Da direita que precisa assumir a responsabilidade – Introdução: Responsabilismo X desculpismo

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Uau! Eu andei produtivo na última semana de julho e primeira semana de agosto no que tange à produção de textos mais atemporais (que são diferentes dos textos comentando notícias, publicados nos dias uteis, na maior parte das vezes) especificamente na questão da responsabilização da direita pelo sucesso ou fracasso na guerra política.

Recapitulando, foram os seguintes textos:

Quase todos estes textos podem ser resumidos em uma síntese: a refutação ao que passarei a definir como direitismo desculpista. Sei que já usei termos como direitismo depressivo e direitismo purista, mas no fundo ambos são variações comportamentais de um fenômeno mais amplo. Direitismo desculpista pode ser definido mais ou menos desta forma:

Um comportamento presente em parte das pessoas da direita baseado na elaboração de propostas sempre fora de seu escopo de responsabilidade ou mesmo intangíveis sob qualquer aspecto, além da transferência consciente ou inconsciente de responsabilidade sua para fatores externos.

Tudo isso tem a ver com a noção de responsabilidade por este blog. Um livro muito interessante falando sobre essa noção de responsabilidade (por resultados) no mundo corporativo é The OZ Principle, cuja base já tratei aqui. O leitor André postou na seção de comentários uma mensagem interessantíssima. Veja abaixo:

Estou lendo o livro “The Oz Principle”, e é impressionante ver como muitas pessoas se vitimizam exatamente como descrito no livro, tanto no meu trabalho quando dentre as pessoas que eu conheço fora do trabalho e parentes.

Inclusive, essa mania que os brasileiros tem de, ao se reunirem para baterem papo ficarem reclamando como o Brasil é ruim, o governo do Brasil é ruim em relação à muitos outros países, e tudo o mais, é exatamente uma ação de vitimização. Pois essas pessoas nunca pensam na menor ação possível para melhorarem a situação do país em que elas mesmas vivem. Elas apenas reclamam e apontam culpados.

É impressionante! Instintivamente eu sempre considerei essas pessoas que vivem reclamando um bando de perdedores, por só reclamarem. Então agora vou passar à indagar esses reclamadores profissionais com perguntas do tipo: “Como você acha que esse problema pode ser resolvido?”. Daí, é claro que ela dirá que “o governo deve fazer isso e aquilo…”. Então argumentarei que ela sabe que isso não vai acontecer, e que eu gostaria de ouvir uma solução real, e não uma que dependa justamente da boa vontade dos atuais “culpados por tudo”.

Acho que é uma boa linha argumentativa para fazer as pessoas acordarem para o fato de que se elas esperarem que os políticos resolvam tudo, nada vai melhorar.

Essa observação de André vale também para boa parte da direita que tenta transferir sua responsabilidade de conquistas na guerra política para agentes externos (o exército, uma monarquia). Disto podemos derivar uma forma de se visualizar a direita, chamando-a de direita responsável, que define-se de maneira diametralmente oposta à direita desculpista, em termos de como encarar a guerra política. Veja como podemos definir o direitismo responsável:

Um comportamento presente em parte das pessoas da direita baseado na elaboração de propostas sempre dentro de seu escopo de responsabilidade, como foco nas conquistas tangíveis e resultados esperados, em qualquer aspecto, sem jamais incorrer na transferência, seja consciente ou inconsciente, de sua responsabilidade para fatores externos.

Embora algumas pessoas fiquem no meio termo entre responsabilismo e desculpismo, entre blog é claramente responsabilista. Exatamente aí estiveram as maiores polêmicas nos cinco textos apontados no início deste post.

Façamos um interlúdio para ler um texto de Alexandre Garcia, intitulado Deus e os generais:

Fez porcaria e agora empurra para Deus? Deus vai ajudar. Como assim? Você não se ajudou e agora quer que Deus resolva? Ah, os generais vão resolver? Como assim? Eles resolveram, em 64, o Brasil cresceu a 11,2 em média em três anos e devolveram o poder aos civis. Os civis e seus partidos tiveram quase 30 anos para pegar um país pronto e concorrer com a China. O que houve? Más escolhas na urna? Não é de Deus a culpa. Alguns choram de novo à porta dos quartéis, achando que os generais devem voltar para socorrer os pobrezinhos imaturos, com medo da maioridade, querendo ser tutelados. Ora, danem-se. Resolvam vocês mesmo. Nem Deus nem os generais vão nos tutelar. Fazemos as porcarias e depois choramos como uns bebês? Até parecemos jogadores da seleção brasileira. Assumamos nossos votos nas urnas. Nossas atitudes egoístas, nossas passividades, nossas alienações. Paguemos nossos pecados. Deixemos de ser pueris. Sejamos adultos, responsáveis.

Pobre país que fica esperando pelos outros. O país somos nós. Mês que vem é o mês do 7 de setembro, da Semana da Pátria, da Independência. Será que vamos encher nossos carros de bandeirinhas, como na Copa? Nem Deus nem os generais virão em nosso socorro. Em socorro de cidadão indiferentes. O Brasil somos nós. Não é uma equipe de futebol, como nossa infância tardia imagina. É um país em que vamos viver nossa velhice, com nossos filhos e netos. Se continuar assim, nos estamos condenando ao nada, ao não-futuro. Será que não vamos acordar, células que somos do gigante deitado eternamente em berço esplêndido?

Sim, devemos ter mesmo complexo de vira-latas, como nos joga na cara o governo. Quando o país vai dando certo, julgamos que não merecemos, que estamos abaixo do cavalo do bandido, e damos um jeito de estragar tudo. Damos um jeito de piorar o que está ruim. Nossa ignorância para a cidadania, para o mundo, para a civilidade, para a civilização é gigantesca. Nossa ignorância, por outro lado, nos permite suportar tudo, porque não conhecemos a realidade e na tapera em que vivemos, imaginamos habitarmos num palácio.

É para isso que não somos mantidos longe da educação; que as escolas estão caindo, que os professores são mal-formados e mal-pagos; é por isso que o ensino é pífio, que ninguém lembra os pais de suas responsabilidades, ninguém condena os pais pelo mau exemplo de sonegar, pagar propina, passar o sinal fechado, não ensinar que a lei serve para que todos sejamos livres e felizes. E vamos despencando. Volta e meia temos uma chance, na urna. Mas, em geral, não aproveitamos. Preferimos esperar que tutores imaginários um dia nos salvem. Podem esquecer. Não há força fora de nós.

Eu vibrei com este texto, exatamente por pensar de forma responsabilista. Quem tende mais ao desculpismo, muito provavelmente vai se incomodar.

Um dos maiores problemas que a direita precisa resolver é sua ingenuidade política, mas também é um grave problema o fato da direita desculpista às vezes ter maior voz que a direita responsável. A luta, então, é fazermos com que os adeptos da direita responsável superem dialeticamente os adeptos da direita desculpista.

Um detalhe: não somos adversários políticos no mesmo sentido que a direita é opositora da esquerda. Entre esquerda e direita temos inimigos políticos, pois a esquerda, se vencer de forma absoluta, tende a querer mandar seus opositores para campos de concentração. Os genocídios só não ocorrem quando a vitória esquerdista é apenas parcial. Já na oposição entre direitistas responsabilistas e desculpistas temos um conflito que também encerra um dilema. Mas entendo que o debate entre responsabilismo e desculpismo deve ser travado dialeticamente, pois todos somos de direita. Somos adversários de método/comportamento, mas não de objetivos finais, que é a superação da tirania estatólatra dos esquerdistas.

De qualquer forma, entendo que não é uma questão fácil de ser resolvida. Falamos de comportamentos, instintos, valores e hábitos, que, em conjunto, não são alterados por meros argumentos tão facilmente. Ainda assim, elaborei um silogismo para verificar se há de fato a necessidade de criarmos uma “oposição de visões” na direita, assim como Gramsci dividiu a esquerda marxista em duas em sua época: ele criou os pragmáticos (do qual fazia parte) e isolou os demais como fatalistas (que eram a voz majoritária na Itália pré-Mussolini). Os fatalistas diziam que o comunismo inexoravelmente ocorreria, e, portanto, não seria necessária uma revolução. Os pragmáticos diziam que o comunismo de fato ocorreria de forma inexorável, mas somente por causa dos pragmáticos assumindo a responsabilidade pelos resultados, pois, se dependesse dos fatalistas, não havia resultado algum a ser conquistado. Não preciso dizer qual das vertentes se tornou a receita de sucesso da esquerda marxista, certo?

Abaixo estão alguns pontos que coloco para iniciarmos o diálogo entre responsabilismo e desculpismo:

  1. É muito fácil argumentar mostrando que as ideias da direita favorecem o maior número de pessoas (especialmente os pobres)
  2. Porém, a população tem optado pelas ideias de esquerda, na maioria das democracias
  3. Donde se conclui que a direita, majoritariamente, não possui oportunidades, meios, preparo ou motivação para fazer as ideias de direita prosperarem

Se alguém quiser refutar os três passos acima, ótimo, pois isso ampliará o leque de discussões. Mas a alegação acima me parece tão simples e óbvia que não há refutação. Talvez, no máximo, no item 3, e exatamente por isso é preciso de uma expansão para ele. Segue:

  • 3.1 – Não há realmente meios para isso?
  • 3.2. – Ou falta preparo (estratégias de guerra política)?
  • 3.3. – Ou será que falta motivação para se adentrar à guerra política?

No “diálogo” entre 3.1, 3.2 e 3.3 podemos também ter visões intermediárias. Em um certo grau, podem existir falta de meios, preparo e motivação. Como vou tomar a ideia de que os itens 1 e 2 estão fora de discussão, é em cima do item 3 que deve ser executado nosso trabalho argumentativo. Em outras palavras, “meios”, “preparo” e “motivação” são os pontos a serem discutidos em cada duelo argumentativo entre responsabilismo e desculpismo.

Após esta introdução, o próximo post desta série trará detalhes dos três fatores e como eles influenciam todas as nossas discussões entre direitismo responsabilista e direitismo desculpista, que a meu ver, deve se tornar parte da dialética interna dos intelectuais orgânicos de direita, junto com os embates sobre táticas e estratégias, além, é claro, da tradicional contenda dialética entre liberalismo, conservadorismo ou libertarianismo, ou o que valha.

É urgente que a direita responsável supere a direita desculpista (preferencialmente, fazendo o máximo possível de desculpistas mudarem seus comportamentos e hábitos – e eles nos agradecerão por isso). Mas para isso precisamos de um embate dialético entre responsabilismo e desculpismo, que inicia-se com esta série.

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13 COMMENTS

  1. Acho que o direitismo depressivo e o purista são atitudes ou formas de agir, mas que não necessariamente são motivados ou estão relacionados com uma alívio da responsabilidade. O direitista purista, por exemplo, pode realizar tentativas diferentes de um direitista mais pragmatista, como tentar formar grupos para ir alterando a cultura, já que esta não dá o espaço desejável para ele. Ou adotar medidas mais dramáticas. Talvez esses termos precisem ser melhor pensados.

    • Acervo,

      Nos próximos textos eu abordarei melhor esses pontos, mas concordo que ressalvas precisam ser feitas. O purismo realmente não estaria “diretamente ligado” ao desculpismo, mas pode ser um de seus efeitos. Mas tratarei esse ponto melhor.

      Abs,

      LH

  2. Esse texto foi de fato essencial para se (tentar) “encerrar” a verdadeira problemática que existe no discurso intervencionista (vulgo tapetão) e na essência da Restauração.

    Porém, eu acredito que uma premissa fundamental foi esquecida: a direita se diferencia da esquerda pelo fato de que o seu pensamento não tem natureza coletivista e nem nunca poderá ter sob pena de se perverter em algo que não poderá ser compreendido como direita.

    Daí porque eu acredito que não é tão simplesmente arregimentar legítimos direitistas a seguir a risca determina cartilha “gramsciana do bem”, embora existam evidentes razões para que cada direitista sério e comprometido com a democracia assim se determine.

    Ocorre, por outro lado, que você constrói toda a sua agenda em torno de premissas intrinsecamente atreladas a um ambiente “minimamente” democrático, pois sem as liberdades mais básicas, esse blog sequer existiria ou nem mesmo haveriam garantias de que você poderia estar em casa elaborando suas refutações e lecionando sobre a guerra política e o ceticismo político.

    E, nestes termos, se por acaso você viesse a perder a vida ou a liberdade, em face do sucesso do esquerdismo no contexto da guerra política, você os saudaria.

    É impossível conquistar todos os corações direitistas, e nem mesmo a sua maioria, com esse “frame”.

    Eu sou de direita porque acredito na Justiça, enquanto ideal a ser constantemente perseguido, defendido e aplicado. Justiça como fim em si mesmo, ideal que legitima inclusive a guerra ou um ato de legítima defesa que importa em tomar a vida de outra pessoa.

    De fato me insulta intelectualmente ser simplesmente tarjado como uma espécie de peso morto por resistir a ideia de não devo depositar todas as minhas fichas apenas e somente em uma determinada ferramenta que está e sempre estará dependendo de fatos alheios a minha própria vontade.

    Defender a Monarquia, portanto, a meu juízo, não é me portar de uma forma de uma forma “desculpista”, pois a Monarquia Constitucional não serve a direita e nem a esquerda, serve a Nação, e esse elemento sociológico sempre é ignorado ou, pelo menos, desprezado na construção dos seus argumentos.

    A Nação é muito maior do que o corpo de eleitores e dos intelectuais orgânicos que os manipulam através de joguetes psicológicos, e esse bem incomensurável que, no meu modo de ver a realidade, é o fundamento central de qualquer povo que pretenda se afirmar democrático, pois não se vive ordenamento em um ambiente onde predomina a amoralidade e a depravação do símbolos que identificam indivíduos em torno de interesses comuns.

    Eu sou cearense, mas não me distingo, quanto a essência, de um gaúcho, ou um capixaba ou um acriano, pois o vínculo da nacionalidade fala mais alto do que os sotaques e os gostos culinários. Ignorado ou sublevado o nacionalismo e o patriotismo a direita, em qualquer país, renuncia um dos principais símbolos que a diferenciam e destacam em relação a esquerda, que é naturalmente anti-patriótica e corrosiva dos valores tradicionais que firmaram as bases para a formação do País.

    Ser monarquista é basicamente defender a Nação e seus interesses superiores: paz, ordem, progresso, respeito as liberdades, soberania, independência, unidade e integridade territorial, valores culturais, históricos e linguísticos, símbolos tradicionais, honra, Pátria e Justiça.

    Esquerdistas honestos (aqueles que tendem ao Estado Social) e direitistas moderados (aqueles que tendem ao Estado Liberal), em sua maioria, valorizam todos esses elementos que, somados, formam a Nação, o que, para o Monarquista somente estará devidamente protegido e garantido às gerações futuras por intervenção de quem mais tenha interesse em fazê-lo: o Monarca.

    Os cidadãos comuns não se preocupam com esses valores como fins a serem perseguidos, pois além de suas rotinas, quanto aos que militam ideologias, outras urgências estão em suas pautas, como é o seu caso e de também dos que levantam a bandeira da Restauração. Somente o Monarca, em nossa concepção, por ser preparado desde o berço para reinar, tem todas as condições de garantir aos seus cidadãos o ambiente democrático próximo ao ideal para que a contenda seja travada, minimizando os sobressaltos e conciliando as graves crises através dos mecanismos que a Constituição lhe outorgar.

    Nenhum sistema institucional é perfeito, pois nenhuma obra humana é imune a falhas, mas a Monarquia Constitucional tende, por essas razões, ser superior do que esta República e, assim, oferecer à democracia, que é essência, uma superestrutura mais estável e mais preparada para as grandes turbulências que ocorrerem em qualquer ambiente onde há humanos.

    De todo modo, é evidente que o cerne de suas críticas aos “desculpistas” são válidas, pertinentes e que realmente precisam sair do plano teórico de modo que estes, e não os monarquistas, sejam “convertidos”.

    Como advogado eu não consigo escapar da perspectiva do sistema jurídico, que forma a teia por onde a democracia flui, de modo que, a partir de uma análise sobre todas as experiências republicanas brasileiras, inclusive esta última, não me resta nenhuma alternativa senão repudiá-lo veementemente.

    Conclusivamente, ser monarquista não significa apenas e somente impor-se uma autolimitação em torno dos seus deveres enquanto ator da “guerra política”, pois a cada dia estou mais convencido de que é possível jogar a culpa na República e concomitantemente aprender sobre a eficiência das táticas esquerdistas para a tomada do poder político. Uma não anula e nem prejudica a outra. Porém, não desconheço que, e eu falo com conhecimento de causa, a maioria esmagadora dos monarquistas sequer tem compreensão do grande prejuízo que suporta por simplesmente desconhecer as principais técnicas de guerra política, controle de frame e ceticismo político, inclusive entre os próprios membros da Família Imperial.

    (Me perdoe por algum erro de concordância, semântica ou ortografia)

    • Dennys,
      Existe uma leve inspiração de Saul Alinsky e Antonio Gramsci neste tipo de conteúdo. E, acredite, esses autores já foram adaptados para o mundo corporativo. E, para maior surpresa, tanto esquerdistas como direitistas podem formar coalisões em torno de seus objetivos.
      Quando você diz que “a direita se diferencia da esquerda pelo fato de que o seu pensamento não tem natureza coletivista e nem nunca poderá ter sob pena de se perverter em algo que não poderá ser compreendido como direita”, há uma confusão.
      O animal humano é coletivista (senão não obtem resultados), mas o esquerdista pensa no coletivismo de forma estatal, enquanto o direitista de forma voluntária. Assim, não há evidências de que “a esquerda se junta, a direita não se junta”. Tratarei isso em textos futuros da mesma série.
      você diz que eu construo minha agenda em torno de premissas “intrinsecamente atreladas a um ambiente “minimamente” democrático”, e eu discordo, pois veja o que está escrito por mim: “Donde se conclui que a direita, majoritariamente, não possui oportunidades, meios, preparo ou motivação para fazer as ideias de direita prosperarem”.
      Ora, a discussão sobre nossos meios é parte desta discussão, especialmente a partir deste texto, portanto ele não parte da premissa da existência de liberdade, mas a discussão dessa existência de liberdade (incluída nos meios) é parte do diálogo.
      Vamos dar sequência em alguns pontos:
      E, nestes termos, se por acaso você viesse a perder a vida ou a liberdade, em face do sucesso do esquerdismo no contexto da guerra política, você os saudaria. É impossível conquistar todos os corações direitistas, e nem mesmo a sua maioria, com esse “frame”.
      Existem dois tipos de conteúdo para este blog: o comentário do cotidiano da poítica, e o comentário estratégico-tático. Claro que meu paradigma de política é aplicado nos comentários do cotidiano da política. Esses textos tem 4 a 5 vezes mais acessos que os últimos. Mas esses últimos também são essenciais, pois é a partir deles que eu transmito conhecimentos de guerra política. Neste caso, não estou conquistando a maioria da direita, mas apenas os interessados em seguir mais profundamente na guerra política.
      Basicamente, o que eu digo: aplaudir a estratégia-tática-execução deles, ao mesmo tempo em que avacalho moralmente todas as propostas políticas que eles lançam.
      De fato me insulta intelectualmente ser simplesmente tarjado como uma espécie de peso morto por resistir a ideia de não devo depositar todas as minhas fichas apenas e somente em uma determinada ferramenta que está e sempre estará dependendo de fatos alheios a minha própria vontade.
      Este ponto (polêmico será abordado no próximo post da série, que publicarei no próximo sábado).
      Eu não trato quem defende a monarquia como peso morto, mas, em muitos casos, podemos estar em oposições quanto a táticas. Essa série discutirá esses pontos.
      Defender a Monarquia, portanto, a meu juízo, não é me portar de uma forma de uma forma “desculpista”, pois a Monarquia Constitucional não serve a direita e nem a esquerda, serve a Nação, e esse elemento sociológico sempre é ignorado ou, pelo menos, desprezado na construção dos seus argumentos.
      Talvez não tenha me expressado adequadamente, e esclarecerei isso mais no próximo texto: eu não quero dizer defender a monarquia significa desculpismo, mas PODE ser um discurso desculpista.
      De todo modo, é evidente que o cerne de suas críticas aos “desculpistas” são válidas, pertinentes e que realmente precisam sair do plano teórico de modo que estes, e não os monarquistas, sejam “convertidos”.
      Pelo que entendi de sua argumentação, a monarquia é boa por que permite uma “segurança” que não existe na democracia, certo? Por exemplo, imagine que um time ganhe todos os campeonatos e esvazie o futebol, o que implode todo nosso sistema competitivo. Um monarca impediria isso, criando critérios para evitar a tomada absoluta de poder por um. OK.
      Minha visão é: “Mesmo que seja verdade, mas isso ainda está pendente de validação, embora respeite sua opinião, não temos isso e não há expectativas de ter. Como faremos então na perspetiva de não tê-lo?”.
      Notou que minha perspectiva RETIRA o elemento “alheio a nossa vontade” de nossas mentes e que pode servir como desestímulo para luta agora para muitos.

      • Vou aguardar os próximos textos, mas preciso apenas fazer alguns esclarecimentos em relação a questões de fato.

        A Monarquia Constitucional, que é espécie do gênero “Monarquia”, não se opõe e nem rivaliza com a Democracia, pelo contrário, a Monarquia Constitucional, em sua estrutura teórica (é claro, pois não é possível fazer uma análise pragmática em torno de uma estrutura jurídica inexistente), histórica (no caso brasileiro, principalmente) e também (mas não essencialmente) no direito comparado me fazem concluir que ela [Monarquia Constitucional] revela-se muito mais apta a sustentar a Democracia que o modelo republicano.

        Eu não quero e nem vou tirar conclusões sobre os teus conhecimentos a respeito dos conceitos de Ciência Política, pois é certo que estes não são explorados nos seus artigos ou, quando muito, apenas tangenciando muito de longe a pauta do blog que é o modus operandi no contexto de um ambiente democrático, e por isso que eu disse que todas as suas lições, como a deste artigo, tem esta premissa como intrínseca, ou seja, só existe guerra política enquanto um dos lados não conseguir romper primeiro a ordem democrática.

        Por isso que, em outro comentário eu aleguei que a guerra política é também, mas não essencialmente, um meio a se perverter a democracia em tirania, como aconteceu na Alemanha nazista, como aconteceu na Venezuela e como está perto de acontecer também no Brasil.

        Assim, quando você vier a revelar os novos artigos sobre as questões que eu levantei, e que ficaram pendentes, é preciso que os conceitos de Ciência Política estejam em sintonia com a doutrina: Monarquia Constitucional e República Presidencialista são superestruturas, e se distinguem, no que mais importante, pelos sistemas de freios e contrapesos.

        Em ambas as superestruturas há o Poder Moderador (e essa é um dos grandes temas eclipsados no debate jurídico), que tem natureza política de freio por excelência, porém na República Presidencialista o exercício dessa função moderadora está na dependência constante da atuação livre, independente e concomitante dos três poderes, a fim de que um deles não avance o sinal e se sobreponha aos demais, de modo a romper ou estrangular o fluído democrático.

        No caso brasileiro, o STF controla a constitucionalidade (controle repressivo) das leis e atos normativos em geral (portarias, decretos, regulamentos administrativos); o Legislativo pode sustar atos exorbitantes do Poder Executivo, como no caso mais atual, e o Presidente da República pode editar Medidas Provisória, com força de lei, e impor o veto a projetos de lei que atentem contra a Constituição ou os interesses públicos (controle preventivo).

        Nesse sistema, basta que o grupo político mais habilidoso sobreponha a sua vontade sobre o Legislativo e toda a superestrutura republicana tenderá a sofrer fortes desgastes, pois é o Legislativo que aprova os nomes ao STF, através do Senado, e é o Legislativo que aprova as políticas públicas encaminhadas pelos Presidente da República e, em uma eventual queda de braços, o Judiciário não está autorizado a se imiscuir em questões essencialmente políticas, ou seja, quando não haja uma explícita produção de atos jurídicos inconstitucionais.

        Você veja o que acontece nos EUA, apenas para referenciar, quando a oposição controla totalmente alguma das duas Casas do Legislativo, simplesmente o mundo inteiro estremece ante o simples risco do país não pagar os seus compromissos internacionais por uma manobra estritamente política de pressão.

        Não precisa me dizer, pois eu sei que você aplaude o grupo político que deu causa a turbulência, pois eles o fizeram por serem bons estrategistas, mas o coeficiente Nação, que é a prioridade da Monarquia Constitucional, fica totalmente marginalizado, refém de estratégias políticas e suportando todos os prejuízos: pessoas precisam ser demitidas, museus foram fechados, Washington DC praticamente parou.

        Eu não tenho a mínima audácia de querer convencê-lo a nada, mas eu não posso dizer que a superestrutura republicana seja saudável ao Brasil.

        Os EUA lutaram e sacrificaram muito pela democracia, em uma época que o Brasil era muito mais desenvolvido em vários aspectos sociais, só para citar, durante o Império o Brasil tinha mais estradas de ferro do que toda a Europa e os EUA, e a nossa Marinha de Guerra era superior à americana, a decadência política, cultural, militar e econômica veio com a República.

        A diferença entre os americanos e os brasileiros está justamente no coeficiente democracia, que não compõe a superestrutura, mas transita entre ela. Os americanos desenvolveram um sistema mais eficiente: a Federação, que é uma técnica de distribuição de competências que descentraliza e esvazia os Poder Central sem por em risco a unidade. Isso faz parte de uma tradição que nasceu juntamente com a própria Nação, diferentemente do caso brasileiro, onde o modelo federativo é totalmente artificial, transplantado forçadamente para atender a interesses de oligarquias de algumas regiões e não de suas populações: as mesmas oligarquias que, no tapetão, e se aproveitando que o Imperador já não era jovem, nos impuseram a força esse regime que já nasceu debaixo de um Estado de Sítio, Revoltas e o fechamento do Parlamento.

        Assim nasceu a República no Brasil e essa é a sua tradição. Não havia um tirano opressor a ser deposto, não havia violações a liberdades fundamentais, não havia censura à imprensa e à liberdade de pensamento, nem prisões arbitrárias, nem intimação política, cassação de parlamentares, não havia nenhuma razão que normalmente justificam e aviltam o espírito revolucionário, pois a República não foi resultado de uma demanda popular que desejava se livrar de um déspota.

        Contexto histórico muito diferente dos EUA que romperam violentamente com a tradição monárquica, cuja formatação interna do Poder estatal deu-se através de uma força centrípeta, fundamental para a vitória na guerra de independência. O Brasil não rompeu o laço colonial de forma violenta, mas sim através da diplomacia e das tratativas em Família, poupando a vida de milhões de brasileiros e a sua conformação interna evoluiu por meio de uma força centrífuga, descentralizadora, muito tímida, haja vista os inúmeros riscos de secessão.

        O Poder estatal no Brasil nasceu na pessoa do Monarca e sem o fluído democrático e ao longo do Segundo Reinado medidas foram sendo tomadas para introduzir no cenário político e institucional esse fluído, sem o qual as engrenagens do Estado tendem a enferrujar, travar e a colapsar. Nós tivemos a introdução do modelo parlamentarista, a criação das Assembleias nas províncias e uma gradual e lenta redistribuição do Poder, até que as a impaciência do cafeicultores, que não estavam demandando por mais fluído democrático, e sim o próprio Poder estatal como um todo, entenderam por usurpá-lo violentamente das mãos do Imperador, mesmo contra a vontade do povo.

        Eu não posso apresentar uma fonte histórica confiável agora, mas eu já vi que a aprovação do Imperador Pedro II, após 59 anos de dinastia, girava em torno de 80%, e o mesmo precisou ser sequestrado e expulso durante a madrugada para não despertar a revolta popular que só tomou conhecimento do ocorrido quando a Família Imperial já estava muito longe.

        Eu não deveria ter me alongado muito, acabei perdendo o foco e me desculpo pela maçada, o fiz por empolgação e para também mostrar que não é possível ser simplista ao tratar do que seja a causa da Restauração. Não é possível dizer que “sou republicano, porque sou neo-iluminista”. A Monarquia Constitucional, cujo fundamento central é o aperfeiçoamento do sistema de freios e contrapesos atende muito melhor aos anseios neo-iluministas do que todas as experiência das Repúblicas brasileiras (na minha opinião).

        De qualquer modo, a minha compreensão é a de que não é possível analisar comparativamente Monarquia Constitucional e Democracia, pois não são espécies do “Formas de Estado”. Democracia é sistema de governo, é a forma como se procede a conformação das forças políticas conflitantes em um determinado espaço.

        Democracia sem uma superestrutura é o mesmo que anarquia. Democracia acorrentada é tirania. Democracia em um pântano de areia movediça é exatamente a República, e quanto mais se meche tenderá a afundar.

        Na Monarquia Constitucional a Democracia está em um navio de aço, estável e cujo capitão está sempre com os olhos voltados para o horizonte. O debate democrático pode pender o navio para um lado ou para o outro, pois o Monarca não tem o controle do leme, apenas a responsabilidade pela segurança e estabilidade do navio, assim se o navio estiver na direção de um rochedo ou um iceberg, ocorrerem incêndios, motins, sobressaltos, o guardião prevenirá os danos irreparáveis ou que ponham em risco a vida e o futuro de toda a tripulação, sem se imiscuir nos debates democráticos que continuarão normalmente. E, assim, a Democracia segue, da forma como melhor lhe convier.

        De todos os frames, eu me atrevo a dizer que aquele que induz a segurança jurídica (minha propriedade privada, minha liberdade individual, minha conta bancária intocável, meu direito de ir e vir sem ser assassinado ou assaltado, etc), em um trabalho longo e contínuo, se sobressai a qualquer outro.

        Eu compreendo que o Monarquismo, até mesmo para a sua própria sobrevivência, tenha esse elemento “idealizado” do que é o regime, e, portanto, não atende aos pressupostos do ceticismo político, mas pelo menos para mim, aproximar as pessoas dos fatos históricos legítimos e do legado moral da nossa Família Imperial, que é a atual do Monarquismo, serve muito mais ao controle dos frames em benefício da “Direita”, do que o contrário.

        Como eu já disse antes, o Monarquismo brasileiro ainda não conseguiu sair do primeiro degrau e eu especulo que, por isso mesmo, aqueles que o sustentam não estejam preparados para se lançar na guerra política, nem em face dos republicanos de direita, nem muito menos em face das maldades da extrema-esquerda totalitárias. São como filhotinhos de poodle tomando os primeiros tombos, indefesos e totalmente alheios ao que acontece a sua volta.

        Conclusivamente, eu juro, o que os libertários pensam sobre a natureza da Monarquia é totalmente fora de propósito, sem paralelo na Civilização Ocidental contemporânea, e se opõe totalmente aos valores tradicionais da nossa Família Imperial que educa os herdeiros presuntivos para servirem à Nação e não a tratarem como propriedade privada ou agir como CEO de uma grande empresa. Se for para tratar disso, tudo bem, só não terá nenhum valor dogmático, pois são premissas falsas que beiram a difamação.

        Quanto a mim, eu só tenho a agradecer pelo seu trabalho, pela sua seriedade e pela sua dedicação. Eu imagino que um “curso” de guerra política para o campo corporativo não deva ser barato.

      • ps.: Quando eu me referi ao “coletivismo” como modo de agir próprio da esquerda, talvez eu não soube me expressar bem por não ter o domínio pleno desse fenômeno, mas segundo a minha compreensão limitada e a partir do que observo de movimentos coletivistas como MST, LGBT, CUT e afins, há uma clara distinção entre os psicopatas que formulam as ações e as ponta-de-lança que se encarregam de disseminar o discurso histérico e os atos de violência e assédio moral contra os seus opositores.

        Do lado da Direita isso não ocorre pois mesmo os psicopatas de direita (e ser psicopata não é necessária uma qualidade psíquica pejorativa) não são capazes de induzir o comportamento histérico e massificado entre os seus interlocutores menos carismáticos, pois a viga-mestra do direitismo é o estímulo ao individualismo, isso não impede, naturalmente, a união de forças e a formação de “alianças”. Se eu transpareci essa mensagem, foi por descuido na escolha das palavras.

  3. Luciano, uma sugestão: dê uma atualizada no conteúdo das seções do blog, transferindo alguns posts mais específicos para elas. Por exemplo, a série “Aperitivos da Guerra Política” está em Outros, o que dificulta um pouco a localização e talvez diminua a noção de sua importância dentro de seu paradigma e técnica. Assim como estão em Outros alguns jogos esquerdistas que você traçou recentemente (como “Sociedade Civil Denorex”), objeções (como “E se os jogos políticos entrarem em conflito com seus valores morais?”), etc.
    Acho que facilitaria, por exemplo, para leitores que, como eu, gostam de imprimir e ter para si seus posts mais “complexos” para estudos e releituras.
    Só uma sugestão. Sei que administrar isso daqui deve dar um baita trabalho.

    De resto, excelente texto, como sempre.

  4. “Mas para isso precisamos de um embate dialético entre responsabilismo e desculpismo, que inicia-se com esta série.”.

    Será um ótimo debate para trazer mais desculpistas para o lado da ação.
    Excelente!

  5. ‘Fazemos as porcarias e depois choramos como uns bebês? ‘
    Que palhaçada, nós não ‘fazemos’ porcaria coisa nenhuma, NÃO EXISTE NÓS, esse negócio de ‘nós’ é típico de quem quer botar jogar a culpa pra cima de quem não teve nada a ver com a história.

    ‘Pobre país que fica esperando pelos outros. O país somos nós.’
    BS. Não existe país, só o que existe são INDIVÍDUOS. País é uma ficção criada pra dar poder pra uns vagabundos.

  6. O comentário do André faz muito sentido para mim porque eu vejo esse tipo de “desculpismo” impregnado em tudo quanto é mídia direitista. E tem vez que o desculpismo vai mais fundo, quando o direitista brasileiro dá de ombros e proclama: “país de merda”. Assim, como quem lava as mãos e cruza os braços. O cara enterra a própria cabeça na areia e depois não entende por que as coisas nunca saem como ele quer.

    O curioso é que a esquerda brasileira tem tantos ou até mais motivos para desprezar o Brasil do que a direita. Com todas essas manóbras totalitárias do governo, é patente que eles DETESTAM viver em uma democracia, DETESTAM ter que aturar uma imprensa (relativamente) livre, DETESTAM ter que dar satisfações a quem quer que seja. Mas ao contrário da direita, a esquerda não deixa isso virar desculpismo. O país não está como eles querem? Eles vão lá e mudam o país. O país não está como a direita quer? “Pronto, acabou o Brasil! Pobre de mim que nasci aqui!” Não é difícil adivinhar por que um dos lados sempre vence, né?

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