Em artigo sobre censura de mídia, William Correa pratica desinformação, de forma intencional ou não

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Jornal Da Cultura_Willian Corrêa_Foto Jair Magri (58)

Quando alguém pensa ir contra algo mas pensa nas categorias definidas pelo seu oponente, o resultado é sempre desastroso, como podemos ver no texto aparentemente bem intencionado de William Correa (coordenador de jornalismo da TV Cultura). Supostamente ele seria contra a censura de mídia, mas termina sendo a favor dela. O texto em questão é Censura e controle de mídia, publicado na Folha de São Paulo:

Sempre que se aproxima uma nova eleição, a cobertura política dos meios de comunicação é colocada em xeque. Seja porque alguns realmente assumem sua preferência, outros porque não o fazem e outros, ainda, que descontentam grupos cá e lá no espectro político com sua cobertura.

Entra em cena, então, a discussão sobre o tal “controle da mídia”, que deveria funcionar como garantia contra eventuais excessos e contra a influência dos meios de comunicação nos resultados eleitorais.

Não há como discutir o tema sem fazer uma separação clara: uma coisa é o “controle” sobre o conteúdo produzido pelos meios de comunicação, sejam quais forem suas opções. Isso, em bom português, tem o nome de censura.

Outra coisa, bem diferente, é a restrição legal à concentração da propriedade de um grande número de meios de comunicação, nas mãos de monopólios ou oligopólios.

No primeiro caso, a censura conspira contra a democracia. E a contrapartida da liberdade total de expressão deve ser a responsabilidade pelo que se diz, assegurada pela Justiça.

O Reino Unido, recentemente, criou uma instância de fiscalização de mídia, depois que se comprovou que o tabloide sensacionalista “News of the Word”, do magnata Rupert Murdoch, havia realizado escutas clandestinas para elaborar suas reportagens. Essa instância terá inclusive poder de multar meios de comunicação que violem a privacidade do cidadão.

O tema da concentração da propriedade dos meios de comunicação é muito diferente.

Vamos lembrar, primeiro, que as emissoras de rádio e TV, assim como operadoras de telefonia, são concessionárias de um serviço público em condições e prazos determinados. O espaço que usam, portanto, não “é” seu. “Está” seu.

Muitas sociedades democráticas estabeleceram desde cedo mecanismos de restrição à concentração da propriedade dos meios de comunicação, sabendo do poder que isso representa. Os Estados Unidos, por exemplo, aprovaram em 1934 o Radio Act (Lei do Rádio), que criou regras para impedir a formação de oligopólios e que, com pequenas modificações, continua vigente até hoje.

No Brasil, o artigo 220 da Constituição Federal define que não pode haver monopólio ou oligopólio na comunicação social eletrônica. Mas a realidade é um pouco diferente.

Já o artigo 54 determina que deputados e senadores não podem ser donos de concessionárias de serviços públicos. No entanto muitos dão seus jeitinhos, por meio do conhecido expediente do testa de ferro.

Estabelecidas essas diferenças, o fato é que a democracia brasileira, com todos os problemas, vem se consolidando. Logo, qualquer tentativa de censura na produção de conteúdo deve ser rejeitada, na mesma medida em que devem ser preservados os mecanismos legais de ressarcimento a eventuais prejudicados pela ação da mídia.

Quanto à formação dos oligopólios da informação, o debate é quente e ainda terá muitos rounds, principalmente em meio às paixões eleitorais. Uma coisa, porém, é certa: democracia rima com pluralidade –de abordagens e de quem controla os meios que as divulgam.

Se ele se posiciona veementemente contra “qualquer tentativa de censura na produção de conteúdo”, como pode ser acusado de promover a mesma censura?

O fato é que ele aceita as regras da esquerda que atualmente dizem ser contra “concentração da propriedade dos meios de comunicação”. Ou seja, a luta contra o alegado monopólio.

O detalhe é que qualquer forma de eliminação de propriedade cruzada, ou mesmo redução do tamanho das empresas, somente torna as entidades privadas mais vulneráveis ao poder estatal se o governo continuar com o poder de usar anúncios a seu favor.

A regra é simples: empresas maiores são menos vulneráveis à chantagem econômica a partir de anúncios governamentais em comparação com empresas menores.

Quem pede redução do poder das empresas privadas (ou mesmo o fim da propriedade cruzada) mas ao mesmo tempo não faz nada contra o uso de anúncios estatais está a favor da censura sutil, pois o governo poderá selecionar as empresas que recebem anúncios estatais a partir de como favorecem ou não o governo.

Ou seja, o texto de William Correa defende a censura, sem querer ou não. Censura sutil, é claro. Mas ainda assim, censura. O pior de todos os tipos de censura, diga-se de passagem.

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9 COMMENTS

  1. eu penso que o Estado deveria ter uma verba minima para propaganda.
    e que nao pudesse ser alterada sem apresentacao de justificativa perante estancia maxima do judiciario.
    entretanto sou totalmente a favor da democratizacao da midia.
    para profissionais da area, eh algo que necessario ha anos.

      • eh o termo usado.
        se vc quiser pode chamar de outra coisa, como por exemplo, diminuicao da concentracao de midia.
        tanto faz.
        o que importa eh termos mais empresas no negocio.
        eh bom para os profissionais e eh bom para o publico que terah mais opcoes.

      • eh o termo usado.
        Usado por quem?
        se vc quiser pode chamar de outra coisa, como por exemplo, diminuicao da concentracao de midia.
        Er… neste texto é tratada a questão dos monopólios. Ver item número 10: http://lucianoayan.com/2014/05/29/por-uma-verdadeira-lei-de-midia-democratica/
        E, é claro, a extrema-esquerda não vai querer. rs.
        tanto faz. o que importa eh termos mais empresas no negocio.
        Quantas empresas é um bom número? heheheeh
        Baseado em que?
        eh bom para os profissionais e eh bom para o publico que terah mais opcoes.
        O que impede hoje o público de ter mais opções?

        Acho que vc não fez “media training” para promover censura de mídia hein?:

  2. Seria este ponto de vista do Correa uma variação do direitismo Neville Chamberlain? Ao defender um dos argumentos utilizados pela chusma esquerdista para implantar a censura, ele já legitima a discussão. Em eventual embate político entre dois polos conflitantes, um defendendo o controle de conteúdo e a desconcentração da propriedade, e outro repudiando estas medidas, adivinhem qual medida representaria o “meio-termo” negociado, afetando falso bom-senso? Exatamente a que Correa defende. Os chavistas brasileiros ficariam extremamente satisfeitos.

    • Exato. E no fim os governistas riem da cara dele, pois podem conseguir “quebrar monopólios” (que na verdade não são monopólios), mas vão continuar usando as verbas estatais para direcionar o conteúdo das empresas menores. Esses Neville Chamberlain são foda…

      • Luciano, acompanho o jornal da cultura há tempos e acredito que William Correa fez esse desserviço de forma acidental. Ele não me parece mal intencionado e sempre é possível perceber o tom de ironia na sua voz ao tratar dos desmandos do governo atual. Talvez na ânsia de querer parecer completamente imparcial, um jornalista exemplar, ele cometeu esta incongruência.

  3. Se ele prestou esse desservico acidentalmente, deveria ser alertado, ate por meio como desse post, ta na hora de se informar melhor. Que gafe ! Um formador de opiniao deveria saber da sua responsabilidade.
    A nao ser que ele esteja mesmo promovendo essa bomba…
    Otimo post. Assunto grave tem de ficar em pauta.
    Esse projeto eh a menina dos olhos do PT, eles chegam a babar quando discursam sobre o assunto entre os seus, negocio orgasmico.

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