O que devemos aprender com a liderança de Luciana Genro diante dos nanicos?

22
116

genro

Você acha que existe de alguma forma um “segredo” para vitória em termos políticos? Não, não existe. Posso lhe garantir que não há uma fórmula mágica para vencer na política. A não ser que você esteja procurando auto-ajuda enganosa, o que me recuso a fazer.

Mas posso lhe assegurar que existem receitas para se aumentar consideravelmente as chances de sucesso, assim como para reduzi-las. Nada do que falo aqui serve para “garantir vitória”, mas para aumentar as chances de sucesso de alguém na guerra política.

Quando víamos os resultados das eleições presidenciais na reta final da apuração ontem, 5/10, em quarto lugar aparecia Luciana Genro, com 1,60% dos votos, o que é quase nada diante dos votos de Aécio, Dilma e Marina (sendo que os dois primeiros foram para o segundo turno). Todavia o resultado foi muito melhor do que os demais nanicos. Veja:

Segundo a apuração parcial, Luciana Genro tinha 1.612.153 votos (1,55%), seguida de Pastor Everaldo (PSC), com 780.424 (0,75%); Eduardo Jorge (PV), com 630.083 (0,61%); Levy Fidelix (PRTB), com 446,853 (0,43%); Zé Maria (PSTU), com 91.207 (0,09%); Eymael (PSDC), com 61.249 (0,06%); Mauro Iasi (PCB), com 47.841 (0,05%); e Rui Costa Pimenta (PCO), com 12.323 (0,01%).

Agora relembremos o que dizia minha avaliação do debate da Globo de 02/10, que eu publiquei algumas horas depois, já em 03/10:

Dos nanicos, Luciana Genro é um espetáculo. Simplesmente não há a menor base de comparação com os outros candidatos nanicos. E olhe que todas as propostas dela são um lixo bem fétido. Como esperado, ela também fez escada para Dilma logo na introdução do debate, ao perguntar sobre corrupção, dizendo que se o PT fez corrupção “é por alianças com a direita”. Ou seja, os esquerdistas são anjos que se corrompem ao visitar o inferno, onde estão os direitistas. O problema seria ela explicar como a filha de Hugo Chavez tem 800 milhões de dólares no exterior, e como a fortuna de Cristina Kirchner cresceu 687% na Argentina. Mas falemos do aspecto técnico: em termos de guerra política, em linhas gerais, ela é extremamente competente, usando recursos como polarização, retórica de conflito, lançamento de culpas, shaming, a técnica da metralhadora e até encenações teatrais. Se fosse apenas pela técnica de guerra política, eu a definiria como a vencedora do debate, mas suas propostas vazias e a falta de foco a atrapalharam. Num cômputo geral, ela ficaria em segundo lugar, atrás de Aécio.

Um leitor disse que ela beirava o patético, “com aquela cabeleira centrífuga (em rota de fuga da cabeça dela), parecendo aquela boneca de pano ou trapo, Emília, do Sítio do Pica Pau Amarelo”. Mas ainda pior eram suas propostas, como já ressaltei. Mas ela jogou o jogo direitinho, mesmo sabendo que no máximo seria uma linha auxiliar do PT (tanto que irá apoiar os bolivarianos no segundo turno).

Peço que revejam os vídeos de debates de Luciana nessas eleições e avalie o desempenho: quase sempre ela se destaca (e os resultados das urnas estão aí), por ser assertiva, mostrar convicção no que diz, apelar ao coração e, principalmente, por ficar no ataque o tempo todo. Como sempre, ela demonstra indignação com o estado atual das coisas, e, durante seus ataques, não se esquece de lançar shaming sobre opositores.

Enquanto isso, Pastor Everaldo, que chegou a ter 3% a 4% na fase inicial de sua candidatura, concluiu com 0,75%. No mínimo decepcionante. Basicamente, ele brilhou nos debates apenas nos momentos em que fez dobradinha com Aécio Neves, nas acusações de corrupção contra o governo. Mas convenhamos que brilhar nesta questão é uma moleza. Mas faltou a ele tato para jogar o jogo político na mesma dimensão que fez Luciana.

A grande lição que fica deste primeiro turno é que jogar a guerra política é uma opção que praticamente significa responder afirmativamente a questão “quero aumentar decididamente minhas chances de ganhar, ou ao menos aumentar meu capital político de acordo com minhas possibilidades reais”? Luciana Genro respondeu afirmativamente à essa questão. Nenhum dos demais nanicos fez isso.

Por isso, mantenho o que vinha dizendo: ao mesmo tempo em que manifesto desprezo pelas propostas de Luciana (uma mais demente que a outra), parabenizo-a por jogar a guerra política.

Do nosso lado, devemos cada vez mais pressionar os partidos para que qualquer candidato de direita ou centro, seja focado em ganhar a eleição ou apenas para ser uma linha auxiliar de outro (como foi Luciana), entre com os princípios da guerra política em mente.

Anúncios

22 COMMENTS

  1. Não foi apenas ela. Tudo bem que não é surpresa o PSOL ter boa votação aqui no Estado do Rio, mas a verdade é que eles lançaram um candidato que era absolutamente desconhecido ao Governo, sem qualquer estrutura partidária, apenas metendo a cara nos debates (aos quais teve acesso por conta da legislação eleitoral). Tarcísio Mota é um obeso de rabo de cavalo, mas se expressa bem e tem a assertividade que costuma ser padrão no PSOL. No debate da Globo, soltou um “onde está o Amarildo?” olhando para o Pezão com ar de indignação. Isso ecoou no eleitorado. O resultado: com não mais do que 1% em qualquer pesquisa até o debate da Globo, o cara terminou com 8,92%, colado no Lindberg (10%), que é do PT, é senador e já foi prefeito de Nova Iguaçu. Sem dúvida, um bom resultado que ajuda a explicar o relativo sucesso do partido (3 deputados federais contra 1 do PSDB e 1 do DEM – 5 deputados estaduais contra 2 do PSDB e nenhum do DEM).

    • bedot,

      Queria que o Luciano avaliasse a campanha do Pezão porque ele (com seus marqueteiros competentes, PARABÉNS pra vcs aí que fizeram a campanha do Pezão, afastando-o da imagem desgastada do Sérgio Cabral) foi quem até agora jogou o jogo político “direitinho”. 🙂

      E sobre o frame/mantra “CADÊ O AMARILDO?”, ele poderia ter feito isso:

      [*Pezão]- Olha aqui, candidato do PSOL, você poderia ter aproveitado a ocasião pra me lembrar tb desses outros Amarildos aqui que tem nome e sobrenome e que eu tenho aqui na minha mão [puxa a lista de vítimas só na Rocinha]… Se você prioriza somente o caso do Amarildo não sei por que, que desapareceu pelas mãos de traficantes e não de policiais locais, como levianamente vcs defendem sem ter provas, eu, além do Amarildo, priorizo também o [e segue-se a leitura dos nomes das outras vítimas]… Não entendo, candidato, o seu desprezo e silêncio (e do seu partido) sobre o assassinato de todas essas pessoas e a falta de consideração para com as famílias delas. Levante tb a bandeira por todas elas como eu estou fazendo no meu governo e farei ainda mais[e segue-se o discurso prometeico que deixa todo mundo esperançoso e feliz].

      [*Apresentadora/mediadora]- Candidato do PSOL, pode fazer a tréplica… Candidato?… Candidato?…
      – ~~~~~~~~~… [*barulho de vento no deserto]

      • E o PSOL só faz sucesso aqui no Rio porque tem o apoio de quase toda a esquerda caviar carioca (*traduzindo: Rede Globo + classe média e média alta zona sul + PUC + Baixo Gávea + Ongs da ONU e do Esquenta + UFF + UERJ + UFRJ + pessoal do Teatro & Cinema + Escola de Belas Artes + O Dia + as paisagens magníficas da orla…). Aqui existe uma “aura místico-esotérica-vanguardista” sobre ser de esquerda, que ti faz acreditar que está agora, nesse momento, fazendo história mas estando ao mesmo tempo fora dela (??) :)… Aqui a new left- por algum vodu macumbístico- conseguiu hipnotizar muitas almas inteligentes e sagazes de nossa elite e classe média que sempre se consideraram privilegiadas por viverem num lugar lindo e maravilhoso por natureza. Mas percebo tb que o castelo de chantilly tá começando a derreter. Acho que é isso. 🙂

  2. Ela foi melhor que os outros nanicos, mas não acho que ela tenha sido excepcional ou algo do tipo. Claramente, ela teve um desempenho bastante ruim, não chegando nem a 2% do eleitorado. Agora, resta saber o por que isso aconteceu. Em uma análise geral, acredito que ela se apresentou como uma candidata que apenas atacava com acusações clichés não convicentes(como a eterna repetição do capital financeiro e o papo de homofobia); ausência de um projeto decente(apenas se concentrava em questões menores, ao invés de apresentar um projeto para combater a corrupção ou lidar com a economia); atuar como linha auxiliar do PT, ao invés de se apresentar como verdadeira candidata; ausência de credibilidade, ao dizer que não apoia ditaduras, quando se sabe que ela apoia a venezuelana e a cubana ou quando falava como se fosse plenamente capaz de ganhar a eleição.

  3. Há algum livro, ou outra fonte de consulta resumida para leigos, em português, a respeito dessas técnicas de propaganda política? Tomei conhecimento do assunto em 2 palestras sobre Horowitz e Alinsky de Silvio Medeiros na Internet que me fizeram tomar conhecimento de coisas que ignorava completamente

  4. Concordo que ela é uma boa jogadora, mas penso que esse índice (considerado relativamente bom diante dos demais nanicos) não se deve apenas ao seu jogo político,mas ao fato dela ter jogado ‘sozinha’. Explico: ela atacou a todos (e fez isso com bastante assertividade), mas quase não foi atacada. Isso porque não se gasta bala de prata com defunto morto. Como ela era irrelevante em termos de concorrência com os grandes, por mais que os atacasse, não recebia contra-ataques, visto que não interessava a Dilma, Aécio e Marina gastarem seu tempo com ataques a quem tinha 1% das intenções de votos. O tempo destes, quando em interação com a PSOLista, era destinado a outros ataques, quase sempre ignorando-a.
    Observe que em momento algum, pelo que me lembre, os três primeiros mencionaram os podres do PSOL, sua ligação com Black Blocs etc.
    Acredito que se ela tivesse mais bem posicionada nas pesquisas, oferecendo riscos aos líderes, teria sido confrontada e, com aquele discurso do século retrasado, não seria difícil desconstruí-la.

  5. Há um outro fator a ser considerado. Com a ameaça do PT de ganhar no primeiro turno, muitos eleitores dos outros candidatos nanicos, que tem um perfil mais conservador, decidiram votar no Aécio ou na Marina. Li alguns comentários desse tipo na semana passada nas redes sociais.

  6. Acredito que o desempenho de qualquer candidato deve ser medido pelas suas expectativas. Eu não sei qual a meta que o PSOL queria atingir em termos de votos absolutos ou o crescimento em relação à eleição anterior. Obviamente que existem outros objetivos, pois a existência do PSOL é fundamentalmente a de representar o papel de esquerda radical e deixar o PT no máximo como esquerda moderada, sobrando para o PSDB a imagem de direita.
    Note-se que a simples presença de Fidelix (que cresceu 10 vezes seu eleitorado por defender propostas de direita) e Pastor Everaldo, equilibrou o jogo para Aécio, que ficou com a imagem de moderado perante o eleitorado. O PSDB ficou no máximo como o partido de centro-direita, mais próximo da sua realidade de centro-esquerda. Na visão do eleitorado o PT foi mais pra esquerda, o que é muito bom para o PSDB.
    Como ensina Olavão, a direita precisa entender que o crescimento político é essencialmente dialético. Para a direita ser a síntese que resolve, ela precisa ter quadros na extrema-direita. O PT continua na extrema-esquerda, mas o eleitorado o identifica como social-democrata, pois os novos partidos de extrema-esquerda (PSTU, PSOL, PCO) além dos antigos (PC do B, PPS) assumiram esse papel no imaginário popular. Nesse contexto, o social-democrata PSDB foi empurrado para a direita. Aí a esquerda asfixiou a discurso de direita, que ficou rotulado como extrema-direita, e nenhum eleitorado gosta de extremismos, mesmo que este não seja real ! Então, NMHO, as performances do pastor Everaldo e do Fidelix (sem querer, e por um erro de Luciana Genro), ajudaram Aécio nos debates a se posicionar como um cara ponderado, racional e preparado.

    • Uma boa idéia.Deveria ter um partido de extrema-direita para fazer a estratégia das tesouras.Poderiamos apoiar, unicamente por objetivos estratégicos, a criação do partido Arena (seria o “nosso” psol).

      Ayan, você acha que carisma conta no jogo polítco?Se sim, você acha que o Jair Bolsonaro um líder carismático?

      • Segundo o Felipe Moura Brasil ele sinalizou que pretende concorrer a presidência em 2018.Ele já poderia ir aprendendo sobre guerra política a partir de agora (sugiro que alguém aqui manda esse blog para ele).

  7. Tem muito “oba-oba” sobre “esse novo(?) personagem” da politicalha nacional:

    Tudo depende do referencial de comparação …


    (…) Heloísa Helena, senadora eleita em 1998 pelo PT de Alagoas, disputou o cargo de presidente da república em 2006 pela Frente de Esquerda constituída por PSOL, PSTU e PCB, tendo sido a 3ª colocada com 6.575.393 votos (6,85% dos válidos) – uma enorme conquista do PSOL, o qual ficou à frente do tradicional e de maior porte PDT. (…)

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Helo%C3%ADsa_Helena#Resultado_das_elei.C3.A7.C3.B5es_2006

    Essa comparação me parece mais justa.

    E olha só o que aconteceu com toda essa votação de 2006:


    Collor (PTB) derrota Heloísa Helena em AL e renova mandato no Senado

    http://eleicoes.uol.com.br/2014/noticias/2014/10/05/collor-derrota-heloisa-helena-em-al-e-renova-mandato-ao-senado.htm

    A votação da LuciAnta Genro não foi nada excepcional, nem mesmo considerando o seu “Partido Puxadinho Petralha”.

    Além disso a dita cuja ainda contou com um”sobrenome”, um ex-partido, excessiva e injustifica exposição dado o seu conteúdo praticamente nulo.

    Como foi comentado anteriormente, não sofreu ataques, e assim como Marina, se virasse “alvo” de criticas com certeza perderia o seu pseudo-controle e desabaria.

  8. Luciano, tenho dificuldades de visualizar a, digamos assim, “superioridade” da Luciana Genro no “jogo político”! Ela pode ser fácilmente derrotada em um debate. Me parece que, ocorre realmente, é que a maioria dos candidatos homens parece ter medo ou respeito por ela e ela se aproveita disso mas isso é FALHA dos outros e não MÉRITO pessoal dela. Eu a olho e vejo um monte de bosta, apenas. Acho que qualquer um que visualize o mesmo já tem enorme vantagem no confronto com ela.

    De resto, suas propostas são um lixo e ela não argumenta só ataca e os ataques dela são fácilmente bloqueados. No dia em que ela pegar alguém que sabe subir o tom também e sabe responder grosseria com ironia e sarcasmo, ela está frita! Eu estou errado? Estou esquecendo algo? Não consigo ver ONDE ela é verdadeiramente MELHOR que os demais.

  9. Luciano, o que você achou do discurso derrotista do Adolfo Sacshida no vídeo abaixo? Ele diz que há uma falsa sensação de crescimento da direita, citando os 3.3 mil votos que recebeu, o PCdoB sendo eleito no Maranhão, entre outros pontos.

  10. Luciano, a impressão que tive é que ela só ganhou as “estalecas do BBB” porque jogou praticamente sozinha. Ganhar de W.O não tem mérito. Quando o Aécio, na primeira oportunidade botou o ‘piru na mesa’, levantando um pouquinho o dedo em riste pra ela e descarregando sua fala, ela desabou (apelou pra ofensa da honra e pagou de antipática, vítimista, frágil). O Fidelix, se calibrasse melhor em cima das acusações de ódio racial, não sobraria nem um fio daqueles cachinhos amarelos pra contar estória. E toda a polarização, retórica de conflito, lançamento de culpas, shaming, técnica da metralhadora e encenações teatrais sucumbiram, entropiaram em segundos com os frames, vídeos, textos e memes propagados aqui nos blogs & nas redes socias, expandindo para o mundo “lá fora”.
    Abs.

  11. Pastor Everaldo estava bem cotado por ter de muitos conservadores, especialmente dos evangélicos, mas como viram que ele não tinha chance, rapidamente seus votos passaram para Aécio e Marina, acredito que ele foi importante na eleição mesmo com suas atuações duvidosas, ao menos dizia algumas frases realmente de direita *Coisas que o PSDB não diz*

    Sobre esse comentário:
    “as performances do pastor Everaldo e do Fidelix (sem querer, e por um erro de Luciana Genro), ajudaram Aécio nos debates a se posicionar como um cara ponderado, racional e preparado”

    Sim, o fato de ter alguns considerados de direita mais direita, fez o eleitorado que não gosta de extremos migrar pro Aécio.

    Inclusive os momentos em que Marina estava supercotada era porque ela era considerada um meio termo entre o PT e o PSDB, com o PT sendo a esquerda (então pessoas que tendem a centro-esquerda ou centro-direita a achavam uma boa opção, ela arrumava votos de ambos eleitorados, de socialistas e de evangélicos, de empresários e de ambientalistas). Ou seja, as diferentes matizes de opção no espectro político acaba privilegiando alguns candidatos considerados mais moderados, o PT com certeza lucra nisso, até porque certos partidos extremados o pintam como se ele fosse de direita (sic)

  12. Que eu lembre, a única escorregada dela foi quando o Aécio falou com ela com dedo em riste “não seja leviana”. Aí o emocional bateu, e ela saiu do controle, pedindo de forma patética pra ele não falar apontando o dedo pra ela. Fora isso, impecável…

    Aliás, grande momento do Aécio esse…

    • Basta ter os fatos em mãos.

      Ex. quando Luciana ataca, está sempre mentindo. Ataque, mostrando os fatos. Quando ela demonstra indignação, não tem motivo para isso. Demonstre indignação, com um motivo claro.

      Ou seja, copiar estratégias de um desonesto não é o mesmo que ser desonesto, desde que você tenha os fatos em mãos.

      Abs,

      LH

Deixe uma resposta