito na luta contra a esquerda bolivariana (não democrática).

    Você mostra um caminho – o que significa que você lidera – e isso não é pouca coisa considerando que as nossas “tropas” estavam (ou estão) desorganizadas e desmotivadas.

    Se a nossa causa é a causa da liberdade, então não temos como perder a guerra, a menos que recusemos o papel de atores (ou “soldados”) relevantes no cenário de conflagração. Afinal, tudo tem um custo e, se queremos a preservação da liberdade, teremos que invariavelmente lutar por ela.

    Enfim, estamos (pelo menos, eu estou) aqui para combater o bom combate contra os projetos totalitários que os lobos em pele de cordeiro tentam nos vender como pacote de bondades. .

  2. Realmente acreidto que o discurso triunfalista funcione bastante mas justamente por ele funcionar temos dois problemas: 1- Se a inexorabilidade da vitória não fará a mentalidade revolucionária ressurgir entre nós e nos tornamos aquilo que combatemos .2- Discurso triunfalista faz os militantes e o pessoal não enxergar o seus problemas internos . Isso tem acontecido com o PT esses anos, discurso das vitorias e mais vitorias e não enxergam o tamanho da crise que eles estão .
    Uma daz razões que Olavo adota o discurso pessimista e alarmista , o discurso pessimista dele é para que o povo cegos de confiança pela vitória não façam bobagens mas .. gera direita depressiva em contra -partida .
    O PT realmente está acabado , principalmente se Dilma ganhar . O PT não tem dinheiro , militancia treinada e nem Dilma tem carisma , nem mais ideologia para unir a militancia . Lula está para morrer e vem ae Bolha Imobiliária . O Modelo Tucano com Estrela está desgastado demais , Não teremos totalitarismo petralha, só outro partido de esquerda ou invasão de Cuba ou FARCS podem colocar um totalitarismo .
    Mas dizer tudo isso que falei( PT vai se acabar com ctz o PT não tem nem mais bunda para se chutar) para um monte de jovens e formadores de opinião, 99, 9 % analfabetos devido a décadas de propaganda Gramsciana . Podem levar a eles fazer bobagens , a subestimar o adversário . O rato encurralado pode atacar o gato , o que vem de baixo atinge sim.

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