A Grande Jerusalem e os próximos movimentos na guerra política

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kingdomofheaven

Torno a usar o termo Jerusalém, que, assim como no tempo das Cruzadas, é o ponto mais importante para ambos os lados do confronto. Mas agora é hora de conhecermos a Grande Jerusalém, em torno da qual os governistas já posicionaram quase todos seus batalhões:

  1. Direito de censurar a mídia (Jerusalém) – várias vitórias simbólicas, e ataques contínuos contra ela (governistas tem dito que ela é responsável pelas manifestações “pedindo intervenção militar” – o objetivo é um só: pressionar ainda mais a mídia)
  2. Uso de coletivos não-eleitos – área temporariamente sob domínio do oponente
  3. Assembléia constituinte – área temporariamente calma, mas com o governo fazendo as melhores manobras
  4. Financiamento estatal de campanha – área onde o governo tem feito ocupações fortes, através da relativização da corrupção, e transferência da culpa para os “financiadores”
  5. Direito de punir opositores por “crimes de ódio” vagamente declarados – posição já ocupada pelo governo, com promulgação recente de uma lei “de crimes de ódio” na Internet
  6. Sequência das atividades do Foro de São Paulo sem qualquer tipo de pressão – posição disputada atualmente, mas com o governo se segurando bem, sem ter que dar muitas satisfações
  7. Criação de uma polícia unificada – mais outra área onde o governo vem comendo pelas beiradas, e é uma posição desguarnecida pelo lado da oposição
  8. Manipulação dos critérios para esconder indicadores econômicos ruins – área que será conquistada pelo governo na semana que entra

Todos os 8 itens (que podem ser alterados de acordo com a prioridade, mas dificilmente passarão de 10, para que o governo não perca foco) estão naquilo que defino como 3P’s, ou seja, “projeto padrão petista”.

Todo 3P tem um único fim, e um único fim apenas: consolidar o PT do poder, especialmente de forma hegemônica. Logo, a resolução do partido é como se fosse uma forma de “missão de uma empresa”, e, a partir desta missão, junto com a definição de uma visão, todas as ações serão centradas no atendimento da visão em alinhamento com a missão. Como sempre, é uma questão de objetivos.

Existem algumas outras posições praticamente abandonadas pelo governo, que são:

  • Questionamento da validade das eleições (tem a ver com a demanda “anulação de eleições”)
  • Pedidos de impeachment (é a demanda “impeachment de Dilma”)
  • Intervenção militar (a demanda “intervenção militar”)

Por que o governo abandonou essas questões?

A resposta é tão simples quanto prática: por que ele sabe que não vale a pena gastar esforços com demandas não relacionadas aos 3P’s (pois guerra é um empreendimento baseado em gestão de sua capacidade atual, assim como uso do esforço humano em um dado período de tempo, sempre em direção a objetivos).

O governo também sabe que a conquista cada vez maior da posição 1 (“censura de mídia”) vai neutralizar quase todos os esforços por pedidos de impeachment, pois a imprensa já está muito mais adestrada do que estava há um mês atrás.

Quando eu avisei que a direita não estava se preocupando com as vitórias simbólicas espetaculares obtidas pelo governo na conquista da posição 1 (Jerusalém), eu não estava brincando. Era evidente que essa leviandade ia custar caro. Mas nem tudo está perdido.

As tropas da oposição hoje se dividem nos seguintes grupos principais:

  • Base aliada dissidente (ex. tropa do Eduardo Cunha): provavelmente o grupo hoje mais perigoso para o governo, pois são pessoas de partidos aliados, que não estão sendo controladas pelo PT
  • Base congressista de oposição: os tucanos e diversos outros partidos que se colocam como oposição, também com potencial de causar danos
  • Direita ultra-radical: a que pede intervenção militar, grupo minoritário, mas usado pelo governo em seu próprio benefício (pois serve de propaganda gratuita)
  • Direita não-pragmática: hoje composta nas manifestações pela equipe do Revoltados On Line, que defendem duas (e duas apenas) demandas, que são impeachment e anulação das eleições
  • Movimento republicano pragmático: hoje composta nas manifestações pelo Movimento Brasil Livre, que estão direcionando-se mais para o ataque à Jerusalém no que fazem muito bem
  • Mídia independente: que, de forma dispersa, se alterna entre todas as demandas, sejam com foco em Jerusalém, seja com foco nas cidades interioranas e pouco estratégicas (ex. impeachment, anulação das eleições, etc.)

Agora voltemos a Jerusalém.

Como disse anteriormente, o governo investiu em segurar Jerusalém, enquanto a tropa da direita não-pragmática focou em cidades interioranas sem nenhum valor estratégico. Esses últimos estão sorridentes em suas manifestações, enquanto o governo morre de rir com isso, pois ao conquistar a posição 1 ele neutraliza as conquistas dessa direita não-pragmática.

Me perguntaram se essa direita não-pragmática pode mudar seu curso de ação. Eu particularmente acho muito difícil, pois o affect effect explica o fenômeno do investimento emocional. Entendo que eles investiram muitas emoções em seus ideais e não retirarão suas tropas das cidades interioranas. Deixe-os por lá. É importante assistirmos para ver no que isso vai dar. Quem sabe a atuação deles não serve como exemplo didático?

Por exemplo, passou-se quase 1 mês do fim das eleições e até agora a direita não-pragmática não nos apresentou nenhum resultado em prol de anulação de eleições ou pedido de impeachment. Detalhe: nem mesmo conseguiram transformar suas demandas em “casos”. Me parece, portanto, que o foco ali não está nos 3P’s, que são aquelas mais importantes para o PT. A próxima manifestação do Revoltados On Line ocorrerá em 29 de novembro.

Ainda com algumas ressalvas, me parece que o Movimento Brasil Livre tem realmente se transformado em um batalhão mais focado em direcionar suas tropas para Jerusalém. E agora o governo tem motivos para fica preocupado, pois é ali que a guerra pode ser decidida. Por enquanto, parece que o movimento republicano pragmático está em fase de crescimento. Avaliaremos melhor nos números das próximas manifestações. A próxima manifestação do Movimento Brasil Livre ocorrerá em 6 de dezembro. (Eu os defino como republicanos, pois eles tem adotado uma postura mais inclusiva e pragmática, quase como gramscianos de direita – é uma perspectiva que aprovo)

O terceiro grupo, o da direita ultra-radical tende a se aproximar mais dos que obtiverem menos resultados, portanto a dinâmica social deste conflito supõe que estes devem participar mais dos movimentos de 29 de novembro do que naqueles de 6 de dezembro. Novamente, é apenas uma dinâmica: o grupo a ter menos demandas atendidas tende a se radicalizar mais. Recomendo apenas ao Movimento Brasil Livre uma precaução para evitar que a direita ultra-radical se aproxime. É um grupo pequeno que gera prejuízos e só ajuda o governo.

Por exemplo, se o Decreto 8243 for definitivamente derrubado, essa é uma demanda relacionada aos 3P’s, e portanto, faz parte da grande Jerusalém. Hoje já nem é tão necessário focar tantos esforços nela, mas não se deve ignorar a questão também.

Por enquanto, o que nos resta é acompanhar a associação de movimentos com resultados e torcer para que até mesmo as tropas que foram para as cidades interioranas e não estratégicas (e por isso não disputadas pelo governo) consigam gerar algum desgaste, embora, como já disse, acho difícil que isso ocorra, pois quanto mais denúncias de corrupção surgem mais o governo investe esforços na manutenção da posição 1, e ainda consegue ocupar espaço na posição 4.

Isto é, o governo sabe o caminho das pedras: foco em transformar as denúncias de corrupção em “motivos para obter financiamento estatal de campanha”. Uma tacada de mestre, evidentemente!

Há quem diga que a divisão entre os dois principais grupos de manifestantes é danosa. Eu discordo veementemente: assim como o pessoal do Revoltados On Line tem suas crenças e seus ideais, o pessoal do Movimento Brasil Livre também os tem. Os dois batalhões rumam para lugares completamente diferentes. Eu acho que o grupo que for para Jerusalém tende a atingir mais o governo, até por que em sua caminhada eles vão poder unir esforços com a base aliada dissidente e com a base congressista de oposição.

Como não há uma direção centralizando todos esses movimentos, todos devem ter o direito de gastar esforços no que quiserem, assim como nós devemos apoiá-los conforme nossos ideais, tanto como cobrar resultados.

Os próximos dias serão muito interessantes.

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10 COMMENTS

  1. Ainda há um número considerável na página de ambos movimentos querendo a união dos mesmos para não “dividir”,”esvaziar”,”quebrar a direita”…Luciano,já que a montanha(Lobão) não vem até você, que tal você ir até a montanha(aproveite o contato pelo MSM)? Um hangout com você,Lobão e professor Olavo seria mais do que épico(seria essencial, um divisor de águas). Eu percebo que as avaliações do professor ainda são passadas por partes o que dificulta a absorção das pessoas em ver o cenário.

    Desculpe se eu forço a barra ou algo do gênero.É porque vejo tamanha importância no que você descreve que é uma perda tremenda não alcançar todos os que depositam esperanças para que o Brasil não vire a próxima Venezuela/Argentina.

    • Olá Marcus,

      Eu tenho mantido contato com o pessoal. E sei que, criticamente, o conteúdo deste blog chega ao seu destino. Já conversei também com pessoas relacionadas às manifestações. Acredito que estamos evoluindo. O último hangout do Olavo com o Lobão foi muito bom, e o direcionamento (com foco em posições de mídia) é algo que aprovo por completo.

      As coisas “tem acontecido”, de uma maneira ou de outra. Valeu pelas dicas e indicações, teremos novidades.

      Abraços,

      LH

      • Vocês já pensaram em entrar em contato com grupos de direita dos países Bolivarianos e se organizar , porque a esquerda se ajuda sempre. Criem um Foro do Brasil.

  2. (fiz algumas correções)

    Luciano,

    Eu acho que o pessoal das manifestações deveria:

    – Explicar (insistentemente, contundentemente) que intervenção militar é um suicídio político para a oposição;

    – Se unirem, pois mesmo que defendam coisas diferentes, pra percepção popular as manifestações são ANTI-PT, ANTI-CORRUPÇÃO e pela DEMOCRACIA. Questão de detalhamento de agenda política é minúcia para intelectual.

    – Persistir, continuar se organizando, fazendo manifestações periódicas. O povo está sob ataque da mídia aliada do PT e a desinformação tende a dispersar a indignação. Se eles insistirem, a cada manifestação que ocorrer, a onda crescerá até atingir um tamanho razoável para que o crescimento do clamor popular seja automático e cada vez em proporções maiores.

    -A Esquerda cresce se dividindo, mas e a direita, será que este fenômeno acontecerá por estas bandas? Um exemplo: a Bancada Evangélica, quando se dispersa, sempre perde as forças e sofre derrotas.

  3. Entendo. Fico preocupado que por exemplo: já vi post de pessoas ora defendendo a intervenção militar ora ficando na dúvida porque quando o professor falava num tweet/postagem que era a favor(só que não mencionava em quais circunstâncias) e numa postagem seguinte ele falava contra pela fato que não foi feita quando deveria(as pessoas acabavam ficando perdidas).

    Fico no aguardo,
    abraços

    • Entendo sua preocupação porque eu também fico meio tonto com as aparentes contradições do professor.

      Entretanto, sou de opinião que o importante é unir as duas grandes vertentes.

      Se não há união através das lideranças, talvez nós, com nossa presença, possamos uni-los. Eu por exemplo, pretendo estar nas duas manifestações, a do dia 29/11 e a do dia 6/12 (caso seja organizada também aqui no Rio). Não quero dizer com isso que concordo com as duas propostas, sou mais inclinado à luta pela liberdade da mídia, mas acredito que engrossando o número de participantes nos dois movimentos se poderá levar à união não só dos dois, mas de todos, se outros houver, e no fim ter um movimento tão grande quanto foi o da Venezuela em fevereiro, com a vantagem de, aqui no Brasil, o Foro ainda não ter o controle total das Forças Armadas nem das polícias militares, elementos que foram essenciais para Maduro sufocar o movimento venezuelano e conseguir se manter no poder.

  4. Este comentário vai ser praticamente um post dentro do post…

    Ótima postagem, a partir dela dá para ter uma visão mais clara do quadro geral da oposição.Tem algumas coisas em relação a terminologia que me parece um pouco problemática, mas não sei muito bem que substituições poderiam ser feitas.

    O termo ‘direita ultra-radical’ pode dar a impressão errada de que ser a favor da intervenção militar é ser muito de direita, quando na verdade um regime militar, que costuma ser associada a intervenção militar, não está muito de acordo com princípios liberais ou conservadores. Sei que a maioria dos favoráveis a intervenção não fazem isso por serem a favor de um regime militar, mas por não perceber muita saída e por acreditar que a intervenção poderia devolver a normalidade democrática ao Estado, mas se costuma associar muito a intervenção ao regime militar.

    Os termos direita não-pragmática e direita pragmática acho que cria uma certa ilusão de que o pessoal do movimento brasil livre são sempre mais pragmáticos do que o pessoal do Revoltados online, e não me parece ser esse o caso. O revoltados online parece mais organizado para fazer manifestações públicas, pois consegue organizar caravanas, saber que tipo de palavras-de-ordem usar, incentivar o uso de símbolos(como a bandeira do brasil) e conseguiram um bom carro de som na ultima passeata, tudo isso sem apoio antecipado de nenhuma pessoa conhecida dentro da direita. Por outro lado, o pessoal do MBL, além de não fazer o que o pessoal do revoltados online faz, parece ter apoiado o separatismo durante um tempo e não vejo eles movimentando tanto as pessoas para suas manifestações. O que eu sinto em ambos os grupos, mas principalmente no revoltados online, é uma falta de maturidade e estrelismo, parece que têm dificuldade de traçar bons objetivos e agir de forma sábia. Parece que o Revoltados online tentaram mais ter protagonismo espalhando intrigas, ao invés de buscar conquistar esse protagonismo. Isto é falta de maturidade.

    Além disso, também acho que vai ser mais saudável a separação dos dois grupos por enquanto. A falta de pragmatismo do Revoltados Online pode ser diminuída a partir de uma experiência separada do MBL. O que parece não-pragmático no Revoltados pode ter uma consequência ideológica e ajudar a criar uma cultura de manifestação política da direita. O MBL consegue trazer razões para rejeitar o PT, mas a ação do Revoltados incentiva que as pessoas rejeitem explícitamente o partido ao pedir o impeachment, mesmo que isto no momento não dê em muita coisa.. A mistura entre os dois movimentos pode obscurecer o que é eficiente e o que é ineficiente nas práticas e nos objetivos dos dois grupos. Além deste aprendizado, a separação dos movimentos em dias diferentes pode tornar manifestações mais frequentes.

  5. Os republicanos precisam de treino.
    Nas mídias sociais, escrever pouco e com cabeça fria. No começo, é melhor escrever, salvar o comentário e ler no dia seguinte. Poucos leem comentários muito longos. Eu nem começo a ler comentário escrito em caixa alta. É desagradável e, fisicamente, a leitura é mais difícil.
    Um bom exercício é “corrigir” comentários alheios. Melhora a percepção de qualidade para os próprios.
    Não errem. Usem corretor ortográfico.
    Para debates, acho que as pessoas precisam treinar mesmo, simulando situações até acostumar com o ritmo.
    No treino, alguém tem que encarnar a Luciana Genro, o Sakamoto e os debatedores precisam debater com estes fakes antes de enfrentar os verdadeiros, que são muito mais difíceis.
    Quem está partindo para o embate precisa cultivar o seu Mr.Spock interior. Como não somos psicopatas, precisamos treinar muito, como qualquer bom estudante. Muito treino e repetição, até ficar fácil.
    Vale para estudantes, atletas e guerra política. Só não vale ter piti e abandonar a arena, porque a luta só começou.
    Abços,

  6. Luciano, boa tarde
    No item 3 das prioridades do PT você colocou o plebiscito constituinte e o coloca (de forma correta ao meu ver) como terreno sem muitas movimentações mas com os governistas fazendo excelentes movimentos.
    Penso que nesse ponto, os republicanos poderiam atuar contestando a contratação da “smartmatic” para gerenciar a parte de TI das urnas eletrônicas. Pelo que ouvi o professor Olavo de Carvalho comentando, essa empresa está associada a fraudes eleitorais. Acho que ajudaria em alguns pontos
    1 – Prevenir futuras manipulações (inclusive em um eventual plebiscito)
    2- Pressionar o TSE em relação ao contrato (pelo modus operandi bolivariano sempre pode haver alguma fraude no contrato inclusive)
    3- Testar o nível da reação dos bolivarianos (quanto mais alta a gritaria, maior o potencial explosivo do tema)
    4- Como, a meu ver, esse tema é central para a perpetuação no poder, já poderia funcionar como vacina preventiva pois, como vemos, quando os bolivarianos se movimentam com todas as artilharias, a vitória já está praticamente certa, faltando apenas o “golpe fatal”
    Abraços, parabéns e obrigado pelas dicas.

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