Qual a responsabilidade dos regimes militares na coleção de vitórias da extrema-esquerda na América do Sul?

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Enquanto uma parte da direita atribui a vitória da extrema-esquerda no Brasil às urnas eletrônicas (“sempre fraudadas”, evidentemente), com votos depositados em urna José Mujica elegeu o seu sucessor Tabaré Vasquez.

Embora eu ache que seja preciso de um processo melhor para a compilação dos votos no Brasil (uma mistura de scanner e votos em papel, por exemplo), parece que imputar a culpa a um “processo fraudado” serve a uma inconveniente proteção de ego.

Ao invés de culparmos a campanha moralmente criminosa do PSDB (por não ter defendido Armínio Fraga, além de não ter rebatido a maioria das mentiras petistas), a inaptidão nossa para o confronto nas redes sociais, a fragilidade na disputa “frame a frame” e “rótulo a rótulo” e coisas do tipo, melhor jogar a culpa em uma “fraude das urnas”, pois assim não precisamos criar a cultura de que temos muito a evoluir em termos de guerra política.

Nada pode ser mais contraproducente do que isso. A criação de uma cultura baseada em arrumar culpados externos para nossas falhas internas serve como um “Prozac”, para nos relaxar mentalmente. Mas, politicamente, precisamos na verdade é de pessoas lutando por resultados, de acordo com a guerra política.

A triste verdade é que a direita de vários países da América do Sul foi “mimada” por alguns regimes militares. Entre esses países temos Brasil, Argentina, Equador, Uruguai, etc.

Esses regimes militares ensinavam o sistema moral mais abjeto possível para a política: “Fique tranquilo que as Forças Armadas cuidam quando o seu adversário estiver próximo de tomar o poder”. A noção de responsabilidade política passou a ser solenemente ignorada. Criou-se então uma direita mimada, focada em seu ego, ao invés de resultados.

Hoje assistimos a consequência disso: muitos direitistas entrando em colapso mental no momento de duelarem com os radicais da extrema-esquerda.

Mimados, muitos deles não entenderam o quanto era importante jogar o jogo político, controlar o frame, marcar posição, disputar cada menor rótulo, lançar shaming, etc.

Ao contrário, muitos passam a se comportar como crianças de 7 anos diante de ultra-esquerdistas que só fazem jogar um jogo simples, funcional, e que serve para excluir o direitista do debate.

Note que essas pessoas são plenamente funcionais para a vida. Conseguem estabelecer relacionamentos e trabalhar normalmente. Mas na hora da política, viram crianças de 7 anos. No máximo. A ingenuidade é de dar pena.

Essa destruição completa da consciência política de uma parte dos direitistas é um pecado do qual os regimes militares jamais poderão ser perdoados. Quando se confia em um Aslan (que surge na colina e ruge, para destruir seus oponentes), perde-se toda e qualquer disposição para aprender o que realmente significa a política.

Muitos ainda não entenderam por que sou tão contra o discurso pedindo intervenção militar, ou qualquer outra ação extremada e injustificada. Mas aqui devo deixar a coisa nos termos mais claros possíveis: temos valores exatamente opostos na hora de visualizar a política. Para mim a leviandade política é um crime moral. Para os militaristas, é um direito inalienável.

Os militaristas não apenas acreditam que as pessoas não precisam ser conscientes politicamente, como criaram uma legião de ingênuos políticos, o que só ajudou a extrema-esquerda.

A extrema-esquerda só tem conseguido vitória atrás de vitória nas eleições latino-americanas por existir uma legião de ingênuos políticos, por absoluta falta de responsabilidade política, tudo criado a partir de uma época em que a preguiça política era moralmente aceitável, já que “os militares vinham resolver” as consequências da inação, da preguiça, da irresponsabilidade, da leviandade e da ingenuidade.

Mas o mundo mudou. E os mimados estão tendo que acordar para a realidade. Intervenções militares não são mais tão simples quando parece. O mundo está mais globalizado. Há câmeras por todos os lados. A esperteza política hoje é muito mais importante do que há 50 anos atrás.

Enquanto isso, a extrema-esquerda morre de rir enquanto entra em debate com um direitista, centrista ou esquerdista moderado. Com a mente em colapso, muitos destes sequer entendem que estão dentro de um jogo, enquanto seu oponente bolivariano domina as regras deste jogo.

A única forma de tirar esse sorrisinho sórdido da cara dessa gente é dominar a arte da guerra política, assumir a responsabilidade política, demonizar a ingenuidade política (do nosso lado) e não aceitar mais o comportamento de mimados que serão contra todos esses valores.

Foram estes mimados, e inaptos para a política, que deram todo o poder que hoje essa gente hoje desfruta. Por isso militaristas e bolivarianos devem significar o mesmo para nós. Inimigos.

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18 COMMENTS

  1. Já escrevi um texto parecido, gosto desta cena que resumi muito bem o teu texto. Se você não é um dos nossos, republicano que não é ingênuo político, então você é um agente, e não se distraia com a ´´ mulher de vermelho´´ que é a ideia da intervenção militar que só serve pra te distrair de tuas responsabilidades individuais https://www.youtube.com/watch?v=ZcMSrwBOOnA

  2. Concordo com a guerra política, precisamos travá-la e ela não foi travada, mas tu tirou a culpa das urnas e colocou nos militares com esse texto… dizendo que ficamos mimados por culpa dos militares e, por isso, não sabemos fazer guerra política e perdemos. Porém, as urnas eletrônicas são inauditáveis e possuem o problema da fraude em escala e barata, que não existe no voto em papel. Tudo que eu li, vi e falei também com venezuelanos, há grande chance de ter havido fraude ou se não houve, poderá haver. Digamos que não houve fraude, então a diferença foi pouco. Logo, o que faltou foi militância na rua para ganhar voto a voto os indecisos e fazer gente que ia votar no PT votar no Aécio. Acho que a guerra política é um elemento para a vitória, mas colocar o pé na rua e falar com os eleitores gera muito mais efeitos nos dias das eleições. Fiz campanha na rua e posso atestar que o pessoal pode ser convencido por pessoas politizadas. Acho que a omissão é dupla: falta de fazer a guerra e falta de ir a rua fazer campanha e pedir voto no corpo a corpo. Porém, vamos ter que afastar o fantasma dessas urnas eletrônicas, pois não é possível vivermos em um país sem saber se nosso voto foi computado na urna. A fraude no papel é bem menor e se fizermos no papel tenho certeza que tiramos o PT em algum momento, porém, com urna eletrônica, não sei se conseguimos tirá-los do poder… a Venezuela é o caso clássico de fraude em que o governo perdeu, mas, pela urna eletrônica, continua no poder.

    • Eu acho que podemos lutar pelo voto em papel, com scanner do voto (para agilizar resultados). Mas isso deve ser até junho de 2016. Ou, senão, até junho de 2018. Depois, vai ficar parecendo choro de perdedor.

      O que reclamo é que o aumento da crítica às urnas veio DEPOIS dos resultados. Aí é dose…

  3. Concordo com quase tudo que você falou. Concordo que os frames na campanha deveriam ter sido respondidos na mesma moeda, não há dúvidas disso. Em relação as fraudes, bom em partes. Eu vejo da seguinte forma, não adianta falar em anulação das eleições por conta de fraudes, a não ser que tenha uma prova irrefutável.

    Esse sistema é tão infeliz que há uma gama de possibilidades de fraudes, a maioria sem poder de mudar a eleição, porém há duas formas de mudar nacionalmente, que é na calibragem e na transmissão, e há grandes chances de isso ter acontecido. Essa historia da SMARTMATIC que é uma empresa venezuelana, responsável pela transmissão dos votos nos países bolivarianos, e que foi responsável pela transmissão aqui precisa ser explicada. Infelizmente o que se tem até o momento é pouco, é preciso que se levante toda a relação da SMARTMATIC com as eleições 2014, ainda assim, há de se provar a fraude, ou pelo menos uma relação irregular da SMARTMATIC com as instituições brasileiras. Sendo provado que a empresa foi responsável pela transmissão dos votos, fica claro que apesar de todos os erros das eleições é muito provável que a derrota do PT era certa, já que no máximo conseguiram empatar dois debates, perderam os últimos do primeiro turno e dois no segundo turno, mesmo com todas as mentiras, e todo terrorismo, todas as pesquisas independentes, e os levantamentos internos do PSDB mostravam a vitória como provável. Então acho que a direita tem sim que continuar trabalhando para provar essa ligação e conseguir uma prova ao menos de que houve uma alteração nos pacotes enviados, e pressionar o congresso e o TSE para uma mudança no sistema de votação, isso sim deve ser uma prioridade, além de proibir a participação da SMARTMATIC nas eleições.

    Agora isso deve ser parte de um todo nas ações da direita. Seu texto é perfeito quando fala de culpar os outros pelas nossas falhas, e devemos olhar mais uma vez para a coleção de falhas dessas eleições e trabalhar nelas, trabalhar na guerra politica, estudar cada livro, e quem sabe levar isso com um partido REALMENTE de direita. O fato de apontar as ligações da SMARTMATIC com TSE, e eventual fraude não pode servir de muleta para ignorar os erros que foram e CONTINUAM sendo cometidos pela direita.

    Precisamos pegar a agenda do PT e inverter o sinal em cada item e ir para a arena! Sou apoiador do NOVO, que defende o debate de idéias, o que é muito interessante, mas acho que conversando com bandidos não da pra ser nesse nível, não se pode lutar boxe com quem quer lutar MMA. O NOVO, assim que for finalmente oficializado, precisa partir para a guerra politica, não precisa abandonar o debate de idéias, mas apenas conseguiremos apoio das massas se enfrentar o monstro de frente, as pessoas estão esperando que alguém faça isso.

  4. Antes ninguém fazia idéia de que poderia haver fraude… depois que começamos a pesquisar e percebemos que há uma possibilidade bem grande de ter ocorrido ou de que irá ocorrer. Temos que ler a decisão do STF que disse que é inconstitucional imprimir o voto eletrônico, ou seja, pode ser que, pelas razões de decidir dessa decisão do STF, não seja possível nem scannear voto. Vou ler a decisão. O fato é que voltar ao sistema antigo é mais seguro e não temos porque agilizar os resultados, visto que as pessoas somente tomarão posse dois meses depois… temos que ver se existe o risco do STF dizer que scannear é inconstitucional… sei que o método antigo não poderão dizer que é inconstitucional…

      • É claro que pode-se imprimir o voto. Essa decisão do STF é uma decisão politica, cabe a sociedade pressionar para que seja feito um sistema moderno como nos países desenvolvidos. Inconstitucional é não poder recontar os votos. Mesmo com uma decisão contrária do STF deve-se continuar pressionando para que nao tenha mais alternativas. As justificativas são estapafúrdias para nao permitir a impressão ou o scan do voto

    • Parece que já existe outra urna física, junto com a eletrônica, que emite um recibo do voto que você pode conferir e colocar em outra urna. E o recibo ainda vem com um Q Code pra facilitar uma eventual recontagem. Isso a gente poderia exigir.

  5. O problema é que parece que as pessoas só querem pensar nos militares para a intervenção militar, mas tem uma série de reinvindicações mais claramente democráticas que poderiam ser feitas. Como exigir um maior controle das fronteiras por militares, exigir que a Abin disponibilize mais informações que sejam relevantes a população, exigir que os militares assumam as funções que a guarda nacional tem assumido no momento, etc.

  6. Em princípio, não discordo de você quando explica o estrago que os militares fizeram na mentalidade cidadã do brasileiro, mas quero fazer duas perguntas:
    1.Não são dois assuntos distintos, um a intervenção militar de 1964 e, outro, a “infantilização” da sociedade brasileira durante os 21 anos que estiveram no poder?
    2.Levando seu argumento adiante, então é correto presumir que a intervenção de 1964 foi um erro, e que a sociedade civil deveria ter resistido aos militares, ao invés de recebe-los com satisfação? Ou colocando de outro modo, os direitistas da década de 1960 tinham possibilidade real de vencer os comunistas só no jogo político?

    RESP

    1. Sim. Mas o fato é que o regime militar não nos ajudou nesse sentido. Alias, prejudicou muito.
    2. Pelo que estudei, a intervenção de 1964 foi um contra-golpe, pois havia efetivamente a tentativa de golpe por militares comunistas. Esse é um modelo de ação que os socialistas, especialmente bolivarianos, jamais vão tentar novamente, pois não entendem mais como sustentável.

  7. Prezado Luciano.
    Em principio, não discordo de você, pelo menos no que diz respeito à sua explicação de como os generais promoveram uma idiotização da mentalidade cidadã do brasileiro. Mas, quero lhe fazer 2 perguntas.
    1.A Intervenção e a “infantilização” não são dois fenômenos distintos? Ou, uma não poderia ter acontecido sem a outra?
    2.Levando seu argumento à frente, você quer dizer que a sociedade civil em 1964 deveria ter resistido à ação dos militares? Ou, colocando de outra forma, você acredita que os comunistas, representados por João Goulart, poderiam ter sido vencidos exclusivamente pelo jogo político, se a Direita de então fosse mais articulada?

    • Vamos lá, Herberti

      1. são fenômenos distintos. Mas a partir de sua chegada no poder, os militares não fizeram nada em prol de infundir uma cultura de guerra cultural na direita.
      2. Em não sei o que deveria ter ocorrido em 1964. Me parece que havia um golpe em curso, e portanto houve um contra-golpe. Se os comunistas foram para o golpe armado, eles só poderiam ter sido derrotados via intervenção militar. A questão é que hoje os socialistas não vão mais para tomar o poder pela via armada.

      Abs,

      LH

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