Da direita que precisa assumir a responsabilidade – I – O direitismo desculpista

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Nesta série de textos quero abordar o fenômeno do direitismo desculpista. Entendo que este fenômeno, mais do que as ações da esquerda, constituem a grande ameaça para a direita em qualquer parte do mundo. No Brasil e na América Latina, este fenômeno é especialmente mais danoso.

Já me antecipo dizendo que a direita desculpista e a direita responsabilista são tão oponentes entre elas quanto a direita como um todo é oponente da esquerda. A diferença é que a oposição da direita desculpista em relação à direita responsabilista se relaciona aos métodos.

Tecnicamente, em termos de propostas econômicas e éticas, um responsabilista e um desculpista acreditam mais ou menos nas mesmas coisas, mas em relação à postura diante dos eventos da guerra política, tomam direções diametralmente opostas.

Também é importante ressaltar que dificilmente alguém é 100% desculpista ou 100% responsabilista. Entendo que esses dois direitismos existem dentro de cada um de nós. Quem lê os textos desse blog, sabe que eu estou para um direitismo quase 100% responsabilista. Muitas vezes, leitores com mais tendência ao desculpismo entram em confronto comigo. Por sorte, no tratamento com a direita, este blog preza a dialética, ao invés do quebra-pau.

Antes, vamos rever a definição de direitismo desculpista já usada na introdução desta série:

Um comportamento presente em parte das pessoas da direita baseado na elaboração de propostas sempre fora de seu escopo de responsabilidade ou mesmo intangíveis sob qualquer aspecto, além da transferência consciente ou inconsciente de responsabilidade sua para fatores externos.

Embora isso possa indignar alguns, precisamos entender este nosso componente, pois ele pode aparecer de forma indevida vez por outra. Em algumas pessoas da direita, este comportamento se tornou tão pervasivo que em grande parte do tempo suas ações tem mais servido para ajudar à esquerda do que a direita.

Os comportamentos principais

Ok, mas como identificamos estes comportamentos desculpistas e suas manifestações? Aqui seguem alguns padrões:

  • Negação das regras do jogo
  • Ampliação indevida do poder do oponente
  • Solicitação por algo irrealizável
  • Transferência de responsabilidade
  • Veremos como esses comportamentos se manifestam em discursos.

No caso da negação das regras do jogo vemos os pedidos por intervenção militar ou mesmo pelo fim da democracia. Aqui, basicamente alguém diz que a “democracia não funcionou” ou que “a esquerda é indestrutível”, o que também é uma forma de se ampliar indevidamente o poder do oponente. Como Saul Alisnky já nos esclareceu, “poder não é o que você tem, mas o que o seu inimigo pensa que você tem”.

Quando se pede uma intervenção militar, alguém também transfere a responsabilidade para uma entidade externa, no caso o Exército, como forma de se livrar de sua responsabilidade pelo estado atual e futuro das coisas. Quem pede a intervenção militar geralmente se sente desobrigado (ao menos psicologicamente) a lutar na guerra cultural.

Muitas vezes vemos pessoas pedindo a volta da monarquia, o que, obviamente, não vai ocorrer. Mas esse é o pedido por algo irrealizável, que desobriga alguém, em termos psicológicos, de fazer alguma coisa no presente.

Ainda em relação à ampliação indevida do poder do oponente, vemos as vezes discursos dos desculpistas gastando horas e mais horas falando do “poder terrível” e “dos nós impossíveis de desatar” do oponente.

Imagine que você chegue para alguém e esteja convencendo-o a votar em um candidato mais à direita (e menos à esquerda) para as eleições presidenciais, e este lhe retorne com: “Desista meu amigo, as urnas já estarão fraudadas”. Esta é uma ampliação do poder do oponente, completamente imaginária, como forma de “travar” uma ação”. (Que as urnas são passíveis de fraude, isso é bem possível, o que não significa que estejam fraudadas pelo oponente de forma deliberada)

Basicamente, o desculpismo encontra formas cada vez mais criativas de usar desculpas para desanimar a tropa. Um ou mais desses padrões de comportamento estarão presentes nestas desculpas.

Motivos

Na avaliação dos motivos para o desculpismo, podemos relacionar alguns deles. Estes motivos nos ajudam a explicar o fenômeno. Elenquei alguns, mas a lista não é definitiva:

  • a desculpa é um padrão humano
  • distancia entre o ideal e o atual
  • escatologia
  • agencialidade

O ser humano, ao contrário de muitos outros animais, é pródigo ao arranjar desculpas para não fazer algo. Os demais animais, que possuem muito menos opções, não param para dar uma explicação ao colega do lado, dizendo algo como: “Ei, este leão parece muito veloz. Vamos desistir e ficar por aqui mesmo?”. Ao contrário, eles lutarão até o fim de suas forças para sobreviver.

Se o objetivo dos demais animais é sobreviver, o nosso é sobreviver da maneira que melhor nos atenda na medida do possível. Pela complexidade das sociedades que construímos, não nos defrontamos em situações de vida ou morte com tanta constância como ocorre com os animais selvagens. Tanto que quando somos submetidos à violência urbana, muitos de nós entram em pânico.

Enfim, não somos treinados para “ir lá e fazer”, pois nossa sociedade domesticadora nos permitiu viver assim. O animal humano termina sendo muito mais propício a arrumar desculpas para a inação do que os demais animais, exatamente por que acostumou-se muito mais a não viver em situações limite.

Outro motivo é a distância entre o ideal e o atual. Imagine, por exemplo, que uma garota esteja com 58 quilos e planeje uma dieta para chegar aos 55 quilos antes do verão. É um desafio fácil. Agora imagine uma outra mulher com 180 quilos, planejando chegar aos 70 quilos no ano que vem. É muito mais difícil. É claro que esta última sentirá o “peso” da distância existente entre sua meta e o estado atual. A tendência a arrumar descupas aumenta.

A direita tem jogado futebol com regras do basquete, e tomado goleadas inacreditáveis ao longo dos anos. Enquanto a esquerda sabe as regras do jogo político e joga sob elas, muitos da direita estão descobrindo apenas agora que são parte de um jogo. No momento em que o direitista nota sua enorme distância do esquerdista em termos de estratégia e táticas, pode haver um risco de desistência. (Mas como eu defendo, essa percepção é injusta, pois mesmo que a distância seja enorme, não é nada que não se resolva em 2 ou 3 anos com muito estudo. Este blog está aqui para ajudar nisso.)

Na perspectiva dos religiosos, temos o terceiro motivo: a escatologia. Muitas pessoas acreditam que a salvação (no paraíso) só virá após a catástrofe em terra. Dia desses debati com um direitista tão incisivo em sua defesa de que “o socialismo é inevitável, conforme-se, hahaha” que fui desafiando-o, até descobrir sua solução para o problema: “salvar as almas, pois todos estarão salvos após o apocalipse, e o socialismo trará o caos de valores previsto no apocalipse”. Ou seja, mesmo sem “gostar” do socialismo, o sujeito torcia para ele ocorrer, promovendo-o como “inevitável”.

O último motivo é a agencialidade, um fenômeno abordado muito bem por Michael Shermer. Já escrevi algo sobre isto:

Agora, o hominídeo tem que interpretar o som, que pode representar um predador perigoso ou o vento. O vento é uma força inanimada, enquanto o predador é um agente intencional. Existe uma enorme diferença entre os dois. Um agente intencional representa um perigo muito maior, pois este agente tem uma intenção determinada. É totalmente diferente de uma força inanimada. Imagine que você está no sopé de uma montanha, e vê uma rocha caindo em sua direção. Agora, imagine que esta rocha possui uma intenção clara, de lhe matar. Neste caso, você precisa de muito mais agilidade e perspicácia para escapar da morte. Este processo, a tendência de aceitar padrões com significado e intenção é aquilo que Shermer define como agencialidade.

Ou seja, a mente agencialista sempre encontrará uma organização “secreta” por trás das cortinas, organizando todas as ações, e sempre levando à inexorabilidade do socialismo. Assim, quando apoiamos um candidato mais à direita, o desculpista, movido pelo agencialismo, dirá: “Não adianta, desista, pois tudo já está combinado com um chefão do Foro de São Paulo, que manda no Lula e nos demais”. Não é preciso dizer que para estas costuras não há evidências suficientes.

Recentemente um amigo me disse sobre a “estratégia das tesouras”, no que eu respondi: “Você tem uma fonte explicando a estratégia das tesouras, que seria uma proposta de Lênin, certo? Eu tenho vários livros de Lênin e nunca li isso. Pode me ajudar?”. A resposta não aparece, mas com certeza ele vai citar mais vezes a “estratégia das tesouras” como argumento para desistirmos de lutar contra a esquerda.

Em suma, esses quatro motivos principais (e não são os únicos) mostram facetas da mente humana, que se manifestam em muitas pessoas. Os desculpistas não são pessoas desonestas, mas vítimas do fato de serem humanos e não terem lutado contra essas facetas, ao passo que os esquerdistas conseguem controlar isso com extrema facilidade.

Um desafio para os formadores de opinião da direita

Ao entendermos o que é o desculpismo, seus padrões de comportamento e os motivos para que eles ajam assim, é preciso estabelecer um novo desafio para qualquer formador de opinião da direita com foco em resultados, ou seja, nossos intelectuais orgânicos (na linguagem gramsciana).

Esse desafio é similar ao dos líderes de qualquer ação corporativa com foco em resultados: juntar os responsabilistas e superar os desculpistas, o que não significa nos colocarmos contra esses últimos. Podemos, aliás, até trazer vários deles para o nosso lado. Mesmo assim, muito desculpistas jamais mudarão, pois o investimento emocional feito em um conjunto de crença para justificar a inação foi muito grande.

Os desculpistas não são nossos inimigos, mas nossos aliados em termos de objetivos, e adversários em termos de métodos. Muitas vezes eles acabam fazendo propaganda para o adversário, tendo corresponsabilidade em grande parte do sucesso da esquerda hoje em dia. Isso, ao invés de demovê-los do desculpismo, em muitos casos os fará abraçar cada vez mais os padrões de comportamento desculpistas.

Que os desculpistas não se ofendam, pois estamos juntos nessa. Somos radicalmente opositores, é claro, na forma como vemos a ação política. Ignorar este aspecto da dialética interna da direita seria uma irresponsabilidade no momento em que a direita descobre a necessidade de uma ação política.

No próximo texto dessa série, falarei da antítese do desculpismo, o responsabilismo, o perfil direitista defendido por este blog. Depois dessa segunda parte, falarei de como um líder responsabilista pode lidar melhor (em aliança por objetivos, em oposição a métodos) com os desculpistas.

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18 COMMENTS

  1. Uma coisa bem notada. Ae é a escatologia de conservador. Vive um amigo meu aluno do Olavo e tudo , dizendo que lutar contra o esquerdismo é enxugar gelo . O capeta sempre encontra um jeito de atazanar tudo , pode se lutar na politica e tals , mas sempre será uma droga . E que inexoralvemente o anti-cristo e tudo mais se instalará.

    Conservadores deveria abrir uma exegese biblica com a seguinte interpretação : que apenas o o Juizo Final é inexoravel , mas o Anti Cristo, Falso Profeta , moeda global pode ser vencido . poda vir um Juizo Final de maneira indolor .
    Tal qual os sofrimentos de Cristo purgaram os pecados , mas não eram necessários . O que era necessario era Cristo morrer , ate naturalmente se preferivel .
    Essa escataologia vejo por um lado de maneira positiva ja que evita a mentalidade revolucionaria de criar paraiso terrestre . Mas de maneira muita negativa ja que o pessimismo desistimula a luta e faz a oportunidades de solapar o esquerdismo.

  2. Luciano, já a tempos ouvi falar da estratégias das tesouras e sua associação com Lênin, mas nunca tinha encontrado alguma referência a respeito. Realizando uma busca sobre o termo, descobri que ele é utilizado pelo Anatoliy Golitsyn, um ex-agente da KGB dissidente que usou o termo para se referir a um falso conflito entre China e União Soviética. Essa informação é importante, pois dá credibilidade ao termo e desfaz o engano de que o Lenin teria o usado, embora o embrião do conceito possa estar espalhado em algumas de suas obras. Acredito que esse tipo de estratégia só teria surgido propriamente com a guerra fria, pois neste momento é que se desenvolveram amplamente as técnicas de desinformação.

    Link com uma discussão a respeito do livro de Golitsyn, New Lies for Old: The Communist Strategy of Deception and Disinformation, onde aparece o termo:

    http://www.pocketcollege.com/wiki/index.php?title=Anatoliy_Golitsyn_Communist_Strategy_of_Deception_-_Misinformation_-_RR161BH111

    O termo está na página 181 do livro

    http://www.spiritoftruth.org/newlies4old.pdf

  3. “Muitas vezes vemos pessoas pedindo a volta da monarquia, o que, obviamente, não vai ocorrer. Mas esse é o pedido por algo irrealizável, que desobriga alguém, em termos psicológicos, de fazer alguma coisa no presente.”

    E lá vamos nós outra vez [risos]!

    Eu vou me dispensar dos elogios, pois acredito que, a essa altura, eu já tenha sido suficientemente claro a respeito da importância de um grupo de indivíduos empenhados em entrar na guerra política segundo as regras do jogo democrático.

    Minhas observações, sempre que esse tema “Monarquia” vier à baila, e sempre que for deferida a oportunidade, cinge-se apenas e somente a registrar o desagravo em nome da Causa Restauradora, embora o faça sem procuração de nenhum dos membros da nossa Família Imperial.

    Anteontem, aproveitando o interstício entre uma nova postagem e outra, eu estive cascavilhando os textos mais antigos e encontrei uma pérola (http://lucianoayan.com/2014/01/19/a-diarreia-mental-da-extrema-esquerda-quando-fantasia-que-nazismo-e-de-direita-parte-1/), e fiquei bastante impressionado e satisfeito em ver que esse tema já havia sido tratado, repisado e destrinchado relativamente há um bom tempo. No entanto, tive o desprazer de perceber, a partir das premissas lá postas, que você (Luciano) insiste sistematicamente em se utilizar de linguagem metonímica para tratar da “Monarquia”.

    Quando você estabelece, apropriadamente, que o iluminismo se opunha à volta da Monarquia, o que na verdade deve ser lido (data venia) é que o iluminismo se opunha a volta do Estado absolutista. Ocorre que, àquela época, o absolutismo “clássico” só era conhecido sob as vestes da Monarquia, embora as tiranias absolutistas mais assassinas da história da humanidade tenham se utilizado da República para atingir seus fins, modelo este que tem sido mantido na China, na Coréia do Norte, em Cuba, e com muito mais sucesso no Brasil.

    Logo, a premissa já afirmada por mim nos comentários a artigos anteriores de que a República, enquanto instrumental jurídico, é muito mais permissível ao absolutismo estatal do que a Monarquia Constitucional se mantém.

    Esse é o primeiro ponto. O iluminismo se opunha ao absolutismo que, por conveniência histórica, se utilizava da Monarquia para perseguir os seus fins. Esse ponto de vista se sustenta, a meu juízo, pois na Inglaterra o iluminismo não precisou derrubar a Monarquia para pôr fim ao absolutismo.

    Assim, sempre que você se referir textualmente à “Monarquia”, lerei “absolutismo”, pois o conceito de ciência política “Monarquia”, em si, encerra apenas a compreensão de uma Dinastia representativa da Nação e do Estado, cujo grau de participação no exercício do poder estatal (total, parcial, máximo ou mínimo) varia de cultura para cultura, sendo impossível, destarte, estabelecer uma fórmula geral.

    Estamos entendidos?!

    Ponto 02: Os monarquistas são direitistas desculpistas, pois transferem a responsabilidade a uma probabilidade remota, incerta e “irrealizável”, ou ainda, os monarquistas estão na ala desculpista da direita, pois se limitam a uma pauta futura.

    Como eu já havia dito antes, a dicotomia entre República e Monarquia, especificamente no Brasil, é ainda restrita aos que conhecem a natureza da Monarquia brasileira, a história do Império do Brasil e especialmente aos que conhecem a biografia da nossa Dinastia, desde D. Pedro II até o atual Chefe da Casa Imperial, D. Luiz de Orleans e Bragança.

    A missão dos monarquistas brasileiros desta geração é, portanto, limitada a propagar aos brasileiros de boa vontade as informações legítimas e honestas a respeito desses fatos históricos, ponto!

    O país somente estará preparado para iniciar um debate quanto o mérito, quando as pessoas estiverem suficientemente esclarecidas sobre o que significa a Monarquia Constitucional (em oposição ao absolutismo), o que significa a sua restauração e quais serão as consequências de uma transformação dessa magnitude.

    Assim, afirmo e reitero: o benefício que esse grupo específico tenta obter é meramente informativo, a semelhança do que ocorre quando você, por exemplo, expõe a verdadeira natureza do Nazismo, desfazendo deturpações e mentiras que, com o passar o tempo, se tornaram “verdades” no inconsciente coletivo do brasileiro.

    Indago: essa atividade prejudica ou se opõe à assunção de uma agenda propositiva em relação a postura responsabista que você defende para a Direita no Brasil?!

    A meu sentir uma atividade não anula e nem prejudica a outra, muito pelo contrário! Eu acredito que a Causa Restauradora só tem a se beneficiar com a guerra política, o controle de frames e a compreensão da dinâmica social e do ceticismo político, pois tem a seu lado 124 anos de desastres políticos, estado de sítio, ditaduras, demagogias, parlamento fechado e crises econômicas intermináveis.

    Por outro lado, no que se refere à difusão da Causa Restauradora, em relação ao esforço dessa “nova direita” responsabilista, percebo que a primeira está alguns anos mais adiantada, embora não esteja equipada com o mesmo tipo de ferramentas políticas e, portanto, não se apresente como uma vertente da Direita hábil a competir com a extrema-esquerda, ameaçando a sua hegemonia.

    Ademais, tanto os monarquistas “desarmados”, como a direita responsabilista, onde você se inclui, enfrentam os mesmos obstáculos, o mesmo inimigo comum, que é o totalitarismo ideológico marxista, de modo que, a curto prazo, não é certo afirmar qual das duas agendas e propósitos qual das duas é mais realizável, embora você não possa (nem deva) admitir isso aqui publicamente.

    Em termos de realização, eu ouso discordar com mais veemência. A realização da proposta monarquista e da direita responsabilista (embora uma não se oponha a outra) se aferirá, ao longo do tempo, pelo número de cadeiras que vier a obter no Parlamento.

    Tanto a direita responsabilista, como o monarquismo já têm a sua freguesia, e ambos estão destituídos de uma sigla partidária que os represente politicamente no âmbito do Parlamento. Hoje esses votos são absorvidos pela esquerda que ainda mantém uma posição de larga vantagem no quesito organização político-partidária.

    Posta essa premissa, passo a análise matemática da questão. O monarquismo, seguindo as atuais regras constitucionais e legais, precisará, inicialmente, de 257 votos na Câmara dos Deputados e 41 votos no Senado Federal (maioria absoluta), para aprovar uma convocação plebiscitária a respeito da mudança do regime político.

    O direitismo responsabilista, para impor derrotas sistemáticas à extrema-esquerda, já se mostraria forte com um número relativamente inferior, bastando controlar cerca de 30% à 40% das cadeiras em cada Casa legislativa, o que também é um desafio significante.

    Um e outro, embora haja certa vantagem aos direitistas reponsabilistas, pois o seu propósito é bem menos ambicioso, ainda estão muito longe de realizar efetivamente a sua agenda política e necessariamente estarão caminhando juntos de modo que, futuramente, nada me diz que alguns direitistas reponsabilistas estejam impedidos de apoiar os monarquistas, e vice-verso, no combate à extrema-esquerda.

    Enfim, se a sua intenção é apontar a ingenuidade dos monarquistas em militar a sua causa sem o devido preparo para a guerra política onde a extrema-esquerda mostra-se eficiente, creio que estamos de pleno acordo.

    No entanto, se a sua intenção é dizer que os monarquistas, por defenderem uma agenda supostamente irrealizável, estarão sempre inabilitados a participar significativamente da guerra política contra a extrema-esquerda, então quanto a isso devo manifestar a minha contrariedade.

    Apenas para concluir, a Monarquia limita-se apenas em um método de relacionamento entre o Estado e o povo, diverso da República, de modo que mesmo que o Brasil hoje já fosse uma Monarquia Constitucional, isso pouco importaria se o Parlamento fosse totalmente controlado pela extrema-esquerda que lá estaria trabalhando ardentemente para derrubar o Imperador.

    Assim percebo e defendo que os monarquistas que pretendam restaurar a Monarquia Constitucional e subsequentemente pretendam mantê-la incólume e em pleno funcionamento, devem sim se equipar com as melhores armas políticas e se integrar ao grupo da direita responsabilista em oposição à direita desculpista e à extrema-esquerda.

    Dito isto, considero um pouco de mau gosto dizer que os monarquistas são, a priori, contrários à guerra política e se incluem automaticamente entre àqueles que não querem assumir responsabilidades, pois sua agenda é irrealizável ou imprestável para o presente.

    Se você conhecesse tantos monarquistas como eu, saberia que os monarquistas estão majoritariamente empenhados em promover à verdade sobre os fatos históricos, e essencialmente orientados a se pautar pela via democrática em oposição a qualquer proposta golpista. Esta é a postura oficial da nossa Família Imperial.

    Monarquistas que defende um golpe de Estado, com auxílio das Forças Armadas, ou propostas afins, são sumariamente repelidos, censurados e desautorizados publicamente a falar em nome da Causa.

    Ocorre, porém, que existe sim uma distinção entre não querer assumir responsabilidades e ignorar totalmente o caminho que foi percorrido pela extrema-esquerda. Essas coisas não são ensinadas na escola e muito menos nas universidades. E se eu não tivesse esbarrado no seu blog acidentalmente é certo que eu jamais saberia da existência desse tipo de abordagem e, portanto, a seu juízo, eu seria enquadrado no rol dos desculpistas, apenas por ignorância.

    • Em relação ao ponto 1, é muito justo. Concordo contigo. Porém, a associação entre monarquia e absolutismo é mais um outro ponto a dificultar a volta da monarquia. É uma solução inviável.
      Em relação ao ponto 2, até entendo seus argumentos, mas não raro vejo pessoas acreditando na monarquia dizendo “conforme-se, a esquerda vai vencer, sempre, hahaha”, pois transfere a responsabilidade para a monarquia. Mesmo que você não faça isso (e acredito em você), é importante saber a consequência de gastar tanto tempo propondo um modelo alternativo.
      Outro risco deste discurso é dizer que a monarquia “pode evitar excessos de cada lado”, mas esses excessos só são permitidos por inação de um dos lados.
      Mas eu vou abordar mais este assunto nesta série. Nem todo mundo que defender propostas irrealizáveis no momento é um desculpista, mas em muitos casos propostas longínquas, de qualquer tipo, podem servir a isso.

      • Ponto 01: Este tem sido o maior desafio da Restauração desde o golpe e o sequestro do Imperador Pedro II. E você poderia “ajudar” se tivesse a delicadeza de falar em absolutismo explicitamente, ao invés de associá-lo a Monarquia, enquanto gênero. Ao menos para fazer justiça ao legado histórico do Imperador Pedro II e aos valores tradicionais defendidos e preservados por seus predecessores, inclusive por D. Luiz.

        E quanto a ser difícil reverter esse quadro, eu reitero que o ceticismo político é uma ferramenta tão apropriada a este fim como ao que você emprega usualmente. O grau de dificuldade de ambas as missões tem mais pontos coincidentes do que distinções.

        Ponto 02: Aqui cabe esclarecer que além de você, desconheço um outro articulista da Direita que se proponha a tratar do debate público por este viés especificamente. Muito recentemente se destacaram alguns nomes inspirados no trabalho de décadas do Professor Olavo de Carvalho, o que, embora insuficiente para ombrear equilibradamente com a extrema-esquerda, inegavelmente representa uma aparente vantagem em relação aos monarquistas onde ainda não há nenhum “ideólogo importante”.

        De qualquer modo, como eu ressaltei, aos monarquistas não interessar restaurar o regime e deixar o Imperador totalmente desprotegido e suscetível a ataques em massa da extrema-esquerda, para em poucos anos vê-lo ruir por inépcia política. Portanto, aprender a se determinar eficazmente na guerra política é uma necessidade à própria manutenção do regime, e não apenas a sua restauração.

        De nada adiantaria repartir o poder estatal em quatro partes, se a extrema-esquerda estiver sempre a controlar o Parlamento e o Judiciário. O Poder Moderador seria rapidamente demonizado e enfraquecido, e o Imperador teria pouca margem de manobra para defender o regime, já que a medida extrema, em uma Monarquia Constitucional, é a dissolução do Parlamento e a convocação subsequente de eleições que, em um ambiente de totalitarismo ideológico, significaria a recomposição das mesmas forças políticas outrora dissolvidas, ou mesmo estímulo ao acirramento, radicalização da extrema-esquerda.

        Em suma, pelo meu critério, os monarquistas “desarmados” distinguem-se da direita desculpista propriamente dita pelo critério da ignorância (desconhecimento da guerra político ao estilo gramsciano do bem), pois dentro da Direita brasileira ninguém é mais sincero e propositivo do que um monarquista que deseje não apenas restaurar, mas principalmente sustentar a Monarquia Constitucional.

        Ninguém vai conscientemente para uma guerra armado de faca de cozinha sabendo que existe um AK 47 guardado no baú, apenas por preguiça de aprender a usar um fuzil automático.

  4. Alguem já disse: “E não sabendo que era impossível ele foi lá e fez!”

    Hoje a ombudsman da Folha de São Paulo, Vera Guimarães, confirma o post que fizemos no último dia 19, cuja reprodução está acima e o link está aqui. O nosso blog dizia:
    A Folha de São Paulo dilmou de vez. No dia em que começa a propaganda eleitoral, a manchete de capa é esta aí que vocês estão vendo.

    Folha de São Paulo reconhece que capa denunciada aqui favoreceu, sem razão, PT e Dilma
    http://coturnonoturno.blogspot.com.br/2014/08/folha-de-sao-paulo-reconhece-que-capa.html

    Acostumada a apontar o dedo para mostrar falta de ética e honestidade nos outros, Marina Silva não explica de onde veio o avião que servia a sua campanha. Veio de caixa dois?

    E aí, Marina, é caixa preta ou caixa dois?
    http://coturnonoturno.blogspot.com.br/2014/08/e-ai-marina-e-caixa-preta-ou-caixa-dois.html

  5. Bom, eu sou monarquista como o lorddenn (Creio eu que ele também o seja) e defendo exatamente os mesmos princípios que ele fala. Mesmo porque, pela própria natureza da Casa Real brasileira, é totalmente incompatível o retorno da monarquia ao poder que não pela aclamação popular POPULAR MESMO – e não meia dúzia de conselhos soviéticos transvestidos de “poder popular” ou uma revolução militar. Nenhum monarquista SÉRIO defende essas coisas.

    E não é falácia do “Bom escocês” – é um requisito para defender a causa monárquica no Brasil (ou, pelo menos a Causa Monárquica da família de Orléans e Bragança), pois os próprios membros da família afirmam tais coisas. Com que moral um “monarquista” poderá se chamar assim defendendo o CONTRÁRIO da causa? É o mesmo que um esquerdista dizer “sou liberal”.

    Fico satisfeito, no entanto, em ver que você, Luciano, pratica o que diz: quanto mais pré-requisitos colocarmos para sermos “de direita”, menos direitistas teremos. Você não nega o apoio de TODOS os direitistas – mesmo que precise orientar alguns dos nossos que cometem equívocos. Eu fico muito aborrecido quando vejo direitista falando “é impossível vencer os esquerdistas, está tudo dominado” e tento orientá-los que não é bem assim e mostro com fatos (não raramente linkando o seu blog) e, muitas vezes consigo ao menos fazer o direitista repensar certas coisas. É trabalho que exige MUITO tato e paciência, mas rende bons frutos.

  6. Luciano, vou falar sobre algo que sempre tive uma grande suspeita:

    Movimentos separatistas (principalmente no Sul) são também um ato de não aceitação da culpa tal qual a ideia de intervenção militar?

      • O que quis dizer era que dentro de um contexto de governo que quer um autoritarismo de extrema-esquerda, algo intolerável que deve ser extirpado do planeta como uma praga nociva. Dado o contexto citado, acaba se tendo a ideia de que movimentos separatistas dentro do Brasil têm no fundo, pretensões egoístas, de orgulho nacionalista até mesmo com pitadas de coletivismo. Tanto é que vi que muita gente desconhece o que significa estratégia de guerra política.

    • Uma vez eu assisti uma entrevista com o então líder do movimento O Sul É Meu País. O cara era um músico de profissão que começou a entrevista falando da bandeira que representava os separatistas, feita para ser hasteada no lugar da bandeira nacional. A entrevista seguiu. O movimento tinha partido? Não. Projeto de partido? Não. Plano de poder? Não. Cronograma sócio-político? Não. Projeto de constituição? Não. Projeto de lei? Não. Uma porra de uma mísera passeata ou manifestação agendada em algum lugar? Não. A única coisa que aquele líder trouxe pronta foi a bandeira. Foi aí que eu concluí que aquilo não passava de uma rodinha de punheta e parei de levar esses “movimentos” a sério.

    • A direita não APRENDEU suficientemente a guerra política, se recusou a entender as táticas do inimigo, e daí muitos inventam desculpas para explicar o motivo da vitória da esquerda (“a democracia é ruim”, “só se voltar monarquia”, “o povo é burro”, etc.)

      As desculpas são multiplas.

    • Eu acho que o que aconteceu foi que a direita não percebeu a necessidade de se participar de uma guerra política. Primeiro porque as condições iniciais eram favoráveis à direita, o socialismo é que necessitaria de uma revolução… que viria através das idéias. Ao longo de décadas essa revolução foi gradualmente sendo implementada, essas idéias foram lentamente ganhando espaço, inclusive dentro do próprio ideológico da direita. A educação pública – por contar com intelectuais que majoritariamente se beneficiam de uma participação maior do estado na sociedade – foi servindo de instrumento doutrinador das crianças e jovens.

      Até que um belo dia – puf! – a direita percebeu que perdeu. Que, apesar de suas idéias serem mais coerentes com a natureza humana, se esqueceram que esta é adestrável, domesticável, ou, pra se usar um termo mais brando: educável. Não só isso, mas percebeu que precisaria de muitos anos só para recuperar o espaço perdido, e se viu sem meios para fazê-lo. Não houve um “Gramsci” direitista, ou se houve, não teve uma exposição comparável ao que o original teve para a esquerda. Agora, cerca de 5 décadas de trabalho, a esquerda ainda se esperneia e luta veementemente para manter sua posição, afinal de contas, por mais que sejam bonitas, e por mais que ela tenha adestrado as pessoas, suas idéias não são coerentes com a natureza humana, e algumas poucas e boas instituições (em sua maioria religiosas) ainda se mantém leais a seus princípios e fazem um trabalho – mesmo sem esse objetivo – que conflita com o doutrinamento esquerdista.

      Temos que nos mexer de verdade, e rápido! Justamente por estarmos umas 5 décadas (estimativa chutada minha) atrás, mas também chuto que – justamente pela coerência entre as idéias da direita e a natureza humana (e vou além, coerência com A REALIDADE como um todo), se nos empenharmos, não vamos precisar das 5 décadas para recuperarmos o terreno perdido.

  7. O grande feito que extinguiu as direitas foram o MDB ter se dissolvido e mentado uma base administrativa sobre três partidos:PSDB>PMDB E PT.Com isso foram criados ministérios e lastrearam suas militâncias através do empreguismo.Devoraram a direita sem direito de defesa.Hoje somos governados por partidos e não pela democracia constitucional.O alvorecer do socialismo nasce sem que você perceba!

  8. “Recentemente um amigo me disse sobre a ‘estratégia das tesouras’, no que eu respondi: ‘Você tem uma fonte explicando a estratégia das tesouras, que seria uma proposta de Lênin, certo? Eu tenho vários livros de Lênin e nunca li isso. Pode me ajudar?’. A resposta não aparece, mas com certeza ele vai citar mais vezes a ‘estratégia das tesouras’ como argumento para desistirmos de lutar contra a esquerda.”

    Aposto 20 reais que a fonte do seu amigo é Olavo de Carvalho.

    A última vez que li sobre a “estratégia das tesouras” foi nos comentários de um artigo postado no Diário do Centro do Mundo. Como o texto escrachava Olavo de Carvalho, vários comentaristas vieram defender o filósofo. Um deles mencionou a tal “estratégia das tesouras de Lênin”, e Paulo Nogueira respondeu categoricamente que Lênin jamais havia dito aquilo. O tal comentarista não se atreveu a refutá-lo.

    O que me ocorreu após ler esse diálogo foi que muitos (pseudo-)direitistas e simpatizantes ainda não têm disposição para averiguar informações por si mesmos. Pior: o que eu mais vejo na direita brasileira é desculpismo. E isso é porque grande parte da (pseudo-)direita brasileira, tal qual o comentarista citado acima, só sabe repetir discurso e não informação. Faz sentido? Há uma diferença entre usar como fonte de informação os livros e dados que Olavo & Cia. abordam, e usar como fonte de informação apenas as palavras de Olavo & Cia. Por exemplo, como não ser desculpista quando Olavo diz que “o Brasil não tem mais jeito” e Paulo Martins conclui que o brasileiro “merece a ditadura sindical do PT”?

    (Aliás, o que eu não daria por uma versão brasileira do conservador português João Pereira Coutinho. Mais humor e menos derrotismo fariam um bem tão grande à direita brasileira…)

    O único site de direita que eu conheço que escapa dessa tendência é este aqui, que trata a realidade do país de hoje como um ponto de partida e não como um fracasso consumado. Acho que Luciano está fazendo, com artigos como esse, um trabalho precioso de exame de consciência. Não sei dizer se todas as suas análises são acertadas, mas chega a ser surpreendente ver um direitista brasileiro debatendo ações e soluções que não envolvem o aeroporto.

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